Jornalixo x jornalismo: a eterna batalha – 1

2 de fevereiro de 2022 § 16 Comentários

Não é exatamente de glórias a história da imprensa na democracia.

Está longe de ser exata a afirmação de que o homem é um animal racional. A razão particulariza e isola e, antes de ser racional a nossa espécie é gregária. O terror atávico do bicho homem é o da solidão. Na esmagadora maioria dos casos adota esta ou aquela postura diante dos fatos não porque, ele com sua consciência, se tenha resolvido por ela, mas para ter a aprovação da tribo à qual quer continuar pertencendo. E para provar que pertence, a História confirma, não ha limite: troca Jesus por Barrabás , prega o seu salvador numa cruz, adere ao linchamento do irmão, denuncia o próprio pai ao carrasco e, com tanta determinação que, ao longo das eras, com sinistra regularidade, se tem despenhado atras de “líderes” nos mais negros precipícios, como aquelas manadas africanas.

O jornalixo põe-se em campo com a primeira disputa de poder da democracia moderna. Precede o jornalismo instituição em quase 100 anos. É tão mais presente e dominante no cenário da comédia humana quanto a mentira sobre a verdade. A intriga, as falsas acusações, os linchamentos morais, os assassinatos de personagem, a disseminação do terror … o apelo à emoção com o propósito deliberado de expulsar das disputas de poder a razão e os fatos, sempre foram a sua linguagem.

A constituição americana é o resultado do milagre histórico da momentânea superação do ego. O poder não estava em causa. George Washington era o líder inconteste destinado a ser o primeiro presidente. A inspiração do gênio de Alexander Hamilton, de extrair da jovem confraria dos “fundadores” os compromissos do segredo e do anonimato sobre as discussões que seriam travadas na sala da Convenção Constitucional da Filadélfia – tudo que de lá saísse seria apresentado como obra de todos, sem revelar jamais o teor das dissensões havidas – permitiu a criação do primeiro regime político da História deliberadamente produzido pela razão com o propósito específico de dar a cada ser humano o direito inalienável de “buscar a felicidade” como melhor lhe aprouvesse, e não como resultado indireto das vaidades, do sangue derramado e dos ódios gerados na luta pelo poder numa revolução.

Mas a guerra das Gazettes, na imediata sequência, que o Alexander Hamilton, de Ron Chernow, reconstitui em todas as suas sórdidas e atualíssimas minúcias, é o retorno triunfante da força da natureza…

Hamilton, que cometera o imperdoável pecado de ser o preferido de George Washington (que fez dele o artífice das primeiras instituições da nova república) usava a intermitente Gazette of the United States, espécie de precursor do Diário Oficial, para explicar suas ações ao público. Do ciúme que isso provocava em Thomas Jefferson, levando James Madison de arrasto, todos ministros do mesmo governo, nasceu The National Gazette, tocada pelo venenoso mercenário da pena Philip Freneau que o autor da Declaração de Independência fora buscar na França para, com a mão que escrevia o que ele ditava, destruir – nem mais, nem menos que destruir – o personagem que, lá nos seus medos, aparecia-lhe como uma ameaça ao sonho de ser presidente.

E haja lixo!

Nenhum grau de ignomínia foi banido do arsenal. A campanha foi sistemática e corrosiva. Falava em conspiração com a Inglaterra para a volta da monarquia, insinuava corrupção de que nunca houve o mais tênue sinal, invadia intimidades, intrigava esposas contra maridos. Um “depoimento” de uma amante fortuita que, em conluio com seu rufião, chantageava Hamilton, foi o tiro mais baixo. E como sempre acontece, o factóide vira fato. Ganha vida própria.

Hamilton resiste à “fritura” até que sente-se na obrigação de responder aos ataques. Tenta faze-lo num tom superior mas, encurralado, acaba descendo àquele mesmo em que vinham os ataques sucessivos. Instala-se um rio de fel em que ele vai aos poucos se afundando. E no fim, deixa-se matar num duelo/suicídio, desencantado com o regime que ajudara a criar, o mais genial e autenticamente self made dos iniciadores da terceira jornada da democracia na Terra.

