O calcanhar de Aquiles da democracia

22 de abril de 2021 § 13 Comentários

Hamilton

Oito capítulos adiante da última visita (https://wordpress.com/post/vespeiro.com/28968) volto ao “Alexander Hamilton” de Ron Chernow, já em outros Estados Unidos: o da primeira disputa pelo poder na nova república democrática, periclitante ainda e tateando no escuro.

Nestes a condição humana volta a impor-se, feroz como sempre, sobre aquele hiato de suspensão revolucionária quase milagroso que, no frescor da juventude, deslocou os gênios complementares de Alexander Hamilton e James Madison, na flor dos seus 20 e poucos anos, suficientemente para fora da curva para fazer com que, pondo sob rigorosa quarentena as vaidades e ambições de poder dos convencionais reunidos na Filadélfia, conseguissem fazer nascer, sob o compromisso solene de segredo das contribuições de cada um ao projeto que deveria ser de autoria anônima, a 1a constituição democrática da história das sociedades humanas. 

George Washington fora eleito presidente. Alexander Hamilton, seu braço direito na Guerra de Independência, nomeado secretário do Tesouro. Thomas Jefferson, o autor da Declaração de Independência, depois de longa estadia em Paris, recebera o cargo de secretário de Estado (ministro do Exterior). James Madison, ex-colega, amigo de Hamilton e co-autor dos Artigos Federalistas, era o líder do governo no Congresso. 

E então, a única ofensa insuportável começa a cobrar seu preço…

Jefferson

O cargo de Jefferson, naquele momento, é pouco mais que decorativo. Onde tudo está por fazer é na seara de Hamilton. E ele tem de sobra a capacidade e o talento que se requer para tanto. É preciso criar um sistema tributário para financiar o governo central. Estruturar um Banco Central para consolidar a divida dos estados e gerir a divida externa acumulada na Guerra de Independência. E, ainda, lançar uma estratégia nacional para ancorar a economia de um país cada vez mais urbano (no Norte) nas manufaturas e não mais apenas na produção agrícola escravocrata (do Sul).

Hamilton é o centro de tudo. E isso arranca de sua toca o que Caetano Veloso chamaria, séculos depois, “o monstro verde do ciúme”.

A Inglaterra é, então, o centro do mundo. Tinha inventado os fundamentos básicos da economia moderna (privada). A força dos contratos. Ensaiava a revolução industrial. Hamilton vai beber onde ha água. Lê Adam Smith. Como todo sujeito inteligente, adota os fundamentos provados. Financia e organiza a espionagem sistemática e a cópia dos segredos das manufaturas têxteis inglesas. Os Estados Unidos de então – como as chinas de hoje – decolam … e Hamilton ganha o ódio eterno de Thomas Jefferson.

Para unir os estados e o congresso em torno das leis que precisa para sua obra, Hamilton patrocina a criação da Gazette of the United States, quase um diário oficial onde publica os documentos das instituições que quer criar e argumenta em sua defesa. Mas com o financiamento do governo pela emissão de títulos nasce também a especulação com esses títulos. E estas e outras importações da Inglaterra dão o pretexto que Jefferson precisava para atacar o rival: “É um monarquista enrustido! Quer acabar com a república”. 

Madison

O foco de Jefferson é intrigar Madison contra Hamilton. Bloquear suas ações no congresso. Washington resiste. Tenta a todo custo apaziguar as partes. Diz a Jefferson que “não ha, no país inteiro, 10 pessoas dignas de ter sua opinião levada em consideração que acreditam no ‘golpe monarquista’ de Hamilton”. Jefferson contrata então o sub-literato francês Philipe Freneau como “tradutor” do Departamento de Estado com salário de US$ 250 por ano. E logo ele lança a National Gazette para falar por seu patrono. 

E a guerra midiática se instala, desenfreada.

Esses jornais eram curtos nos fatos e longos na opinião. Difamatórios e imprecisos … Não havia nenhum código de conduta para circunscrever o comportamento da imprensa (que só surgiria na virada do século 19 para o 20). A própria verdade se torna suspeita quando publicada nesses veículos poluídos …” 

Hamilton resiste o quanto pode mas o bombardeio incessante acaba por arrastá-lo. O factóide se torna fato. “Agora algo compulsivo e incontrolável pautava o seu comportamento público. Tornou-se um cativo de suas emoções. Tinha de responder aos ataques. E o fazia com todo o seu formidável arsenal de armas retóricas…

É dessa briga que vai nascer o bi-partidarismo americano – os Federalistas, futuros democratas, com Hamilton, e os republicanos com Jefferson e Madison, terceiro e quarto presidentes dos Estados Unidos (Hamilton morreria nesse meio tempo). 

