O Brasil precisa começar de novo

15 de outubro de 2020 § 35 Comentários


A libertação de um dos chefes do PCC pelo Supremo Tribunal Federal é mais um caso arquetípico do “empilhamento de erros” que resulta da charada sem solução que a privilegiatura impõe ao favelão nacional: como impedir que se produzam os efeitos obrigatórios da causa da doença nacional … que ela nos proíbe terminantemente de remover.

1a camada:

“Você é contra ou a favor da exigência de 90 dias como limite para prisão preventiva?”, perguntará o jornalista “Rasinho Padrão” ao advogado “Medalhão de Tal” da “Universidade Fulana”, de modo a suscitar a resposta das prisões cheias de gente sem julgamento, o que é uma indignidade neste país que “prende demais”, e coisa, e tal…


Ok, 46% das pessoas trancadas nas prisões brasileiras não foram julgadas e condenadas ainda. Mas não seria porque a verba que os salvaria desse atraso virou lagosta? Ou antes porque não ha punição maior para o servidor do Judiciário que não entrega o que é pago para fazer e ainda nos rouba penduricalhos e mais “a lei armada”, do que a aposentadoria com todos os privilégios?

E essa regra dos 90 dias, como o sistema relapso o bastante para produzir o atraso que se quer remediar poderá ter condições de cumpri-la? Não estaria o “garantista” que, indignado com nossas masmorras, acabou por formulá-la, dando esse murro em ponta de faca exatamente porque não quer nem ousa atacar o problema real que é a impossibilidade de cobrar o que quer que seja do servidor do Judiciário?


2a camada:

Havendo prisão após sentença passada em 2o grau, aquele que encerra a análise de todos os fatos e provas relativos ao crime em julgamento, e confirmado este passo como o “transitado em julgado” que a Constituição requer, como acontece em todo o resto do planeta, gente como Andre do Rap, condenada a mais de 25 anos, não continuaria tecnicamente em “prisão preventiva”. E então o tal prazo de 90 dias poderia ser acionado somente para quem realmente está preso sem julgamento.

Já mantida a jabuticaba do Processo Sem Fim de que vive o especialista “Medalhão de Tal”, a regra dos 90 dias passa a servir para soltar chefes do PCC, o que acaba por criar mais uma pujante industria a ser explorada … pelo funcionário relapso que criou o problema inicial e mais a legião de advogados que passa a depender da continuação da impunidade do ócio dele.


Nenhuma dessas ululantes perguntas jamais será formulada por “Rasinho” porem. “Jornalistão Orgânico”, seu chefe, vive repetindo-lhe o que ele ouve desde a faculdade: você não está aqui para dizer ou perguntar o que pensa mas para ouvir “especialistas” daquelas mesmas universidades. A “Rasinho”, reconfirmado na única verdade que conhece, caberá no máximo fazer caras e bocas concordando com a resposta que encomendou com sua pergunta e, assim, receber o afago de “Jornalistão”.

3a camada:

Já a “Jornalistão”, responsável pela opinião e portanto também pela pauta do jornal, caberia no mínimo lembrar que o mesmo ministro Marco Aurélio que diz que julga tudo “sem olhar a capa do processo”, foi quem criou a regra que o PCC explora, segundo gravações das autoridades prisionais a peso de ouro. O Congresso Nacional, que ainda precisa ser eleito pelo povo, votou a volta da prisão após condenação em 2a Instância depois do “maior assalto a uma nação de todos os tempos”. Mas como no meio do caminho havia um Lula, havia um Lula no meio do caminho, o STF, guardião nomeado vitalício e intocável da privilegiatura, foi acionado e – bingo! – coube ao ministro Marco Aurélio relatar a reinstituição do Processo Sem Fim.


E mais: a tal “Constituição Cidadã”, que nunca foi referendada pelos cidadãos, constitui-se de 250 artigos vagos e contraditórios entre si e de mais de 120 emendas mais confusas ainda, o que explica porque tudo, literalmente tudo, até habeas corpus de traficante, acabe desaguando no STF que, tendo trocentos mil casos para julgar a cada ano, decide 80% deles “monocraticamente”, em cima da perna de cada um dos 11 ou, quando em plenário, obrigatoriamente sob as luzes da televisão em plena era do “tudo por 15 minutos de fama”.