O jornalismo demoraria quase 100 anos (e cinco milhões de mortos depois numa guerra civil) para mostrar a cara. Viria como remédio para salvar de si mesma uma democracia que nascera defeituosa. Joseph Pulitzer (1847-1911), reza a lenda, teria chegado a nado aos Estados Unidos. Mal falava inglês quando se atirou do navio que o trouxe da Hungria para alistar-se como mercenário no exército da União na Guerra Civil. Emprega-se, depois da guerra, no St. Louis Dispatch e, mais adiante, como correspondente em Washington do New York Sun. Torna-se dono do jornal de St. Louis e já é uma figura de destaque quando casa-se com uma mulher da elite social da cidade. Aos 36 compra o New York World e o relança como The World, que faz decolar dos 15 mil para mais de 600 mil exemplares, a maior tiragem de seu tempo.

Como Steve Jobs, mais tarde, é o primeiro a entender que “a apresentação é tudo”. É ele que inventa o jornal de títulos e manchetes garrafais. E é também o primeiro que põe seu time na rua, fazendo reportagens sobre a vida dos imigrantes, a violência policial e a corrupção que os explorava. Não sei em que momento a consciência da função institucional do seu métier se sobrepõe ao talento do empreendedor. São necessárias as duas pernas para dar cada passo. Pulitzer ensaia e erra. Descamba frequentemente para o sensacionalismo na concorrência com William Randolph Hearst que copia parte de sua receita. Cria páginas de esporte, seções para mulheres, espaço para humor, aborda crimes e desastres. Inventa o jornalismo de serviço…

Mas faz também o que ninguém ainda tinha feito na página de opinião. E em muito alto nível. Não é mais a tribuna de um dos “lados” da luta pelo poder. Proclama-se um defensor dos sem-voz; abraça decididamente a causa da democracia. É o primeiro a ver o jornalismo como um serviço público e um parteiro de reformas. Embarca totalmente na luta pelas bandeiras da Progressive Era. “Poder para o povo“; a virada antitruste; recall, referendo e iniciativa como ferramentas para quebrar a resistência do establishment

É ele quem cria o modelo do jornalismo democrático. Aos 43 anos, cego, abandona as redações. E vaticina: “Nossa república e sua imprensa vão florescer ou decair juntas … Uma imprensa cínica, demagógica e mercenária vai produzir, com o tempo, um povo igual a ela. O poder de determinar o futuro de nossa república estará nas mãos dos jornalistas das gerações futuras”.

Ele e Sam McClure, seu contemporâneo, fundador da revista McClure’s e “inventor” do jornalismo investigativo, de grandes reportagens apuradas em profundidade e com força para desafiar com a arma da verdade robber barons do calibre de John Rockefeller, dos donos das ferrovias, de J. P. Morgan e o mais que, em conluio com as máquinas partidárias corruptas, vinha estrangulando a democracia com o garrote dos monopólios, compõem as duas frentes do jornalismo moderno e dão a pauta moral dos Estados Unidos de seu tempo.

McClure, mais um curador, que um inventor, não tinha o tino empresarial de Pulitzer. Mas era um gênio para encontrar talentos e formar equipes. Todos os melhores escritores de seu tempo dos dois lados do Atlântico – Mark Twain, Conan Doyle, Rudyard Kipling, Robert Louis Stevenson, Bram Stocker, J. Fenimore Cooper e tantos outros – lançaram-se pelas páginas da McClure’s. E seus repórteres muckrakers (“revolvedores da merda”) como Ida Tarbel, Ray Stannard Baker, Lincoln Steffens e outros, trabalhando frequentemente afinados com o presidente reformista Theodore Roosevelt, fizeram os Estados Unidos da gilded age tremer nas bases.

