A última porta antes do inferno

19 de fevereiro de 2016 § 11 Comentários

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Artigo para O Estado de S.Paulo de 19/2/2016

A uma geração de distância o Brasil já não se lembra de onde foi que o Plano Real o resgatou. Não dá sinal de ter consciência clara da profundidade do abismo que anda rondando e da curtíssima distância que nos separa do ponto de não retorno.

Empreguismo, ordenha do Estado, incompetência voluntarista, desinstitucionalização e corrupção em metástese derramados por cima de camadas sucessivas de privilégios e entulho legislativo populista acumulado em aluvião desde a Constituição de 88 para ampliar e manter clientelas votando a contento de eleição em eleição, rompeu finalmente todos os limites do suportável. Essa mistura de descontrole de gastos com a derrocada da arrecadação que decorre da paralisia da economia por falta de segurança jurídica é explosiva. O crescimento geométrico da divida que nos levou à hiperinflação num passado recente está de volta com força total.

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Se o governo gastar só o que está legalmente obrigado a gastar ela cresce, no mínimo, 6% ao ano acima da inflação segundo as contas de Raul Velloso, o homem que melhor conhece as entranhas da máquina de moer dinheiro do estado brasileiro. O deficit da União foi de R$ 120 bilhões em 2015. O dos estados de mais R$ 30 bilhões. Ainda entraram US$ 57 bilhões em investimentos estrangeiros que disfarçaram o buraco, mas essa fonte está secando. Os juros em que vêm mamar esses dólares estão muito alem do suportável e aumentá-los seria uma confissão de intenções suicidas. O rombo de 2015 já não levou o governo ao mercado; o déficit está sendo finananciado com emissão monetária, ainda que disfarçada.

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Na projeção matemática de Raul Velloso a folha de salários da União, que já consome 75% dos gastos públicos e custou 12% do PIB em 2012 deveria dobrar essa proporção do PIB até 2040. Mas a realidade ainda não é tão benfazeja. Ha forças muito mais elementares que “ideologia” empurrando-nos para o desastre. Enquanto aqui fora ha pânico, naquele Brasil dos indemissíveis para todo o sempre onde “performance” é palavra tabu, os salários não param de subir. Brasilia, como sempre, vai de vento em popa e por isso não tem pressa. Os “auxílios” mil – à alimentação, à saude, à “assistência pre-escolar”, à moradia e ao diabo a quatro, não tributáveis e não computados como salário para não mudar o contemplado de faixa no imposto de renda – são os preferidos. Nem por isso abre-se mão do sagrado aumento do “por dentro”. Condescende-se, quando muito, em parcela-lo. A média dos 32 acordos e 6 projetos de lei já aprovados nas “negociações salarias” dos empregados/militantes do PT se aproxima da casa dos 30% nos próximos quatro anos, o que dá como certo, por enquanto (as categorias com “poder de barganha” ainda brigam por bem mais que isso e “à vista”), R$ 50,2 bi a mais na folha do funcionalismo até 2019. Uma vez e meia a CPMF de R$ 32 bi com que sonha dona Dilma.

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O homem é o lobo do homem”…

A imagem virtual do país que tais práticas vão desenhando pôde ser entrevista nos números do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço ventilados na imprensa quando dona Dilma, sob ordens do PT, anunciou que vai usa-lo “para turbinar o consumo”. Dos R$ 273 bilhões depositados lá, a multidão dos trabalhadores da economia privada que sofrem o desemprego que custam os privilégios do Brasil da “1a Classe” detém R$ 18,7 bi (6,8%). A casta dos empregados do Estado, instâncias estadual e municipal incluídas, é dono de R$ 168,4 bilhões (61,7%). Já a imagem física que esses números traduzem é a das quase favelas das imensas “periferias” caóticas e insalubres que vão recobrindo o país do Oiapoque ao Chuí, entre “invasões” eleitoralmente incentivadas e “loteamentos” de araque comprados a vereadores ladrões em torno de núcleos urbanizados minúsculos que explicam mais que suficientemente a tomada de assalto do país tanto pelo Aedes aegypti quanto pela epidemia de crime que reduziu a vida no Brasil a uma espécie de roleta russa.