Washington

Atravessar, ontem à noite, as minúcias dessa mixórdia que Ron Chernow reconstitui com a impiedosa competência de sempre, tendo partido de três personagens da estatura de Alexandre Hamilton, Thomas Jefferson e James Madison foi uma experiência triste e carregada de ambiguidades. De repente lá estava o Brasil do lulismo e do bolsonarismo, com sua imprensa doente, senão no ponto de partida, no ponto de chegada. 

Não estaria afinal, a democracia, mesmo acima da realidade da condição humana? O espaço para a competição permanente pelo poder e para as disputas de vaidade que ela abre e a imprensa preenche desde o 1º dia de sua criação não seriam o calcanhar de Aquiles a condenar irremediavelmente o novo sistema?

Sem duvida são. E como num jogo de xadrês, a arte de enlouquecer as vítimas dessas guerras se vem sofisticando com a cientifização da “guerra psicológica adversa” dos soviéticos ou a elevação do cinismo ao estado da arte com Antonio Gramsci…

Mas então ocorreu-me que as alternativas, como lembrou Winston Churchill, são todas muito piores. 

E para não ficar com o surrado “o preço da liberdade é a eterna vigilância“, meti, então, a cabeça no travesseiro bem caseiro, com o nosso bom Guimarães Rosa: “Viver é mesmo muito perigoso”.

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§ 13 Respostas para O calcanhar de Aquiles da democracia

  • Alexandre de Almeida Zogbi disse:

    Suas análises sobre o surgimento da única democracia real, a dos USA, são muito pertinentes. Que a somatória de tantos fatos adversos tenham resultado naquele ordenamento político tão fértil para a criação de riquezas até então inimagináveis me deixa paradoxalmente entristecido pois parece que estes últimos 250 anos dos USA foram uma curta e atípica piscadela de luz na escuridão que é a condição natural das sociedades. No Brasil então, é escuridão da idade das trevas da baixa idade-média para onde estamos regredindo a passos rápidos.

    E também quero parabeniza-lo pelo fino humor no logo do site que só hoje reparei: o “Ex-libris” decapitado que virou “Exilados comunicações”, sintetizando a atual situação do grande nome dos Mesquita nas comunicações. Muito bom!

    Curtido por 1 pessoa

  • Marcos Andrade Moraes disse:

    xadrês? UAU, demonstra bem quem é o doente e a doença…

    MAM

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  • Nelson Barros disse:

    Algumas notas minha:
    BRAZIL
    Frank Tannenbaum – The Future if the Democracy in Latin America, New York, 1976, Alfred A. Knopf, Published, página 85:
    “One must Begin by recognizing that, in spite of appearance, Latin America is not like Europe and in many ways unlike the United State. It is a Western society that has missed some of the key influences that shaped Western culture. Latin America was by-passed by the Reformation, the Enlightenment, the French Revolution, the Industrial Revolution, and the “Great Transformation” that incorporated the masses into the political process on the national level.
    Howard J. Wiarda – The Soul of Latin America, The Cultural and Political Tradition, New Haven, 2001, Yale University Press, página vii:
    “For the fact is that Latin America was founded on a feudal, oligarch, authoritarian, and elitist basis. Latin America was a product of the Counter-Reformation, of medieval Scholasticism and Catholicism, of the Inquisition, and frankly non-egalitarian, non-pluralist, and non-democratic principles.”

    United States: John Locke, James Madison and Thomas Jefferson
    Latin America: Saint Thomas Aquinas, Francisco Suarez, Jean-Jacques Rousseau and August Comte

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    • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

      Excelente contribuição para o conhecimento de nossa formação e história os trechos que o senhor selecionou, pena que em inglês vão ficar limitados às elites. É uma lástima que o povo brasileiro ficou muito tempo sem acesso aos livros, por não ter sido bem alfabetizado. Parece que a leitura mais culta está entrando em moda entre as gerações mais jovens, ao mesmo tempo em que a Receita não mais isentar-nos de pagar impostos sobre os livros.
      Fahrenheit 457 à brasileira!

