Mais sobre Getúlio e o nazismo

11 de julho de 2019 § 2 Comentários

Um texto de janeiro de 2014 onde dou um testemunho direto de outras memórias vivas da simpatia de Getulio Vargas por Adolf Hitler.

https://vespeiro.com/2014/01/10/lira-neto-gramsci-e-os-mesquita/

A ressurreição da política

16 de julho de 2016 § 29 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 16/7/2016

Lula matou a política; Eduardo Cunha tratava de enterrá-la. Um era a exata contrapartida do outro e a remoção do último, na sequência da quase remoção do primeiro, completa a reversão do desvio mortal em que o Brasil entrou. Está reaberto o caminho para a volta da política sem a qual não se vai a lugar nenhum.

Essas mudanças são como as manobras dos grandes navios. O acionamento dos comandos não vence imediatamente a inércia. Está aí, ainda, o cirquinho “silogístico” de escárnio à inteligência nacional do PT sob a batuta de Jose Eduardo Cardoso, Gleisi Hoffmann e cia., par perfeito do “regimentismo” bandalho de Eduardo Cunha; está aí, ainda, aquele STF que solta e arrebenta legalizando para si mesmo, em plena Lava-Jato, o duto das “palestras” para partes nos litígios que julga, como as de Lula à Odebrecht, e garantia de segredo para o valor do mimo recebido. Mas tudo isso, depois da votação de quinta-feira, deslocou-se para mais perto da porta do passado.

Entrou ar. E onde entra ar qualquer infecção volta a ter chance de cura. Ha outro STF dentro daquele STF; ha outra política dentro dessa em que o lulismo transformou a nossa. O Brasil que não se alinha ao crime volta a ter no que se agarrar e isso faz muita diferença.

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Sem ilusões, porém.

Ha uma dimensão percebida dos nossos vícios, e outra que já é cultura e nos move por baixo do nível da consciência. Para a primeira tornam-se mais favoráveis as perspectivas. Antes de mais nada porque não ha alternativa para o caminho certo. É agir ou morrer. E logo. Rodrigo Maia tem formação econômica. Sabe que a alternativa fácil não dobra a esquina. É o homem certo no lugar certo para reger esse debate. Michel Temer, que se apruma com essa vitória, também passa a poder, mais que antes, agir certo em vez de apenas falar certo. Assim alterado o clima, o comando da Comissão de Impeachment bem pode, também, passar a olhar antes para o Brasil que se esvai manietado e a resistir com alguma galhardia às manobras espúrias que vem engolindo sem engasgar pois até para o STF será mais complicado, agora, dançar fora da nova batida do bumbo. Se o Brasil deixar claro que é o que quer todo mundo se afina, ao menos no discurso. Ou não foi assim que o país inteiro virou “Lava-Jato desde criancinha” e a votação de quinta-feira deu no que deu?

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A outra dimensão é que é mais difícil de lidar. O lulismo foi a chegada do primeiro produto P.O. (“puro de origem”) do peleguismo getulista ao posto mais alto da Nação. Ao fim de quase 80 anos de uso contínuo dessa droga de tão potente efeito necrosante não ha brasileiro que, direta ou indiretamente, não tenha sido mutilado por ela. A maioria de nós – o próprio Lula notoriamente – sequer tem consciência de como foi afetado. Simplesmente não sabe como é viver de outro jeito.

É juntar três ou quatro amigos, fundar um “sindicato” que o Estado se encarregará de impor a um dos lotes do condomínio nacional do trabalho onde não se entra sem alvará e fincar na veia o cateter do imposto sindical. Para o resto da vida, tudo que ha a fazer depois disso é não permitir que algum aventureiro o arranque do seu braço, o que é fácil de garantir desde que as “eleições” se deem por “aclamação”, sempre arrancável pela intimidação, seja pela negação de trabalho, seja pela violência física. Daí para a política. É essa a escola.

