Um vídeo perturbador

18 de outubro de 2021 § 16 Comentários

Para legendas em português:

1 – Clique no ícone “engrenagem” abaixo à direita

2 – Legendas/cc

3 – traduzir automaticamente

4 – português

A falta que a democracia faz

13 de outubro de 2021 § 13 Comentários

A China tem apartamentos vazios suficientes para abrigar 30 milhões de famílias. O bastante para 90 milhões de pessoas, mais que as populações inteiras de países como França, Alemanha, Reino Unido ou Itália. Mas falta energia elétrica a ponto de paralisar a produção em vários pontos do país.

Como se explica isso?

Fácil. A “bolha imobiliária” tem o exato tamanho da corrupção no país do partido único, proprietário único de tudo, inclusive da única imprensa existente. Numa economia que saiu da escravidão absoluta para a abolição lenta, gradual e controlada por deliberação do partido único, dono de cada centímetro do território nacional, a franja mais extensa da privilegiatura fora da qual tudo que existe é submissão absoluta ou morte, são as células locais do Partido Comunista Chinês (PCC), equivalentes aos nossos governos municipais e suas subdivisões menores. 

É a eles que os “empreendedores imobiliários” apadrinhados pelos figurões mais altos do partido terão de pedir a cessão dos terrenos onde construir seus prédios. E, claro, como em todos os outros recantos habitados pelo bicho homem, ter-se-á de pagar para ter esse privilégio … em apartamentos do empreendimento futuro aos funcionários a quem cabe ceder ou não as terras. Far-se-á necessário, então, um financiamento do braço do banco estatal único controlado por alguém escolhido por outro figurão do partido, a esse “empreendedor imobiliário”. E tal autorização, naturalmente, também terá seu preço … em apartamentos no futuro empreendimento, pois para o “empreendedor”, o importante é fazer e não vender os prédios, mesmo porque o dinheiro que tudo move é “do povo”, que não tem prazo para recebê-lo de volta…

Assim foram construídos não apenas prédios-fantasmas (semana passada 15 foram implodidos ao mesmo tempo) mas até cidades-fantasmas ligadas por rodovias-fantasmas, tudo explicável pelo mesmo mecanismo da “economia” movida a decisões de figurões do partido e não a demandas de um anônimo mercado.

Com a multiplicação da quantidade de bilhões girando nessa ciranda a ganância despertada pela China vence fronteiras, e ela é admitida na comunidade econômica internacional como um “parceiro igual”. Para além do processo de “consolidação” de setores inteiros da economia para enfrentar a concorrência “igual” dos monopólio do capitalismo de estado chinês, com o correspondente massacre dos salários no Ocidente inteiro, os trilhões de yuans correspondentes aos milhões de metros quadrados de construções vazias passam a ancorar-se também em financiamentos em dólar. 

A Evergrande, a imobiliária gigante que acaba de estourar, ate dois anos atras era a “ação imobiliária” mais valiosa do mundo. O valor da empresa caiu de US$ 41 bi, no ano passado, para US$ 3,7 bi agora. 80 mil chineses detêm 40 bi de yuans de debêntures da empresa. O resto está com investidores ocidentais. O setor imobiliário contribui com 29% do PIB chinês. Mas as vendas de terrenos pelos governos locais caiu 90% nos primeiros 12 dias de setembro. Eram elas que geravam ⅓ da renda desses governos que acumulam uma divida de US$ 8,4 tri, perto de 43% do PIB…

E o que isso tem a ver com a crise de energia? 

Tudo. Como “democratizar a corrupção” com a mesma extensão que a “indústria imobiliária” permite fatiando usinas de produção de energia? Resultado: 30 milhões de apartamentos inúteis; nenhuma usina de força. Vêm ai alta do petróleo, do carvão e das emissões de carbono que o Biden se comprometeu a cortar.

O petróleo bruto subiu 64% este ano, a maior alta em 7 anos. Os preços do gás praticamente dobraram nos últimos 6 meses. Óleo para calefação subiu 68%. Carvão teve altas recordes. Não falta petróleo nem carvão para isso. Mas os grandes tubarões produtores aproveitam esse momento de volta da pandemia e apagão na China para abrir suas torneiras sempre com atraso bastante para justificar altas de preços desse calibre.

