Um ministro à beira de um ataque de nervos

14 de outubro de 2020 § 23 Comentários

Não é atoa que Marco Aurélio Mello tem ataques e bate o telefone na cara de repórteres que lhe perguntam, em entrevistas ao vivo no rádio, como aconteceu ontem na estréia da rádio da CNN, se ele “tinha conhecimento” de que o pedido de habeas corpus para Andre de Oliveira Macedo, o Andre do Rap, vinha do escritório do assessor que ele empregava até dezembro do ano passado.

Ana Luisa Gonçalves Rocha, a advogada que conseguiu o habeas corpus (HC) do ministro Marco Aurelio Mello que soltou o chefão do PCC em São Paulo, é sócia de Eduardo Ubaldo Barbosa, ex-assessor do ministro. A Folha de São Paulo, depois da Revista Crusoé, apurou que Diego Monteiro dos Santos, outro advogado, protocolou outro HC no mesmo dia 23 de setembro, 12 minutos depois do de Ana Luisa dar entrada. No dia seguinte, sem apresentar justificativas, Diego desistiu de seu HC. A peça fazia referência a decisão anterior de MAM, de 6 de agosto, que derrubou outra prisão preventiva contra Andre do Rap.

Em 6 de outubro, MAM deferiu o HC que soltou Andre do Rap. Quatro dias depois o alvará de soltura foi executado e ele sumiu do mapa. “Fugiu pela porta da frente de roupa branca”, segundo um agente prisional paulista para reforçar gíria de deboche que corre na prisão, “sem precisar sujar a barriga”.

Gravações da policia de SP mostram que Andre do Rap vivia dizendo que “não passaria o Natal na cadeia”. Antes do alvará de soltura já havia registro de que seu plano era seguir para Maringá e de lá saltar para fora do Brasil.

Em conversas monitoradas outros bandidos do PCC presos mencionam a “agilização” de pedidos de soltura por um ministro do Supremo cujo nome não mencionam, mas que “se aposentaria em 2021”. Em 12 de junho próximo MAM completará 75 anos e será compulsoriamente aposentado. 

Entre os diálogos mais importantes está um que envolve o traficante Valter Lima Nascimento, o Guinho, preso em setembro de 2019 e condenado a 20 anos. Está ligado a esquema internacional de tráfico liderado por Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, peso em abril de 2020 em Moçambique. Nas conversas gravadas no início deste ano ele indicava a necessidade do pagamento de 3 milhões para impetrar um HC no STF. Outros criminosos do PCC aconselham Guinho a gastar esse dinheiro porque “vale a pena”.

Em 14 de abril deste ano MAM concedeu a liminar mandando soltar esse preso. Usou na argumentação o mesmo artigo 316 do Código de Processo Penal (revisão da preventiva a cada 90 dias no país em que ação de quem tem dinheiro não “transita definitivamente em julgado” nunca). A decisão, porém, foi derrubada pela 1a Turma do STF com acordão de Alexandre de Moraes, vencidos os votos de MAM, relator, e Dias Toffoli.

Além de Guinho, MAM mandou soltar outros criminosos ligados ao PCC como Moacir Levi Correia, o Bi da Baixada, condenado a 29 anos, 3 meses e 16 dias por associação criminosa e duas tentativas de homicídio, também por “excesso de prazo de prisão sem sentença condenatória definitiva”.

Pelo menos outros dois criminosos ligados ao PCC, Robson Godoy da Silva, assaltante de carros-fortes, e Odemir Francisco dos Santos, o Branco, também conseguiram HC’s de MAM em 2019.

Será sem duvida emocionante a seção do plenário do STF que vai examinar o lance agora à tarde. Mesmo que os intocáveis continuem como estão, pode morrer aí o plano do lulismo, que Bolsonaro reanimou com o seu Kassio com K, de revogar definitivamente a prisão após condenação em 2a Instância que nos jogaria de volta para o lado certo da cerca que divide a civilização da barbárie.