Os dois elevam o jornalismo a instituição da Republica. Mostram ao país, entre outros feitos, os remédios da democracia direta suíça que resgataram a democracia americana e lançaram os Estados Unidos modernos.

Mas desde o nascimento, essa faca tem dois gumes. E o primeiro é o que corta mais fundo, como se verá no capítulo de amanhã.

O calcanhar de Aquiles da democracia

22 de abril de 2021 § 13 Comentários

Hamilton

Oito capítulos adiante da última visita (https://wordpress.com/post/vespeiro.com/28968) volto ao “Alexander Hamilton” de Ron Chernow, já em outros Estados Unidos: o da primeira disputa pelo poder na nova república democrática, periclitante ainda e tateando no escuro.

Nestes a condição humana volta a impor-se, feroz como sempre, sobre aquele hiato de suspensão revolucionária quase milagroso que, no frescor da juventude, deslocou os gênios complementares de Alexander Hamilton e James Madison, na flor dos seus 20 e poucos anos, suficientemente para fora da curva para fazer com que, pondo sob rigorosa quarentena as vaidades e ambições de poder dos convencionais reunidos na Filadélfia, conseguissem fazer nascer, sob o compromisso solene de segredo das contribuições de cada um ao projeto que deveria ser de autoria anônima, a 1a constituição democrática da história das sociedades humanas. 

George Washington fora eleito presidente. Alexander Hamilton, seu braço direito na Guerra de Independência, nomeado secretário do Tesouro. Thomas Jefferson, o autor da Declaração de Independência, depois de longa estadia em Paris, recebera o cargo de secretário de Estado (ministro do Exterior). James Madison, ex-colega, amigo de Hamilton e co-autor dos Artigos Federalistas, era o líder do governo no Congresso. 

E então, a única ofensa insuportável começa a cobrar seu preço…

Jefferson

O cargo de Jefferson, naquele momento, é pouco mais que decorativo. Onde tudo está por fazer é na seara de Hamilton. E ele tem de sobra a capacidade e o talento que se requer para tanto. É preciso criar um sistema tributário para financiar o governo central. Estruturar um Banco Central para consolidar a divida dos estados e gerir a divida externa acumulada na Guerra de Independência. E, ainda, lançar uma estratégia nacional para ancorar a economia de um país cada vez mais urbano (no Norte) nas manufaturas e não mais apenas na produção agrícola escravocrata (do Sul).

Hamilton é o centro de tudo. E isso arranca de sua toca o que Caetano Veloso chamaria, séculos depois, “o monstro verde do ciúme”.

A Inglaterra é, então, o centro do mundo. Tinha inventado os fundamentos básicos da economia moderna (privada). A força dos contratos. Ensaiava a revolução industrial. Hamilton vai beber onde ha água. Lê Adam Smith. Como todo sujeito inteligente, adota os fundamentos provados. Financia e organiza a espionagem sistemática e a cópia dos segredos das manufaturas têxteis inglesas. Os Estados Unidos de então – como as chinas de hoje – decolam … e Hamilton ganha o ódio eterno de Thomas Jefferson.

Para unir os estados e o congresso em torno das leis que precisa para sua obra, Hamilton patrocina a criação da Gazette of the United States, quase um diário oficial onde publica os documentos das instituições que quer criar e argumenta em sua defesa. Mas com o financiamento do governo pela emissão de títulos nasce também a especulação com esses títulos. E estas e outras importações da Inglaterra dão o pretexto que Jefferson precisava para atacar o rival: “É um monarquista enrustido! Quer acabar com a república”. 

Madison

O foco de Jefferson é intrigar Madison contra Hamilton. Bloquear suas ações no congresso. Washington resiste. Tenta a todo custo apaziguar as partes. Diz a Jefferson que “não ha, no país inteiro, 10 pessoas dignas de ter sua opinião levada em consideração que acreditam no ‘golpe monarquista’ de Hamilton”. Jefferson contrata então o sub-literato francês Philipe Freneau como “tradutor” do Departamento de Estado com salário de US$ 250 por ano. E logo ele lança a National Gazette para falar por seu patrono. 

