A morte da democracia não dará manchete

14 de janeiro de 2021 § 17 Comentários

As decisões dos últimos dias que, em fulminante sequência, foram em poucas horas do congelamento temporário ao banimento definitivo da conta do presidente eleito dos Estados Unidos da América em todas as plataformas do grupo Facebook, seguido do seu banimento definitivo do Twitter e do Youtube e, finalmente, do desligamento da rede social Parler inteira dos serviços de “cloud computing” da Apple, do Google e da Amazon, assim como à expulsão do aplicativo dessa rede de suas lojas monopolistas, foi sem duvida o maior golpe já assestado contra a democracia em todos os tempos.

Como já tive oportunidade de dizer antes, não vai parar onde já chegou…

O confronto de Donald Trump com a lei democrática referendada pelo povo é supérfluo. A sentença que interessa hoje é a privada, e esta já está passada. As grandes plataformas de internet não estão suficientemente descritas como aquilo que realmente se tornaram na legislação americana ou em qualquer outra de país democrático, mesmo porque tal quantidade de poder acumulado não cabe numa ordem institucional descrita como tal. O regulador, como o marido traído, é sempre o último a saber. O tempo que o Estado leva para entender cada nova configuração do mundo em permanente mudança que ele está mandatado para regular é o espaço que se abre para os “robber baron’s” ocuparem na economia e na política, os dois “nomes artísticos” do Poder, aquele que corrompe sempre e corrompe absolutamente quando é absoluto, que vêm junto com toda grande inovação tecnológica disruptiva. Mas já nem este é mais o caso ha um bom tempo. Essas empresas violam dezenas de leis de todos os países onde estão instaladas sob as vistas grossas da autoridade porque a corrupção que esse hiato entre a realidade e a ação do regulador proporciona, gigante nesta que é a maior de todas as disrupções já vividas pela nossa espécie, trabalha freneticamente no sentido de perpetuá-lo…

A Seção 230 do Telecomunications Act de 1996, contem as famosas “26 palavras que criaram a internet”: “No provider or user of an interactive computer service shall be treated as the publisher or speaker of any information provided by another information content provider” (Nenhum provedor ou usuário de serviços de computação interativos deve ser tratado como o editor ou a fonte de qualquer informação levantada por outro provedor de informações). Ou seja, essa lei estabelece que, no que diz respeito à responsabilidade legal, a internet deve ser tratada como uma banca e não como um editor de jornal. Sem ela seria impossível, por exemplo, qualquer site de critica de restaurantes ou de queixas de consumidores contra o que quer que seja. Essa era a boa intenção a justificar tal lei… 

Mas de boas intenções o inferno está lotado. Em 1996 não estava claro ainda que a mesma rede a quem aquela lei dava, de passagem,  direito de veicular o trabalho de todos os jornalistas do mundo e revende-lo sem pagar-lhes um tostão por isso, e que, empoderando-se politicamente e municiando-se financeiramente com isto, não encontrou mais qualquer obstáculo para transformar-se no canal monopolístico de armazenamento, veiculação e comercialização de todo conhecimento escrito, gravado ou filmado ao longo de toda a história da humanidade, seria a mesma que iria estruturar a totalidade do comércio e da prestação de serviços online, deter o monopólio dos sistemas de pagamento e processamento financeiro de vendas, fornecer as únicas vias existentes de trabalho à distância e o mais que nós já sabemos ou ainda vem por aí. 

Aquela peça de legislação não só propiciou a acumulação em velocidade meteórica da fortuna desses quatro senhores, hoje maior, cada uma delas, que o PIB da maioria dos países do mundo, dispensando-os de qualquer responsabilidade, seja pelo que publicam, seja pelos crimes econômicos que cotidiana e sistematicamente cometem (da exploração do trabalho vil nas chinas da vida ao dumping selvagem em todo o resto do mundo; do roubo sistemático de informações privadas à venda forçada de seus produtos pela obsolescência planejada precoce), como condenou à morte por competição desleal todo tipo de imprensa independente. E, como pá de cal, pôs a perder a efetividade da 1a Emenda da Constituição Americana, que não por acaso é a que abre o segmento conhecido como “Bill of Rights” do documento que, pela primeira vez na história da humanidade, pôs o povo em condições de mandar nos reis.