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  • rubirodrigues disse:

    Muito bom Fernão. A justificativa da democracia ser o menos ruim dos modelos não precisa, porém, nos imobilizar. A solução de Montesquieu não oferece um Estado sob medida para operar democracia, ao contrário, só camuflou a aparência externa da monarquia. Apesar disso penso que seja possível qualificar a democracia conveniente e adequada a uma nação como a nossa e projetar o conjunto de instituições capazes de facultar uma governança racional e eficiente. Já detemos conhecimento organizacional suficiente. O que nos falta é organização politica e vontade de fazer.

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  • A.(sno) disse:

    Perdoe-me, Fernão, pelo comentário fora do contexto, mas apenas por precisão factual:
    – Em Otelo, uma de suas peças mais famosas, Shakespeare descreveu o ciúmes como o “monstro de olhos verdes”.
    – Caetano, na música “Ciúme”, chama o ciúme de “ponto negro”.
    Abração!

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  • flm disse:

    Artimanhas da memória, A!
    Mas se ele não disse deveria ter dito: o ciúme É um monstro verde…

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  • A linha Mason-Dixon é o retrato da época, durante a construção da democracia americana.

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  • Caro Fernão
    Obrigado por repartir essa inquietante questão que é comum a muitos.
    Encontro uma resposta no interessantíssimo texto de Anne Applebaum e Peter Pomerantsev, dois talentosos jornalistas, uma estudiosa da Democracia, o outro da falta que ela faz, “How to Put Out Democracy’s Dumpster Fire”, publicado na revista “The Atlantic” em Março e reeditado no “Jornal Expresso” do último fim de semana.
    Abordando os efeitos da internet na Democracia de hoje, face àquela que maravilhara Tocqueville, toca naquilo que considero ser mais nocivo que a vaidade que refere: o individualismo.
    Tomo a liberdade de transcrever um excerto: … uma democracia enfraquecida, um lugar onde cada pessoa, “recolhida e à parte, é como um estranho ao destino de todos os outros: os seus filhos e os seus amigos particulares formam toda a espécie humana para ele; quanto a viver com os outros cidadãos, ele está ao lado deles, mas não os vê; toca-os e não os sente; existe apenas em si e só para si, e se acaso ainda tem uma família pode dizer-se que já não tem um país natal”.
    Está ali aquilo que considero ser a resposta que contrapõe a inevitável vaidosa luta pelo poder, ainda dos nossos dias: o espírito coletivo, a diferença de ideias com igual propósito, a diversidade dos grupos sociais que surgiam naturalmente naquela época dos fundadores americanos.
    E ainda citando o final desse extraordinário texto: “… se aplicarmos o melhor do passado no presente.”

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  • A história da humanidade moderna composta em alguns atos… adorei Abração

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  • Jayme José Martos Cueva disse:

    Muito bom o “suelto” de hoje, como de hábito, Fernão!
    O meu sentir: já então o povo das colônias-futuros-estados norteamericanos tinha boa organização social e política. Constituição local em direito público e privado. Boas escolas, prefeituras, templos, organização social e de trabalho. Importante: organização militar bem armada para resistir às investidas de franceses e holandeses, comuns naqueles tempos. Não foi fácil, mas, juntas, se libertaram da Velha e Pérfida Albion. Essa base primeira, fundante, é que permitiu o florescer da primeira grande democracia no planetinha azul. Disse grande, porque de séculos antes data a democracia da pequenina Suíça para pôr fim às encrencas entre os Cantões Alemão, Francês e Italiano. Foi dessa água boa que bebeu o genebrino Rousseau. Curiosamente, é também da Suíça o culto da educação desde a infância, com o próprio Rousseu do ‘Emílio’, de Montessori e outros, até porque democracia pra valer começa pela educação desde a tenra idade. E termino com o insuperável e insubstituível
    Millôr Fernandes: “DEMOCRACIA COMEÇA COM TRÊS REFEIÇÕES POR DIA.”

    Jayme J M Cueva
    jcueva@uol.com.br

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    • Flm disse:

      Aí discordo, Jayme.

      Sim, nos EUA a pré-existência de escolas foi decisiva. Elas já vinham das conquistas democráticas dos ingleses, que era o que os americanos eram àquela altura.
      Mas, como na Inglaterra, a democracia suíça, que começa em 1290, também é quem planta a boa educação e proporciona 3 refeições por dia, e não o contrário.
      É quando o povo encontra o meio de mandar em si mesmo que ele faz por si e extende essas benesses a todo mundo.

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  • Marcelino Medeiros disse:

    é um DELEITE ler suas “obras”, prezado Fernão! Seus últimos três parágrafos deste, em particular, são… sábios! Muito obrigado

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