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Para esmagar resistências ao longo do caminho; para garantir esse “Eu sou, mas quem não é?” em que tudo se dissolve sempre no debate político nacional desde o “Mensalão”, acrescentou-se à receita a socialização da corrupção por essa “justiça trabalhista” que sustenta a legião de profissionais do achaque encarregada de moer a consciência da Nação soprando diuturnamente, de ouvido em ouvido, o mantra sinistro: “Minta, traia, falseie que o governo garante”…

E lá se foi o Brasil dessensibilizando-se até admitir que o método fosse estendido a todos os níveis do seu sistema representativo – partidos políticos, associações de classe, ONGs, etc. – e parecesse nada mais que lógico e natural impô-lo, afinal, como o regime político mesmo da Nação à força de decretos presidenciais e remendos judicantes sob a égide do “excesso de democracia” à venezuelana.

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É essa a feição “moderna” que assumiu o absolutismo monárquico à brasileira que a Republica nunca superou depois que entregou intactos os poderes do Imperador sem mandato aos novos imperadores com mandato. O abacaxi que Michel Temer e o Congresso de Rodrigo Maia têm de descascar é velho como o Brasil de d. João VI e os miasmas que dele emanam são fortes o bastante para levar até o “dream team”, em questão de semanas, a passar das juras de amor eterno ao controle dos gastos públicos ao namoro com mais um porre de impostos, só que sorvido aos “golinhos”. É que por baixo das diferenças manifestas nos extremos mais distorcidos do “Sistema” derrotados quinta-feira, eles continuam sendo, antes e acima de tudo, “A Côrte”; uma casta para a qual ha leis especiais, tribunais especiais, regimes de trabalho, salários e aposentadorias especiais e até juros bancários especiais extensíveis a quem quer que um de seus “excelentes” pares houver por bem resgatar deste vale de lágrimas. E, de cunhas a grazziotins, “A Côrte” reage sempre com unanimidade monolítica quando o que está em jogo é montar nas nossas costas para aliviar as próprias.

É disso que se trata mais uma vez agora. Tornar as suas prerrogativas um pouco menos “especiais” para que, explorados e exploradores, sigamos todos com os narizes 1 cm acima da linha d’água é o melhor que, em sã consciência, pode-se esperar desses brasileiros dispensados de viver no Brasil que eles próprios criam. Mais, só quando o Brasil se der conta de que é ele quem manda e adotar finalmente a democracia, obrigando-os a viver no mesmo país em que vivemos nós, sujeitos às mesmas leis, aos mesmos ventos e às mesmas tempestades. Aí sim, eles tratarão de consertá-lo.

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Tão perto! Tão longe!

30 de junho de 2016 § 8 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 30/6/2016

Desde que a Lava-Jato demonstrou que o PT é o Eduardo Cunha e vice-versa, e que há muito pouca coisa entre os dois que se diferencie radicalmente de ambos, o Brasil está paralisado na sua perplexidade.

Seriam, de fato, os R$ 0,85 de cada mensalidade embolsados pelo ministro Paulo Bernardo o maior escândalo desses “empréstimos consignados” com juros subsidiados que já montam a R$ 281 bi (4,5% do PIB) para a casta dos “com tudo” ao lado dos mais de 400% ao ano de juros do cartão do desespero dos “sem nada” de quem o Estado já toma outros 46% do PIB (36% de carga + 10% de déficit)? Pense bem: o Bolsa Familia, sempre aventado como desculpa para manter os ladrões onde estão, custa 0,3% do PIB…