Como esperar, num sistema de injeção direta de combustível em ambições e vaidades em chamas como esse, que não haja corrupção nem que a Justiça vire o deboche que virou?

“Jornalistão”, entretanto, se não é ele mesmo professor das universidades em que bebeu “Rasinho”, é pai, filho, cônjuge ou parente até o 3o grau de quem seja sustentado por este ou por outro canal do Estado. E assim, ou porque nunca pensou diferente, ou porque é calejado o bastante para pagar qualquer preço para que não lhe venham perturbar os “privilégios adquiridos” nesta altura da vida e o Brasil que se dane, argumentará com a Constituição da Porca Miséria, não para abrir a discussão dela própria, que é o que interessa ao País Real que ela mantém travado, mas para encerrá-las todas argumentando que tocar na privilegiatura é ferir o “estado democrático de direito” conforme definido por ela mesma, e “cancele-se” quem disser o contrário.


O reformismo, a alternativa para a esterilidade dos esperneios revolucionários, é a função da imprensa nas democracias. Fazer um jornalismo crítico consiste em por um projeto de Brasil ideal no horizonte e angular a sua cobertura pelo critério de avaliar cada ato da novela nacional por quanto ela o aproxima ou distancia esse projeto.

É exatamente o que tem acontecido. Só que o ideal de Brasil que a imprensa privada banca hoje é o das universidades públicas e não o da classe média meritocrática de cuja sobrevivência depende a sua própria. Pois a imprensa tradicional de Sao Paulo e do Rio de Janeiro que, bem ou mal, ainda pauta o resto do país, trabalha sob o lema “Não penso, sou pensada” … por aqueles a quem acionistas desinteressados do jornalismo entregam a direção editorial dos órgãos e canais de imprensa que receberam como herança e que, como poderosos instrumentos da luta pelo poder que são, nunca são ocupados a esmo.

Nunca chega a entrar em cena, portanto, a 4a camada – a da EFETIVIDADE DA REPRESENTAÇÃO – que é onde está a chave da charada brasileira. A única maneira de se aprender e avançar em política e na arte da construção de instituições é comparando. DEMOCRACIA REPRESENTATIVA, que não tem esse nome por acaso, é o remédio para as doenças do Brasil. Ela consiste em armar a mão do povo para mandar no governo dos seus representantes e não ser mandado por eles. Voto distrital puro, recall, referendo e iniciativa produzem o milagre e, como toda vacina, geram anticorpos tanto nos organismos de quem é quanto de quem não é formado em medicina.

O fulcro da luta política no Brasil de hoje consiste em não deixar o povo saber da existência desse remédio.

Um ministro à beira de um ataque de nervos

14 de outubro de 2020 § 23 Comentários

Não é atoa que Marco Aurélio Mello tem ataques e bate o telefone na cara de repórteres que lhe perguntam, em entrevistas ao vivo no rádio, como aconteceu ontem na estréia da rádio da CNN, se ele “tinha conhecimento” de que o pedido de habeas corpus para Andre de Oliveira Macedo, o Andre do Rap, vinha do escritório do assessor que ele empregava até dezembro do ano passado.

Ana Luisa Gonçalves Rocha, a advogada que conseguiu o habeas corpus (HC) do ministro Marco Aurelio Mello que soltou o chefão do PCC em São Paulo, é sócia de Eduardo Ubaldo Barbosa, ex-assessor do ministro. A Folha de São Paulo, depois da Revista Crusoé, apurou que Diego Monteiro dos Santos, outro advogado, protocolou outro HC no mesmo dia 23 de setembro, 12 minutos depois do de Ana Luisa dar entrada. No dia seguinte, sem apresentar justificativas, Diego desistiu de seu HC. A peça fazia referência a decisão anterior de MAM, de 6 de agosto, que derrubou outra prisão preventiva contra Andre do Rap.

Em 6 de outubro, MAM deferiu o HC que soltou Andre do Rap. Quatro dias depois o alvará de soltura foi executado e ele sumiu do mapa. “Fugiu pela porta da frente de roupa branca”, segundo um agente prisional paulista para reforçar gíria de deboche que corre na prisão, “sem precisar sujar a barriga”.

Gravações da policia de SP mostram que Andre do Rap vivia dizendo que “não passaria o Natal na cadeia”. Antes do alvará de soltura já havia registro de que seu plano era seguir para Maringá e de lá saltar para fora do Brasil.

