O 9 de Julho, de Getulio ao PT

24 de julho de 2014 § 5 Comentários

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Versão de artigo anteriormente publicado no Vespeiro para O Estado de S. Paulo de 23/7/2014

São Paulo comemorou este mês o 82º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932 que muito pouca gente, neste Estado e no resto do Brasil, sabe o que foi.

É impróprio, aliás, usar verbos no passado para tratar deste assunto pois a luta de 1932, que começara pelo menos 50 anos antes com o Movimento Abolicionista que desaguou na República e se confunde com a história deste jornal é exatamente a mesma de hoje.

Gira em torno da seguinte pergunta: onde é que se quer instalar a sociedade brasileira emancipada, no campo da civilização ou no da barbárie? No Estado de Direito com a Lei igual para todos ou nas variações do caudilhismo populista onde fala quem pode e obedece quem tem juízo? Numa meritocracia em que só a educação e a dedicação no trabalho legitimam a diferença ou no sistema onde a cooptação e a cumplicidade com a corrupção são os únicos caminhos para o Poder e para a afluência?

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O Movimento Abolicionista é o primeiro na História do Brasil a surgir nas ruas e não nos palácios e a tomar o país inteiro numa avassaladora mobilização cívica. Nasceu sob inspiração direta da Revolução Americana. Muitos dos seus principais líderes brancos e negros frequentaram as mesmas “lojas maçônicas”, lá nos Estados Unidos, em que a elite do Iluminismo fugida do absolutismo monárquico europeu, regime sob o qual vivia o Brasil e o resto do mundo de então, iniciou o debate que resultaria no desenho das instituições da democracia moderna.

Tratava-se de uma humanidade escaldada por dois mil anos dormindo sob o risco de sua majestade acordar de mau humor e mandar torturá-la até a morte sem ter de dar explicações a ninguém. Para garantir que nunca mais fosse assim, aqueles conspiradores estabeleceram os princípios fundamentais da democracia que até hoje não se instalou por aqui: o império incontestável da lei inclusive e principalmente sobre os governantes; a vontade popular, democraticamente aferida, como única fonte de legitimação dessa lei e o mérito no trabalho como única fonte de legitimação do poder econômico; a descentralização do poder para garantir a fiscalização a mais direta possível dos representados sobre os representantes concentrando nos municípios todas as decisões e serviços públicos que pudessem ser prestados no âmbito deles, nos estados apenas as que se referissem aos assuntos que envolvessem mais de um município e na União só os que não pudessem ser resolvidos por essas duas instâncias, e mais as relações internacionais.

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Para reduzir ainda mais o espaço para que as tentações do mando não produzissem os efeitos que sempre produzem no caráter dos homens determinou-se que cada uma dessas instâncias de governo fossem divididas em três poderes autônomos e independentes entre si, uns encarregados de fiscalizar os atos dos outros.

Não foi atôa, portanto, que os brasileiros oprimidos que testemunharam esse verdadeiro milagre se tivessem encantado a ponto de dedicar suas vidas a faze-lo acontecer também no Brasil.

Foi em nome desses princípios que nasceu a República; foi para preservá-los que foram feitas a Revolução de 1930, a Revolução de 32, a redemocratização de 1945, o contragolpe de 1964 e a redemocratização de 1985.

Getulio traiu, como Lula, a bandeira da “ética na política” que levou os dois ao poder em 1930 e em 2002. Getulio adiando a convocação de uma Constituinte e nomeando títeres como governadores dos estados até que São Paulo se levantasse contra a sua ditadura não declarada em 1932; Lula aliando-se a todos os “carcomidos” da política que se elegeu atacando para perenizar-se no poder.

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Foram 87 dias de uma guerra desigual contra os exércitos da União. São Paulo foi derrotado militarmente mas teve uma vitória moral tão indiscutível que Getulio, depois de devolver o governo do estado a lideranças paulistas (na pessoa de Armando Salles de Oliveira), sentiu-se constrangido a convocar finalmente a Constituinte que deu ao Brasil, em 1934, a única Constituição verdadeiramente democrática que ele teve.

Tão democrática que o caudilho não conseguiu conviver com ela e “fechou” o país, em 1937, impondo a sua própria lei e reinstalando a ditadura, um movimento semelhante ao que o PT repetiu agora com o Decreto 8243 que segue vigendo, recorde-se, e determina que nossas leis passarão a ser feitas não mais exclusivamente por um Congresso legitimado pelo voto de todos os brasileiros mas pelos “movimentos sociais” que o partido escolher.

Um dos primeiros atos da ditadura varguista foi queimar cerimonialmente as bandeiras dos estados da federação. O PT também trata de centralizar o poder mas por meio de uma sucessão de Medidas Provisórias e outros expedientes subreptícios que, passo a passo, vão tirando atribuições e fontes de arrecadação dos estados e municípios de modo a deixá-los totalmente dependentes da União.