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Este país de avessos, onde as escolas é que estão “ocupadas” e estudar passou a ser uma atividade clandestina que a polícia reprime de preferência a quem trata de impedi-la, teve tempo de sobra para acostumar-se com isto em que se transformou. Os sindicatos-impostos de Getulio Vargas evoluíram do primeiro e único ao 15º milésimo de hoje e a metástese prossegue sem combate ao ritmo de 280 novos por ano. E daí saltamos com toda a naturalidade para os nossos por enquanto 35 partidos-impostos a quem pagamos horários-impostos para que nos ofendam e humilhem diariamente na TV, tudo sob a proteção dos “movimentos-sociais-impostos” recheados de militantes-impostos que nos cobram hora-extra para viajar em ônibus-impostos para onde quer que sejam convocados para defender a intocabilidade dos “seus” impostos. Passados 80 anos eis-nos bancando festas nos palácios com impostos diretamente arrancados às favelas…

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Com toda a barreira de silêncio que ainda protege da exposição à execração pública que merece o mundo da côrte movida a impostos onde “demissão” não consta do dicionário, “auxílio” não é renda e os salários continuam subindo 60 bilhões por ano em meio ao pânico aqui fora, bate na cara do país inteiro o verdadeiro divisor de águas – contribuíntes x “contribuidos” – que separa os dois Brasis e não se encaixa nem a murro no repertório “esquerda-direita” dos nossos ditadores de “correção política”.

Agora temos o ciclo completo. Do imperador ao proletário, todos que estiveram no comando do “Sistema” colheram variações do desastre que é só o que ele pode produzir ou, no máximo, suspenderam temporariamente seus efeitos. Caiu finalmente a ficha. É tudo uma fraude. Tudo tem sido uma fraude. E o país que não se assume como desonesto calou-se…

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Tão perto! Tão longe!

O buraco é de dar vertigem mas o tamanho do nosso atraso é o nosso maior trunfo. O mundo está todo numa encruzilhada mas é uma encruzilhada lá na frente. Tudo que diferencia o 1º do Último Mundo é, hoje, estrada batida. Para percorrê-la basta se dispor a tanto. Você saberá que o Brasil tem cura quando se começar a afirmar em voz alta, por aí, as duas balizas mais elementares da democracia plantadas ha mais de 300 anos. Apoiar o discurso do ajuste das contas públicas no princípio da igualdade perante a lei colocando na linha de cortes todos os “direitos” e isenções que não sejam comuns a todos os brasileiros é a única maneira de desarmar o torneio entre padrinhos de privilégios à custa do aprofundamento da corrupção e da miséria em que ele, mais uma vez, se vai transformando. Redefinir o direito de representação confirmando exclusivamente o dos sindicatos, partidos políticos e entidades que forem capazes de conquistá-lo e mante-lo por livre eleição e financiamento dos seus representados é o único modo objetivo de sairmos do feudalismo e começarmos a nos beneficiar do processo de depuração recorrente inerente aos sistemas democráticos. A “cláusula de barreira” que o STF matou não era mesmo a melhor solução pois cuidava só de represar a lama incessantemente produzida por um sistema torto e corrupto que acabará sempre, inevitavelmente, em “desastres da Samarco” com “danos ambientais” permanentes.

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Para que “as instituições funcionem” de fato não é a letra, é a essência democrática da Constituição, definida nos seus artigos iniciais, que tem de ser imposta acima de tudo e de todos, começando pelo desafio jurídico de toda a vasta massa de exceções e penduricalhos esboçados nos que lhe foram acrescentados na sequência e estão em conflito insanável com eles.

Quando não foram diretamente protagonizadas pelo Poder Judiciário, como as da Inglaterra do século 17 que criaram a democracia moderna, as poucas revoluções verdadeiras que a história da humanidade registra – não confundir com os banhos de sangue recorrentes para troca de comandantes de monarquias ou ditaduras das culturas latinas – consolidaram-se (ou não) nas reformas jurídicas que foram empurrando a humanidade para fora do padrão geral do privilégio institucionalizado e para dentro da igualdade perante a lei cujo corolário obrigatório é sair do “a cada um segundo o seu grau de cumplicidade para com os crimes do rei” e enveredar pelo muito menos venenoso “a cada um segundo o esforço investido na obra coletiva”.

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O que houve de empolgante no atual processo brasileiro foi exatamente o fato de ter ele partido do Poder Judiciário. Com as condenações do “mensalão” o Brasil acordou para o fato de que não é obrigatório, afinal, que o crime vença sempre, e foi às ruas para comemorar esse quase milagre e empurrar para adiante a “marolinha” que, a partir de Curitiba, assumiu ares de tsunami e ameaça fazer escola.

O Brasil Velho está vivo como prova o fato de todos os ladrões estarem presos e continuarem soltos os seus chefes. Mas o Novo não dá sinal de abandonar a arena. Seria uma excelente bandeira para essa OAB reconciliada com sua tradição histórica de alinhamento com o que é justo tomar a si, junto com os movimentos de rua, esse “Mutirão pela Igualdade Perante a Lei”, de modo a forçar o país inteiro a tomar posição em relação ao que ha de mais essencial numa ordem realmente democrática.

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“Um tal de Olacyr…”

4 de agosto de 2015 § 24 Comentários

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O cerrado desaparecera completamente, imerso numa névoa espessa. O casarão todo em madeira, improvável para um fim de mundo como aquele, era só um vulto maciço no meio da cerração trazida pela frente vinda dos lados da Bolívia. Fazia um frio de rachar e a cachorrada, contida pelas correntes estaqueadas ao chão no galpão por trás da sede, oferecia-se aos caçadores aos arrancos e repelões, numa algazarra de ganidos quase uivos de incontida sofreguidão.

Impossível sair para o campo naquele fog, apesar da excitação de um ano inteiro de espera…

Fica então entendido, senhores”, emendou mais uma vez o figuraça do capataz, “a partir deste ano não se pode mais caçar do lado de lá dos trilhos porque essa parte da fazenda foi vendida”.

Vendida?! Para quem?!

Um tal de Olacyr”…

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Eu estava – e só compreenderia isso muito tempo depois daquele momento – “presente no ato da criação” de um Brasil revolucionariamente novo que até hoje, ainda que sob forte ataque, é o que nos mantém à tona nos mares bravios da globalização apesar dos rombos da nossa incompetência política no casco. Nos anos que se seguiriam eu veria, passo a passo, esse novo país brotar quase miraculosamente das mãos de um homem de uma força instintiva incoercível que seria desde o primeiro minuto uma referência de admiração apesar da forte dose de ambiguidade que sempre temperou nossa amizade.

Chegar à “Fazenda Santa Virgínia”, em “Ponta Porã” – nomes cuja mera sonoridade fazia ferver a minha imaginação de adolescente sujeito desde o nascimento a uma poderosa febre atávica de nostalgia do “sertão” naqueles inícios da década de 70 — era sempre uma aventura cheia de imprevistos. Eu estava para entrar nos meus 20 anos e só havia três ou quatro que fora autorizado a me juntar às expedições de caça às perdizes no mitológico “Mato Grosso” que dois de meus tios organizavam anualmente e com que eu já sonhava desde antes de me entender por gente.

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Naquele tempo, para quem ia de São Paulo para Oeste, as geometrias impostas pelas cercas e roças desapareciam ali pela altura de Araçatuba. “Paranazão” além, então, era outro mundo. O dos campos de homogênea “macega” nativa e arvoredo esparso do finado Cerrado Brasileiro, território das perdizes, dos lobos guará, dos graxains, das emas e dos veados de rabo branco que rolava interminavelmente em leves ondulações quebradas de mil em mil quilômetros por abruptas fraturas geológicas formando chapadões sucessivos – uma lagoa, uma cabeceira d’água aqui e ali, com seus buritis elegantes, as matas de galeria sombreando águas de beber desenhando “veias” nas depressões da camparia; um gado muito rarefeito e meio brabo, criado solto naquelas vastidões quase inteiramente vazias de gente – até se juntar, pouco acima de Cuiabá, com as beiradas da Floresta Amazônica e, de lá até além do Equador, recobrir outros milhões de quilometros quadrados povoados de eternidade, de lendas, de sonhos e de tragédias potenciais, sem que praticamente nada feito por mãos humanas interrompesse aquele mistério todo.