Em conversas monitoradas outros bandidos do PCC presos mencionam a “agilização” de pedidos de soltura por um ministro do Supremo cujo nome não mencionam, mas que “se aposentaria em 2021”. Em 12 de junho próximo MAM completará 75 anos e será compulsoriamente aposentado. 

Entre os diálogos mais importantes está um que envolve o traficante Valter Lima Nascimento, o Guinho, preso em setembro de 2019 e condenado a 20 anos. Está ligado a esquema internacional de tráfico liderado por Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, peso em abril de 2020 em Moçambique. Nas conversas gravadas no início deste ano ele indicava a necessidade do pagamento de 3 milhões para impetrar um HC no STF. Outros criminosos do PCC aconselham Guinho a gastar esse dinheiro porque “vale a pena”.

Em 14 de abril deste ano MAM concedeu a liminar mandando soltar esse preso. Usou na argumentação o mesmo artigo 316 do Código de Processo Penal (revisão da preventiva a cada 90 dias no país em que ação de quem tem dinheiro não “transita definitivamente em julgado” nunca). A decisão, porém, foi derrubada pela 1a Turma do STF com acordão de Alexandre de Moraes, vencidos os votos de MAM, relator, e Dias Toffoli.

Além de Guinho, MAM mandou soltar outros criminosos ligados ao PCC como Moacir Levi Correia, o Bi da Baixada, condenado a 29 anos, 3 meses e 16 dias por associação criminosa e duas tentativas de homicídio, também por “excesso de prazo de prisão sem sentença condenatória definitiva”.

Pelo menos outros dois criminosos ligados ao PCC, Robson Godoy da Silva, assaltante de carros-fortes, e Odemir Francisco dos Santos, o Branco, também conseguiram HC’s de MAM em 2019.

Será sem duvida emocionante a seção do plenário do STF que vai examinar o lance agora à tarde. Mesmo que os intocáveis continuem como estão, pode morrer aí o plano do lulismo, que Bolsonaro reanimou com o seu Kassio com K, de revogar definitivamente a prisão após condenação em 2a Instância que nos jogaria de volta para o lado certo da cerca que divide a civilização da barbárie.

9 de outubro de 2019 § 7 Comentários

O Instituto Anjos da Liberdade, ligado ao PCC, pagou advogados q patrocinaram representação de deputado do PT enviada a Raquel Dodge pedindo anulação de condenações tisnadas pela amizade entre Moro e Dallagnol. A razão do PT, obviamente, é “aperfeiçoar a democracia”. E a do PCC?

O Brasil só tem conserto por inteiro

12 de janeiro de 2017 § 27 Comentários

br3Artigo para O Estado de S. Paulo de 12/1/2017

Não nos deu nem 24 horas de ilusão este 2017!

Passados 25 anos do Carandiru, eis-nos “evoluidos” para o massacre anárquico e randômico entre iguais. Não ha mais autoridade estabelecida, nem dentro da hierarquia desse estado que engole a chantagem corporativa sem piar onde tudo eventualmente se afoga em dinheiro, nem nos territórios livres dos presídios “de segurança máxima” de que ele acaba trancado para fora onde tudo eventualmente se afoga em sangue.

São as duas faces de uma mesma moeda. O crime organizado é a objetividade ultra-radicalizada. Os caminhos entre decisão e execução são diretos e retos como a trajetória das balas. O Estado brasileiro refem das corporações do funcionalismo é a ultima expressão de um jogo de sombras multicentenário. Nada ali é o que parece; cada passo de cada processo é um Everest a ser vencido.

Um não é páreo para o outro.

O terreno sempre foi fértil. Menos de 2% dos assassinos têm sido julgados e condenados no país dos 60 mil homicídios por ano. O crime máximo, o crime irreversível, a desgraça irremediável repete-se 164 vezes por dia 365 vezes por ano mas para os seus autores ha sempre remédio. Eles estarão de volta às ruas em 5 ou 6 anos em média. 70% voltarão para o cárcere depois de matar e desgraçar irremediavelmente outra vez mas o estado que não consegue habilitar as crianças que se lhes entrega virgens seguirá impávido, tomando como exclusiva a “vocação reabilitadora” dos tugúrios aos quais recolhe suas bestas feras.

br4

Prendemos muito e mal” ou soltamos muito e mal? Enquanto debatemos essa momentosa questão os 98% de assassinos impunes tratam de se impor ao nosso favelão continental pelo marketing da brutalidade. No Brasil Real que não sai no jornal não se tem ou deixa de se ter razão. Esta-se vivo ou esta-se morto.

Nesse meio tempo o mundo foi e nós ficamos. O PT cozeu o estado à faca e deu a mão às FARC. “La revolución” saltou do Caribe para as selvas da Colômbia, rolou Solimões abaixo, subiu os morros de fuzil na mão e agora jaz, aos pedaços, nas caçambas do IML. O poder da droga é filho da droga do poder. Do pacotinho do morro para as festas dos “famosos” o nosso estado imunodeficiente à corrupção, blindado contra a deseleição e aparelhado por um funcionalismo eternamente “estável”, único fiscal de si mesmo, ensejou o salto para a condição de “hub” global de distribuição de “commodities” alcalóides e fornecimento de armas para o Oriente Médio. E se a família está na droga; se não ha certo nem errado; se não é clara a linha que separa o direito à diferença da dissolução, não ha limite. O tamanho da brutalidade é o tamanho do poder que se disputa. Narcos mexicanos, Estado islâmico … são estes os tempos…

br4

Aqui fora é difícil definir quem está preso, quem está solto mas salvação mesmo só pelo silêncio, sob as asas da facção ou … pelo concurso público. Todo mundo sabe; ninguém diz. Nós normalizamos a anormalidade. Esse nosso modo tão renitentemente decidido de esquartejar a “narrativa” do nossa drama é mais sinistro que os fatos. Tudo parece sempre estar desligado de tudo. No Congresso segue imperturbavel o comércio com que se disputa a prerrogativa de presidir a venda de indulgência plenária às agruras da competição mundial e da insegurança econômica que mantem todos os que não alcançam uma no inferno. Os doutos juristas das nossas cinco justiças de recursos sem fim cobram o “devido processo legal” especificamente desenhado para não ter fim, todo ele “transitado em julgado”, para tirar o crime das ruas. Os advogados “progressistas” clamam contra a desumanidade da superlotação das prisões mas criminalizam (sim, cri-mi-na-li-zam!!!) a advocacia “pro bono” e só se movem por dinheiro. As unidades “da federação”, criadas nem pela história, nem pela economia, mas pela cissiparidade do agente patológico que nos parasita a política, afastam de si os cálices sucessivamente esvaziados e balem por mais. Não ha R$ 10 bilhões para deter o horror. Mas entre a “impopularidade” da guerrinha televisionada da porta da Assembleia Legislativa do Rio em defesa dos 70% de aumento real arrancados à miséria do Brasil e os banhos de sangue nas prisões dos estados falidos não ha um minuto de hesitação. O poder sabe quem tem a força. Com 100 presos despedaçados e 12 milhões de empregos ainda insepultos, lá vai 53% de aumento “por produtividade” aos estranguladores de empresas da Receita Federal e da “Justiça do Trabalho”, a guarda pretoriana do “Custo Brasil”. E com escárnio, batendo o pau na mesa: “Mesmo para os aposentados; mesmo para os pensionistas”!

br4

Já é muito tarde e pode ser tarde demais. O Brasil só tem conserto por inteiro. Nada entrará nos eixos a menos que tudo entre nos eixos. O estado não conseguirá entrar nas penitenciárias dominadas pelo crime se não conseguir entrar nos enclaves corporativos que mantem indevassáveis. Não ha como instilar-lhe fucionalidade sem impor-lhe a lei do merecimento. Não ha como impor-lhe a lei do merecimento sem o fim da estabilidade perpétua.

Não se restabelecerá a segurança publica, dentro e fora dos presídios, antes que se restabeleça a segurança economica e não se restabelecerá a segurança economica antes que se estabeleça a igualdade perante a lei.

O Brasil não se redimirá substituindo pessoas dentro do “sistema”. É preciso colocar o “sistema” inteiro sob nova direção. Inverter os vetores de todas as forças que atuam sobre ele. Reconstruir a partir do zero a cadeia de cumplicidades que o põem em movimento.

A lei não imperará sobre os que hoje isenta a menos que deixe de ser escrita e executada exclusivamente por eles. A chave comutadora está na conquista dos direitos de referendo das leis dos legislativos (para confirma-las ou rejeita-las) e “recall” (“cassação”, “retomada”) dos mandatos eletivos por iniciativa popular a partir da instância municipal e dela para cima.