É a “tempestade perfeita”. Isso e a escassez de semicondutores e componentes básicos de eletrônicos determinada pelo desarranjo estrutural do “abre” e “fecha” dos lockdown de sabor político desmancham as supply chain chinesas que fizeram mais pela enormidade das Apples da vida que o próprio Steve Jobs. 

Mas, claro, não são esses os únicos predadores do sistema. Atrás deles galopam, sempre, as hienas da política. Pro resto do mundo vai ser mais complicado. Enquanto ele rebola para voltar a ajustar-se, o Brasil de Brasília, onde não ha desemprego nem pressa, já sabe exatamente o que fazer: basta que nos livremos do Bolsonaro. E, até para garantir isso, os governos estaduais, de par com o Poder Judiciário e seus mutirões de multiplicação de precatórios, são hoje os mais vorazes especuladores em dólar contra o favelão nacional.

A explosão dos preços do petróleo e do dólar multiplicaram a base sobre a qual aplicam seus tributos e as receitas estaduais cresceram 10% reais (descontada a inflação) em plena paradeira da pandemia. A arrecadação do ICMS, que incide em média a 25% sobre o preço dos combustíveis que tudo movem no Brasil, aumentou 19% na média nacional. Isso levou o País Real de volta à cozinha à lenha que comeu metade da Mata Atlântica no século 19. Essa nova conquista do estado democrático de direitos adquiridos no país onde “o petróleo é nosso”, foi registrada na primeira página de O Estado de S. Paulo de domingo, um dia depois dele e a Folha “saudarem” em manchete a premiação com o Nobel de dois jornalistas contra os quais, se atuassem no Brasil, os dois estariam atiçando o Alexandre de Moraes. A lenha, depois da eletricidade, volta a ser a 2a fonte de energia mais utilizada nos lares brasileiros com 26,1% de participação contra 24,4% do gás de botijão.

Nem por isso os investimentos em educação dos estados saíram do padrão de sempre: caíram 6,4% versus 2020 e 7,4% versus 2019. E agora todos eles (os donos do nosso petróleo) estão acenando com aumentos para o funcionalismo no ano eleitoral de 2022. E, é claro, dificilmente o mesmo Congresso que acaba de cortar a verba para ciência e tecnologia em 92% porque esta é das poucas verbas que não contam nem com lobbies, nem com “bancadas” na “Casa do Povo” onde só quem não as tem é o indigitado povo, vai insurgir-se contra mais este esbulho.

Tudo isso, ainda que no Brasil já tenhamos experimentado uma meia sola, é consequência da falta que a democracia, o único antídoto contra a corrupção e a miséria de comprovada eficácia jamais inventado, faz naquela China que tantos de nós, especialmente em Brasília, hoje andamos invejando tanto.

Brasil x Venezuela: tudo a ver

8 de outubro de 2021 § 18 Comentários

O Brasil está sufocante. A doença política está matando a alma da nação.

Mas tem cura.

O brasileiro tem de sair do Brasil até para voltar a jogar futebol. Para curar-se politicamente, então, muito mais ainda.

Submetido à meritocracia durante algum tempo; re-convencido de que pode vencer pelo esforço individual, de que o trabalho e não o crime é que compensa, recupera toda a sua capacidade, a criatividade, o caráter. Basta ver a diferença entre o jogador exportado e o que nunca saiu do Brasil.

Preso ao nosso chão, submetido diariamente ao espetáculo deletério da impunidade das “excelências”, do emprego sem trabalho, das CPIs canalhas, do estado antidemocrático dos direitos adquiridos do STF e da imprensa-turba; vivendo a mumunha, o “jeitinho” e a vitória sistemática da corrupção, murcha, se acomoda, desiste e começa a jogar para trás.

A democracia é o único antídoto conhecido contra a corrupção e a miséria. E não existe democracia em português. Não ha como aprende-la aqui dentro. Nós temos de ter a mesma humildade dos asiáticos. Copiar de quem sabe e fazer melhor.  Ou sequer continuaremos deitados eternamente neste berço esplêndido. Vamos afundar definitivamente como já estamos afundando.

A urgência da moderação na guerra do Brasil

4 de outubro de 2021 § 14 Comentários

Semana passada Fernando Schuller, uma das poucas assinaturas que aproveita ler no meio da mesmice que são hoje os diferentes títulos da imprensa tradicional brasileira escreveu, com a densidade e o brilho costumeiros, um “Elogio aos moderados” na sua coluna na Veja.