O colapso da economia a partir desse patamar é um desastre de proporções ciclópicas. Algo eleitoralmente tão tóxico que Dilma já não tem apoio nem do PT e Lula espera apenas o melhor momento para traí-la. Mas, como é ela que está à frente do esquema de sustentação dos “Sem Crise”, é por ela que, até segunda ordem, eles lutarão na rua e no front clepto-parlamentar, a esta altura regido por gambiarras jurídicas e fabricações de “maiorias” à venezuelana que enterram cada vez mais fundo a segurança jurídica sem a qual é impossível construir.

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É sobre esse pano de fundo que Raul Velloso sugere seis medidas capazes de reduzir de 24% para 14% do PIB a projeção do custo da folha de pagamento do Estado em 2040, o que sinalizaria, ao menos, que o país retomou o controle sobre suas contas,

  • reajuste do salário mínimo pelo PIB per capita;
  • limite das pensões a 70% da aposentadoria do morto;
  • idade mínima de 65 anos para aposentadoria;
  • correção dos beneficios assistenciais por 75% do salário mínimo;
  • idade minima para a fruição de beneficios assistenciais de 65 para 67 anos;
  • fim do abono salarial (o Bolsa Família garante os realmente miseráveis);

e uma manobra política de emergência para contornar a guerra PT x Congresso e manter o país vivo até que ela chegue onde tiver que chegar: os governadores, todos juntos, patrocinariam esse pacote.

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Velloso aposta na foça do instinto de sobrevivência. Os governadores estão falidos e isso tiraria o seu caixa tanto quanto o da União do sufoco; pertencem a multiplos partidos, o que garantiria a condição de união nacional imprescindível à aprovação das medidas; proporcionaria ao PT um “álibi” para permitir que se inicie ao menos a remoção do entulho populista mais difuso, sem tocar diretamente na ferida dos seus empregados/militantes. Feita a ressuscitação do Brasil, depois ve-se o que fazer com Dilma, o PT e o seu estado dentro do Estado para além do que o juiz Moro já está fazendo.

Triste? É. Difícil? Mais ainda. Mas é o que temos pra hoje, considerado que pode não haver amanhã.

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§ 11 Respostas para A última porta antes do inferno

  • José Luiz de Sanctis disse:

    Enquanto tivermos renans, cunhas et caterva, nada vai acontecer e o abismo é certo.

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  • Cris Dias de Souza disse:

    Como não concordar ? E muito bem escrito ! Estou apavorada e ninguém se dá conta do abismo …

    Cris Dias de Souza

    >

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  • Carmen Leibovici disse:

    E quem é que vai dar o start para essa medida emergencial?Quem é que vai juntar os governadores e implementar a solução emergencial?
    Fora isso,eu me pergunto se há alguma previsão constitucional para retirada do poder de presidente acometido por doença grave,ou no qual se descobriu doença grave.
    Dilma é uma psicopata.Como ela fala;a falta de raciocínio coerente;sua incapacidade de decisão e análise;sua incapacidade de vislumbrar o perigo,etc e etc são elementos suficientes para retirá-la do poder, uma vez que estão ocasionando a ruina do País.
    A oposição está tentando removê-la por certas vias,mas a via direta seria um exame de sanidade mental,que abrangesse o raciocínio,a capacidade de lidar com a realidade,a consciência da realidade etc e etc.Por quê não pedem isso?Acho que seria tiro e queda.
    O Brasil não pode continuar nas mãos dessa louca.É triste falar assim,mas é exatamente assim ,então está na hora de pararmos de rir das anomalias dessa mulher e passarmos a tomar providências concretas,pois ,como você diz,pode não haver amanhã.

