O que ha de mais “fake” que as “fake news”

10 de janeiro de 2022 § 14 Comentários

O empreendedorismo é o domínio do instinto. Não é para quem quer é para quem é. A política e seu produto por excelência na democracia — a lei — é a superação da que rege o instinto e manda todo bicho “usar sua força para comer o mais possível sempre que a ocasião se apresentar”, um movimento concertado de defesa das presas contra os predadores que acaba por ser acatado até por esses últimos quando a História os ensina a pensar adiante da próxima refeição.

A informática não mudou rigorosamente nada na essência das relações humanas que já foi bem precisamente sintetizada no adágio de que “o homem é o lobo do homem”. Ela criou uma reprodução matemática do mundo real sujeita não mais às velocidades e multiplicações do universo da História e do mundo físico mas às próprias a essa ciência abstrata, o que subverteu violentamente as noções de espaço e tempo, fundamentos do conhecimento humano, com implicações altamente disruptivas nas aplicações que daí decorrem, especialmente as ligadas à produção e à transação de bens e riquezas e, mais que para todas as outras, para a capacidade de cada nação de impor leis precisas, estáveis e bem delimitadas como têm de ser as das raras democracias de fato existentes. 

Como sempre, desde o controle do fogo, do arco e da roda e da domesticação dos animais, das plantas e dos metais, essa disrupção proporcionou aos “predadores alfa” da política e da economia explorar os vazios de regulamentação que se abriram com a violência e o oportunismo que o instinto lhes pede. Sob a bandeira da “reforma da humanidade” de sempre, o Google auto-atribuiu-se o direito de mudar as regras do ciclo de vida da informação espionando, indexando e tornando acessíveis para todo o sempre os pormenores das manifestações de preferência e trocas de informações entre cada um dos seres humanos sem pedir licença a ninguém, ato criminalizado em todas as legislações do mundo para todas as tecnologias não baseadas em bits. 

Em paralelo, na melhor técnica do malandro que atrai a vítima sempre com a promessa de benefícios impagáveis, copiou e indexou a informação coletada e sistematizada por profissionais de todos os campos do saber em todos os tempos sem pagar direitos a quem trabalhou para produzi-la, outro crime tipificado para todos os meios anteriores, e entregou o produto desse saque planetário como um “presente grátis” a quem antes tinha de pagar por ele, “apenas” em troca da livre espionagem dos hábitos, preferências, intimidades e roteiros dos consumidores desse “serviço”. E então amealhou uma fortuna indecente vendendo os segredos de cada eleitor e cada consumidor aos tubarões da política e da economia.

Escancarada a porta, por lá passaram as boiadas da Amazon e do Facebook, as “ferrovias” de hoje com seu séquito de robber barons de vida curta, comprados com baratos bilhões para colocarem-se à salvo sem incomodar ou concorrer, e todo o resto das mazelas que conhecemos, com as Apples no fim da fila, explorando nas chinas da vida o trabalho escravo pelo qual seriam presas em casa e arrastando todos os seus concorrentes para o mesmo atalho que matou, numa só cajadada, séculos de conquistas dos trabalhadores nas democracias, tudo sob o silêncio cúmplice da política podre que finge não entender a exata semelhança entre os crimes dos donos das big techs e seus caronas de hoje e os dos robber barons de ontem.

Agora, montados nos trilhões de dólares amealhados com esse tipo de “competência”, já se sentem fortes o bastante para desafiar as maiorias de frente com a censura explícita e a incineração virtual dos “hereges” em autos-de-fé públicos mediante os quais ficam “cancelados” não só das tribunas a partir das quais a política captura os votos necessários para deter essa gigantesca falcatrua como também da vida econômica que migrou totalmente para a reprodução virtual do mundo real.