Falava do ódio político num tempo em que “ponderar se tornou um ato algo subversivo e os moderados andam fora de moda” de um tanto que o levavam a “confortar-se à sombra de Montaigne” que viveu numa época de extremos infinitamente mais violenta que a nossa (1533 a 1592) e, aos 38 anos, em meio às guerras religiosas que ensanguentavam a França, abandonou a vida publica para dedicar-se a escrever seus “Ensaios” na torre de seu castelo.

Da sua leitura em plena “guerra do Brasil” (sim, fria e apenas quase religiosa, mas guerra) ficou para um de seus leitores mais qualificados, que se define como “moderado por natureza”, o sabor de “uma elegia poética, triste e melancólica aos moderados diante de um mundo cada vez mais tribalizado em grupos radicais”.

Sim, porque o próprio Schuller, professor na matéria, não conseguiu lembrar-se de mais de dois moderados de carne e osso em condições de fazer valer a sua moderação no horizonte de seu tempo: Vaclav Havel com a sua “revolução de veludo” para trazer a Checoslováquia de volta das profundezas do socialismo real e Barak Obama com a sua “América nem branca, nem negra” em seu horror a todos os extremos, inclusive os do seu próprio lado, como é obrigatório para quem de fato tem horror a extremos.

Qual seria, afinal, o caminho a seguir”, perguntava-se Schuller. E concluía: “o que precisamos são líderes pautados por ideias e um senso de responsabilidade republicana, não por uma eterna guerra de posições” pois “o mundo politico não se resume a uma luta do bem contra o mal, é feito de yin e yang” e “ha gente boa em ambos os lados que tem algo importante a dizer”.

O caminho de Montaigne, de volta à sua torre, pode nos ensinar alguma coisa individual e coletivamente (…) Não tanto um novo caminho, mas um novo jeito de caminhar”.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é m7.png

A proposta do “novo jeito de caminhar” de Montaigne baseava-se na sua constatação de que “não ha verdades absolutas, só verdades por aproximação” e que precisamente por isso nós humanos “flutuamos entre diversas opiniões … segundo o desejo do momento”, fazemos sempre perguntas muito mais interessantes que as respostas que damos e que, portanto, era imprescindível “manter a espontaneidade que depende da falta de controle”. 

Mas aquilo que, no estilo bem francês e personalista do filósofo em sua torre pensando pela arte de pensar, viria a resultar na elevação da tolerância a fundamento inegociável das relações humanas, pedra fundamental da montagem do mecanismo institucional da democracia moderna, depois que, jogado no terreno da prática pela volúpia de Henrique VIII que deu na legalização da convivência de todos os credos (menos o católico), foi retrabalhado pelos filósofos ingleses com seu foco utilitário.

A necessidade da moderação é, portanto, um ponto universalmente estabelecido desde o século 16. Como a questão evoluiu a partir daí até materializar-se no “território livre” da América é uma história que já tem ecos de familiaridade para mais gente que a que leu Montaigne. Desde que reuniram-se os autores dos Federalist Papers a questão passou a ser ainda mais objetiva. Como perpetuar a moderação de que precisamos para não nos matarmos uns aos outros? Mediante que tipo de mecanismo institucional é possível torná-la, senão compulsória, ao menos auto-reprodutiva?

E de lá vimos vindo, por ensaio e erro, dando materialidade ao pensamento dos montaignes: os direitos fundamentais “imexíveis” do homem, os espaços vedados ao Estado e à coletividade, os limites para a ação do indivíduo, o controle necessário mas mutante de modo a não matar a espontaneidade nem tolher a nossa característica de seres flutuantes entre opiniões diversas…

No taxation without representation”, “a lei só é justa quando vale para todos e só é legitima quando é fruto do consenso”, “o único consenso aferível é o que é dado pela expressão do voto da maioria”, “a verdade da maioria é mutante”, “só ha representação quando o representado manda no representante”, “nenhum ‘direito humano’ resiste sob um regime de monopólios” … por aí caminhou-se, de cada conceito a cada ferramenta institucional concreta, pela picada da democracia em que cada correção de rumo é marcada por uma poça de sangue.

