O Brasil precisa começar de novo

15 de outubro de 2020 § 35 Comentários


A libertação de um dos chefes do PCC pelo Supremo Tribunal Federal é mais um caso arquetípico do “empilhamento de erros” que resulta da charada sem solução que a privilegiatura impõe ao favelão nacional: como impedir que se produzam os efeitos obrigatórios da causa da doença nacional … que ela nos proíbe terminantemente de remover.

1a camada:

“Você é contra ou a favor da exigência de 90 dias como limite para prisão preventiva?”, perguntará o jornalista “Rasinho Padrão” ao advogado “Medalhão de Tal” da “Universidade Fulana”, de modo a suscitar a resposta das prisões cheias de gente sem julgamento, o que é uma indignidade neste país que “prende demais”, e coisa, e tal…


Ok, 46% das pessoas trancadas nas prisões brasileiras não foram julgadas e condenadas ainda. Mas não seria porque a verba que os salvaria desse atraso virou lagosta? Ou antes porque não ha punição maior para o servidor do Judiciário que não entrega o que é pago para fazer e ainda nos rouba penduricalhos e mais “a lei armada”, do que a aposentadoria com todos os privilégios?

E essa regra dos 90 dias, como o sistema relapso o bastante para produzir o atraso que se quer remediar poderá ter condições de cumpri-la? Não estaria o “garantista” que, indignado com nossas masmorras, acabou por formulá-la, dando esse murro em ponta de faca exatamente porque não quer nem ousa atacar o problema real que é a impossibilidade de cobrar o que quer que seja do servidor do Judiciário?


2a camada:

Havendo prisão após sentença passada em 2o grau, aquele que encerra a análise de todos os fatos e provas relativos ao crime em julgamento, e confirmado este passo como o “transitado em julgado” que a Constituição requer, como acontece em todo o resto do planeta, gente como Andre do Rap, condenada a mais de 25 anos, não continuaria tecnicamente em “prisão preventiva”. E então o tal prazo de 90 dias poderia ser acionado somente para quem realmente está preso sem julgamento.

Já mantida a jabuticaba do Processo Sem Fim de que vive o especialista “Medalhão de Tal”, a regra dos 90 dias passa a servir para soltar chefes do PCC, o que acaba por criar mais uma pujante industria a ser explorada … pelo funcionário relapso que criou o problema inicial e mais a legião de advogados que passa a depender da continuação da impunidade do ócio dele.


Nenhuma dessas ululantes perguntas jamais será formulada por “Rasinho” porem. “Jornalistão Orgânico”, seu chefe, vive repetindo-lhe o que ele ouve desde a faculdade: você não está aqui para dizer ou perguntar o que pensa mas para ouvir “especialistas” daquelas mesmas universidades. A “Rasinho”, reconfirmado na única verdade que conhece, caberá no máximo fazer caras e bocas concordando com a resposta que encomendou com sua pergunta e, assim, receber o afago de “Jornalistão”.

3a camada:

Já a “Jornalistão”, responsável pela opinião e portanto também pela pauta do jornal, caberia no mínimo lembrar que o mesmo ministro Marco Aurélio que diz que julga tudo “sem olhar a capa do processo”, foi quem criou a regra que o PCC explora, segundo gravações das autoridades prisionais a peso de ouro. O Congresso Nacional, que ainda precisa ser eleito pelo povo, votou a volta da prisão após condenação em 2a Instância depois do “maior assalto a uma nação de todos os tempos”. Mas como no meio do caminho havia um Lula, havia um Lula no meio do caminho, o STF, guardião nomeado vitalício e intocável da privilegiatura, foi acionado e – bingo! – coube ao ministro Marco Aurélio relatar a reinstituição do Processo Sem Fim.


E mais: a tal “Constituição Cidadã”, que nunca foi referendada pelos cidadãos, constitui-se de 250 artigos vagos e contraditórios entre si e de mais de 120 emendas mais confusas ainda, o que explica porque tudo, literalmente tudo, até habeas corpus de traficante, acabe desaguando no STF que, tendo trocentos mil casos para julgar a cada ano, decide 80% deles “monocraticamente”, em cima da perna de cada um dos 11 ou, quando em plenário, obrigatoriamente sob as luzes da televisão em plena era do “tudo por 15 minutos de fama”.