Só a dependência inverte a cadeia das lealdades e põe todos os interesses apontados para a mesma direção. O resto é poesia.

br4

 

Sabe com quem cê tá falando?

27 de maio de 2014 § 6 Comentários

a1

Você pode nem se ter dado conta. Mas entre a quarta-feira e o sábado passados rolou na quase surdina que é o dado que mais terminantemente define a profundidade do drama que o Brasil está apenas começando a viver, uma dessas histórias que explicam como e porque este país mergulhou tão profundamente no estado de anomia e prostração moral em que parece estar condenado a purgar seus pecados sabe-se lá por quantos anos pela frente ainda.

76 ônibus incendiados depois, alguns deles com gente dentro, inclusive crianças, São Paulo e outras 16 cidades da insana mancha urbana em que esta megalópole se transformou viveram, naqueles dias, os maiores congestionamentos de trânsito de toda a sua história com mais de 2 milhões de trabalhadores forçados a voltar para suas casas a pé, em longas marchas sob a chuva, enquanto pipocavam nos jornais, em sequência aparentemente absurda, as notícias dando conta de acordos salariais firmados entre sindicatos e empresas de ônibus seguidos de “greves” e depredações dos carros dessas mesmas companhias.

a1Da esquerda para a direita, Luiz e Senival Moura e “Pad”: “Parabéns a você”

Foi no meio desse tiroteio, com o prefeito Fernando Haddad acusando a polícia do governador Alkmin de não agir contra os depredadores, que a imprensa “teve acesso” a um documento bombástico: o Boletim de Ocorrência (BO) de 17 de março passado lavrado pela 6a Delegacia de Polícia de Investigações sobre Facções Criminosas e Lavagem de Dinheiro dando conta do flagrante dado no deputado estadual Luiz Moura, do PT de São Paulo, umbilicalmente ligado ao Secretário Municipal de Transportes Jilmar Tatto, numa reunião para “ajuste de condutas” com 13 membros do PCC a facção que comanda o crime organizado em todo o Brasil a partir de presídios paulistas, e mais 26 indivíduos ligados aos sindicatos e “movimentos sociais” envolvidos com o transporte público em São Paulo na sede da Cooperativa Transcooper, de “perueiros” e afins, comandada pelo ilustre deputado.

Irmão do vereador Senival Moura, também do PT, que é fundador e presidente do Sindilotação e presidente da Comissão de Trânsito e Transporte, Lazer e Gastronomia (!!) da Câmara Municipal de São Paulo, Luiz Moura vem a ser um ex-presidiário recolhido a uma penitenciária do Paraná em 1990 por flagrantes de assalto à mão armada – nada que a presidente Dilma também não tenha feito nos bons tempos – para cumprir a pena de 12 anos e meio de prisão a que fora condenado.

a12

Menos de um ano e meio depois, porém, Luiz Moura fugiu da prisão e passou os 10 anos seguintes na clandestinidade como foragido da polícia – nada, outra vez, que gente como o ex-ministro da casa Civil de Lula, José Dirceu, não tenha feito também.

Nesse período começou a trabalhar como “perueiro” e a construir, junto com o irmão, o que viria a ser um futuro brilhante.

Tudo começou quando Marta Suplicy se tornou prefeita de São Paulo na eleição de 2000. O primeiro “abacaxi” que ela teve de descascar foi o problema dos “perueiros” clandestinos que competiam deslealmente com os concessionários de transporte licitados pela Prefeitura e que viviam fazendo acampamentos e malcheirosas “sardinhadas” na porta do Palácio das Indústrias, de onde, na época, madame “prefeiturava”, enquanto ela lhes ofereceu resistência.

Com o tempo, o modo petista de encarar as coisas foi prevalecendo. A “culpa” por tudo, claro, era da “política econômica de desemprego do governo Fernando Henrique” o que levou a prefeita Marta Suplicy a cooptar os “perueiros” e, assim, animá-los a se transformar num problema crônico.

a11

Foi dentro desse contexto que o então foragido da penitenciária, Luiz Moura, apresentado à prefeita por Jilmar Tatto, fez por merecer tornar-se o homem de confiança de sua excelência para “resolver” a crise.