Em maio de 2014, depois que a Agência de Proteção de Dados da Espanha reassegurou a um professor o direito de ter o seu passado esquecido, a União Européia como um todo, mais “freguesa” que proprietária das mega multiplataformas da internet, restabeleceu o princípio de que o futuro da vida digital deve ser estabelecido pelas pessoas, suas leis e suas instituições democráticas e não por qualquer grupo de moleques montados numa tecnologia nova o bastante para não ser imediatamente compreendida, em seus meandros e processos, nem pelos seus usuários, nem muito menos pelos legisladores, o que recoloca nos seus devidos termos a questão decisiva deste início de 3º Milênio marcado pelo desvio do “capitalismo de espionagem” (surveillance capitalism) que só pode prosperar com a morte da democracia.

O atual impasse prende-se mais à corrupção que às dificuldades técnicas envolvidas. Não é preciso inventar nada de conceitual ou filosoficamente novo, como querem fazer crer os enganadores de sempre, apenas submeter as big techs e suas praças públicas virtuais às mesmas leis que enquadraram os robber barons do passado e garantem o exercício dos direitos fundamentais do homem nas praças públicas físicas (à propriedade, à sua intimidade #ownyourdata, à liberdade de crença e expressão, ao devido processo, etc.), impondo aos tecnólogos, como condição para operar seus aplicativos, plataformas e redes, a busca das soluções necessárias para implementar essas garantias.

Sim, conseguir são outros 500. Mas ser obrigado a tentar é tudo que sempre fez a humanidade andar para a frente…

Quanto ao gigantismo que desenvolveram violando as leis que todos os seus concorrentes eram obrigados a cumprir, vale o mesmo princípio. A democracia se reapresentou ao mundo em 1787 com a missão de evitar a criação de superpoderes no universo da política com a bandeira de que somente cada indivíduo tinha o direito de escolher o seu modo de alcançar a felicidade e definir o que era ou não “fake” para ele em matéria de pensamentos e crenças, o que lhe deu um impulso inicial brilhante mas não suficiente.

Na virada do século 19 para o 20, refém da corrupção gerada pelo seu principal “defeito de fabricação” que foi a blindagem, ainda que temporária, dos mandatos dos representantes eleitos contra seus eleitores, acrescentou à sua lista de objetivos prioritários, mediante o aparato antitruste que só pôde impor depois de armar a mão do eleitor para dar a palavra final sobre cada ato dos seus representantes, a prevenção da criação de superpoderes também na economia privada, o que pôs em cena o único “estado de bem estar social” que jamais se materializou no mundo real: não o que o socialismo prometia autorizando o governante de plantão a distribuir dinheiro alheio entre seus amigos e correligionários mas aquele que Theodore Roosevelt dotou do moto continuo naturalmente invulnerável à politicagem da limitação da competência para açambarcar mercados pela manutenção obrigatória do grau mínimo de competição necessário em cada setor da economia para obrigar os empreendedores a disputar trabalhadores aumentando salários e consumidores reduzindo preços, com o Estado estritamente no papel de árbitro.

Foi esse o truque simples que fez dos Estados Unidos o que são (estes em que o PIB do estado de Nova York equivale ao do Brasil inteiro e o dos outros 49 estados é “lambuja” e não aquele que nossa imprensa mostra) e propiciou que arrastassem a humanidade inteira atras de si para patamares mais altos de liberdade, afluência e progresso da ciência ao longo de escassos ¾ do século 20 que os alcançados na soma de todas as centenas de séculos anteriores.

Agora quer a horda dos reacionários a volta ao padrão anterior a 1787, com sua igreja ditando o que é e o que não é “verdade” e calando quem discorda na marra em nome da “defesa da democracia”.

FAKE“!

A tergiversação em torno dessa empulhação, do gigantismo das big techs e de todos os seus nefandos corolários explica-se pelos trilhões acumulados pelos modernos robber barons, que engraxam tanto os que correm atras do poder de explorar o próximo pela via da economia quanto os especializados em faze-lo pela da política, muito mais que por qualquer dificuldade técnica para corrigir o rumo e aplicar a elas regulamentos honestos, democráticos e limpos.

É a volta à Idade das Trevas?