A antidemocracia brasileira é minuciosa. Cuida de todos os detalhes. Expressa-se, antes de mais nada pela falta de moderação semântica. Obriga o cidadão a tratar com hiperlativos a canalha que fabrica porque “é de pequenino que se torce o pepino”. Só mesmo “com um novo jeito de caminhar”…

Recall para que haja representação e não empulhação, iniciativa e referendo de leis para que elas sejam justas, para que haja consenso sobre essa “justiça” e para que possamos seguir flutuando e podendo considerar injusta amanhã a justiça de hoje se assim exigirem as verdades de cada momento, limites antitruste para impedir a criação de poderes inenfrentáveis… 

…é a vida imitando a arte. 

O pensamento só pelo pensamento pertence à desesperança do século 16. Os primeiros ensaios práticos do pensamento moderado feito ação, ao século 18. A grande correção de rumo dessa primeira tradução prática, à virada do 19 para o 20. O Brasil do século 21 não tem mais tempo. Precisa saltar da torre de Montaigne diretamente para as reformas da Progressive Era americana em que se converteu o que começou a ser pensado nela, e por o povo no poder, se quiser mesmo evitar o caos.

A charada do 3º Milênio

29 de setembro de 2021 § 22 Comentários

O propósito da organização da vida em sociedade não é enriquecer ilimitadamente os empreendedores que sobreviverem à competição sem limites e seus acionistas mas tornar a vida suportável o bastante para que os participantes dessa sociedade vejam mais interesse em ajudar-se do que em trucidar-se uns aos outros.

Parece um objetivo modesto, mas trata-se, na verdade, de superar a lei da selva, sob a qual a humanidade viveu 99,9% de sua trajetória sobre o planeta Terra, o que faz dele um objetivo ciclópico. Tão formidável que apenas uma ínfima menor parte das sociedades humanas que, agora em rede, serão cada vez mais inescapavelmente uma só, chegou a definir esta como a prioridade da sua obra coletiva e conseguiu faze-la subir alto o bastante na escala do poder para transforma-la numa política nacional efetiva.

Primeira no mundo a substituir a cumplicidade com os crimes do rei pela competência individual como fator decisivo do sucesso empresarial, a democracia americana foi também a primeira que se deparou com o limite desse sistema. Na virada do século 19 para o 20, ao sair de uma economia agrária totalmente desregulamentada e ingressar na segunda etapa da revolução industrial o país viu-se às voltas com a nova configuração da falsificação da eficiência proporcionada pela combinação da entrada em cena das ferrovias com a descoberta do “ganho de escala” à custa do afunilamento dos canais do emprego (monopolização da economia) e a exploração do trabalho vil, resultando numa escalada sem precedentes do poder de corrupção dos muito ricos.

Com 4/5 do território nacional integrados à economia pelo canal exclusivo das ferrovias, ficou fácil para os empreendedores menos escrupulosos do século 19, mancomunados com os donos delas, estrangularem concorrentes negando transporte à produção deles e ganharem potência financeira bastante para lançarem-se ao carrossel de fusões e aquisições “fechando” setores inteiros da economia e, consequentemente, do mercado de empregos. 

Sem alternativa de patrão para disputar os melhores trabalhadores, os salários mergulharam em queda livre e as fortunas dos açambarcadores de mercados subiram a patamares estratosféricos. Com contas bancárias maiores que a maioria dos Tesouros Nacionais eles instituiram um virtual monopólio dos financiamentos de campanhas eleitorais o que rebaixou a zero as defesas institucionais contra a sua ação deletéria.

Lembra alguma coisa, não é mesmo?

Mesmo na flor da juventude e tendo partido da riqueza nacional mais bem distribuída da história da humanidade, posto que era a primeira sociedade composta integralmente por proprietários (cada pessoa disposta a emigrar para a América recebeu um pedaço de terra para chamar de seu, o que nunca tinha acontecido antes nem aconteceu depois desde que ha registro da trajetória humana na Terra), essa distorção sistêmica, que concretamente matou o sonho de vencer pelo trabalho, levou rapidamente a democracia americana até a beira do colapso.