Mas cessa exatamente aí a hipótese de ausência de dolo na relação que, a partir de então, estabeleceu-se entre este senhor e o PT. Que Marta não conhecesse suas relações com o PCC e nem sua ficha na policia e tivesse aceitado sem saber a “ajuda” de alguém pertencente a uma organização que apoia seu sistema de poder na forma implacável como assassina quem lhe oferece qualquer resistência num momento de desespero para serenar um conflito que se estendeu por mais de dois anos de seu governo, vá lá.

Mas não foi isso que aconteceu.

Encarregado pela prefeitura, Luiz Moura, com os métodos que fazem do PCC o mais temido criminoso entre os criminosos do país inteiro, passou a “organizar” os perueiros independentes – que, naquele momento eram realmente desempregados a procura de um “bico” – em “cooperativas”.

Na verdade esses independentes eram – e continuam sendo até hoje, segundo investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público – forçados a “aderir” às cooperativas que ficam donas de seus carros e das quais se tornam empregados, na maioria das vezes em “transações” que sequer envolvem papéis. Quem descumpre o que lhe foi imposto ou fala no assunto aparece invariavelmente trucidado a tiros, o que produz o terror que dificulta as investigações do que mais se passa nesse submundo.

a8

Desde então todo o segmento de transporte público de São Paulo e outras capitais brasileiras – por onde corre dinheiro muito grosso e é fácil desviar fundos para campanhas eleitorais – vem sendo tomado pelo crime organizado. A disputa pelos sindicatos do setor em São Paulo é conhecida pela truculência. 16 candidatos já foram assassinados. 18 diretores do Sindicato de Funcionários de Ônibus foram detidos por enriquecimento ilícito e formação de quadrilha, entre eles os dois que disputaram a última eleição, Isao Hosogi e José Valdevan de Jesus, o vencedor.

Em 2006, quarto ano do PT no poder federal, final do primeiro mandato de Lula e véspera da disputa presidencial entre ele e Geraldo Alkmin, com Cláudio Lembo recém chegado ao Palácio dos Bandeirantes para substituir o candidato do PSDB e Marta Suplicy pré-candidata ao governo de São Paulo, comandos do PCC começaram, do nada, a assassinar policiais por toda a cidade com requintes revoltantes de violência e acinte contra suas famílias e os poderes constituídos até conseguirem instalar uma guerra aberta que colocou a maior cidade do país em virtual estado de sítio.

Coincidentemente, na época, o maior trunfo eleitoral do governador Alkmin eram os números da segurança pública. Ele tinha conseguido baixar em 80% o numero de assassinatos em São Paulo, fato que foi cuidadosamente sonegado à opinião pública brasileira pela imprensa até se tornar finalmente mais “badalado” quando, ha menos de dois anos, o feito, inédito no mundo, acabou sendo saudado e recebendo um prêmio especial da ONU.

a6

Nesse mesmo ano de 2006, a vida de Luiz Moura começou a mudar. Orientado por bons e poderosos amigos ele assinou, em 2005, um “atestado de pobreza” para comprovar que não tinha vivido do produto dos assaltos que praticou (declarou uma renda anual de R$ 15.859,00), e conseguiu “reabilitação na Justiça por bom comportamento tanto público como privado” (aferido nas ruas?!!), com apagamento de toda a sua ficha pregressa e dos anos de prisão não cumpridos. Os pormenores desse processo que resume bem no que se transformou o Brasil podem ser encontrados neste link http://veja.abril.com.br/PDF/reabilita.pdf.

De lá para cá a Transcooper, a sua “cooperativa” pessoal com sede em Itaquera tornou-se detentora de concessões para a exploração de transporte público em três áreas da Zona Leste da cidade que lhe renderam, só nos últimos três anos, um faturamento de R$ 1,8 bilhão.

Em 2010, quando candidatou-se a deputado estadual pelo PT, a vida de Luiz Moura já tinha virado outra. Ele declarou ao Tribunal de Contas a posse de 11 propriedades e participações em empresas de transporte público e redes de postos de gasolina num valor total de R$ 5.125.587,00!

Ele enriqueceu rápido como um raio e sem medo do famigerado computador da Receita Federal igual ao da Nasa capaz de detectar qualquer centavo “suspeito” em circulação no Brasil…

a3

Mesmo com todo esse dinheiro no bolso, entretanto, o atual secretário de Transportes, Jilmar Tatto, cuja família se fez na “política” incentivando invasões nas margens de Guarapiranga e trocando por votos as posteriores regularizações das áreas invadidas, fez questão de se apresentar como o maior doador individual da campanha eleitoral de Luiz Moura, com R$ 201 mil. Outra que fez doações foi Marta Suplicy, com R$ 35 mil.

Hoje, segundo o Gaeco, há provas conclusivas de que quatro das nove cooperativas de transporte em operação em São Paulo pertencem ao PCC. Sobre as outras cinco só ha indícios. Senival Moura, irmão de Luiz, tornou-se o vereador mais votado do PT e a “Bancada do PCC” na Câmara Municipal de São Paulo inclui pelo menos quatro, possivelmente cinco membros perfazendo 10% do total. Luiz, ele mesmo, dá expediente na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

Em março deste ano, finalmente, sua excelência, cujo sítio de internet ironicamente abre-se sob o dístico “2014, Ano de Muita Paz” foi flagrada “ajustando condutas” com nada menos que 13 membros da cúpula do PCC, entre os quais o famigerado assaltante do Banco Central no Ceará (R$ 164,8 milhões), Carlos Roberto Maia, o Carlinhos Alfaiate, foragido da Justiça. Só dois dos membros do PCC capturados nessa ocasião mantinham vínculos formais com cooperativas e empresas de transportes públicos. Os outros 11 não. Estavam lá apenas e tão somente na condição de membros graduados da organização criminosa.

a2

Foi em função desse “ajuste de condutas” que a organização padronizou o esquema que tem paralisado São Paulo. Como o controle dos sindicatos e cooperativas do setor é o que está em disputa a ação se dá na sequência dos acordos salariais celebrados entre eles e as empresas visadas. Uma moto com um carona encosta na janela do motorista do ônibus, aponta-lhe uma arma para a cabeça, eventualmente manda os passageiros descerem, e a dupla incendeia o ônibus (possivelmente os dos concorrentes que mais lhes resistem) ou simplesmente, com mais brandura, retalha os pneus a faca depois de atravessar o veículo na rua para fechar a passagem, forçando assim as “greves” que nem os trabalhadores nem os sindicatos desejam e de que tanto o prefeito do PT quanto o governador do PSDB ficam loucos para se livrar.

Poucos dias depois do flagrante da polícia na Transcooper cabe registrar, Luiz Moura fez aniversário comemorado numa festança comandada por ninguém menos que o ex-ministro da Saúde e candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha (foto lá encima), aquele que era carinhosamente chamado de “Pad” nos telefonemas gravados pela polícia federal entre o “líder” André Vargas, do PT, e o doleiro Youssef para tramar o roubo de dinheiro da saúde dos pobres em escala suficiente para “garantir a independência financeira” de ambos. Conversas captadas, diga-se de passagem, nos mesmos “grampos” da Polícia Federal que registraram as falcatruas dos ladrões da Petrobras que o ministro amestrado de dona Dilma no STF mandou soltar da prisão.

a18Sobre Lula e as FARC, procure esta revista colombiana no Google

Quem ainda não sabe com quem está falando quando fala com o PT no Brasil, portanto, não sabe rigorosamente porque não quer.

A violência, a corrupção e o crime sempre foram o caldo de cultura no qual se criou a escória do peleguismo sindical que é o que sobrou do partido que hoje governa o Brasil conforme a receita prescrita por Getulio Vargas apud Juan Domingo Perón e Benito Mussolini. Os sindicatos são criados do nada para mamar na teta do imposto sindical e servir os donos do poder e as “eleições por aclamação” pela posse desses sacos sem fundo sempre foram disputadas pelos mesmos métodos com que o PCC disputa o controle de celas e penitenciárias país afora, os mesmos agora empregados na disputa dos pedaços do “território” privativo que o PT parece ter reservado tacitamente a mais este aliado — o dos transportes públicos — exatamente como fez com o resto das fatias em que picou o Brasil que entregou a outros criminosos de métodos um pouco menos primitivos.