Sertão”…

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Para Sudoeste, a partir de Bataguassu e até o Paraguai e além, a viagem só era interrompida, ou pelas muitas armadilhas do caminho, ou pelas “comitivas”, algumas gigantescas, de homens de outras eras, curtidos de sol e vento, volteando na poeira por cima de oceanos de reses montados em cavalos e bestas formidáveis aparelhadas de todos os couros, argolões e fivelas que remetiam às grandes lidas, os 38 invariavelmente nas guaiacas, facalhões e chairas cruzadas às costas no cós das calças, os berrantes retorcidos, tangendo, às vezes por meses a fio, as boiadas que, ao som de gritos guturais e estalares de chicote no ar que soavam como tiros, “ilhavam” por longos minutos de puro encantamento o nosso valente F-350 de carroceria de madeira lonada num mar de carne semovente.

Quando conheci a Santa Virgínia que, de alguma forma fora parte da implacável Companhia Matte-Laranjeira em que planta raízes a primeira versão do Estado do Mato Grosso, ela ainda era um latifúndio de 200 mil alqueires vigiados por esparsos “retireiros” instalados em velhas casas de madeira distantes quilometros de trilheiros abertos a cascos umas das outras, onde tantas vezes “viajei” ouvindo ao pé do fogo, sob mantos de estrelas que quem viu, viu, a eletricidade apagou para sempre, os “causos” das não tão longínquas lutas de morte entre “changa-y’s” e “barbacuás” (“ladrões de mate”) e os implacáveis capangas do “Império no Sertão” de Thomaz Laranjeira e seus sócios argentinos.

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A área original, dizia-se, fora doada pelo Imperador em pagamento por serviços de transporte para abastecer os exércitos brasileiros na Guerra do Paraguai aos tropeiros Prates, ancestrais da família a que a fazenda ainda pertencia. Pela borda Sul a Santa Virgínia encostava na última das tres ruas de terra delimitadas por fileiras de casas de tábuas acinzentadas pela intempérie, sem pintura e muito pobres, iluminadas a lamparina, do lado brasileiro de Ponta Porã, vila com fama de “faroeste barra-pesada, coito de bandidos e contrabandistas procurados num ou no outro lado da fronteira”, cuja rua principal, a única em que todas as construções, sempre avermelhadas pela poeira, eram de alvenaria, marcava a divisa entre o Brasil e o Paraguai.

O capataz que inadvertidamente acabara de nos anunciar o fim de seu mundo – bombachas, botas curtas e chapelão mas sem o sotaque gaucho, um bigodão recurvado à inglesa e a eterna “bomba” de “terere” nas mãos – tinha a noção de autoridade de quem se sabia detentor de poderes absolutos. A cada cinco ou seis dias fazia-se raspar a cabeça à navalha quase cerimonialmente por um menino negro, de seus 14 ou 15 anos, que marchava atrás dele – pincel, pote de sabão em louça grossa e toalha branca pendurada do braço – até uma velha cadeira de barbeiro com pedal e elevador que o moleque “bombava” a custo com todo o peso de seu corpo e depois basculava para ter acesso ao alvo, surrealisticamente plantada no meio da camparia, olhando para o infinito a 50 ou 100 passos do casarão.

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Aquela viagem não era só um estirão de infindáveis quilometros, mais da metade em chão batido coalhado de obstáculos às vezes formidáveis; era uma passagem no tunel do tempo que me despejava diretamente num ambiente mágico onde, com o 20 virando a curva dos finalmentes, tudo estava ainda referido ao século 19 e dele para tras.