Salvou-a a feliz sucessão de raríssimos eventos históricos que combinaram o surgimento de uma imprensa democrática investigativa e decididamente aliada ao povo inaugurada pela revolucionária revista de Sam McClure que fez escola e, a par de expor as falcatruas e a falsa “competência” dos robber barons, foi buscar remédios na fonte primária da democracia moderna que era então e continua a ser hoje a Suíça, com a entrada em cena de uma geração inteira de self made men na Costa Oeste àquela altura ainda completamente virgem dos vícios dos “interesses especiais” solidamente estabelecidos entre políticos e empreendedores já havia mais de um século na Costa Leste, culminando tudo com a chegada incidental à presidência da republica de um outsider da velha política que fizera carreira como reformador radical.

Da Suíça vieram as ideias do recall, do referendo e da inciativa popular de leis que anularam a blindagem dos políticos e entregaram o poder de fato aos eleitores; da Califórnia as primeiras aplicações desses remédios libertadores, cujo efeito fulminante incendiou a imaginação do país inteiro; e de Theodore Roosevelt, o vice de um presidente assassinado antes da posse, a força para projetar à escala nacional as reformas da “Progressive Era”. 

Começando pela legislação antitruste, que pôs a preservação da concorrência, única garantia concreta da elevação permanente dos salários, como o limite intransponível da competição econômica, mesmo que pela competência, TR armou o povo das ferramentas de democracia direta para vencer a barragem da corrupção da má política mancomunada à má economia, colocar o eleitor/trabalhador/consumidor no topo do sistema e abrir as portas aos Estados Unidos que conhecemos no século 20, estes que arrastaram a humanidade inteira a patamares nunca antes sonhados de liberdade, conhecimento e afluência.

A chegada da internet e a derrubada das fronteiras nacionais fez, no entanto, da maioria dos nacionais americanos que protagonizaram esse milagre uma ínfima minoria planetária imersa numa comunidade com estágios de desenvolvimento político separados por metades de milênios, e a história passou a repetir-se como farsa. O conluio das grandes plataformas de internet, as “novas ferrovias”, com os mais inescrupulosos empreendedores e o pior da politica planetária, anabolizados pela entrada da China no circuito, concentra vertiginosamente a renda e “fecha” cada vez mais setores inteiros da economia em poucas mãos, deixando bilhões de trabalhadores à mercê das feras.

Um estudo do Swiss Federal Institute of Technology envolvendo 43 mil corporações transnacionais com propriedade cruzada de ações umas das outras revelou um núcleo duro de 1318 delas, cada uma dona de ações de mais de 20 das demais, representando aproximadamente 60% da renda planetária. Ao aprofundar o estudo, a entidade encontrou 147 dessas companhias ainda mais entrelaçadas entre si, que controlavam sozinhas mais de 40% da renda planetária. E a cada crise a coisa piora. Em apenas um ano de pandemia, de março de 2020 a março de 2021, por exemplo, a renda dos 2.365 bilionários em dólar do mundo aumentou 54%, engordando mais de US$ 4 trilhões…

Estamos, portanto, diante de uma volta ao feudalismo. Mais um pouco e restarão uns tantos castelos murados cercados de miséria conflagrada por todos os lados. No entanto, a primeira reação de um mundo jejuno de conhecimento da História diante desse descalabro é a mesma que levou a maior parte da humanidade, da primeira vez, ao mesmo patético engano: o de, aceitando a velada sugestão dos com poder, que são, como sempre, uma coisa só, armar a mão dos donos do poder político para “tirar dinheiro” dos donos do poder econômico, ignorantes, esses otários fundamentais cuja divisão sustenta o Sistema, de que são sempre eles próprios, os sem poder algum, nem mesmo sobre a sua “mais valia”, que pagam inteiro qualquer que seja o resultado dessa conta aumentada.

O ovo-de-colombo da solução que engendrou os Estados Unidos do século 20 foi manter a estrita separação entre o Estado e a economia e usar a força do Estado inteira para opor empreendedor a empreendedor, que estes sim, são animais (domesticáveis) que entendem-se mutuamente, em benefício do trabalhador. A questão hoje é como fazer a mídia planetária que, como sempre, continua sendo a única instituição capaz de por no devido lugar o ponteiro que desempata essa briga, aliar-se ao povo contra o poder político e o poder econômico, sendo que, no momento, ela é um poder indistinguível dos outros dois tão monstruoso quanto o da igreja que teve no passado o monopólio da copiagem e da censura dos livros, e sequer precisa do povo. Ao contrário, é o povo que, outra vez enganado, acredita que precisa dela para sobreviver.

Onde estou?

Você está navegando atualmente a Uncategorized categoria em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: