A guerra dos Brasis

18 de junho de 2019 § 38 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 18/6/2019

Sob os repiniques da bateria em torno dos grampos do Joesley desta véspera de votação da reforma da Previdência (escrevo na 5a feira 13), agora a cargo dos arrombadores a soldo de um certo The Interceptor, uma das marcas-fantasia de PSOL, PT e cia., está consumado o tombo do costume na última tentativa do País Real de abolir a escravatura.

Com os Benefícios de Prestação Continuada de abre-alas, o velho bloco do Me Engana Que Eu Gosto passou batidos os “jabutis” que realmente lhe interessavam: os vetos ao regime de capitalizacão, que mataria para todo o sempre o comércio de privilégios previdenciários, a mais produtiva mina de ouro de quem tem o poder de vende-los, e à desconstitucionalização das normas da Previdência, a garantia vitalícia pela qual cobram caríssimo esses comerciantes. A reforma da previdência já entra na avenida castrada, conforme o prometido, portanto, e com o favelão nacional com todos os “acessos” espetados nas suas veias mantidos para que o País Oficial possa continuar servindo-se na medida da satisfação dos seus luxos.

apartheid brasileiro tem raízes profundas. O Brasil Real, o Brasil que deu certo, o Brasil que se fez sozinho escondido do outro; este Brasil continua, como sempre esteve, à margem da lei. A lei foi feita pelo País Oficial, o antiamericano, o que sempre viveu das “derramas”, o que enforcou Tiradentes, o que invadiu o Rio de Janeiro em 1808, de modo a não poder ser cumprida jamais. É a continuação do Brasil dos traficantes de escravos que compravam pedaços do estado (feudos) e “títulos de nobreza” ao rei. São as deles as tais instituições que “estão funcionando”.

Só dois pontos desses dois Brasis sempre estiveram conectados; as mãos de um e os bolsos do outro. No mais são antípodas em tudo. Na educacão, bola da vez, há os nédios professores das universidades públicas que comem o grosso da verba nacional, aposentam-se na flor da idade, dão aulas nos enclaves privatizados do território brasileiro onde polícia não entra (Coafs e tribunais de contas menos ainda) e formam, “de graça” e sem lei, os quadros da elite do País Oficial. E há as professorinhas miseráveis, que não se aposentam nunca, das escolas básicas varejadas de balas perdidas, caindo aos pedaços, creches de quase adultos que vão lá para comer da mão do País Oficial o pão que a “educação” que ele lhes serve não consegue comprar.

O sindicato desses diferentes professores é, no entanto, o mesmo. Com estrutura nacional, vem a ser o núcleo duro da defesa da privilegiatura. Escudados na miséria das professorinhas, são os professorões que organizam aquela rede que sai em passeatas milimetricamente cronometradas com as pautas em tramitação no Congresso Nacional e nas redações que empregam seus parentes, amigos e correligionários, para “provar” a “impopularidade” de acabar com os salários e as aposentadorias 100 vezes, 50 vezes, 30 vezes na média nacional maiores que as do favelão que paga a conta.

Mas não foi a derrota desse Brasil que saiu nas manchetes. Já não é mais nem “o governo” que “perde” ou “ganha” as batalhas entre os dois Brasis. Agora é só “o presidente Jair Bolsonaro” que “sofre derrotas no Legislativo e no Judiciário”, seja na batalha para o favelão nunca mais ter de pagar lagostas e vinhos tetracampeões aos STF’s de sempre, seja para que o estado conceda à plebe a graça de não ser enjaulada quando recusar-se a deixar-se mansamente matar e insistir em defender a própria vida contra quem resolver acabar com ela.

As redações congregam os útlimos brasileiros que ainda não entenderam com quem estão lidando. A bandidagem mata 65 mil. A bandidocracia mata milhões por ano. O conluio entre as duas é aberto a quem interessar possa, do grande tráfico de entorpecentes, hoje privilégio de governos praticantes do tipo de “excesso de democracia” que o lulopetismo prega, para baixo. Mas a imprensa tem mais medo do povo obediente à lei, da polícia, dos promotores e dos juízes que realmente apitam faltas do que deles. Nem a “epidemia de ansiedade” que acomete o povo brasileiro como a nenhum outro do planeta é associada ao que quer que seja de especial. É mais uma daquelas notícias que os âncoras de TV lêm com cara de paisagem. Uma doença sem causa. Nada a ver com os 40 milhões de desempregados e subempregados nem com a montanha de assassinados.