Mas aquilo, eu veria com meus próprios olhos e não sem grandes dores, eram só “os últimos dias de Pompéia”.

Na caçada de 1974 já éramos hóspedes de Olacyr. A regra sempre fora quanto mais “sertão”, quanto mais “no nada”, melhor. A mudança da “mordomia” da sede da Santa Virgínia para os desconfortos do semi-acampamento da incipiente Fazenda Itamaraty-Sul era, portanto, um ganho. Punha-nos ao alcance campos “virgens” a que nunca chegavamos a partir da base anterior….

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Mas então “o tal de Olacyr” começou a nos mostrar quem era ele. O primeiro sinal foi o surgimento de uma ou duas máquinas de esteira amarelas, nunca vistas na região, e a súbita transformação em estrada – o que para os nostálgicos de “sertão” parecia uma agressão – de uns poucos quilometros do antigo caminho que ligava a fazenda a Ponta Porã. A própria rua principal da vila, aliás, ganhou por essas mesmas alturas, um “ameaçadoramente destoante” calçamento de lajotas hexagonais de cimento.

Mais um ano e já éramos “promovidos”, muito a contragosto, das duas casinhas de tábua de dois cômodos perdidas no meio do nada ao lado de um simpático olho d’água com seus buritis em que acampávamos com nossos 14 ou 15 cachorros, para um “hotel” de alvenaria ao lado de uma pista de aviação, tres ou quatro quartos de cada lado de um corredor, um páteo aberto onde eram servidas as refeições. Era, literalmente, um corpo estranho encravado num pequeno rasgo no manto verde que recobria o Brasil selvagem e chegara quase intacto da eternidade até ali e que, estranhamente, ainda se podia pisar, idêntico ao que sempre fora, dois ou tres metros além da área de terreno trabalhado para aquela construção. Mas daquele momento em diante o meu tão sonhado “sertão” da infância e da juventude nunca mais parou de encurtar…

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Outro ano e surgiram mais tres ou quatro casas e um laboratório de botânica. Como todo grande empreendedor Olacyr era antes de mais nada um fabricante de gente capacitada. Varejava as escolas de agronomia, identificava os melhores, trazia-os para o meio do “sertão” a peso de ouro e dava-lhes condições de trabalho que não existiam em nenhum outro lugar do país. Foi lá que vi pela primeira vez as enormes antenas parabólicas de TV, mastodônticas precursoras dos pratinhos de hoje. Tudo que pudesse contribuir para segurar aqueles jovens agrônomos e, mais especialmente, suas esposas e filhos pequenos naquelas lonjuras sem recursos era imediatamente providenciado.

Seguiram-se uns tres ou quatro anos de paz relativa em que a única novidade foi um quadrilátero medindo alguns hectares do outro lado da pista de aviação, onde plantava-se, ano após ano, uma dezena ou pouco mais de longas faixas de diferentes variedades de soja, selecionava-se e cruzava-se as sementes das sobreviventes que melhor desempenhavam e assim sucessivamente até que se chegou à planta ideal para uma operação de maior escala naquele novo habitat.

