O curioso caso dos Estados Unidos

25 de agosto de 2020 § 16 Comentários

A concentração desenfreada da riqueza já quase acabou com a democracia americana uma vez. Por definição, é para um único vencedor final que empurra a “competição”, o outro nome da guerra de todos contra todos que define a condição natural do bicho homem, a menos que a civilização – essa frágil construção que procura nos afastar da lei da selva – anteponha um limite artificial a ela. É nessa brecha estreita que se insere toda a História da Civilização. E dentro dela, a da democracia americana que, ao contrário da “narrativa” prevalecente, é a única, historicamente, que conseguiu domar a competição sem matar a produção e a inovação ao longo da maior parte do século 20. 

O mundo está cheio de exemplos em que o poder político consegue matar a competição tomando para si todo o poder econômico. Mas essa fórmula (a socialista) mata o progresso junto com a liberdade. Exemplo de “doma” – isto é, de por a fera da ganância a serviço do progresso com liberdade e justiça social – só existe um. O truque genial foi não tratar de desconcentrar o poder econômico concentrando ainda mais o poder político, mas obrigando os empresários que conquistassem mais de 30% de cada mercado a dividir sua operação com outros empresários que teriam de concorrer entre si em benefício do consumidor. 

Sim, a essência da revolução americana – também conhecida como democracia – é a desconcentração do poder político. Não ha como desmerecer a obra da melhor geração da humanidade, a nata do Iluminismo que emigrou para aquele novo planeta habitável. Mas instalar o sistema de “governo do governo” que eles criaram só se tornou possível porque a desconcentração do poder econômico veio antes. 

O curioso caso dos Estados Unidos faz lembrar o curioso caso de Benjamin Button daquele filme. A história do país é que começa invertida. Eles já nascem como todos nós sonhamos terminar um dia. Um país de pequenos proprietários. Importavam colonos contra a entrega, a cada um, de 50 acres (20 hectares) de terra (o headright system) num mundo onde nunca existira a possibilidade de quem nascia sem, vir a possuir terra. O padrão era o Brasil, distribuído inteiro, em fatias, a 12 amigos do rei que ficavam encarregados de manter a multidão dos servos, servos para todo o sempre.

O erro dos “Pais Fundadores”, sozinhos num mundo cercado de monarquias por todos os lados, foi blindar, enquanto durassem, os mandatos dos representantes eleitos pelo povo para governar o governo. A competição civilizada não sobreviveu à impunidade garantida aos fiscais da regra do jogo. Dos políticos desonestos ela foi logo estendida aos empresários desonestos, cada um no seu campo tratando de matar seus concorrentes honestos, uns fazendo regras tortas para os outros ganharem muito dinheiro e os outros usando esse dinheiro para reeleger seus benfeitores. 

Lembra algo?

A quebra do “padrão tecnológico” imposto pelo advento das ferrovias que, nos meados do 19, abriram um mundo novo de riquezas imensas ao qual só se podia chegar ou sair por meio delas, associado à corrupção política, tornou furioso o processo de acumulação da riqueza de todos nas mãos de uns poucos pelo expediente da expulsão dos competidores do mercado.

Na virada para o 20 deu-se a segunda revolução americana, ainda mais radicalmente transformadora que a primeira. Se o povo não podia mais escolher, nem seu patrão, nem seus fornecedores – era o que dizia a realidade – de nada valiam os poderes formais atribuídos a ele pela constituição. E como tudo começava na impunidade dos políticos, a resposta foi fragilizar-lhes os mandatos. Recall a qualquer momento e direito de propor e recusar leis por referendo foi a arma brandindo a qual foram impostos os novos limites à concorrência em favor do consumidor e, por tabela, do trabalhador, os outros nomes de sua majestade o povo. 

No ocaso do século 20 a força disrruptiva da informática jogou tudo novamente por terra. A anulação das fronteiras nacionais tornou os Estados Unidos vulneráveis, ao mesmo tempo, ao roubo de tecnologia e design e seu mercado aberto aos produtos desse roubo sistemático executado por mão de obra quase escrava. Os donos de apenas quatro das “ferrovias da informação” pelas quais tudo na economia de hoje tem de passar são maiores que a economia da Alemanha, a quarta do mundo. A Apple sozinha vale mais que o PIB do Brasil. E, como todo mundo que já teve algum poder, estes, que têm demais, usam e abusam dele. Já não era sem tempo que o congresso americano, num movimento suprapartidário, tenha dado o primeiro tímido passo para lembrar-los de sua revolucionária história antitruste. 