Para a unanimidade da imprensa brasileira essa carnificina só tem a ver com o “acesso a armas” que – advertem – ou nega-se terminantemente à sub-raça tupiniquim, ou ela sairá matando desbragadamente por aí. É como se esse acesso já não estivesse drasticamente proibido há 14 anos, contra a vontade expressa em voto pela população, e não estivesse sendo provado 65 mil vezes por ano, 5.416 vezes por mês, 180 vezes por dia a mentira de associar desarmamento com segurança publica.

No quesito segurança, aliás, o esforço concentrado da ala mais “progressista” do nosso jornalismo é para discriminar cadáveres. Depois de todo o resto a desigualdade em nome da igualdade chega finalmente aos necrotérios. Cadáver de mulher vale mais – e dá pena mais pesada – que cadáver de homem e menos que cadáver de homossexual ou de transgênero. E, em todas essas subcategorias, ganham “peso 2” os que acumulam a qualidade de não brancos.

Tudo isso tem precedência, no jornalismo pátrio, sobre a guerra aberta entre os dois Brasis cuja existência ele sequer reconhece. Ele permanece surdo ao País Real mas sempre pronto a disparar sem pensar uma vez e meia todo e qualquer petardo que a bandidocracia houver por bem enfiar-lhe nas culatras “de acesso”, e a invocar a lei escrita pela bandidocracia para manter eternamente intactas as leis escritas pela bandidocracia, para julgar todo mundo que ousar tentar alterá-las.

Se o Brasil “é uma democracia”, como parecem crer 9 entre 10 dos nossos jornalistas, qualquer alteração no status quo será “antidemocrática”. Ok, então. E pra onde vamos na sequência da aceitação dessa premissa?

Marcado:,

§ 38 Respostas para A guerra dos Brasis

  • ronnipaul disse:

    Fernão: mais um excepcional artigo!!! Gostaria de te pedir dicas de leitura…Que livros moldaram seu pensamento? Agradeço muito a atenção…

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  • Marcelino Oliveira disse:

    Brilhante artigo, Fernão! Parabéns e pobre de nós!

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  • Lourenço disse:

    Muito bom . Abs

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  • Ronald Cavaliere disse:

    Oi Fernão, Mais uma vez, minhas congratulações! Lucidez, pertinência e precisão cirúrgica. Seu texto desnuda, por completo, esse estamento social que se apresenta, como sendo proprietário do “pensamento moderno”. É neste fértil contexto “Pombalino”, onde vivemos, que eles encontram guarida para preservar este anacronismo de vanguarda. Você soltou um monte de busca-pés, no arraial!!! Viva São João!!! Ronald Cavaliere

    Enviado do meu iPhone

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  • RUBI GERMANO RODRIGUES disse:

    Realmente, a reforma proposta está centrada no regime de capitalização que é a única solução autossustentável que independe de empregos futuros tendentes à extinção. Sem ela já não se trata da reforma proposta pelo Ministro Guedes. Sem ela o futuro do Brasil continua imponderável e os investimentos parrudos não se realizarão. Acho que Bolsonaro erra ao invocar e contar com a responsabilidade do Congresso. Esse parlamento não têm, nem espírito público, nem discernimento e nem coragem de aproveitar a oportunidade que as circunstâncias históricas lhe oferecem. Com legisladores assim o Brasil continuará a ser o país do futuro.

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  • Marcos andrade moraes disse:

    Uau, a máscara caiu com estrondo e vc aparece como um tremendo autocrata, no limite da extrema direita… Entrou pra maçonaria ou preferiu a TFP?

    O Brasil é uma democracia, embora atrasada e, por isso, teta de casta. Neste ponto vc está certo assim como está certo ao acusar a gênese dessa putaria. Mas vc, com o seu 1º parágrafo, não ajuda em nada. Não interessa se é marca-fantasia do PT e tuti quanti! Interessa que o conteúdo das reportagens aponta para algo que vc não viu porque não quis ver: a repúblicadecuritiba é autocrata e faz parte do Brasil Oficial, das castas que matam milhões incluindo-se aí os generais, que vc teve a ousadia de dizer aqui que seriam o lado bom do desgoverno Bolsonaro.

    Ou será que vc considera Moro e a republicadecuritiba os mocinhos e não parte da bandidocracia? Ou vc considera que seu voto foi dado pra mocinho? Pro Tiradentes do século XXI? Ou vc considera os generais os novos Inconfidentes? Tenha paciência!