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E então a coisa literalmente explodiu. Mil, 10 mil, 30 mil, 50 mil hectares, a cada ano mais e mais “sertão” desaparecia sob a soja, mais gente chegava do Sul e mais aquele Brasil primitivo era subitamente atirado para a ponta do século 20. Tres ou quatro dos maiores fabricantes de tratores e máquinas agrícolas do mundo, farejando o futuro, instalaram ali extensas oficinas e laboratórios de engenharia para desenvolver in loco seus novos equipamentos; o hangar de aviação chegou a abrigar perto de 20 aviões entre meios de transporte e agrícolas; fabricantes nacionais e internacionais de gigantescos equipamentos de irrigação desenvolveram nos campos da Itamaraty os primeiros pivôs, com centens de metros de extensão, a serem utilizados na agricultura brasileira; as filas de colheitadeiras altas como prédios alinhadas até onde a vista alcançava para as cerimônias anuais de início de colheita lembravam um cenário de guerra e faziam tremer teluricamente o chão quando ligavam os motoroes e avançavam juntas pelo mar de soja; os silos da gigantesca “área industrial” da fazenda abrigavam impressionantes montanhas de grãos, suficientes, como Olacyr gostava de mostrar, para sustentar por um ano inteiro, primeiro, dois anos, depois, e assim crescendo sempre, ano após ano, as necessidades de proteína de uma população igual à do Brasil que se alimentasse só disso; uma cidade com tres ou quatro clubes, escolas diversas para crianças e para adultos, hospitais e igrejas de diferentes confissões, hotéis e restaurantes surgiu no meio do cerrado, fazendo sombra à própria Ponta Porã.

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Na virada da década seguinte, na sua insaciável sêde de fazer, Olacyr iniciava projeto semelhante em área ainda mais extensa dos sertões dos Parecis, já nas primeiras águas amazônicas, onde repetiria com a cana e com o algodão o mesmo milagre tecnológico que empreendera com a soja mais ao Sul.

Olacyr de Moraes liderou o último e o mais poderoso dos arrancos dessa parcela do Brasil onde, ao contrário do que aconteceu no da praia, a sociedade precedeu o Estado e, tendo desfrutado ¼ de século, pouco mais ou menos, fora do alcance das garras do vicioso “Sistema” eleitoreiro/trabalhista que nos parasita, instalou no Brasil Central uma ilha de meritocracia onde a vontade de trabalhar, a coragem de empreender e a capacidade de inovar e desenvolver tecnologias novas foram, para uma ou duas gerações de brasileiros, as únicas formas de legitimação do enriquecimento.

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Uma ameaça, é certo, para “O Sistema” que a Polícia Federal força, hoje, a nos mostrar a cara. Esses dois Brasis, está mais claro a cada dia que passa, são mutuamente excludentes. Pela virada do milênio, após uma longa e inglória luta, a Fazenda Itamaraty-Sul, já então uma referência global, era “desapropriada para fins de reforma agrária” . Virou uma favela rural.  E pelo novo Brasil ao qual ela deu início afora, a vanguarda do atraso e as máfias do privilégio políticamente adquirido atacam, atritam, invadem e destróem ritualmente centros de inovação tecnológica, enquanto a máquina do Estado, com os tentáculos aumentados pela tecnologia de informação importada, alcança cada vez mais fundo os bolsos do agronegócio, refém, por outro lado, da miséria infraestrutural de que nosso sistema nacional de transportes é um dos símbolos máximos.

Last but definitivamente not least, o deslassamento moral generalizado, com fonte original na política mas fortemente anabolizado por uma televisão nada menos que deletéria na área dos costumes, facilita a penetração de um interior até ha pouco mais apegado ao senso de honra, pela gelatinosa praga advocatício/trabalhista com que Getúlio Vargas e seus sucessores lulo-petistas tratam de nos condenar a todos à mesma miséria moral e material.

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Só um desses dois Brasis sobreviverá ao duelo final, que se está aproximando rapidamente. E não será a polícia nem o juiz Moro quem irá decidí-lo.

A reforma potencialmente possível será exatamente proporcional ao tamanho da queda que estaremos levando como sociedade. Tende a ser definitiva, portanto, para bem ou para mal. Cabe, assim, tratamento de choque para arrancar o país a esse estado de hipnose em que o mantém o incessante tiroteio de dossiês entre bandidos de que a cobertura da mídia não é só uma tradução, é também um componente, e tratar de identificar e ter prontos para uso na curta janela de oportunidade que se abrirá em algum momento dessa débacle, os mais eficientes e modernos remédios da moderna farmacopéia institucional global capazes não só de blindar o Brasil do trabalho contra o Brasil bandalho mas, sobretudo, de submeter este definitivamente àquele.