2 de agosto de 2021 § 17 Comentários

As três gigantes de tecnologia – Apple, Alphabet (Google) e Microsoft – anunciaram quarta-feira passada um lucro trimestral recorde muito acima do que Wall Street esperava. Amazon e Facebook ainda não divulgaram os seus mas navegam nesse mesmo mar. Elas cresceram explosivamente na pandemia e continuam crescendo explosivamente na pós-pandemia. A expansão exponencial do trabalho remoto e das compras online, da venda das máquinas que dão acesso a esse universo (+50% nas de iPhones), da “propaganda digital” que inclui todos os componentes de espionagem que transformaram a privacidade num doce sonho do passado e ameaçam fazer o mesmo com a democracia (+69% no faturamento dos “anúncios” persecutórios do Google) e dos serviços de suporte a tudo isso na “nuvem” (+50% no Microsoft Azure Cloud Platform) explicam os números. Elas lucraram, em média, US$ 5 bi por semana depois dos impostos, uma soma de US$ 56,8 bi no trimestre, aproximadamente o dobro do que fizeram no mesmo período do ano passado.

Seu poder de corrupção galopa junto com esses números…

No mesmo dia a China anunciou interferência maciça em todos os serviços de educação do país, na sequência de um movimento geral de recrudescimento da repressão a dissidências internas que vão das ações em Hongkong e ameaças a Taiwan ao “genocídio” dos Uigur (como Joe Biden oficialmente o classificou) com “campos de reeducação urbanos” (espécie de condomínios prisionais empilhados) onde já ha mais de um milhão de internados, esterilização em massa das mulheres dessa etnia e, até, como recém apurado pelo NYTimes, a prisão e execução de parentes dos que conseguiram fugir do país.

O anuncio da intervenção generalizada na educação derrubou fortemente as ações de companhias chinesas em Wall Street, começando pelas de educação mas seguindo por uma queda geral das ações chinesas em função da crescente insegurança jurídica que acompanha os sinais que Xi Jimping emite reiteradamente de que já não se interessa tanto em ser considerado “uma economia de mercado”, como um Ocidente sempre rasteiramente ganancioso e politicamente hipócrita apressou-se em fazer contra todos os fatos, pois cresceu e criou dependência suficiente, mundo afora, para achar que já pode baixar na mesa as cartas das suas ambições geo-hegemônicas.

Arrastada por esses macro-movimentos, a periferia vai, aos trancos e barrancos e a partir de um patamar abissalmente mais profundo de falta de proteção social, defesas democráticas e censura generalizada do pensamento, num processo vertiginoso de concentração da riqueza e aprofundamento da miséria. Uma semana antes duas manchetes concomitantes nos jornais brasileiros chamavam a atenção: “Brasil perde quase 30 mil indústrias em 6 anos” e “Arrecadação federal sobe 24,5% e bate recorde”. É a tradução tupi do mesmo fenômeno descrito acima, que resulta de quase meio século de recordes sucessivos de fusões e aquisições de empresas em todos os cantos do mundo.

Cada vez menos gente, faturando cada vez mais, é dona dos meios de produção. E consequentemente, só o Estado, sócio compulsório do Poder Econômico, cresce com essa minoria, ficando a massa crescente dos “proletários” cada vez mais impossibilitada de exercer qualquer direito, a começar pelo de ascensão social e acesso à propriedade como resultado do trabalho (ou seja, livre e independentemente de vassalagem política), num ambiente de monopólios onde ela não pode, nem escolher o patrão, que já não precisa disputa-la aumentando salários, nem escolher os fornecedores, que já não precisam disputa-la reduzindo preços, e depende cada vez mais do socorro estatal.

É esse o resultado do erro crasso dos Estados Unidos e do resto das economias líderes do Ocidente de revogar o sentido antitruste de sua democracia diante do desafio da invasão de seus mercados pelos produtos do capitalismo de estado escravocrata socialista e aceitar combatê-lo “achinezando” o seu mercado de trabalho em vez de taxar o roubo de propriedade intelectual e a ausência de direitos básicos do trabalhador nos produtos autorizados a entrar no seu mercado para favorecer a causa civilizatória na(s) China(s).