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§ 23 Respostas para Um ministro à beira de um ataque de nervos

  • Alexandre disse:

    A revisão da prisão a cada 90 dias só deveria valer para quem não tem condenação ainda e jamais para alguém tão poderoso quanto o tal André do Rap.

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  • Flavio Brandao disse:

    Ola Fernão, gosto muito de seus comentários, parabéns.
    Em relação as escutas e monitoramento realizados pela polícia de SP, não há como utilizá-las em algum inquérito? PGR? Ou mesmo divulgar na mídia e junto aos senadores?

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  • A. disse:

    Há várias “caixas pretas” na vida brasileira. São “imexíveis” – como as “cláusulas pétreas” da constituição. Mas as duas mais asquerosas e cabeludas são: o judiciário e o setor bancário (rimam, mas são puro humor negro)!

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    • LSB disse:

      Caro A.

      Vou discordar. Conheço um pouco do setor bancário.
      A mídia pinta o diabo do setor bancário, mas esta não é a realidade.
      Poderia ficar escrever “dias” sobre esse assunto, mas vou resumir os pontos mais, digamos, polêmicos:

      1 – O setor paga 44% de IR e mais os impostos indiretos (IPTU de imóveis, ISS, IOF). O setor praticamente cumpre 100% da legislação (em todos os detalhes… pois o BC e a CVM são ultra criteriosos);

      2 – Juros nas estratosfera:

      (a) “depende” da linha: as mais caras (cheque especial é como comprar whisky em loja de conveniência – tem lá, mas é o “olho da cara”). Enfim, o “grosso” dos financiamentos é de linhas mais baixas (crédito direcionado, financiamento de veículos e imóveis, desconto de recebíveis, etc.);

      (b) parte do custo/preço do crédito “livre” é para cobrir o o do “crédito direcionado” (os bancos não definem isso… são leis);

      (c) faça a seguinte “conta de padeiro”: lucro anual do banco (exemplo: Itaú teve lucro de R$ 26,5 bilhões em 2019) em relação à carteira de crédito (por exemplo: o Itaú atingiu uma carteira de crédito de R$ 811 bilhões nos segundo trimestre de 2020). Assim, temos: R$ 26,5 bi / R$ 800 Bi = aproximadamente 3,3%.
      Desta forma, se TODO o lucro do Itaú viesse da carteira de crédito, dos X% que se cobra dos clientes, aproximadamente 3,3% seria lucro, o resto custo. De fato, se o juro médio do banco for de, por exemplo, 30% ao ano, uma redução para 27% zeraria o lucro do banco.
      Porém, não se esqueça, o Itaú tem diversas outras fontes de lucro: administração de consórcios, seguros, administração de fundos, serviços de conta corrente, operações de importação/exportação e câmbio, serviços para grandes empresas (emissões de dívidas, debêntures, abertura de capital, market maker, custódia, etc.). Aliás, esses serviços possuem margens muito mais lucrativas.
      Desta forma, se fôssemos distribuir o lucro de R$ 26,5 bilhões aos respectivos “centros de custos”, a parcela que viria da carteira de crédito seria menor ainda. Se supormos METADE do lucro derivado da carteira de crédito (eu acho que seria até menos, mas vamos deixar pela metade), aquela conta acima daria algo como apenas 1,6% a 1,7% – na média, é claro – dos juros de X% ao ano.
      É caro o crédito?
      Sim, como é o carro, o combustível, o seguro, o Iphone, a conta de luz, a conta de celular, a TV a cabo, a internet, roupas, sapatos, tênis, imóveis, passagens aéreas, etc.
      Tudo no Brasil é estupidamente caro porque é estupidamente tributado e estupidamente produzido com baixa eficiência e à mercê tanto de uma burocracia estupidamente draconiana, caríssima, inexequível, ineficaz e corruptível quanto de uma criminalidade (falsários, golpistas, assaltantes, sequestradores, estelionatários, etc.) estupidamente mal combatida.

      De fato, os juros bancários no Brasil é a “conta mais exata” do nosso atraso e de nossa ineficiência. O Itaú mesmo cobra no Chile juros bem mais civilizados. Por que será?
      (inclusive, como disse, um dos poucos setores no Brasil que cumprem integralmente a regulação).

      3 – “Lucros Recordes”… essa é a maior prova da estupidez matemática que nossas madrassas e a mídia (doutrinador e doutrinado ao mesmo tempo) incutem por meio de intensa lavagem cerebral.
      Não há um ano nos últimos 20 anos que um banco sequer tenha sido “campeão” de retorno sobre o capital. De fato, sempre são empresas não financeiras.
      Acontece que o setor bancário, via de regra, aumenta a base de capital ano a ano (aumentando seu negócio todo ano), o que não acontece na produção física (o aumento é sempre pontual). O setor bancário, de fato, apresenta menos oscilação no retorno. Se o petróleo “explode”, você vê uma petroleira dobrar ou triplicar o lucro em um ano (e retornos gigantescos). Nunca se vê isso no setor bancário.
      No mais, 5 ou 6 bancos no Brasil atingem retornos de 15% ou mais. Os demais 130 bancos “suam” para atingir 8% ou 10%…

      4 – Falta de concorrência.
      A mídia socialista só sabe citar esse “problema”. De fato, isso não é problema. É mais sintoma. Há mais de 130 bancos no Brasil e não há problema nenhum para banco estrangeiro entrar aqui (a única diferença é a necessidade de um decreto presidencial – que acho que caiu – que NUNCA foi negado… é mais fácil o BC negar autorização ou “desestimular”).
      Os bancos pequenos (ainda que contem com “ajuda” regulatória) não conseguem ser tão competitivos quanto os grandes – ou seja, não consegue colocar seu produto (crédito) com um preço (juros) melhor do que dos grandes!
      Bancos estrangeiros não entram no Brasil porque “não faz sentido”. Ninguém monta uma mineradora onde não tem minério. Assim, bancos não se interessam onde não tem poupança e/ou não tem demanda de crédito. No Brasil, a poupança é pouca e, portanto, a “matéria prima” para se trabalhar é pouca também. Claro que poderia haver alta demanda de crédito, MAS isso dependeria de estrangeiros aportarem poupança e que fosse “fácil” dar crédito (o seu custo mostra que não).

      Em suma, poderia escrever muito mais.
      São santos?
      Não, mas a maior “sacanagem” é fazerem vistas grossas para todos os males do Brasil (e até apoiam qualquer política ou porcaria mesmo que piore o ambiente de negócios) DESDE que haja “estabilidade política” (querem continuar podendo fazer seus negócios sem maiores “stress”) e que tenha um regulador firme para impor as mesmas condições para todos (não importam se você subir o IOF para 740%, eles simplesmente repassam e não veem problema nisso DESDE que todos as instituições sejam obrigadas a “pagar” o 740%… enfim, não importa quanto será ruim para o cliente, o importante é que não haja ninguém que tenha alguma “vantagem”… estão só preocupados com as condições de “concorrência” e não se isso melhora ou não para o cliente). Eles topam até chicotear o cliente, DESDE que tenha um fiscal assegurando que todos estejam chicoteando (para que o cliente não tenha opção).
      Enfim, apenas garantem o “bom ambiente” de negócios para eles e danem-se o resto.
      (embora, é claro, sendo o “Judas” preferido de todos os governantes nos últimos 60 séculos, talvez eles estejam certos de se preocuparem somente em se defender).

      Mas, vamos lá… quando enquadramos o setor bancário, tributarmos o banqueiro ganancioso, aprendemos a votar, quando a “lei” for cumprida, quando a “corrupção acabar”, quando o político “pensar no bem do povo”, quando os congressistas legislarem pensando no bem comum, quando o STF pacificar a sociedade, quando o coelhinho da páscoa trouxer os ovos, etc., nós vamos ter um país melhor…

      Abs
      LSB

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      • A. disse:

        Em tempo: um abração!
        A.