    O apartheid tem raízes profundas, mas Tiradentes queria fazer parte dele; não conseguiu e bandeou pros “mocinhos”. Os mocinhos não queriam o Brasil livre, mas MG livre. Na verdade, não queriam pagar impostos e ninguém sabe realmente se não seriam os novos patrimonialistas, cujo berço intelectual, uau, científico, é MG. Chega de Tiradentes, invenção dos republicanos, T. Otoni à frente! Ele nunca foi 1/10 do que inventaram sobre ele.

    Vc ataca a imprensa e acusa o sistema Globo de fazer a apologia escrota da violência sexual com o caso Neymar! No dia seguinte seu jornal torrou meia 1ª página com Neymar…

    Deixa de desespero! Continue a mostrar a diferença entre o Brasil Oficial e as grandes democracias que já tá muito bom.

    O resto é mimimi de quem quer ir pra Miami|! Ou vc acabará terrorista, jogando bomba no Brasil Oficial?

    Fascinante.

    MAM

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    • Alexandre disse:

      Sobre o conteúdo dos vazamentos. O que se tem até agora são apenas fragmentos de conversas (sem áudio) descontextualizadas, não periciadas, obtidas – quem pagou? – por meio sórdido e criminoso, e publicadas em pílulas por um dublê de jornalista e militante. Isso tudo deixa dúvidas sobre a consistência do material. Pode haver, por exemplo, diálogos omitidos que mostrariam que o Moro e o Dallagnol agiram de forma absolutamente correta.

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    • lucia maria lebre disse:

      Marcos Andrade Moraes, falta peso, fundo e forma , além de veracidade nessa tua resposta à brilhante apreciação que faz o Fernão. Resposta essa que beira à conluio com o Brasil Oficial.

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  • Saulo Mundim Lenza disse:

    Não me ocorre nenhum reparo a fazer no seu excelente texto.
    Parabéns.

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  • Olavo Leal disse:

    Outro brilhante artigo, Fernão. Bota o dedo na ferida.
    Acho que a solução para tudo é a ida para a Paulista (e assemelhadas), de forma maciça e ordeira.
    P.S.: O MAM TE CAPTA mal!!!

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  • Almir Quites disse:

    Inclua no seu artigo, muito bem escrito, o absurdo despreparo do presidente atual e o baixo nível do ministério que ele escolheu, com excessao de Moro e Guedes, os quais serao sacrificados.
    Faça isso e o seu artigo ficará perfeito. Não sei porque isto foi omitido quando detalhes muito mais sutis de nossa política não o foram.
    Entendo que o povo não teve escolha na eleição de 2018 e que a polarização antecipafa, já no primeiro turno, foi induzida pelas pesquisas de intenção de votos, diariamente divulgadas e comentadas como se fossem a expressão da verdade e não uma pesqisa sem qualquer tipo de auditagem.

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    • Alexandre disse:

      Almir, há outros bons ministros no atual governo. Estão ocupando pastas como Agricultura, Infraestrutura e Minas e Energia.

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    • RUBI GERMANO RODRIGUES disse:

      Almir
      Estamos diante de uma transformação planetária e ninguém sabe como exatamente será esse futuro. (Trump/Brexit/Polônia/Itália/Alemanha/etc) Acho até que bOLSONARO ESTÁ SE DANDO BEM em face de tais circunstâncias. Qual deve ser a relação entre Executivo e Legislativo? Como fazer estudantes socialistas dedicarem-se a pesquisas úteis? Como convencer certa comunidade que sexo é questão privada e não pública? Como convencer certos ideólogos que civilização requer protocolos de convivência e não liberdade de cada um fazer o que lhe der na telha?

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  • Cyro Laurenza disse:

    Meu caro Fernao como sempre você é de uma clareza gritante; quantos se fazem de cego para não ver tão contundente verdade secular até emociona ler este teu texto muito obrigado

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  • José Tadeu Gobbi disse:

    Fernão

    Acho que, de forma inconsciente, o cidadão comum já se deu conta deste descalabro. A sociedade crispada e polarizada já não suporta mais o teatro institucional que, a pretexto de combater os privilégios, reforça o pacto das elites do funcionalismo, a privilegiatura, para manter seu domínio sobre o orçamento público. Repete-se aquilo que Tomasi di Lampedusa bem destacou em “O Leopardo”, no discurso do Príncipe de Falconeri: “A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles nos submeterão à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.”
    O descrédito das instituições, a anomia e a falência do Estado nos seus três níveis estão presentes nos dias que correm. E a tendência é isto se aprofundar, não há pacto que possa alterar esta dinâmica.
    A alienação das elites políticas e econômicas as impedem de ver que a raiva se acumula na sociedade, que a economia esta na UTI e o mercado que gera riqueza (hospedeiro do Estado parasita) dá sinais de falência multipla de orgãos.
    Desde que nasci neste país não conheci um único período de prosperidade sustentável, vivi todas as crises, uma após a outra, minha vida toda, observando impotente nosso apego atávico ao atraso.

    Melhor imigrar

    Abs

    Tadeu

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    • Fernão disse:

      Ha pacto que altera essa dinâmica sim, José. Mas é um só. Como já contei aqui, só existiu uma revolução verdadeira na história da humanidade que é a que pôs o poder de fato nas manos do povo, dando-lhe os verdadeiros instrumentos de mando: recall, referendo, iniciativa. As elites políticas e econômicas, assim como todo mundo, só são alienadas quando podem, quando isso não lhes custa nada. Assim, se for mesmo emigrar, escolha bem. Vá para um país onde o povo tem as prerrogativas acima, ou você vai cair em outro Brasil, só que possivelmente mais velho, menos pobre e mais cínico, se for na Europa latina que você está pensando…

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      • José Tadeu Gobbi disse:

        Recall, referendo, iniciativa ou voto distrital puro ou misto são palavras que compõe o index de nossa classe política. Nenhum projeto, que contenha estas palavras, consegue passar pelas comissões temáticas do Congresso Nacional. O novo governo então, tem aversão total a qualquer coisa que pareça com isto.

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    • José Tadeu Gobbi disse:

      Correção: Onde se lê “imigrar” leia-se “emigrar”.

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  • Renato Pires disse:

    O SISTEMA PREDADOR
    Renato Pires

    Todos conhecem o camaleão, aquele bicho que se disfarça com perfeição no meio ambiente, a ponto de ficar invisível tanto aos seus predadores quanto às suas presas.
    Pois bem, o secular sistema brasileiro de dominação política e econômica é o supremo camaleão, que vem atravessando décadas, séculos, sem ser notado nem molestado, enquanto sacrifica em série os “bodes expiatórios” da vez no altar da opinião pública e do eleitorado distraído.
    Compõe esse sistema nefasto todos aqueles grupos sociais, minoritários porém política e economicamente dominantes no País, que vivem direta ou indiretamente às custas do estado, ou seja da população que gera riqueza, utilizando-o como uma máquina infernal e implacável de sugar as energias do povo brasileiro que trabalha e produz , sem nada lhes devolver em troca, senão angústias e injustiças permanentes.
    É um sistema perverso de dissipação da riqueza social gerada pelo trabalho das pessoas, entravando e encruando o desenvolvimento do País, um elefante morto pesando nas costas do trabalhador brasileiro.
    Formam esse sistema maligno, longevo e até aqui indestrutível:
    – grandes empresários rurais, antigamente conhecidos como latifundiários, que sustentam na base da força política a sua rede de exploração dos recursos e do trabalho humano em larga escala;
    – funcionalismo público privilegiado, com estabilidade de emprego e salários superiores aos de mercado, imune à noção e prática da produtividade e de resultados;
    – aposentados privilegiados do setor público, que ganham proventos bem acima dos pobres filiados ao INSS;
    – políticos de todos os matizes, que vivem de sugar o Tesouro de múltiplas formas;
    – uma máquina judiciária cujo custo, exorbitante, supera largamente os benefícios produzidos para a sociedade;
    – profissionais liberais que orbitam o setor público, criando mil artifícios para sugar a Viúva;
    – empresas ineficientes, tecnologicamente defasadas, oligopolistas, cronycapitalistas, que montam, entre si e com os políticos, conluios para “proteger” e fechar o mercado (evitando assim a mortal concorrência), praticam preços absurdamente altos quando comparados com os padrões internacionais, acionando a política para defender com unhas e dentes seus interesses corporativos de manutenção eterna do status quo, e que vivem de “incentivos fiscais”, outra forma absurda de predar o estado, e da aplicação estéril de seus lucros na dívida pública, através do cartório bancário;
    – ONGs que sugam a Viúva alegando defender o interesse público, quando na verdade defendem os interesses particulares que estão por detrás delas;
    – Sindicatos com mentalidade corporativa da idade da pedra, com renda garantida pelo imposto sindical, arrancado dos pobres que dizem representar, e que vivem para cuidar de si próprios e dos interesses de seus controladores, em detrimento do real interesse dos verdadeiros trabalhadores;
    – corporações de todos os tipos;
    -alunos ricos, filhos da burguesia patrimonialista brasileira, que ocupam as universidades públicas “gratuitas” (ou seja sustentadas pelos contribuintes), onde reproduzem o sistema predador disfarçado de “socialismo “;
    – por último, mas não menos importante, o cartório financeiro nacional, que lhes lava e multiplica as rendas predadas para preservar e expandir seus interesses às custas do suor do contribuinte, ironicamente emprestando ao próprio estado, através da hoje astronômica dívida pública!
    Como funciona essa trama secular? O acesso privilegiado à máquina pública é a chave para desvendar o enigma do funcionamento ininterrupto desse sistema que exaure as riquezas nacionais em proveito próprio.
    Todos os grupos que compõe o sistema de alguma forma retiram suas altas rendas do estado (ou seja da população que trabalha e gera riqueza), de forma legalizada porém ilegítima, altamente predatória, e que diretamente ou indiretamente preservam e multiplicam essa renda emprestando e reemprestando ao estado através do cartório bancário.
    Assim, o sistema exaure permanente e pesadamente os recursos públicos, seja consumindo as receitas através de sua contraprestação improdutiva, seja através da dívida pública, desenhada e gerida de forma a garantir a preservação e multiplicação dessas rendas predadas, sem risco e com juros escorchantes, deixando à mingua o estado, incapaz de suprir minimamente as necessidades de saúde, educação e demais serviços públicos ao pobre povão brasileiro, que é na verdade quem paga duplamente essa conta monstruosa.
    Outro efeito perverso dessa situação é o que podemos chamar de “capital crunch”, que é a concentração de aplicações financeiras na dívida pública, financiando o desperdício e a improdutividade, enquanto falta capital para investir nos setores produtivos, ocasionando a prática de juros escorchantes pelo cartório financeiro.
    Na verdade, nós ainda somos uma sociedade de cunho escravocrata, em que os escravos, os cidadãos comuns geradores da riqueza social, são teoricamente “livres”, mas vivem como servos obedientes desse maligno sistema predador.
    A predação sistemática do Estado é a fonte e a causa do nosso atraso econômico e da irremovível e vergonhosa desigualdade social num país com tanto potencial como o Brasil.
    A pesada herança patrimonialista portuguesa persiste entranhada em nossa cultura social, com as “excelências” predadoras do estado julgando-se com direitos divinamente adquiridos, eternos e inatacáveis, ainda que socialmente perversos.
    E como é que o sistema camaleônico se disfarça perante a opinião pública e o eleitorado? Escondendo-se sempre atrás do “bode expiatório” da vez, ou seja, escudando-se naquele grupo alçado ao poder para promover “mudanças políticas” cosméticas, irreais, marqueteiras, porém necessárias para que tudo fique lampeduzamente como está, em termos de poder real e efetivo.
    Na realidade, de crise em crise política, quase nada muda substancialmente quanto ao secular e perverso sistema de predação do erário.
    Tomemos o caso do “bode expiatório” da vez passada, Lula, Dilma e seu PT. Eleitos sob a promessa de promoverem a “justiça social”, resgatando o povo de seu sofrimento histórico, tal qual um Don Quixote maluco atacaram o moinho errado, culpando pelos referidos males sociais um “capitalismo” distante e indefinido, como se no Brasil tal coisa houvesse.