No socialismo real, versão redesenhada do absolutismo monárquico agora policiado por computador, toda propriedade pertence ao rei (ou ao dono do partido) e aos barões que se prestarem ao papel de atuar para garantir a invulnerabilidade do rei excluindo da vida econômica os dissidentes, “fator de dissuasão” que, no atacado, é muito mais eficiente que a mera violência física para disciplinar multidões. O mundo, enfim, vai-se “socializando” ao plantar diretamente o resultado final do processo socializante que é concentrar todo o Poder Econômico nas mesmas mãos que detêm todo o Poder Politico, em vez de opor um como moderador do outro, garantida a alternância do Político, como é da receita democrática.

A quebra do paradigma tecnológico foi a pá de cal, não só pelo acesso que deu aos mercados sem consideração de fronteiras, o que tornou impotentes as leis nacionais, como pelo despreparo das instituições democráticas para regulamentar a nova realidade do mundo conectado em rede. Essa é a tarefa que se apresenta agora e para a qual os Estados Unidos começam a despertar com atraso potencialmente fatal. É o mesmo “gap” com que eles se depararam na virada do século 19 para o 20 quando a evolução das técnicas de gestão, que levaram aos “ganhos de escala” na produção industrial (igualmente, na época, à custa da monopolização e do massacre dos salários), viram-se potencializadas pela corrupção política em conluio com a do setor privado proporcionada pela “ferroviarização” do território americano que teve, para a época, o mesmo efeito, guardadas as proporções, que as amazons da vida têm hoje para o pequeno empreendedor: ninguém pode viver sem ajoelhar-se para elas.

Desta vez, porem, o fenômeno é agravado pelo componente adicional da política que, menos ainda, pode viver sem as redes sociais. Estas, embora sejam hoje o que o espaço público foi desde sempre, ainda são reguladas pelas leis das empresas privadas do passado pre-informatizado, o que as isenta de cumprir determinações tão básicas do arsenal de legítima defesa do cidadão contra os tubarões de sempre quanto a Primeira Emenda da constituição americana que garante ao menos voz para todo mundo.

É com um desses dois modelos – o totalitarismo informatizado ou a democracia, sempre correndo atrás das evoluções do crime – que o mundo, cada vez mais inescapavelmente “um só” vai ficar.

Os Estados Unidos terão de reeditar, reescalonadas para termos globais, as suas batalhas antitruste e pelos direitos civis, possivelmente extendendo para o nível federal as ferramentas de democracia direta que deu aos eleitores nos níveis estadual e municipal para passar as reformas da virada do século 19 para o 20 para conseguir safar-se da armadilha e arrastar o mundo com eles como da outra vez, ou o planeta mergulhará numa Idade das Trevas de nos fazer ter saudades daquela em que a outra igreja que queimava “hereges” na fogueira reinou inconteste por quase 1800 anos.

A morte da democracia não dará manchete

14 de janeiro de 2021 § 26 Comentários

As decisões dos últimos dias que, em fulminante sequência, foram em poucas horas do congelamento temporário ao banimento definitivo da conta do presidente eleito dos Estados Unidos da América em todas as plataformas do grupo Facebook, seguido do seu banimento definitivo do Twitter e do Youtube e, finalmente, do desligamento da rede social Parler inteira dos serviços de “cloud computing” da Apple, do Google e da Amazon, assim como à expulsão do aplicativo dessa rede de suas lojas monopolistas, foi sem duvida o maior golpe já assestado contra a democracia em todos os tempos.

Como já tive oportunidade de dizer antes, não vai parar onde já chegou…

O confronto de Donald Trump com a lei democrática referendada pelo povo é supérfluo. A sentença que interessa hoje é a privada, e esta já está passada. As grandes plataformas de internet não estão suficientemente descritas como aquilo que realmente se tornaram na legislação americana ou em qualquer outra de país democrático, mesmo porque tal quantidade de poder acumulado não cabe numa ordem institucional descrita como tal. O regulador, como o marido traído, é sempre o último a saber. O tempo que o Estado leva para entender cada nova configuração do mundo em permanente mudança que ele está mandatado para regular é o espaço que se abre para os “robber baron’s” ocuparem na economia e na política, os dois “nomes artísticos” do Poder, aquele que corrompe sempre e corrompe absolutamente quando é absoluto, que vêm junto com toda grande inovação tecnológica disruptiva. Mas já nem este é mais o caso ha um bom tempo. Essas empresas violam dezenas de leis de todos os países onde estão instaladas sob as vistas grossas da autoridade porque a corrupção que esse hiato entre a realidade e a ação do regulador proporciona, gigante nesta que é a maior de todas as disrupções já vividas pela nossa espécie, trabalha freneticamente no sentido de perpetuá-lo…