E a guerra midiática se instala, desenfreada.

Esses jornais eram curtos nos fatos e longos na opinião. Difamatórios e imprecisos … Não havia nenhum código de conduta para circunscrever o comportamento da imprensa (que só surgiria na virada do século 19 para o 20). A própria verdade se torna suspeita quando publicada nesses veículos poluídos …” 

Hamilton resiste o quanto pode mas o bombardeio incessante acaba por arrastá-lo. O factóide se torna fato. “Agora algo compulsivo e incontrolável pautava o seu comportamento público. Tornou-se um cativo de suas emoções. Tinha de responder aos ataques. E o fazia com todo o seu formidável arsenal de armas retóricas…

É dessa briga que vai nascer o bi-partidarismo americano – os Federalistas, futuros democratas, com Hamilton, e os republicanos com Jefferson e Madison, terceiro e quarto presidentes dos Estados Unidos (Hamilton morreria nesse meio tempo). 

Washington

Atravessar, ontem à noite, as minúcias dessa mixórdia que Ron Chernow reconstitui com a impiedosa competência de sempre, tendo partido de três personagens da estatura de Alexandre Hamilton, Thomas Jefferson e James Madison foi uma experiência triste e carregada de ambiguidades. De repente lá estava o Brasil do lulismo e do bolsonarismo, com sua imprensa doente, senão no ponto de partida, no ponto de chegada. 

Não estaria afinal, a democracia, mesmo acima da realidade da condição humana? O espaço para a competição permanente pelo poder e para as disputas de vaidade que ela abre e a imprensa preenche desde o 1º dia de sua criação não seriam o calcanhar de Aquiles a condenar irremediavelmente o novo sistema?

Sem duvida são. E como num jogo de xadrês, a arte de enlouquecer as vítimas dessas guerras se vem sofisticando com a cientifização da “guerra psicológica adversa” dos soviéticos ou a elevação do cinismo ao estado da arte com Antonio Gramsci…

Mas então ocorreu-me que as alternativas, como lembrou Winston Churchill, são todas muito piores. 

E para não ficar com o surrado “o preço da liberdade é a eterna vigilância“, meti, então, a cabeça no travesseiro bem caseiro, com o nosso bom Guimarães Rosa: “Viver é mesmo muito perigoso”.

Imprensa e democracia

23 de janeiro de 2015 § 20 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 23/1/2015

A democracia moderna não é só o resultado direto da ampliação das condições de registro, circulação e acesso às ideias proporcionado pela invenção de Gutemberg. A especialíssima arquitetura institucional que a define foi literalmente parida pelas mãos da imprensa nos 85 artigos publicados entre 1787 e 1788, em dois jornais de Nova York, primeiro, e nos de todas as outras 12 ex-colônias, depois, para convencê-las a aderir à Constituição que as congregaria nos Estados Unidos da América. Neles, depois de discutir minuciosamente a origem do Estado e do governo, a natureza da lei e da soberania, os fundamentos dos deveres políticos dos cidadãos (sob quais condições lhes convém obedecer uma autoridade) e as finalidades e limitações do poder político, James Madison, Alexander Hamilton e John Jay, mostraram, passo a passo, o que é necessário fazer para “constituir uma união mais perfeita, estabelecer a Justiça, assegurar a tranquilidade doméstica, providenciar a defesa comum, promover o bem estar geral e assegurar as bençãos da liberdade para nós e nossa posteridade” num novo tipo de sociedade consensual.

Estas mesmas definições e objetivos seguem sendo as balizas pelas quais é necessário medir cada ato e palavra dos representantes eleitos para fazer um jornalismo crítico numa democracia. Nada a estranhar. Aqueles 85 artigos, reunidos no clássico O Federalista (aqui), passados 227 anos, continuam sendo uma das mais atuais e incisivas reflexões jamais registradas sobre a natureza humana e o único manual prático de construção de instituições democráticas disponível.