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      • GATO disse:

        Mas faltou dizer porque os bancos estimulam o endividamento através das linhas mais caras? Linhas mais caras se tornam impagáveis, inadimplência, principal+Juros+Multa+Correções, vira uma bola de neve.
        Amortiza com as provisões, depois de um ano vende a carteira podre e recupera o valor do principal+um jurinho, mas isento de IR, QUE BELEZA. O truque ou a mágica é essa. Só tem bobinho nesse mercado.

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    • A. disse:

      Prezadíssimo Sr. LSB:
      O sr. pegou duas palavrinhas que escrevi (“setor bancário”) e aproveitou habilmente pra sair do assunto do post do Fernão: a mancada homérica do ministro Marco Aurélio Mello – por coincidência mais um “MAM” na nossa vida!
      P.S.: sobre sua extensa defesa dos banqueiros: de TODOS os assuntos que ignoro, em economia sou “pós graduado” (na Espanha)… E a “caixa preta” a que me referi não é sobre taxas de juro e procedimentos de crédito nem ganância dos banqueiros: o buraco é BEM mais embaixo.

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      • LSB disse:

        “O sr. pegou duas palavrinhas(…) e aproveitou habilmente pra sair do assunto do post do Fernão…”

        Caro A.

        Não foi de forma alguma proposital (o “habilmente” pressupõe algum tipo de intenção, intuito ou maquinação…).
        De fato, fugi do assunto do post, mas não foi por “mal” ou com qualquer outro objetivo, mas somente porque não tinha nada para comentar mesmo sobre a decisão do ministro (penso que discutir isso é “enxugar gelo”, pois o “fenômeno” é consequência e não causa de alguma coisa; no fim, acho que é quase “perda de tempo” mesmo ficar discutindo consequências e não as causas – no caso, nosso sistema político, jurídico e administrativo ESTUPENDAMENTE disfuncional; e a começar pela própria CF: esta aberração que transformou o STF em um tribunal de “primeira instância”).

        Sobre minha “extensa defesa dos banqueiros”, bem, novamente digo que não é bem assim.
        Sobre o tema, há muito mais que falar, discutir, etc. (eu também tenho críticas ao setor); assim, de fato, não quis de forma alguma “esclarecer de uma vez por todas como algo funciona ou o que é verdade e o que não é”.
        Pelo contrário, minha intervenção somente foi motivada pela necessidade que vejo em “contestar” essas visões pré concebidas, preconceituosas, via de regra ignorantes e sempre “anticapitalistas” que jorram em qualquer discussão “política”.

        (de fato, nem sabia, e nem sei ainda, exatamente qual sua visão sobre o sistema financeiro e, portanto, fiz uma inferência – a partir da expressão “caixa preta” – que sabia e ainda sei que pode estar errada. Peço desculpas por “deduzir” de forma até leviana essa hipotética crítica/visão sua. Todavia, confesso que cometi o erro de forma consciente, pois achei importante contra argumentar uma “crença” que acredito ser muito contraproducente, ainda que, de fato, não fosse realmente o que você pensa).

        Em suma, há uma certa “mania”, “tique” ou “comportamento reflexivo” (esse sim habilmente construídos em nossas madrassas) de sempre colocar a culpa e apontar o dedo para o “capitalista” ou no “empresário” (segundo nossas madrassas são a mesma pessoa: capitalista e empresário. Nem todas as “visões políticas” veem as coisas dessa forma: eu mesmo acho que empresário NÃO É CAPITALISTA e capitalismo é “coisa de intelectual”, mas isso é outra história e deixamos, então, para outro momento).
        Assim, estamos sempre colocando a culpa nos banqueiros, nas empreiteiras, nas montadoras, na agricultura “patronal”, etc. etc. etc.
        Portanto, minha “longa defesa” foi muito menos uma “defesa” e muito mais um “breve esclarecimento” da realidade do setor (com o objetivo, destarte, não de defender esse específico setor, mas sim “minar” essas visões pré concebidas e “anti negócios” de modo geral).