A Seção 230 do Telecomunications Act de 1996, contem as famosas “26 palavras que criaram a internet”: “No provider or user of an interactive computer service shall be treated as the publisher or speaker of any information provided by another information content provider” (Nenhum provedor ou usuário de serviços de computação interativos deve ser tratado como o editor ou a fonte de qualquer informação levantada por outro provedor de informações). Ou seja, essa lei estabelece que, no que diz respeito à responsabilidade legal, a internet deve ser tratada como uma banca e não como um editor de jornal. Sem ela seria impossível, por exemplo, qualquer site de critica de restaurantes ou de queixas de consumidores contra o que quer que seja. Essa era a boa intenção a justificar tal lei… 

Mas de boas intenções o inferno está lotado. Em 1996 não estava claro ainda que a mesma rede a quem aquela lei dava, de passagem,  direito de veicular o trabalho de todos os jornalistas do mundo e revende-lo sem pagar-lhes um tostão por isso, e que, empoderando-se politicamente e municiando-se financeiramente com isto, não encontrou mais qualquer obstáculo para transformar-se no canal monopolístico de armazenamento, veiculação e comercialização de todo conhecimento escrito, gravado ou filmado ao longo de toda a história da humanidade, seria a mesma que iria estruturar a totalidade do comércio e da prestação de serviços online, deter o monopólio dos sistemas de pagamento e processamento financeiro de vendas, fornecer as únicas vias existentes de trabalho à distância e o mais que nós já sabemos ou ainda vem por aí. 

Aquela peça de legislação não só propiciou a acumulação em velocidade meteórica da fortuna desses quatro senhores, hoje maior, cada uma delas, que o PIB da maioria dos países do mundo, dispensando-os de qualquer responsabilidade, seja pelo que publicam, seja pelos crimes econômicos que cotidiana e sistematicamente cometem (da exploração do trabalho vil nas chinas da vida ao dumping selvagem em todo o resto do mundo; do roubo sistemático de informações privadas à venda forçada de seus produtos pela obsolescência planejada precoce), como condenou à morte por competição desleal todo tipo de imprensa independente. E, como pá de cal, pôs a perder a efetividade da 1a Emenda da Constituição Americana, que não por acaso é a que abre o segmento conhecido como “Bill of Rights” do documento que, pela primeira vez na história da humanidade, pôs o povo em condições de mandar nos reis.

O congresso (dos representantes eleitos do povo no “governo do povo, pelo povo e para o povo”) não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente…”. Mas os quatro trilionários das redes que animam as imitações do mundo onde realmente se vive hoje em dia podem. Ao manter a definição das “empresas” desses senhores como empresas privadas como outras quaisquer, da-se-lhes o direito, como ao dono da padaria da esquina, de proibir a entrada em seu estabelecimento de gente sem sapato ou qualquer outra forma de discriminação que caiba na lei que lhes der na telha estabelecer como “regra da casa”, aí incluída a sua particular definição de verdade e de mentira.

Se não se origina dentro do Estado, como pela primeira vez é o caso, a força que detém esse poder transforma-se no Estado, isto é, “aquilo que está posto pela força” ou, dito de outro modo, o grupo de homens (porque tudo, sempre, não passa, no fim, de um grupinho de marmanjos) que detém o monopólio do exercício da força e, sendo assim, decide quem continua vivo e quem morre. 