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Não ha neles, porém, uma única palavra sobre a realidade vigente no final do século 18 que aqueles jornais “cobriam”. Monarquia, sucessão hereditária ou a relação entre Igreja e Estado não são mencionados. O debate que fez nascer a democracia moderna girava em torno do que se pensava em França e só falava do que ainda não havia.

Se os jornais daquela Nova York adotassem os mesmos limites que a imprensa brasileira se impõe hoje – registrar apenas e tão somente o que fazem e dizem no presente os atores do jogo político doméstico – a democracia moderna jamais teria nascido, assim como jamais se instalará no Brasil antes que essa atitude mude radicalmente.

O mais formidável obstáculo à instalação de uma democracia aqui é a esmagadora maioria dos brasileiros, virgens de experiências outras, cerceados pela barreira da língua e sem nenhuma referência do que se passa numa sociedade democrática estar convencida de que já vive numa. O que explica a trágica ilusão é que nossa imprensa proibe-se de cobrir os instrumentos da democracia real em funcionamento. Não expõe das sociedades que deles se servem senão os crimes e os desvios que negam a norma enquanto trata isto que nos intrujam a partir de Brasília como se democracia fosse, o que facilita a vida de todos quantos querem nos empurrar definitivamente para fora do campo democrático: é a democracia que leva a culpa por tudo de mal que nos acontece em função da falta que ela nos faz.

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Mais que a do modelo de negócio o que há de muito perigoso na versão doméstica das crises paralelas da imprensa e da democracia é essa natureza “silenciosa” da doença que vai mergulhando o jornalismo brasileiro numa insensata “marcha voluntária” em direção à anulação da função institucional que o torna imprenscindível tanto para os leitores quanto para a sobrevivência do nosso ensaio democrático. Seus sintomas não se manifestam naquilo que ela publica mas sim no que não publica, o que torna mais difícil a identificação do problema por diletantes. A transposição para dentro das redações, pelos especialistas certos colocados nos lugares errados que se tornaram padrão nas empresas do ramo desde que a crise do modelo de negócios se aprofundou, de ferramentas de “controle de qualidade” como o “benchmarking”, que funcionam para a afinação de padrões de governança corporativa, compõe o quadro de imunodeficiência contra essa distorção pois que, no jornalismo, produzem o efeito desastroso de, medindo-se umas pelas outras, reconfirmar todas as redações “científica” e confortavelmente num erro que tende a ser fatal e do qual os inimigos da liberdade bem sabem se aproveitar.

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Instituições são tecnologias sutilissimamente intrincadas onde o deslocamento de uma vírgula provoca, no funcionamento de sociedades inteiras, “bugs” tão paralizantes ou destrutivos quanto o mesmo tipo de “errinho” no funcionamento de um software. Avaliar sua construção e monitorar seu funcionamento com a pertinência e precisão necessárias para contribuir para o seu aperfeiçoamento de modo a fazer diferença na vida do país e dos leitores, função essencial de uma imprensa democrática e única garantia de sua sobrevivência, requer, como tudo o mais hoje, especialistas absolutamente dedicados com vasta experiência no estudo comparado da história das que as precederam e nos pormenores das instituições em funcionamento no mundo.

Se um órgão de imprensa terceiriza a orientação política de sua cobertura para o segundo escalão e não tem, nem como exemplo, o que propor nesse debate; se limita-se a repassar pensamentos e declarações alheias até quando denuncia “malfeitos” a que lhe “dão acesso”, uns para atingirem os outros, os atores desse jogo de poder viciado a que ficou reduzida nossa vida política; se restringe-se a uma crítica “moral” dos atores do nosso drama político mas mostra-se incapaz de uma crítica técnica e propositiva das instituições que, uns como vítimas outros como agentes, inevitavelmente os entorta a todos, estará se condenando a ser conduzido por suas fontes em vez de conduzir seus leitores e acabará sendo confundido com elas.