        Nessa linha, aliás, “foquei” então as críticas mais comuns que são dirigidas aos bancos:
        – que pagariam poucos impostos (44% de IR/CSLL);
        – que os juros são estratosféricos (custos absurdos e margens, de fato, nem tão altas);
        – que falta de concorrência (falácia); e
        – que ganham muito pois sempre têm “lucros recordes” (falácia, pois tendo um retorno estável e aumentando a base do capital ano a ano – “de grão em grão” – todo ano o lucro aumenta um pouco e “bate recorde”… o que não ocorre quando uma empresa não financeira tem um lucro recorde 3x maior em função de um alta em um determinado ano… para bater esse “recorde” novamente é muito difícil e, portanto, empresas não financeiras têm muito mais dificuldades para “bater seus recordes” após períodos muito bons… de certo modo, os bancos “reproduzem” a tática “Serguei Bubka”, o recordista em bater recordes).

        Nesse contexto, tenho que confessar que até me “espanta” saber que não eram a esses pontos que o sr. se referia. Estou muito curioso, então. Se for possível, gostaria que o sr. desenvolvesse mais esse seu ponto:

        “E a ‘caixa preta’ a que me referi não é sobre taxas de juro e procedimentos de crédito nem ganância dos banqueiros: o buraco é BEM mais embaixo”.

        Qual é, então, o problema?
        Enfim, fiquei “instigado” e bastante interessado em sua opinião, seu conhecimento, seu ponto de vista, pois fora as “críticas de sempre” só posso imaginar que a desaprovação seria relativa à essa “mania” (vamos chamar assim) de super magnatas (banqueiros incluídos) de querer “conduzir” a humanidade (“dirigismo”). Se também não for esse o “ponto”, confesso não só minha ignorância, mas até minha incapacidade de imaginar alguma coisa.
        Desta forma, agradeceria muito se você, A., expusesse e desenvolvesse melhor seu ponto.

        Abs
        LSB

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      • A. disse:

        Caro LSB: não tenho o fôlego nem o conhecimento que o sr. tem para longas dissertações (nem o critico, nem quero confetes – é o que é).
        Não atribuo os males do país ao sistema bancário nem tampouco aos banqueiros. Ousadamente usei a expressão “caixa preta” porque acho que, na avalanche de corrupção que traga o país, tanto judiciário quanto banqueiros tem MUITAS explicações a dar. Como NINGUÉM as pede, e eu não posso provar nada, melhor me recolher à minha insignificância.
        Adoro seu “papo”!
        Abração,
        A.
        P.S.: agora uma provocação (sei que o sr. tem elevado espírito esportivo): o sr. tem parentes banqueiros? (é porque aqui tem um defensor do Bolso apenas por serem militares).

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      • LSB disse:

        Caro A.

        Quanto à corrupção e a participação do setor bancário nesta, o que tenho a dizer é que trata-se de um assunto que envolve basicamente “achismo”.

        De fato, meu “achismo” é que o setor bancário até se envolve menos em corrupção do que outros setores. Isto porque bancos operam em um ambiente razoavelmente “bom” e razoavelmente “imune” à corrupção.
        O que quero dizer com isso?
        Bem, basicamente bancos intermedeiam “poupança” (pelo menos essa é a “função” mais “visível” ao público e a mais “polêmica”) e, no caso do Brasil, trata-se de uma “mercadoria” (dinheiro) escassa (baixa poupança) e relativamente demandada. Assim, como qualquer comerciante sabe, é “bom negócio” vender uma mercadoria cuja demanda seja mais alta que a oferta (mercadoria não “encalha”; o comerciante consegue “margem mais gorda”; etc.). Afinal, o péssimo negócio é vender algo que é pouco demandado ou tem excesso de oferta (e por isso as margens são apertadas ou quase inexistentes).

        Por outro lado, a regulamentação garante tanto “condições iguais de competição” (não importando o quanto seja ruim para o cliente) quanto a baixa probabilidade de “entrantes inovadores” ou “low cost” (já que os custos de entrada e “observância” são muitos alto; assim, pode entrar quantos entrarem – e são mais de 130 – que todos terão que arcar com os mesmos custos!).