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Getulio fechou o Congresso; o PT subornou o Congresso. Getulio instalou um Poder Judiciário teleguiado; o PT criou um Poder Judiciário colonizado. Getulio instituiu o regime em que “Para os amigos, (o Estado dava) tudo; para os inimigos, (o Estado aplicava) a lei”; o PT instituiu o sistema dos vazamentos seletivos para a imprensa dos “podres” dos seus adversários políticos, verdadeiros ou falsos, de par com as suítes especiais nos presídios para os poucos “amigos” condenados antes da desmontagem do Poder Judiciário. Getulio criou a industria de base e a distribuiu entre os “amigos” que financiavam o regime; o PT reverteu a economia democratizada que recebeu na política dos “campeões nacionais” donos de monopólios financiados com dinheiro público, hoje os maiores contribuintes de suas campanhas. Getulio seduziu o povão com a outorga de direitos sem a contrapartida de deveres; o PT seduziu o povão com os salários sem a contrapartida do trabalho. Getulio criou os sindicatos pelegos sustentados pelo Estado; Lula e o PT são o produto direto deles.

São Paulo resistiu sozinho a Getulio; São Paulo vem resistindo quase sozinho ao PT.

A luta de 1932, portanto, ainda não acabou. E em outubro próximo haverá mais uma batalha decisiva.

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§ 5 Respostas para O 9 de Julho, de Getulio ao PT

  • arilud disse:

    Excelente. Mostrar esta ponte entre o getulismo e o petismo dar um q na visualização deste processo, facilita a compreensão. Parabéns.
    Esta pergunta, “…Gira em torno da seguinte pergunta: onde é que se quer instalar a sociedade brasileira emancipada, no campo da civilização ou no da barbárie?…” está muito bem colocada e sua resposta ainda pode ser estendida
    Deus te ilumine!

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  • antonio salles neto disse:

    Parabéns! Esse foi o melhor artigo que eu li sobre a correlação entre o populismo passado e atual, no Brasil.
    Desde que o marxismo desmoronou na minha mente (confesso que ele me encantou até os 25 anos, hoje tenho 61), defendo que o socialismo marxista não tem aplicação prática tornando-se ferramenta de poder e religião materialista, uma modalidade de absolutismo sem nobreza, cujo Poder se concentra em uma súcia de exploradores da crendice dos pobres e do capitalismo de Estado. Seu sucesso dura enquanto há riqueza, mantendo a dominação com dissimulação e manipulação que só os mais letrados percebem.
    Os links históricos elencados neste artigo são muito felizes. De tão simples, são brilhantes. Divulgarei esse pensamento no meu network porque essa abordagem precisa atingir jovens que não conhecem sequer a história do Brasil dos últimos 30 anos e vivem atacando o liberalismo.

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  • Paulo Drummond disse:

    Muito bom, como de praxe têm sido suas crônicas aqui. É de se lamentar que poucos vejam —ou queiram ver— o andar da carroça na direção do atoleiro de uma ditadura comunista “bolivariana”. O golpe silencioso será a consagração do status quo, em que aos amigos é dado o ouro farto de superfaturamentos, as dachas e outros mimos do poder; aos inimigos o um nivelamento rasteiro, o confisco e a perseguição.

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  • João Ricardo Silveira Jaluks disse:

    A SOCIEDADE BRASILEIRA INFELIZMENTE ESTÁ ACOMODADA.
    ESQUECERAM DE EXERCER A CIDADANIA. AFINAL DE CONTAS QUEM MANDA NO PAÍS SOMOS NÓS. OS POLÍTICOS SÃO EMPREGADOS ABUSADOS PORQUE SOMOS COVARDES.

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  • José Guilherme Levenstein disse:

    A última trincheira – 87 dias de glória

    É com muito orgulho, como assinante do Estadão e paulista de coração, que parabenizo o jornalista Fernão Lara Mesquita pelo excelente artigo de 23/07/14 e pela verdadeira aula de história sobre o Estado de São Paulo, que sempre se levanta contra os ditadores populistas e demagogos quando as liberdades democráticas são ameaçadas.

    É importante destacar que a grande maioria da população desconhece a luta heroica dos Veteranos de 32, que com poucos recursos e com pequeno contingente militar lutaram contra o Governo Federal do ditador Getulio Vargas e, embora derrotados militarmente após os 87 dias de glória, saíram vitoriosos, uma vez que os objetivos da Constituinte de 1933 e da nova Constituição de 1934 foram alcançados.

    Salienta-se que a Revolução Constitucionalista nunca foi separatista e que muitas das conquistas hoje usufruídas por toda a população brasileira, tais como o voto secreto, voto feminino e Fundação da USP em 1934 foram bandeiras dos heróis de 32.

    Este é um alerta geral para toda a população brasileira, pois é muito preocupante a semelhança entre os governos de Getúlio Vargas e os dias atuais: tal qual o DIP do “pai dos pobres”, o atual governo utiliza a propaganda oficial para anestesiar a população com propaganda populista, inibindo lideranças ativas da oposição.

    Mais uma vez o Estado de São Paulo enfrentará nova batalha em outubro/2014, a qual será decisiva para garantir a proteção de nossa Carta Magna e dependerá do patriotismo dos seus 32 milhões de eleitores para derrotar os populistas, oportunistas e falsos patriotas.

    Esta batalha deverá ser disputada com coragem e união, tal qual a epopeia de 32. Com a ajuda de todos os paulistas, sairemos vitoriosos de mais esta batalha, pois São Paulo é a nossa última trincheira, “…a trincheira que não se rendeu: a que não transigiu, a que não esqueceu, a que não perdoou!” (Oração ante a última trincheira – Guilherme de Almeida).

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