    Na prática, como os “bodes” anteriores, aderiram pesadamente ao sistema camaleônico e predador, não só fazendo o seu jogo mas dele participando e usufruindo também, e ainda alegando estarem a serviço das classes sociais menos favorecidas, justamente as que pagam o pedaço maior dessa conta maligna.
    Sendo o “bode” da vez, cumpriram sua missão de preservar oculto o camaleônico sistema predador, para o que foram regiamente “recompensados” em termos pessoais, mas queimando-se politicamente, como previsto no roteiro político perverso que infelicita este País há muito tempo, sem qualquer mudança real.
    E que venha agora o próximo “bode”, Michel Temer. Egresso do sistema político predador, e portanto impedido, sem condições de mexer no queijo da predação, pois para defender o “status quo” perverso temos as invasões e as “manifestações da rua”, outro disfarce sempre conveniente para as manipulações do sistema predador.
    Se Temer ou qualquer outro Don Quixote tentar realmente qualquer reforma que ameace de fato os interesses do sistema, será convenientemente expelido, como foi Dilma Rousseff. O papel real dos “bodes expiatórios” políticos é enrolar a opinião pública com “mudanças” e reformas inócuas, para que tudo permaneça como sempre no reino da predação do estado.
    Pois quando se protesta contra a corrupção, ninguém se dá conta de que o pior tipo de corrupção, seguramente o que mais destrói riqueza e penaliza o País, é a corrupção implícita, institucionalizada nas múltiplas formas legalizadas de predação do estado.
    São bilhões e bilhões de reais consumidos todo ano para sustentar a máquina predadora. Esta é a real origem do déficit público e da astronômica e impagável dívida pública.
    Fica a questão: como desarmar e acabar efetivamente com esse longevo e corrupto sistema camaleônico predador, que está desde há muito arruinando as esperanças e a vida do povo brasileiro, dissipando a riqueza social?
    Em primeiro lugar, limitando severamente o acesso às rendas propiciadas aos predadores pelo estado, seja na predação direta das receitas públicas, seja através da predação indireta representada pela dívida pública.
    Em segundo lugar, mas ao mesmo tempo, reformulando totalmente seu agente de predação, o “mosquito da dengue” que infesta o erário, o cartório financeiro, que vive do conforto da dívida pública, usufruindo de altos rendimentos sem o menor risco, e assim remunerando a si e aos grupos predadores que lhes confiam as rendas predadas.
    Para alcançar esses objetivos, aparentemente simples, mas dificílimos de atingir na prática, urge reformular totalmente o desenho e o funcionamento do aparelho estatal, o que implicará em reduzir seu tamanho, aumentar sua eficiência, e mais do que isso, em separar completamente o interesse público dos interesses privados, removendo os predadores que atuam no interior do estado em completa sintonia com os predadores externos, sugando assim as energias da Nação.
    O problema é que esses predadores controlam também o sistema político, em tese o encarregado de promover essas substanciais e inadiáveis mudanças.
    Previsivelmente, trabalharão para eleger outros “bodes expiatórios”, que prolongarão a sobrevida do sistema maligno, até um ponto em que o povo brasileiro não aguente mais e faça justiça com suas próprias mãos. Esse é o risco que corremos.
    Haveria, porém, uma estratégia eficaz, consistente e automática de fazer essas reformas necessárias no aparelho estatal, sem que seja necessário mexer e agitar muito o caldeirão político.
    Essa fórmula consistiria em promover, através de projeto de lei de iniciativa popular, uma reforma “tecnica”, em movimentos de base jurídica, provocando rombos estratégicos no casco do Titanic predador, que acabarão por levá -lo a pique:
    – Alterar qualitativamente a Lei de Responsabilidade Fiscal, não para reforçar os limites quantitativos da gastança, nem para congelar despesas, como a recente PEC do Teto propõe fazer, aliás como se faz cosmeticamente de tempos em tempos, só para criar novos parâmetros da violação, mas para forçar o setor público, em seus três níveis de governo (união, estados e municípios) a poupar obrigatoriamente uma parte de suas receitas, poupança essa que iria para um fundo federativo de poupança e investimento (tipo FUNDEB), podendo os recursos serem resgatados pelos governantes tão somente para financiamento de projetos de investimento, devidamente avaliados e aprovados pelo agente gestor do fundo (que poderia por exemplo ser o BNDES). Essa pequena mas profundamente impactante alteração qualitativa na LRF produziria consequências tremendamente positivas para sanear o setor público, pois além de aumentar drasticamente o nível de poupança e investimento do País, tradicionalmente muito baixos, forçaria a um redesenho automático do sistema de gestão pública;
    – Alterar e alongar significativamente o perfil da dívida pública, eliminando completamente os títulos pós-fixados, baseados na taxa SELIC, e somente operando com títulos pré-fixados, remunerados pelo desconto no valor de face, como nos títulos americanos, com troca obrigatória dos títulos no mercado por títulos de 50 anos com juros pré-fixados e abatidos do valor de face. O cartório financeiro terá de ser estatizado por um período, e depois as cartas patentes serão relicitadas com permissão de participação de grupos estrangeiros.
    – Limitar severamente, por lei o montante de títulos da dívida pública que cada membro do cartório financeiro nacional possa carregar dentre seus ativos. Isto terá um tremendo impacto no cartório bancário, contribuindo para reformulá-lo e torna-lo um sistema mais competitivo, menos cartorial, e mais aberto a financiar as atividades produtivas no País, ou seja, mais propenso a correr riscos e a se fortalecer pelos ganhos maiores advindos do financiamento ao setor privado.
    – Privatização radical de todas as empresas estatais, e extinção das que não forem viáveis, revertendo os recursos para o Fundo Republicano de Poupança e Investimentos
    – Taxação severa de rendimentos acima de certo valor, revertendo os recursos também para o Fundo Republicano de Poupança e Investimentos, como forma de acabar com os salários privilegiados do setor público
    Estamos convictos de que essas alterações jurídicas, técnicas, provocarão com o passar do tempo, de forma automática, severos danos ao secular e maligno sistema de dominação política e econômica, desintegrando-o paulatinamente, até a sua total e final substituição por um sistema realmente democrático, que sirva de fato aos interesses do povo brasileiro.