        Em suma, bancos querem ficar o máximo possível “na deles” (o que, de fato, vejo como um, no mínimo, “questionável” comportamento, pois a “única” coisa com que se importam é com a “estabilidade política”. Aconteça o que acontecer; vire uma monarquia ou uma ditadura, o importante é manter a “estabilidade”, daí que sempre irão “apoiar” somente aquilo que “estabilize o sistema”, não importando o que esse “estabilizador” seja ou signifique).

        Aliás, os bancos tentam tanto ficar “longe de encrenca” que pararam de operar câmbio “pronto” (hoje já não é tanto assim, mas bancos simplesmente optaram por não vender moeda estrangeira em espécie tal era o “ranço” e o estigma que a moeda em espécie trazia: seu “porte” era, e ainda é, uma prova irrefutável e completa por si só de que o “portador” cometeu algum crime… e essa “estigmatização” não foi obra do acaso; pelo contrário, havia sido construída ao longo de décadas – principalmente a partir da de 1930 – e enraizada nos nossos códigos e leis por deliberada intenção estatal).

        Por outro lado, é claro que, como qualquer outro setor produtivo brasileiro, também está sujeito à extorsão de políticos.
        Sempre há projeto no CN para “congelar” juros a X%, por exemplo (assim como sempre há um projeto para “congelar” aluguéis, ou para proibir “monoculturas”, ou para tabelar “fretes”… enfim, sempre há alguma maluquice econômica sendo proposta).
        Daí que os nobres congressistas, depois (ou antes) de arroubos de sensatez (quando então “engavetam” ou “não aprovam” tais “bizarrices”), sempre procuram os setores que seriam (serão) afetados para que deem uma “força” (dim dim) – totalmente “desvinculada” de qualquer “coisa – nas eleições!!!

        Enfim, obviamente cada um tem o direito de ter o “achismo” que quiser, mas isso não nos leva a lugar algum… pensa que o setor bancário seja mais corrupto ou corruptor que os demais setores produtivos?
        Aceito o seu “achismo”, mas não há como provar inquestionavelmente sua opinião, assim como eu tenho o meu “achismo” (que é até menos corrupto), mas também não tenho como provar de forma irrefutável tal “percepção”.

        No mais, creio que essa discussão (se o setor é mais, menos ou igual aos demais no que se refere à corrupção) é inútil e/ou mal focada (bem como, de forma geral, toda a discussão acerca da corrupção).
        Penso ser mais produtivo discutir “o que é corrupção” (só para exemplificar: confunde-se muito corrupção com irregularidade), quais são suas causas, quais são seriam as soluções, como evitar, etc.
        (e discutir, no caso, é meio “figurado”, pois a solução é a que o Fernão escreve “todo santo dia”: modelo americano – VDP+PRRIR).

        Por fim, respondendo à sua “provocação”: não, ninguém na “famiglia” é banqueiro. Para ser sincero, até compramos, de vez em quando, umas ações de bancos na B3, MAS em quantidades que estão a milhares de anos luz de dar direito a indicar um “diretorzinho” sequer.
        Todavia, por motivos profissionais, tenho algum conhecimento mais detalhado deste setor (como tenho algum conhecimento de outros também, tais como construção e agropecuária, por exemplo).
        De fato, como eu disse, a motivação do meu “longo” texto foi tão somente “combater” ideias* – ou estigmas – que julgo “simplificar” e “empobrecer” o debate e o entendimento da nossa infame realidade (e até mesmo “desviar” os “debatedores” do “bom e verdadeiro debate”).

        (* Que levianamente “deduzi” estarem intrínsecas no seu comentário.)

        Abs (e sempre lembrando que provocações, debates, discussões e discordâncias inteligentes são sempre bem vindas e acrescentam a todos!).