É o que explica porque a imprensa, parteira de reformas, tem ficado cada vez mais entre os apedrejados nas manifestações de seus potenciais leitores quando estes vão às ruas exigir reformas contra tudo quanto, no debate político nacional, “Não os representa”.

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Para que o STF possa ir das palavras aos atos

3 de outubro de 2012 § 3 Comentários

Do ponto de vista da ética e da moral, os seres humanos poderiam ser divididos em três categorias: os puros de alma, capazes de resistir às pressões do meio, tão raros que quando ocorrem costumam ser saudados quase como santos, os podres de alma, para os quais não ha remédio, e a massa do meio que busca apenas o caminho mais curto e mais seguro para “o sucesso” e que pende para um ou para o outro desses extremos conforme a regra do jogo que se lhe apresente.

O Brasil comemora aliviado a afirmação da independência do Poder Judiciário que, com o julgamento do Mensalão, deteve o processo de liquefação acelerada das nossas instituições que vinha rolando avassaladoramente sob o tsunami da sem-vergonhice assumida do lulopetismo.

Hoje é que a onça começa a beber água (escrevo antes da seção decisiva desta tarde) mas o que rolou até aqui já vale muito.

Dos 10 juízes envolvidos no julgamento só Lewandowski se ajoelhou. Nem o ex-empregado do PT, Dias Toffoli, comprou a tese do Caixa 2 só porque Lula mandou.

Não é por acaso que ser juiz do STF é para toda a vida e ser presidente da Republica é só para quatro anos. As artes de mr. James Madison, referência permanente aqui do Vespeiro, realmente operam milagres.

E é exatamente por ter visto esse tipo de efeito funcionar por tantas vezes numa já longa vida de observador profissional desse tipo de acontecimento, que acredito piamente que os milagres dependem, essencialmente, desses práticos empurrões das instituições humanas.

Os discursos dos ministros feitos nos últimos dias no STF e comentados hoje na página de editoriais do Estado poderiam ser traduzidos livremente como um aviso a quem interessar possa de que “o jogo mudou; nós sabemos bem de onde ele emanava e só não vamos mexer com essas estratosferas agora para não criar uma crise institucional. Mas daqui pra frente – cuidado! – a música vai ser diferente“.

Mas para que isto de fato aconteça será preciso mais do que discursos.

Marco Aurélio Mello, por exemplo, falou em “rotina da desfaçatez e da indignidade” que leva à “apatia dos cidadãos cada vez mais surpreendente“, “como se tudo fosse muito natural (…) e o erro do passado justificasse os erros do presente“.

É uma descrição falseada do que realmente se passa. E falseada porque esse futuro do condicional de que o ministro se serve para descrevê-la não existe de fato na realidade descrita. Pois nela, a impunidade do erro do passado realmente justifica o erro do presente, explica e induz a apatia dos cidadãos e faz da desfaçatez e da indignidade rotinas.

Outro americano notável, Theodore Roosevelt, dizia sempre que “O problema não é haver corrupção, vício inerente à espécie humana; o problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.

Com nosso sistema penal permitindo que os corruptos permanentemente exibam o seu sucesso, o Brasil tem vivido sob a égide do triunfo dos podres de alma a arrastar as massas para (o ministro que me desculpe) uma apatia nada surpreendente e um comportamento geral cada vez mais imoral e antiético em todos os níveis das relações humanas e sociais porque este, os fatos lhes confirmam todos os dias, é o caminho mais curto e seguro para o sucesso.

Nesse Brasil, resta aos puros de alma (tenho Arnaldo Jabor, que ontem estava genial no Estado – aqui  , em mente) uivar desconsoladamente para a lua…

O que precisamos agora é de reformar as penas e sintonizá-las à importância dos crimes. E os crime de corrupção, todos nós sabemos, são os que mais lesam e matam, tanto física quanto moralmente, pois que têm efeitos disseminados por todo o organismo social atingindo especialmente os mais pobres.