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  • lucia maria lebre disse:

    Fernão, daria eu laguns dentes da boca para ter essa escrita tão brilhante quer de fundo, quer de forma. Fundo que se comprova por alguns comentários acima, tão distorcidos da realidade e dos anseios do Brasil que paga a conta!

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  • Mario disse:

    Muito bom artigo, Fernão.
    Parabéns!!

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  • Ethan Edwards disse:

    A operação Intercept é coisa cara, de preparação longa, e só por coincidência deve ter acontecido na mesma semana da votação da reforma da previdência. Quem pagou por essa operação não tem qualquer interesse em previdência e assuntos de natureza econômica ou administrativa: pretende “apenas” derrubar o governo Bolsonaro, daí o ataque à sua vertente de maior apelo popular: a questão da moralidade, fortemente associada a Sérgio Moro, à Lava-Jato e à “luta contra a corrupção”.

    O PT, o PSOL, o PCdoB e outros inimigos dos cidadãos comuns evidentemente ficaram felizes com esse presente. Mas votariam contra a reforma de qualquer modo, porque ela lhes dá a oportunidade ímpar de acionar a narrativa em que aparecem como “defensores dos direitos dos trabalhadores”. Não há nenhum outro tema em que a luta “elite má x pobres espoliados” possa ser tão bem falsificada e coreografada.

    Na luta política, os intelectuais (como qualquer cidadão) têm todo o direito de se abster. A consequência é que passem a escrever sobre poesia, filosofia, arquitetura, o que preferirem. Isso em nada os diminui. Mas, se escrevem sobre política, não são livres para defender uma posição que não está representada na cena real: “Neste ano de 1944, entre Hitler e Churchill, dois políticos que não respeitam as leis da guerra e bombardeiam cidades com extensa população civil, eu, como intelectual responsável, um intransigente defensor da democracia, escolho…” E aí, faz o quê? Quem você apoia? A política não é um exercício intelectual, onde nós mesmos estabelecemos os termos e os colocamos em jogo. A política não é feita ao gosto das nossas preferências: ela simplesmente se apresenta, como consequência da história, e nós temos que escolher: ou silenciamos (e vamos escrever sobre outra coisa) ou escolhemos entre os termos que ela estabelece.

    Entre a Lava-Jato (e suas inclinações justiceiras) e o Intercept, com seu claro propósito de derrubar o governo para reinstalar Lula e asseclas no poder, não tenho dúvida: escolho os justiceiros. É possível que amanhã eu tenha que lutar contra eles. Paciência. Este é o pais em que nasci; estas são as escolhas que ele me coloca hoje. Alguém por aí tem uma opção melhor?

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  • Sônia disse:

    Boa tarde, Fernão;
    Primeiro minha mãe vibrou e me “intimou” a ler seu artigo. Li e também vibrei. A imprensa só fica cobrando o retorno ao antigo numa insistência contumaz para que haja “articulação”. Já vimos que o congresso, que agora arvora a “sua” agenda acusando o Planalto, não nota o ridículo desse posicionamento. Já sentimos na pele até onde a “agenda deles” nos leva – à beira do ABISMO. Temos de apoiar nosso Presidente!