O congresso (dos representantes eleitos do povo no “governo do povo, pelo povo e para o povo”) não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente…”. Mas os quatro trilionários das redes que animam as imitações do mundo onde realmente se vive hoje em dia podem. Ao manter a definição das “empresas” desses senhores como empresas privadas como outras quaisquer, da-se-lhes o direito, como ao dono da padaria da esquina, de proibir a entrada em seu estabelecimento de gente sem sapato ou qualquer outra forma de discriminação que caiba na lei que lhes der na telha estabelecer como “regra da casa”, aí incluída a sua particular definição de verdade e de mentira.

Se não se origina dentro do Estado, como pela primeira vez é o caso, a força que detém esse poder transforma-se no Estado, isto é, “aquilo que está posto pela força” ou, dito de outro modo, o grupo de homens (porque tudo, sempre, não passa, no fim, de um grupinho de marmanjos) que detém o monopólio do exercício da força e, sendo assim, decide quem continua vivo e quem morre. 

Não me venham com a “discussão filosófica” que essa imprensa aliada ao novo Leviatã – e que a qualquer momento será “cancelada” por um peteleco de algum dos quatro triliardários – quer fazer acreditar que ainda cabe. Essa é uma questão resolvida ha mais de 200 anos. Não existe meio termo que se tenha materializado na História. Ou cada um tem o direito de decidir por si mesmo o que quer ouvir ou não, e de decidir o que é verdade e o que não é, ou será dado a alguém o poder de faze-lo por todos. E como, fatalmente, esse poder dado a quem quer que seja evolui  para o de decretar quem morre e quem continua vivo, a humanidade aprendeu que é melhor dar ao imbecil o direito de publicar sua imbecilidade que ao filho da puta o de decretar quem deve viver ou morrer.

O resto é o de sempre. O grande espetáculo da covardia, da cumplicidade, da sabujice em relação ao poder que fez vomitar os Diógenes de todos os tempos. Por maior que seja o seu poder, os chefes de todas as tiranias da história precisam de uma corte que os aplauda, que os sustente, que os ajude a vigiar e a reprimir o povo que todos ordenham juntos, e compra essa corte com a distribuição de privilégios, ou seja, dando-lhe o direito de sustentar-se do trabalho alheio.

Não ha nenhum grama de honestidade no discurso dessa imprensa que trabalha para por e manter o Leviatã onde está. Democracia é o fim do privilégio. Anti-democracia é a continuação do privilégio. Ponto. Assim como a China ocupou espaço no mercado internacional até tornar-se imprescindível e então mostrar sem mais disfarces o que nunca deixou de ser com Xi Jimping, seu poderio militar, o genocídio Uigur, o estrangulamento de Hongkong, a anexação de Formosa, a ocupação de ilhas do Japão e o mais que está prometido e virá sob o silêncio cúmplice de todos os vendidos aos “negócios da China”, assim também as grandes plataformas da internet. 

A censura vem há anos de ensaio em ensaio. Um “cancelamento” aqui outro ali, “execuções” à Stálin, sempre envergonhadas, mantidas no porão para não repercutir, foram atestando o óbito da liberdade de pensamento de órgão em órgão da imprensa tradicional ao redor do mundo. Nos periféricos primeiro e, na ausência de reação destes, nos próprios órgãos centrais na sequência. Uma vez garantido que a morte da democracia jamais dará manchete, os moleques dos trilhões sentiram-se seguros o bastante para dispensar a máscara pegada à cara.