Não me venham com a “discussão filosófica” que essa imprensa aliada ao novo Leviatã – e que a qualquer momento será “cancelada” por um peteleco de algum dos quatro triliardários – quer fazer acreditar que ainda cabe. Essa é uma questão resolvida ha mais de 200 anos. Não existe meio termo que se tenha materializado na História. Ou cada um tem o direito de decidir por si mesmo o que quer ouvir ou não, e de decidir o que é verdade e o que não é, ou será dado a alguém o poder de faze-lo por todos. E como, fatalmente, esse poder dado a quem quer que seja evolui  para o de decretar quem morre e quem continua vivo, a humanidade aprendeu que é melhor dar ao imbecil o direito de publicar sua imbecilidade que ao filho da puta o de decretar quem deve viver ou morrer.

O resto é o de sempre. O grande espetáculo da covardia, da cumplicidade, da sabujice em relação ao poder que fez vomitar os Diógenes de todos os tempos. Por maior que seja o seu poder, os chefes de todas as tiranias da história precisam de uma corte que os aplauda, que os sustente, que os ajude a vigiar e a reprimir o povo que todos ordenham juntos, e compra essa corte com a distribuição de privilégios, ou seja, dando-lhe o direito de sustentar-se do trabalho alheio.

Não ha nenhum grama de honestidade no discurso dessa imprensa que trabalha para por e manter o Leviatã onde está. Democracia é o fim do privilégio. Anti-democracia é a continuação do privilégio. Ponto. Assim como a China ocupou espaço no mercado internacional até tornar-se imprescindível e então mostrar sem mais disfarces o que nunca deixou de ser com Xi Jimping, seu poderio militar, o genocídio Uigur, o estrangulamento de Hongkong, a anexação de Formosa, a ocupação de ilhas do Japão e o mais que está prometido e virá sob o silêncio cúmplice de todos os vendidos aos “negócios da China”, assim também as grandes plataformas da internet. 

A censura vem há anos de ensaio em ensaio. Um “cancelamento” aqui outro ali, “execuções” à Stálin, sempre envergonhadas, mantidas no porão para não repercutir, foram atestando o óbito da liberdade de pensamento de órgão em órgão da imprensa tradicional ao redor do mundo. Nos periféricos primeiro e, na ausência de reação destes, nos próprios órgãos centrais na sequência. Uma vez garantido que a morte da democracia jamais dará manchete, os moleques dos trilhões sentiram-se seguros o bastante para dispensar a máscara pegada à cara.

A ver agora se e como a democracia americana, cuja essência e força estão nos municípios e nos estados, conseguirá vencer a dependência das redes para reagir à altura.

Contra a censura, quae sera tamen

12 de janeiro de 2021 § 12 Comentários

Saiu um editorial contra a censura na imprensa paulistana!

Antes tarde do que nunca!

Foi na Folha. O Estadãozinho, que não pensa, é pensado, mais uma vez ficou para trás…

Eu sou da velha guarda

4 de agosto de 2020 § 76 Comentários

1932
Artigo para O Estado de S. Paulo de 4/8/2020

Na quarta-feira, 29, este jornal publicou o editorial “O papel da AGU” em que toma posição a favor da censura e prisão de blogueiros e jornalistas decretada por Alexandre de Moraes. É o “novo normal”. Nestes tempos de “cancelamentos”, constato que de renomados professores de jornalismo aos seus jovens alunos que aparecem nas TVs restam uns poucos que ainda mostram alguma hesitação em endossar a caçada do STF aos colegas ditos “antidemocráticos”.

Como meu sobrenome continua sendo confundido com as opiniões deste jornal pelas quais sou frequentemente cobrado, recordo aos leitores do presente e aos historiadores do futuro que desde a morte de Ruy Mesquita em maio de 2013 nenhuma linha do que O Estado de S. Paulo publica tem orientação direta ou indireta de qualquer membro da familia Mesquita, com exceção dos artigos assinados eventualmente publicados nesta página reservada às que “não refletem as opiniões do jornal”. Estas estão a cargo de uma equipe contratada pelos administradores do Grupo Estado para prestar-lhes o serviço de opinar e escrever editoriais.