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  • Desculpe, mas não dá mais para concordar com essas “soluções”. Essas “soluções” é o que nossas elites (nossa Corte), agora engrossadas com os boi-livarianos do lulo-petismo, vem impondo desde sempre. Fechar a torneira do desperdício, única solução corajosa e honesta, é sempre postergada. Agora vem o Sr. Raul Velloso propondo mais uma vez adiar o enfrentamento até 2040 e depois ver o que acontece. Se nesse meio tempo surgir uma nova Dilma, o que acontecerá ? Começaremos contar prazo desde o zero novamente ?

    O inimigo número um do povo e dos empresários brasileiros sempre foi o empreguismo descarado no setor público. D.João VI trouxe consigo 10.000 inúteis que agora já somam 5,5 milhões.
    Nota: valor desviado nesses 14 anos para pagar os inúteis: R$ 3,38 trilhões de reais.

    Até quando o Brasil que trabalha tem que sustentar essa inutilidade, esse crime ? Pelo menos ainda até 2040 ? Chamo a isso de covardia.

    http://capitalismo-social.blogspot.com.br/2016/02/parlamentarismo-e-federalismo.html

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    • fernaslm disse:

      posso ter explicado mal, sr martim, mas raul velloso nao propoe adiar o problema ate 2040, ao contrario, ele alerta q como esta nao chegamos vivos ate la, e propoe açoes concretas, precisas e que requerem enorme coragem para começar a reverter essa certeza.
      incrivel a parcela dos problemas deste pais que sao obra de Exu, o orixá que se diverte fazendo com que o ouvinte escute o contrario do que lhe foi dito, e as coisas se vão enrolando cada vez mais!!!!!

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      • Meu caro Fernão. As ações concretas que o sr. Raul Velloso propõe, são de um antigo e surrado receituário, que nunca atacaram as verdadeiras causas das nossas mazelas. Propõe arrocho para quem não tem escapatória, nem defesa, e mantém inalterado o empreguismo criminoso e que leva à corrupção maior. Este aspecto, o principal, a causa primária da eterna falta de recursos, o sr. Velloso ataca com parcimônia.
        Basta uma atitude para reverter este quadro, mas para este realmente precisa coragem: a Lei de Responsabilidade Fiscal permite à estados e municípios GASTAREM até 50% das suas receitas líquidas em empreguismo. Basta reduzir este percentual para 30%. Sobrará dinheiro e não faltarão pessoas para bem executar suas obrigações.
        Serão no mínimo R$ 200 bilhões/ano de economia. Resolve-se o problema em um ano, sem precisar esperar melhoras ano à ano até 2040. Para isto sim precisa coragem.
        É mais cômodo desempregar os trabalhadores da iniciativa privada, do que demitir a grande família dos políticos: cabos eleitorais, parentes, amantes e amigos, e seus salários de marajás.
        Não apenas leio seus artigos, como tenho copiado alguns e postado no blog que mantenho: Capitalismo Social.
        Sds.
        Martim.

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      • fernaslm disse:

        sim, tudo isso é obvio, mas politicamente inviavel. o q ele esta propondo é uma saida desesperada e que, de qquer jeito, vai, sim, na direçao certa pra q sobre o q salvar. tudo que essas medidas cortam sao privilegios q quem desfruta na verdade sao os empregados do estado e não nos.
        mas isso é passado. o pais tera de morrer pra renascer. ele so esta tentando evitar esse extremo.
        fazer + leis adiantara tanto quanto as cinco milhoes de leis ja existentes, incluive a LRF q ja ninguem respeita e nem por isso o impeachment vai. o q falta ao Brasil não são leis, é enforcement (vulgo recall)

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  • Correção:
    Nota: valor desviado nesses últimos 14 anos para pagar os inúteis: R$ 3,38 trilhões de reais.

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  • Edson Vicente de Almeida disse:

    Belo Artigo Sr. Fernão Mesquita, parabéns

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