Mesmo com este importante sinal emitido pelo STF, que vem para deter o “ladeira abaixo” em que iam as instituições brasileiras, é preciso ser realista. O Judiciário não faz, ele executa as leis existentes. Quem faz estas que peço são exatamente os alvos que ela visa. Esse tipo de reforma não virá, portanto, de dentro do sistema a ser reformado. Propô-la e empurra-la é papel da imprensa que, nas democracias, tem a função de parteira de reformas.

É este, portanto, o passo essencial. A corrupção tem de passar a ser uma escolha de vida de altíssimo risco. É preciso haver a certeza de que uma vez pego, o corrupto está perdido para sempre. Aí sobrarão em cena apenas os irremediavelmente podres de alma, que não são tão numerosos assim. Toda a massa do meio, que responde mais à oportunidade que à coragem, penderá para o caminho mais seguro, o sinalizado pelos puros de alma.

É isso, e apenas isso, que faz a diferença entre os graus suportáveis de corrupção, que permitem a uma sociedade prosperar e enriquecer, e aqueles que a afundam recorrentemente no duplo atoleiro da miséria moral e material como vem acontecendo com o Brasil ha 512 anos.

Um brasileiro para se admirar

27 de setembro de 2012 § 2 Comentários

Ferreira Gullar é daqueles raros seres humanos que fazem a gente acreditar na viabilidade da espécie.

Aos 82 anos, é o sobrevivente da travessia de oceanos especialmente revoltos e desertos incomumente ásperos. Varou a ambos absolutamente íntegro, sublimando em poemas o que é impossível compreender e encarando com a coragem tranquila dos fundamentalmente honestos as peças e armadilhas que o tempo prega em todos quantos o senso de justiça e a generosidade empurram para fora de si mesmos, em busca de respostas.

Deu uma entrevista à Veja desta semana em que, mais uma vez, mostra o quanto é grande.

De sua desilusão com a utopia comunista, diz que foi “uma questão de experiência de vida“.

O capitalismo é forte porque é instintivo. Não é uma teoria. Nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível (…) O capitalismo é uma fatalidade (grifo meu). Ele produz desigualdade e exploração. Mas a natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce atlético e o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. (…) A capacidade criativa do capitalismo é fundamental (…) para a solução da desigualdade porque só a produção de riqueza resolve isso. A função do Estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar“.

Alguém já disse que a democracia é o governo dos desiludidos.

Não no sentido de cansados, de desistidos da vida, mas nesse sentido gullartiano, galhardo, de experientes da vida que insistem no senso de justiça, este também um dado concreto da nossa especial condição na ordem natural das coisas.

O governo dos que têm a coragem de encarar a vida como ela é sem colocar-se fora dela e aceitar o desafio de disciplinar-se para honrar, pela vertente de um altruísmo ainda que compulsório, o privilégio que temos de ser o único animal da natureza que abriga, ao lado do instinto de sobrevivência, o senso moral, e é capaz de mudar o seu próprio destino.

Se os homens fossem anjos“, argumentava James Madison no 51º dos Federalist Papers, ao sugerir a sua clássica fórmula que deu ao mundo o caminho para a solução prática desse desafio, “não seria necessário haver governos. E se os homens fossem governados por anjos, seria dispensável qualquer instrumento de controle interno ou externo desse governo.

Mas se estamos pensando em desenhar um governo para ser exercido por homens que terão autoridade sobre outros homens, a grande dificuldade está no seguinte: você terá de dar ao governo os meios de controlar os governados e, ao mesmo tempo, obrigá-lo a controlar-se a si mesmo“.

A fórmula do petismo, emulada do capitalismo de estado chinês, que tanto atrai os brasileiros com pouca experiência de vida com a miragem do enriquecimento rápido, vai na direção contrária. Associa o poder político ao poder econômico, derruba todas as barreiras erguidas para deter a natural propensão do capitalismo para a exploração e não cria riqueza, apenas a ilusão passageira dela.

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