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    • RUBI GERMANO RODRIGUES disse:

      Focar essa “agenda do Congresso” é interessante. A agenda da nação foi definida na eleição e o seu não cumprimento ou a sua contestação durante a legislatura é indevida e inaceitável continuação do processo eleitoral. Ele terminou com a proclamação dos resultados da eleição. A eleição aprovou a defesa da família, o direito do cidadão defender-se e a condenação da bandidagem. Legislador que for contra isso vai prestar contas na próxima eleição. Quanta falta faz um cercall.

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  • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

    É Fernão, a turba do Brasilnecura – sinecuras que assolam os três níveis do governo nacional – topou uma concordata para empresas da Odebrecht, para o bem do Brasil deles e o Povo brasileiro que se lixe para pagar os micos, os patos e os gatos que pululam em todas as instituições nacionais chupando o sangue da Viúva República. Lideranças catalizadoras são muito importantes para acordar a Nação e poucas, infelizmente, vem a público como você faz com excelentes textos esclarecedores. O processo de fermentação poderá ser muito rápido e uma reação democrática a altura para defenestrar as privilegiaturas e seus mantenedores.

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  • Pedro Marcelo Cezar Guimarães disse:

    No longo das últimas 3 décadas houve um acentuado e extraordinário avanço nos a eterna permanência de poder dos políticos corruptos profissionais. A força Tarefa Lava Jato, o impeachment da quadrilha petista, manifestação da população indignada, nas ruas e redes sociais na internet e a eleição do Presidente Bolsonaro fez ponto de inflexão no status-quo do establishment que aparelhou a sociedade estatal brasileira e locupleta-se dos dinheiros na nação.
    A luta dos dois brasis será árdua e a vigilância permanente sobre aqueles que sempre foram os malfeitores e privilegiados, e que ora não aceitam nenhuma vantagem (indevida ou não) ou “direito” a menos!

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  • Pedro Marcelo Cezar Guimarães disse:

    No longo das últimas 3 décadas houve um acentuado e extraordinário avanço nos projetos político-partidários corruptos visando a eterna ocupação e manutenção do poder na República. A força Tarefa Lava Jato, o impeachment da quadrilha petista, manifestação da população indignada, nas ruas e redes sociais da internet e a eleição do Presidente Bolsonaro fez ponto de inflexão no status-quo do establishment que aparelhou a sociedade estatal brasileira e locupleta-se dos dinheiros na nação.
    A luta dos dois brasis será árdua e a vigilância permanente sobre aqueles que sempre foram os malfeitores e privilegiados, e que ora não aceitam nenhuma vantagem (indevida ou não) ou “direito” a menos!

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  • Antonio Salles Neto disse:

    É bom lembrar que tudo isso que está aí, imprensa inclusive, é resultado de 30 anos sem Educação Básica. O Brasil, seja qual for, desprezou a distribuição real de riqueza imaterial, a democratização do conhecimento, como fez a Coréia do Sul. Não podia dar outra coisa: uma Pátria Educadora que consome 2/5 dos Infernos.

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  • Flammarion Ruiz disse:

    Caro Fernão, parabéns pelo brilhante artigo! Do lado de cá de toda esta situação será que para poder entender o que de fato acontece, teremos que aguardar outros mais 4 anos? Por óbvio que há falhas no processo de avanço pretendido, bem como selecionar quadros é o x da questão, no entanto, esperar 2023 é o caos, pois então nos cabe mudar com o recall, mas como introduzi-lo nesta barafunda toda? Como alterar esta modelagem política constitucional atualmente existente? São tantos interesses para serem acomodados, arranjados, acertados, negociados, que alguém vê alguma saída? O problema não é somente com a Previdência, olhem a questão Tributária, de Segurança Pública, Educação e etc. Pelo que sei nosso desempenho enquanto fenix não nos é feliz. Como então?

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    • Flm disse:

      Primeiro temos de saber pra onde queremos ir. V já está lá: voto distrital puro, recall, referendo, iniciativa.
      Então, encher as Paulistas 3 a 4 xs com todo mundo com o mesmo cartaz.

      Basta instituir esse sistema no âmbito municipal. Experimentar mandar em político vicia na hora. O resto acontece sozinho. Com essas ferramentas na mão rompemos o compromisso com o erro,. E então é só ir experimentando, acertando e errando, como acontece na vida real. Tendo as ferramentas na mão o Brasil constrói o Brasil.

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  • Sonia Resende Barros disse:

    Fernao adorei o artigo principalmente a parte que trata da imprensa e do jornalismo brasileiros. Parabéns pela coragem!

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