        LSB

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      • A. disse:

        O sistema mais corrupto é, aberta e indiscutivelmente, o político.
        Até onde me lembro (e superficialmente), ninguém colocava em dúvida até o início da era PT a correção dos empreiteiros e empresários.
        Felizmente a Lava Jato (de saudosa memória, lembra?) expôs a céu aberto essa ferida gangrenada.
        Quando chamo judiciário e banqueiros de “caixa preta” é porque DUVIDO que apareça um D. Quixote pra quebrar suas lanças contra esses moinhos. Mas me admiro muito o sr. achar que há poucos ou nenhum respingo de corrupção nesses setores. Meu “achismo” aponta na direção contrária.
        Outro abração!,
        A.

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      • LSB disse:

        Caro A.

        “Até onde me lembro (e superficialmente), ninguém colocava em dúvida até o início da era PT a correção dos empreiteiros e empresários.”

        Não sei o que dizer… só sei que sempre houve denúncias de corrupção envolvendo empreiteiras e toda sorte de empresários.
        Para ser sincero, minha “primeira vez” foi a tal da Norte-Sul ainda no governo Sarney (eu ainda era criança) no final dos anos 1980.
        (depois, muito depois, um dos “envolvidos” publicou um livro onde defendia que não houve, de fato, corrupção – e que tudo seria somente obra de más interpretações, pequenas irregularidades, má vontade da imprensa, etc. Não li o livro, só vi uma “propaganda” do livro. Até gostaria de ler sim, pois é possível que o sujeito tenha razão).

        Enfim, sempre houve milhões de denúncias, operações policiais, processos e ações judiciais, etc.
        (e muitas foram arquivadas, julgadas improcedentes, foram absolvidos, etc. Isso “pega mal” junto ao público, que entende que o judiciário não “prende corrupto”, mas – ressalto que praticamente não li nenhum processo – é possível que, de fato, seja isso mesmo… por isso até falo que vejo a “corrupção” de forma diferente…).

        O Emílio Odebrecht até falou outro dia que corrupção e toda sorte de “combinações” sempre existiram no Brasil…

        Quanto especificamente ao setor bancário, não digo que “há poucos ou nenhum respingo de corrupção”, só acho (achismo) que é mais baixo que outros setores até porque, em comparação a outros setores, o sistema bancário está menos “sujeito” à extorsão que nosso arcabouço jurídico permite (não que eles sejam completamente imunes, como ressaltei já no comentário anterior…).
        É com base nisso (um arcabouço jurídico que permite mais extorsões a outros setores – ou quase “impõe” mesmo – do que ao setor financeiro) que “fundamento” meu “achismo”.

        No mais, como já disse, não creio ser esta a questão importante. O que é corrupção? Quais suas causas? O que funciona, mais do que no seu combate, mas na sua, digamos, “prevenção”? Estas são as perguntas importantes…
        (as respostas atuais não estão resolvendo… pelo contrário, são as mesmas respostas de 30, 40 e 60 anos atrás que também não resolveram… enfim é só mais do mesmo).

        Abs
        LSB

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  • José Luiz Mancusi disse:

    Parabéns, Fernão!!!
    Seus artigos são excelentes!
    Analisou muito bem!
    Espero que tudo isso sirva para se aprovar a prisão após a Segunda Instância.

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  • honorio sergio disse:

    Narco Aurélio Mello

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  • Carlos disse:

    Não surpreende nossa “Suprema Corte” estar metida nesta pocilga.
    A pergunta é: Quando nosso Senado vai cassar juízes que não merecem este título e estão agindo contra a sociedade civilizada?
    Quando vamos remover Alcolumbres e Maias das casas do povo ?
    Esperando sentado nossa sociedade dar um basta

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    • LSB disse:

      Nunca (para as suas duas perguntas).

      Abs
      LSB

      PS: ou, pelo menos, nunca até não haver AMPLA mobilização popular que “cerque” os congressistas e os convençam da pertinência e urgência de certas decisões políticas.

      PS2: o quadro descrito no PS acima até pode parecer uma “revolução”, mas quero destacar e deixar bem claro que qualquer semelhança é apenas coincidência, pois do contrário poderiam me julgar um “risco para a democracia”, um verdadeiro homem bomba institucional e eu seria, muito contra minha vontade, perseguido e enquadrado pelo temível Supremo Tribunal Fascista (STF) com “sinistro” que é Mussulini até na “careca”.