Como esperar, num sistema de injeção direta de combustível em ambições e vaidades em chamas como esse, que não haja corrupção nem que a Justiça vire o deboche que virou?

“Jornalistão”, entretanto, se não é ele mesmo professor das universidades em que bebeu “Rasinho”, é pai, filho, cônjuge ou parente até o 3o grau de quem seja sustentado por este ou por outro canal do Estado. E assim, ou porque nunca pensou diferente, ou porque é calejado o bastante para pagar qualquer preço para que não lhe venham perturbar os “privilégios adquiridos” nesta altura da vida e o Brasil que se dane, argumentará com a Constituição da Porca Miséria, não para abrir a discussão dela própria, que é o que interessa ao País Real que ela mantém travado, mas para encerrá-las todas argumentando que tocar na privilegiatura é ferir o “estado democrático de direito” conforme definido por ela mesma, e “cancele-se” quem disser o contrário.


O reformismo, a alternativa para a esterilidade dos esperneios revolucionários, é a função da imprensa nas democracias. Fazer um jornalismo crítico consiste em por um projeto de Brasil ideal no horizonte e angular a sua cobertura pelo critério de avaliar cada ato da novela nacional por quanto ela o aproxima ou distancia esse projeto.

É exatamente o que tem acontecido. Só que o ideal de Brasil que a imprensa privada banca hoje é o das universidades públicas e não o da classe média meritocrática de cuja sobrevivência depende a sua própria. Pois a imprensa tradicional de Sao Paulo e do Rio de Janeiro que, bem ou mal, ainda pauta o resto do país, trabalha sob o lema “Não penso, sou pensada” … por aqueles a quem acionistas desinteressados do jornalismo entregam a direção editorial dos órgãos e canais de imprensa que receberam como herança e que, como poderosos instrumentos da luta pelo poder que são, nunca são ocupados a esmo.

Nunca chega a entrar em cena, portanto, a 4a camada – a da EFETIVIDADE DA REPRESENTAÇÃO – que é onde está a chave da charada brasileira. A única maneira de se aprender e avançar em política e na arte da construção de instituições é comparando. DEMOCRACIA REPRESENTATIVA, que não tem esse nome por acaso, é o remédio para as doenças do Brasil. Ela consiste em armar a mão do povo para mandar no governo dos seus representantes e não ser mandado por eles. Voto distrital puro, recall, referendo e iniciativa produzem o milagre e, como toda vacina, geram anticorpos tanto nos organismos de quem é quanto de quem não é formado em medicina.

O fulcro da luta política no Brasil de hoje consiste em não deixar o povo saber da existência desse remédio.

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§ 35 Respostas para O Brasil precisa começar de novo

  • Vito Labate Neto disse:

    E pensar que o MAM se apoiou no editorial do Estadão ao procurar justificar o injustificável a quem chamou de grande jornal conservador paulista!!! No fim do ano vai vencer a minha assinatura…

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  • Carmen Leibovici disse:

    A ralé tomou o poder.Antigamente era a ralé perfumada,agora é a ralé fedorenta.
    Não sei como resolver essa equação de poder,francamente.

    Talvez voto distrital puro com recall resolva,mas tenho minhas dúvidas porque o ser humano é porco demais, exceto as exceções,mas as exceções não podem dominar completamente,ou não conseguem,sei lá…

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    • cacarooloss disse:

      Está ralé a que a Sra se refere,deve corresponder à maioria do povo brasileiro.
      Povo inculto,sem modos, grosseiro pobre,que sustenta uma casta de privilegiados. Esta elite brasileira cansa…

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    • Nico Fensterseifer disse:

      Acredito que a pergunta que fica no ar é se a Sra. Carmen se inclui na ralé ou não

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      • Carmen Leibovici disse:

        Eu, obviamente, me incluo entre os seres humanos,mas daqueles que procuram se aprimorar, daqueles que se negam em perder contato com a própria consciência,diferentemente da ralé que nos tem governado.Voce por acaso se identifica com essa ralé com dinheiro defecado mas cuecas ,entre as nádegas,com presidente que se diz messias porém cujos filhos e mulher fazem e/ ou recebem de negociatas espúrias?Entre outras coisas..O que eu disse choca? Pense uai!Depois,eu não sou a questão neste espaço,eu sou uma das que questionam.