A ver agora se e como a democracia americana, cuja essência e força estão nos municípios e nos estados, conseguirá vencer a dependência das redes para reagir à altura.

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§ 17 Respostas para A morte da democracia não dará manchete

  • carmen leibovici disse:

    Eu acho que você põe excessivo peso de responsabilidade na imprensa tradicional.Eu não tenho certeza de que,fosse ela mais lucidamente crítica,o processo do homem seria diferente.Se a imprensa fosse diferente ,melhor e superior,ajudaria,mas ao final ela tbm é controlada por alguma espécie de moleque.
    Eu acho que só o tempo vai dizer em que tipo e tamanho de enrascada estamos todos metidos, na “America”e todos os demais lugares.

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  • A. disse:

    Simplesmente FANTÁSTICO!!!
    …”a internet deve ser tratada como uma banca e não como um editor de jornal.” = LAPIDAR!!!

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  • Alexandre disse:

    Da Paula Schmitt:

    https://www.poder360.com.br/opiniao/internacional/censura-pos-trump-parte-1-por-paula-schmitt/

    Ah, o Macron mentiu descaradamente no Twitter sobre a soja “amazônica”. Também vão suspendê-lo?

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  • Meu deu medo, preocupado, bateu pesado e bem, como andar? Primeiro passo? Bom dia

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  • terezasayeg disse:

    The rest is silence…

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  • jali disse:

    Nota especial, também, para as ilustrações.

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  • Lourenco disse:

    Muito bom parabéns

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  • Mario MATTOS disse:

    Preocupante. A despeito dos inúmeros benefícios, o advento das redes sociais ressuscitou o convencimento mais pela emoção, do que pela razão. O fascismo e o nazismo floresceram sob essa dinâmica…

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  • Paulo Murano disse:

    Reproduzo o comentário do leitor Gato publicado ontem para matéria anterior. Aqui, cai como luva:

    “Liberdade de Expressão – Liberdade de Expressão – Liberdade de ……….
    Vai lá na ZL (Zona Leste) falar disso. Tanto para os moradores como para as Otoridades instaladas em belas viaturas Toyota do Estado de S.Paulo. Faz tempo que não tem diálogo, o negócio é na bala perdida mesmo. Com o advento da internet e o acesso do povão em geral a violência está descambada. Sem falar no RJ a nossa cidade maravilhosa em minúsculas mesmo. É um dialogo de três oitão com fúzil ou carabina, sei lá. Mas que a bala fica perdida fica.
    Antigamente quando o Estadão tinha dono a frente e responsável pela Edição ou mesmo a Folha, eles determinavam o que podia sair ou não o risco era deles. Hoje, não tem risco nenhum é tudo um monte de enganação, mentira de cá, mentira de lá, mas as pessoas tinham que comprar e ler o Jornal para saber o que se passava. Hoje é tudo grátis na internet, o básico nos jornais, pois fecham as portas pra quem não paga, com toda a razão, mas e os BLOGS, PODCASTS. Tem que por tranca se não descamba. Zukenberg e cia tem que trancar quem estiver a abusar, a incitar a violência. Mordaça para os demagogos. Títeres que pensam estar em um Reallity Show. Cinco ou Nove morreram nessa baderna. Em vez de salvarem vidas, estão promovendo mortes e o vírus rindo, que líderes estamos a ter. Então LIBERDADE DE EXPRESSÃO, pra quem tem modos e sabe o que está falando, loucos camisa de força neles.”

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    • Alexandre disse:

      Não cabe a um punhado de pessoas no Vale do Silício (supostamente justas, bondosas ou sábias) determinar o que as pessoas podem dizer, ler ou ouvir.

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      • Paulo Murano disse:

        Só Jesus na causa! Por favor, entenda: as pessoas poderão continuar a dizer, ler e ouvir o que quizerem. Ocorre que Donald Trump foi classificado justamente no grupo de agressores da humanidade, igual pedófilos e suas redes, comércio ilegal de armas, drogas, órgaos humanos, tráfico de pessoas, neo nazistas e grupos afins etc. sempre foram boicotados na internet. Para quem gosta desse lixo há a dark web.

