Carlos Leôncio de Magalhães

30 de dezembro de 2021 § 22 Comentários

Na semana do natal morreu-me mais um. E este foi o maior de todos. Todo amigo é “o maior de todos” em alguma coisa e a grande merda de envelhecer é ver os nossos morrer.

Mas o Leôncio foi um desses “maiores de todos” não só pela amizade. Homem do mato, como tantos dos meus maiores amigos, Leôncio era um espécime raro da classe em extinção dos ouvintes da natureza. Falava a língua dos bichos em todas as suas nuances e sutilezas com um sotaque absolutamente perfeito. Não era alguém “de fora”. Usava, para entender o mato, o mesmo sentido que os nascidos no mato mais usam para viver e sobreviver nele. E sabia o suficiente sobre a realidade da galáxia vegetal das florestas de chuva para ouvir-lhes as perguntas de preferência a impor-lhes as suas respostas.

Temendo por elas, na incompreensão assanhada que grassa sobre o tema da sua relação com os urbanóides, Leôncio aprendeu que era bicho, antes de ser gente, e que sem o respeito à hierarquia que essa precedência impõe rompe-se para sempre o nexo entre o bicho homem e o ambiente que fez dele o que é.

A Fundação Florestal, o canto menos poluído que restou do aparato de gestão ambiental brasileiro institucionalizado, despediu-se dele colocando-o no mesmo patamar de Thomas Lovejoy e E. O. Wilson, os “tres grandes naturalistas mortos na semana que passou”.

Conservacionista como só os caçadores sabem ser, honrou o nome de seu pai, caçador, conservacionista, ouvinte e tradutor das nossas matas do calibre dos grandes pioneiros. Um Theodore Roosevelt destes tristes trópicos, grande o bastante para segurar até hoje, no Barreiro Rico, Anhembi, a última floresta viva das margens do Tietê, feito mais valoroso, talvez, neste país mal amado, que implantar os parques todos que TR pode eternizar na democracia americana.

José Carlos Reis de Magalhães foi quem, escondido da arrogância dos poibidores de tudo do Brasil, arrastou Werner Boker, numa ultra aparelhada barraca-laboratório, para suas expedições ao Peixoto de Azevedo nos meados dos anos 70 do século 20, o segundo a chegar depois dos irmãos Vilas Boas, às majestosas florestas de transição entre o cerrado e a Amazônia molhada, hoje desaparecidas, onde ainda perambulavam os Krenha-kêrores/Panará, ditos os “índios gigantes”.

Foi assim que tornou-se o pai do único estudo científico do comportamento em seu habitat dos tinamídeos, os donos da verdadeira Voz do Brasil que quase nenhum brasileiro conhece, produzido nesta nossa pátria da anti-ciência.

Leôncio, uma das últimas testemunhas vivas desse Brasil que vai indo embora, estava lá aprendendo com eles…

Na quarta-feira, 23, como fazia a toda hora, mandou-me sem mais palavra, a foto que abre este artigo. Tres dias depois, instou o seu médico a mergulha-lo de vez para a morte que o vinha cercando fazia tempo, com todo o “sport” e naturalidade de quem sabia que chegara a hora de reciclar-se.

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