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      • Nico Fensterseifer disse:

        Ralé: conjunto de indivíduos pertencentes à camada inferior de uma sociedade; arraia-miúda, plebe, populacho. Quem sou eu para julgar camadas da sociedade. Seu comentário me pareceu preconceituoso. Sua resposta ao meu comentário esclarece um pouco melhor. Talvez o termo “ralé” não fosse o mais adequado, na minha opinião. Se seu objetivo era chocar, parabéns. Conseguiu

        Curtido por 1 pessoa

    • A. disse:

      “Talvez voto distrital puro com recall resolva,mas tenho minhas dúvidas…”
      – Dna. Carmen: NÃO TENHA DÚVIDAS! Voto distrital puro RESOLVE! Não TODOS nossos problemas, mas grande parte deles, e de IMEDIATO! A prova? – Ele sequer é discutido pelos políticos…!
      Abração e bom domingo!

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      • Carmen Leibovici disse:

        A,espero que isso seja uma esperança que venha a se concretizar no Brasil,mas eu queria ressaltar que voto distrital puro em si não adianta nada,o que é importante nisso é o RECALL.O voto distrital puro é apenas um meio para poder implementar o que poderá de fato mudar o Brasil,o recall.Recall para todo e qualquer funcionário público,seja ele temporário,efetivo, político ou administrativo,todos.

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  • Carmen Leibovici disse:

    O Brasil está literalmente chafurdando na merda.Que vergonha MD,que vergonha e degradação!Quem sabe agora que atingimos o fundo do poço emergimos dele com vergonha na cara.Será?Mas esses congressistas parecem imunes a vergonha na cara e parecem querer insistir em chafurdar na merda ,carregando todos nós nela.É um troço surreal,inacreditável.

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    • A. disse:

      Então a senhora tem esse otimismo todo de achar que atingimos o fundo do poço?????? Sempre há um alçapão a ser aberto…

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      • Carmen Leibovici disse:

        A,o pior é que é. É vergonhoso para nós e vergonhoso para nós perante o mundo.Quem há de querer negociar seriamente com um país dessa categoria? Só bandidos iguais.Isso é muito mau mesmo ,para todos nós!

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  • Carmen Leibovici disse:

    Pensando e repensando:a possibilidade do eleitor requerer o recall de qualquer funcionário público,seja ele civil ou militar, efetivo ou comissionado, político ou qualquer outra coisa,é ,de fato,o único meio de desmontar,desconstruir, essa estrutura podre e corrupta de poder estatal que foi sendo solidificada ao longo do séculos. no Brasil

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    • A. disse:

      Dna. Carmen: a sra. tem total razão! Mas não se começa uma corrida pela linha de chegada. Há outras etapas importantíssimas a serem cumpridas (só que aqui elas são compridas…). E com isso nós vamos desistindo de lutar e entregamos o “ouro aos bandidos” de mão beijada! RESISTÊNCIA acima de tudo!!!
      Abraço, ótima semana!

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      • Carmen Leibovici disse:

        Não é fácil , não,mas corremos contra o tempo ,pois tem um extremo ambicioso conquistando mais e mais poder-o” Doriana”-e esse está , perigosamente,vinculando o Brasil a China.Isso vai dar em miséria miserável para todos.Doriana é figura a se temer no atual momento político.Ele pode vir a nós desgraçar com sua desmedida ambição.Ele parece capaz de tudo.

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  • GATO disse:

    E o Favelão Nacional está com um síndico igual ao do filme “Apertem os cintos que o piloto sumiu ” enquanto o cidadão não comparecer as assembleias do condomínio, tudo vai continuar como dantes, com 1/100 dos votos tudo é aprovado, cadê os outros 99? Então rezem…….

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