        Muita conversa moleprá boi dormir por aqui. Vou catar coquinho em outra galáxia.

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      • Alexandre disse:

        Classificado por quem? E com que legitimidade?
        Catar coquinho para mesmo ser algo mais apropriado para você.

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  • Carlos disse:

    Infelizmente estas empresas estão nos levando mundo de “1984”.
    Não se enganem os que hoje pensam que tem o suporte destas…Elas caminham conforme os interesses financeiros e , principalmente, de poder.
    Estranhos dias estes…povo , democracia, nada mais importa.

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  • adonayevans disse:

    O miolo ao artigo é um equívoco; grave. Descobre-se que em lugar de banca, os administradores de tecnologia se tornaram editores de comportamento contra a Liberdade de Expressão, apenas quando foi banido Trump? Por que não antes? Por que não quando Osama Abin Laden queria manifestar sua “Liberdade de Expressão” em modo Al Qaeda? Ou o Isis, Estado Islâmico, também quiser ter a sua, ancorada na 1ª Emenda da Constituição Americana? É óbvio e castiço que a Liberdade de Expressão é bem precioso. Precioso demais para não ser arrastado à ao fosso escuro pelos que dela se valem para atentar exatamente contra … ela própria.

    Invocar a Liberdade de Expressão para atentar contra a Democracia, se tornou próprio da ultra-esquerda e ultra-direita, siamesas com o sinal trocado, em sua cruzada, exatamente contra o que? A Democracia.

    Embora a Liberdade de Expressão garanta que se possa dizer qualquer coisa, não isenta o autor da expressão de sua responsabilidade, em constituição alguma do mundo. E com que objetivo? Com o objetivo exato de garantir que a chama da Liberdade de Expressão continue acesa. E brilhando. E aquecendo. E, como em todo medicamento, deve ser negada sim, aos que dela abusam. Negada por quem? Pelo Sistema Judiciário, que em tese representa o cosmo do bem comum. Calúnia, difamação, informações que causem sofrimento, dor ou perdas, exigem sua punição. Mesmo quando homiziadas no anonimato, quando afastado seja.

    O domínio distópico que os gigantes de tecnologia representam, é assunto diverso, misturado ao texto para confundir e vingar o bloqueio ao Trump.

    O controle desses gigantes já passou da hora, e cabe aos parlamentos dos diversos países estabelecê-lo. Como já começou na Europa, liderado pela Alemanha. Mas em lugar de cada pais compor o seu, em uma colcha de retalhos, as regras devem ser definidas em concerto, o que era impossível sob o Unilateral Trump, mas deve ser viável sob Biden.

    O mesmo se aplica à voracidade da gigante China, que sem qualquer modulação de seu crescimento pelo Ocidente, em menos de 30 anos drenou todo o emprego, todo o Capital e toda a tecnologia e Ciência desse mesmo Ocidente. Levando ao desemprego, ao rancor e à desesperança que elege populistas, em geral de direita. Como no Brexit e no Rust Belt, Cinturão da Ferrugem americano.

    Autor do período das grandes conquistas portuguesas, Fernão Mendes Pinto, era chamado já à sua época de Fernão Mentes? Minto. Quando as reencarnações não ocorrem em espírito, podem ocorrer em vontades. Trump já vai tarde.

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    • Alexandre disse:

      Os “editores de comportamento” já vêm agindo há tempos (mas não com/contra todos); o caso Trump apenas tornou isso mais visível. Você forçou a barra ao comparar o caso do Trump com Bin Laden. E o que fizeram com o Trump e com seguidores ou eleitores dele foi censura prévia. Seus canais de comunicação foram suspensos e depois cancelados.

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