1940: a ocupação de O Estado de S. Paulo

Custou-me uma negociação o “eu” desse título. Sei que vai contra todos os cânones da internet, o Templo Sagrado do Ego, mas disciplinei toda a minha vida profissional para não pensar nem escrever na primeira pessoa. Tinha jornais por instituições e, enquanto foi a mim que coube falar por eles, falava pelo 4º Poder da República e, ainda por cima, num órgão que já vinha “falando” havia três gerações antes de eu existir e, portanto, tinha peso polí­tico e personalidade próprias de que não me sentia no direito de me apropriar, esforçava-me tão somente por interpretar.

Os tempos são outros mas as questões de princípio permanecem as mesmas.

Os anões morais têm especial predileção pela censura. Veremos como o mundo enfrenta a megalomania do nosso e que outro método de intimidação, com todo o peso do Leviatã brasileiro, usará para manter calados uma menina meio tresloucada que gosta de tatuagens e mais dois ou três blogueiros e jornalistas. Seja como for, é uma briga desproporcional o bastante para dispensar a ajuda da imprensa que, ao disputar para apontar ao inquisidor os meios que essas temíveis “ameaças ao estado democrático de direito” encontram para driblar os cala-bocas impostos, assanha-lhe os piores instintos.


JMF, a caminho do exílio, é o 3º em pé da esquerda para a direita.

Já vi esse filme antes. Júlio de Mesquita Filho, meu avô, foi preso 17 vezes e exilado duas pelo Alexandre de Moraes de seu tempo que também era fascista e também se tornou herói da esquerda brasileira (os radicais sempre foram gêmeos idênticos). E não parou nisso como também não vai parar o de hoje. Em 25 de março de 1940, faltando menos de três meses para Getulio Vargas saudar o desfile das tropas nazistas por baixo do Arco do Triunfo da Étoile, em Paris, como “Uma nova aurora para a humanidade…”, discurso desaparecido dos anais mas do qual havia memória viva em minha casa, este jornal foi invadido por soldados de baioneta calada. Dos dois Mesquitas que na época eram, sim, responsáveis pela opinião d’O Estado, o jornalista, Julio, já estava no segundo exílio, fora do Brasil, e seu irmão, Francisco, que guardava a trincheira, saiu dali para a cadeia.

Eis porque quando iniciei formalmente a carreira de jornalista, nos idos de 1974, os editoriais d’O Estado ainda eram redigidos, entre outros profissionais do texto, por comunistas exilados de Portugal pela ditadura de Salazar e abrigados por Julio de Mesquita Filho, morto cinco anos antes. Eles não se afinavam com nenhuma das nossas ideias nem nós com as deles mas trabalhávamos juntos numa boa. Os portugueses aportando vernáculo ao jornalão e o jornalão, na sua inflexível fé democrática, abrigando os perseguidos polí­ticos, prática que se tornara norma sagrada da empresa desde que seus legí­timos donos, ao fim de 15 anos de misérias e perseguições, reouveram o jornal, todos driblando juntos os censores da ditadura seguinte que denunciavam com a publicação de receitas culinárias e versos de Camões no lugar de cada matéria censurada.

1974: censura denunciada

Antes disso, vira esconder em meu quarto de adolescente, na casa de meu pai, jornalistas perseguidos pelo regime militar (editorialistas entre eles). E, já como jornalista “militante”, envolvi-me pessoalmente em articulações para tirar outros da cadeia ou para contrabandear para fora do país meninas doidinhas com a cabeça a prêmio por dar passos além do limite nas suas ações de oposição ao regime, frequentemente com o concurso de uma OAB que, naquele tempo – vejam vocês! – trabalhava para soltar e não para prender perseguidos políticos.

Assim, ainda que seja mais raro a cada dia eu ter certezas, esta, sem nenhum heroísmo, mantenho intacta. A História já me absolveu. Não há exceções. As tiranias se instalam quando o Estado consegue deter pela força o livre fluxo das idéias. As tiranias desmoronam quando a informação volta a circular. Continuo tendo horror à censura. E certeza absoluta da sua malignidade. Fosse por mim este jornal estaria como sempre: contratando os jornalistas “cancelados” e dando guarida a todo e qualquer perseguido polí­tico.

Onde estou?

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