As relações com o crime organizado do partido que inaugurou a jornada nacional da sua marcha para solapar o regime republicano no Brasil com o assassinato de Celso Daniel  não são propriamente novidade.

a15

13 tiros no rosto, furando antes as mãos que a vítima estendeu na direção de seus executores no pânico da morte foi o primeiro sinal do que viria, mas isso era coisa desde sempre previsível à qual o Brasil, enquanto ainda são, intuitivamente resistiu por quatro disputas presidenciais seguidas. Afinal, o PCC é só a feição mais recente que assumiu a organização do crime no Brasil que começou, como se sabe, com as “aulas” ministradas a criminosos comuns perigosos por terroristas da “luta armada” dos anos 70, alguns dos quais hoje governam o Brasil, nos mesmos presídios e celas em que foram ambos encerrados pelo regime militar.

As notórias relações do partido com as FARC, a guerrilha colombiana que se apossou do grosso da produção e do tráfico de cocaína em toda a América Latina e dela para o mundo, assim como os ingentes esforços do partido para impedir ações afirmativas internacionais e dar tempo a todo e qualquer genocida em ação no mundo para completar sua obra de extermínio físico de toda e qualquer oposição são a face internacional dessas “afinidades eletivas” e dessas fronteiras sempre difusas entre o lulopetismo e o crime.

Os fatos que o indicam se têm sucedido com tanta regularidade que qualquer sujeito que não tenha sido lobotomizado já considerou a altíssima probabilidade de que tão impressionante série de coincidências entre as ações do PCC e outras organizações criminosas e os interesses do PT e seus aliados internacionais possam não ser fruto de mero acaso.

a19

Que dirá o profissional da desconfiança que deve ser o jornalista digno desse nome!

E no entanto, embora todos os jornais e TVs brasileiras mantenham plantonistas e informantes dentro das principais delegacias de polícia, ou comuniquem-se diariamente com os palácios de governo, inclusive o dos Bandeirantes, obviamente interessado em que essa informação chegasse ao público, foi preciso que o secretário de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo, Marcio Aith, dissesse ao vivo, no programa do Datena, da Rede Bandeirantes, durante uma altercação com Jilmar Tatto, o que constava do Boletim de Ocorrências que registrou as intimidades do deputado Luiz Moura com os chefões do PCC em plena guerra dos ônibus para que o assunto viesse finalmente a público.

Mesmo assim, os únicos órgãos da imprensa paulista a darem sequência ao caso no dia seguinte com o merecido destaque foram a Folha de São Paulo e o segmento eletrônico da Veja na coluna de Reinaldo Azevedo. O Estado de S. Paulo e as Organizações Globo como um todo fingiram que não sabiam de nada.

A Globo continua fingindo que não sabe de nada até hoje. A direção de redação do Estado acabou por registrar laconicamente os acontecimentos só no sábado, mas tomando o cuidado de fabricar mais uma manchete com o famigerado “caso Alstom”, esta perigosa ameaça contra a continuação da democracia no Brasil, para fazer-lhe a devida sombra.

E desde então esse assunto tão pouco jornalístico e irrelevante para o futuro da nacionalidade — a saber, as íntimas relações oficiais entre o partido que governa o Brasil e o “partido” que governa o crime organizado no Brasil — saiu da pauta de todos.

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O PT vem ostensivamente desmontando instituição democrática por instituição democrática do país e colocando títeres de quem exige compromissos públicos de fidelidade canina como condição para a nomeação à frente de cada instrumento de controle do Poder Executivo certamente não porque queira prolongar a vida da democracia brasileira, mas a maior parte da imprensa brasileira faz o melhor do seu esforço para evitar que a opinião pública se aperceba disso.

O Brasil chega, portanto, às vésperas de uma eleição que pode ser a última muito mais graças à irresponsabilidade dos donos de redes de televisão e empresas jornalísticas que não têm nenhuma familiaridade com a profissão e vêm a imprescindível função institucional da imprensa nas democracias, ou como um incômodo empecilho, ou como uma ferramenta para se locupletarem, do que por uma real competência do PT na arte de enganar a todos o tempo todo.

O PT é o que é. Quem está lesando a pátria é quem tem, por ação ou por omissão, insistido em manter-se conivente, seja com sujeitos disfarçados de editores que dão provas diárias de que não passam de falsificadores de fatos, seja com idiotas ineptos ocupando postos críticos do sistema imunológico da democracia brasileira — do qual a imprensa é o elemento-chave — no momento em que ela passa pela mais grave ameaça de sua curta história de ser tomada por um microrganismo mortífero.

A alternativa é irelevante. Nenhuma das duas atitudes é perdoável.

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