A falta de ação nos últimos 40 anos de recordes sucessivos de fusões e aquisições de empresas em meio ao pânico despertado pela competição predatória dos monopólios do capitalismo de estado chinês precipitou a corrida do “Benjamin Button” americano de volta à infância da humanidade. Cada vez menos consegue-se vencer pelo trabalho na antiga Terra da Oportunidade. Monopólios só convivem com monarquias como são os sistemas de partido único. Não é a ocupação gramsciana da imprensa e dos outros meios de difusão do pensamento dos Estados Unidos que estão empurrando a juventude americana para a tentação socialista. Essa “vanguarda”, como todas, só está correndo atras do “achinezamento” do seu mercado de trabalho.

Sim, os bárbaros são bárbaros. Mas eles só invadem os impérios que estão caindo de podres. Não será, porém, com as bravatas eleitoreiras de Donald Trump que se vencerá esse inimigo. O remédio para as chinas da vida é o mesmo do desmatamento da Amazônia. Tem de haver um imposto contra produtos que contenham insuficiência de direitos do trabalho e roubo de design e de pesquisa e desenvolvimento. Forçar a ocidentalização do mercado de trabalho chinês é a única alternativa realista ao “achinezamento” do mercado de trabalho ocidental. E já pode até ser tarde demais…

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§ 16 Respostas para O curioso caso dos Estados Unidos

  • Bento Negrini disse:

    Mais uma vez brilhante!
    O ocidente tem que apoiar-se nos seus valores civilizatórios, determinados a partir do Renascimento, da Reforma de Lutero, da Revolução Gloriosa e da Revolução Francesa e espelhar-se na América. Se não sucumbiremos, não só na economia, mas também em nossos valores morais.

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  • Sandra Regina de Carvalho disse:

    Excelente análise!

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  • CARLOS ARANY disse:

    Perfeito! Muito obrigado!

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  • Jerônimo disse:

    Análise precisa e um alerta… A questão do estabelecimento de impostos para os produtos que contenham insuficiência de direitos de trabalho e roubo de ideias contudo, deve ser estabelecida de maneira cuidadosa, procurando fugir do protecionismo. Pelo menos, é o que penso.

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  • Alexandre disse:

    A globalização – nenhuma região se beneficiou mais dela do que o sudeste asiático e a China – e a digitalização permitem que os grandes conglomerados transfiram sua produção (vale também para os serviços) para outros países onde a mão-de-obra é mais barata. Por outro lado, o fluxo migratório aumenta o estoque (especialmente de trabalhadores de menor qualificação) nos países desenvolvidos, pressionando para baixo os salários locais.

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  • Varlice1 disse:

    Que bom ter você de volta!
    Obrigada pelo texto.
    Sempre aprendo.

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  • mrksvncs disse:

    Fernão, parabéns, você é o primeiro jornalista que aponta o que ocorre exatamente no mundo. Está claro para mim, que a China não exporta exatamente produtos, esta é apenas a consequência. A origem ou o quê ela exporta realmente é a sua mão-de-obra barata (se não for escrava), tão barata que produzir por lá e transportar pelo mundo, seja de navio ou avião é mais barato que produzir internamente, inclusive ao sacrificar a qualidade, que torna o descarte por qualquer problema na qualidade inexpressivo. Mas o que nos deixa apreensivos é o fato infeliz e inexplicável de observarmos políticos e governantes não atentarem para isso. Como se não bastasse, passam a adotar discurso que valorizam as condições de um país claramente nada democrático (claro que fui bonzinho, trata-se de um país comunista e sem liberdades individuais) como se fosse o futuro da civilização. É lamentável como eles disfarçam tanto o discurso para concentrarem poder em si mesmos. Torcemos para que todos tenham clareza e consigam perceber tal armadilha que criaram. Abraço e continue apresentando este trabalho excelente.