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  • José Abramovicz disse:

    José Abramovicz cel : 55.11.99990-0069

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  • Pedro Marcelo Cezar Guimaraes disse:

    A ‘privilegiatira” a serviço do Narco Estado Socialista da América Latrina.

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  • LOCC disse:

    Um texto como esse do Fernão, desnudando tão abertamente denúncias graves, é de assustar muito cidadãos ingênuos, como eu, que acreditam no país. Como é que isso não desagua em investigações sérias? Vai sempre ficar tudo por isso mesmo???

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  • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

    Fernão, sempre afirmo que as mudanças tem que começar no e por iniciativa do Supremo Tribunal Federal, guardião de nossa Constituição Federal. Os tempos e situações mudam, às vezes rapidamente, e a nova cara dos ministros aparece, mesmo que em tom de mea culpa, máxima culpa, afinal sempre foi um órgão criado para agir coletivamente, antes de surgir a prática das iniciativas autocráticas…
    Continuo defendendo que ainda farão no STF uma espécie de revisão de todas as suas decisões e naquelas que o Congresso Nacional tomou, ao longo de décadas, para estabelecer a privilegiatura da forma como ela foi construída, para viver como sanguessuga nas costas do’ favelão nacional’.
    Será que um dia seremos todos surpreendidos com uma notícia do tipo:
    juiz do Supremo é pego com pacote de dinheiro sob a toga e beca? Isso seria demais para meu estômago!

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  • GATO disse:

    Que Supremo nada, que Narco nada, sigam o dinheiro, até onde sei só uma banqueira foi presa até hoje, aquela senhora do Banco Rural, os demais todos sem exceção nunca respondem pelo dinheiro que ajudam a clarear, alguns dizem lavar, não é, pois o dinheiro está sempre sujo pois frequentando cuecas não pode estar limpo. Assim, o dinheiro sempre passa por um banco e o banqueiro não sabe pra onde ele está indo?????

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    • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

      Guerras e revoluções são financiadas por bancos, muitas vezes unidos e cujos acionistas pertencem a países diversos, incluindo aqueles que estão eventualmente em conflito. Basta observarmos a Primeira Guerra Mundial onde impérios e reinos se enfrentaram, havendo muitas mortes, fome, epidemias que fizeram acelerar a busca de soluções, para as quais foram necessárias grandes somas de dinheiro de bancos, através de planos de recuperação até chegarem a criação de fundos atuais que amortecem as pancadas. A crise de 1929 evidenciou o despreparo do mundo para as épocas de crise, como hoje a pandemia de covid-19 está a apontar as falhas cometidas pelos governos em seus “planejamentos econômicos”, a tal ponto de quase todo o equipamento médico mundial estar sendo produzido na…China! Desde a simples máscara facial, passando pelas seringas, respiradores … Isso tudo por obra daqueles que negociam, a vida dos demais como se fossem sua propriedade. O que teria sido da Guerra do Paraguai, ou do Brasil, dependendo de que lado se está, se não fosse o financiamento de bancos. Antes dos bancos centrais havia oferta diferenciada de juros em cada casa bancária; hoje a engrenagem é mundial, transnacional. Fronteiras muitas vezes são como baias, servem somente para as massas. E aí quem vai peitar, porque e como, nessa atual era de incertezas. diferenças e discriminações de todo tipo? Através de um quase impossível trabalho de doutrinação,convencimento e esclarecimento para um movimento de auto-correção ou partir para a solução via enfrentamento armado, nesse caso a dissolução final para todos os povos.
      O Universo tem seus segredos e isso é o que me dá esperança. mesmo que os acontecimentos nos assustem. Afinal quem administra a natureza, que nem conhecemos e ousamos intervir soberbamente.

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Você está lendo no momento Um ministro à beira de um ataque de nervos no VESPEIRO.

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