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  • rubirodrigues disse:

    Sentimos sua falta. A concentração de poder será sempre problema, ainda que em certo nível seja necessária para viabilizar projetos que requerem grande dedicação e comando interessado. O livre mercado propicia isso, mas não oferece limites à ganância. A natureza humana de base animal têm essa característica, fruto de instintos de sobrevivência hominídeos de terrível compleição, que hoje nos atormentam como fera mais ou menos contida, residindo dentro de cada um, mas, à qual devemos a nossa sobrevivência como espécia. Essa fera somente pode ser contida pelo discernimento e pela compreensão abrangente da condição humana e das nossas conveniências coletivas. A concentração do poder em um indivíduo parece tornar a fera indominável e resultar nos desastres sociais que se sucedem. Em perspectiva metafísica e ontológica, apenas quando a mente humana consegue vislumbrar o todo e operar a lógica da totalidade, a busca pelo poder deixa de ser projeto de vida e seus malefício conscientemente evitados porque a preciosidade da vida se torna mais relevante. Enquanto esse estágio de discernimento não predominar as fases civilizatórias são de conflito e o comando estará enregue a guerreiros. Precisamos lutar, evitar dominação e preservar liberdade, mas a frente promissora é a de desenvolver discernimento e compreensão do mundo e da natureza. Cultivar a humanidade plena em sua racionalidade potencial. Fazer a humanidade evoluir de fase juvenil para fase adulta e para isso é indispensável que cada um se torne adulto. As análises do Fernão são ótimas para que superemos nossa ingenuidade congênita e tomemos consciência da brutalidade que se esconde sob o disfarce de civilização e reajamos indignados na esperança que essa indignação surta efeitos. Eficácia, porém, seria atacar a ignorância também congênita herdada juntos com os instintos e encontrar um método competente para uso da razão.

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  • GATO disse:

    SERÁ QUE VAMOS APRENDER OU SÓ VAMOS SER ZELOSOS.
    Estamos mais para ser zelosos pois temos preguiça de aprender. Zelamos pelas nossas coisas, ou coisas minhas, zelamos pelos nossos bens ou meus bens/bem,Você tem que acreditar em mim,Ninguém pode destruir assim, já dizia a música do Rei.
    Mas gostamos da ganância e por causa dela destruímos tudo pra ter mais, mas só eu posso ter mais, ou outros que se danem e aí começa a encrenca. Então volto novamente a afirmar, não é esquerda, não é direita, não é centro, não é de baixo. A solução está acima, vem de cima é só questão de pensar como ele queria. Divida tudo por igual, nem mais nem menos, tudo igual como fazem as boas mães. Se existem cuecas, todos tem que ter cueca. Se existem casas todos tem que ter casa. Se tens dinheiro todos tem que ter dinheiro. IGUALDADE, eis a questão, mas os gananciosos/ gulosos não aceitam, querem mais, sempre mais. Pronto, danou. A humanidade não aceita a IGUALDADE e nunca aceitará até que tudo…..
    Meu bem, meu bem,
    Meus bens, meus bens.
    Meu mal, meu mal.
    Até que tudo termine afinal….

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    • Flm disse:

      Igualdade não existe EM NADA no mundo real, meu amigo. Só nas abstrações matemáticas. Mas vá você por gente de carne e osso vivendo numa abstração matemática. Sobra amputação pra tudo quanto é lado…

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  • Marcos Andrade Moraes disse:

    “Não será, porém, com as bravatas eleitoreiras de Donald Trump que se vencerá esse inimigo. ”

    As bravatas de Trump são iguais às de Bolsonaro e ambos tem o mesmo objetivo: escapar da cadeia.

    MAM

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  • Newton disse:

    Simplesmente, genial.

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  • Rick Missel disse:

    Sucinto!

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  • JOSÉ MORA NETO disse:

    Perfeito. Acrescente-se que o uso de máscara e multa se não usa-la, faz parte desse contexto de subjugação..

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  • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

    Que bom Fernão que retornaste da breve pausa para meditação e com esta esclarecedora análise que logo no início aponta: “Desconcentração de poder econômico veio antes”. Penso que o que importa é o senso de busca pela igualdade, mesmo que utópica, pois reduz os extremos da desigualdade provocada pelo capitalismo descambado no egoísmo de alguns em detrimento da maioria do povo. Bill Gates e sua Fundação procura aplicar sua riqueza em atividades de pesquisa em prol da humanidade – como na pesquisa da vacina anti-covid-19 – e preocupa-se em que o benefício se estenda de forma igual a todas as nações, principalmente aquelas populações mais carentes. O ideal seria que os bilionários pagassem mais impostos relativamente ao acumulam, havendo assim mais desconcentração do poder econômico e mais participantes das decisões no que é de interesse geral da sociedade. O caso americano nos serve de guia, antes que já seja tarde demais, devido às diferenças entre o mundo econômico chinês e mundo ocidental democrático.

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