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NESTE LINK, COMO O RECALL PODE CURAR AS DOENÇAS DO BRASIL

Velhos hábitos demoram para morrer

17 de julho de 2015 § 105 Comentários

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Para a ponta de cima da pirâmide a nossa desordem regulatória, o pandemônio tributário e a ratoeira trabalhista foram, aos poucos, se transformando em sólidas barreiras de proteção do “know-how nacional” contra concorrentes incômodos. Os nossos “grandes tycoons” dos setores mais competitivos da economia globalizada com costas quentes no BNDES – que são o pouco que sobrevive da indústria nacional – passaram a adorar esse nosso labirinto. Esses “excepcionalismos” corporativo-burocráticos que matam as empresas, os negócios e os empregos da massa ignara dos “sem-canal-em-Brasília” aqui da planície, condenados a competir de peito aberto com as chinas da vida, transformam os mega-empresários do nosso “capitalismo de compadrio” nos “intérpretes” que qualquer estrangeiro treinado apenas na competência, na lógica do mercado e no bom senso precisa obrigatoriamente ter para poder operar direta ou indiretamente na ou com a “6a economia do mundo” (ou seja lá qual o posto para o qual tenhamos sido rebaixados nesta última rasteira) onde não valem as leis universais. cumpadi7

Em entrevista “gostando da Dilma” para a Folha de S. Paulo de 6 de julho passado, Rubens Ometto, da Cosan, dizia isso com todas as letras: “Somos brasileiros, fazemos a diferença porque sabemos como proceder, lutamos pelos nossos direitos politica e economicamente (…) para defender minhas empresas no Executivo e no Legislativo (sic). Claro que não se pode fazer certas coisas que acontecem por ai (especialmente nesses tempos de Lava-Jato) mas eles (os estrangeiros) precisam de alguem que more no Brasil“…

Logo abaixo dessa pontinha da pirâmide comem soltos os cínicos da especulação, para quem para cima ou para baixo pouco importa, o que interessa é o tamanho das oscilações, e se empanturram os banqueiros que recolhem os mortos e feridos e, a peso de ouro, os “adquirem e refundem” em novos frankensteins para o mundo dos mortos-vivos do empreendedorismo brasileiro enquanto nos sugam pela interposta pessoa do estado estroina a quem não interessa o tamanho do juro a ser pago, tudo que é necessário é que o dinheiro não pare de fluir. cumpadi11

Já para a grande massa descrente dos da base da pirâmide, aceitar a velha e surrada esmola corporativista de sempre quando a conta chega e a miséria aperta, ha muito que deixou de ser engodo que ainda engane alguém: é tão somente, ao fim de cinco séculos sem mudanças, a única maneira realista de salvar-se quem puder salvar-se da parte que for possível do adicional de sacrifício a ser imposto aos demais toda vez que a farsa completa mais um ciclo, ainda que à custa de ficar devendo à máfia.

Entre o suborno do “direito especial” a não pagar inteira a sua parte da conta oferecido pelo político/sindicalista de plantão a quem tiver massa eleitoral para tanto no atacado e, no varejo, a sangria sistemática dos empregadores pelos advogados “trabalhóstas” que vivem de cabalar candidatos a assaltar e dividir o produto do roubo com quem foi louco bastante para oferecer empregos no país que Getúlio Vargas condenou à danação eterna com o “matreiro” achado – “Seja canalha que a Justiça do Trabalho garante” – com que se perpetuou no poder, muito pouca coisa da moral e do orgulho nacionais restam em pé. cumpadi2

É de cima desses escombros que este Lula sempre triunfante apela pelo pior em cada um de nós com o seu proverbial: “Eu sou; mas quem não é”?

São estes – fora a pequena multidão dos “militantes” dispensados da corrida do merecimento pelo “toque de Midas” invertido dos “de dentro” que o PT multiplicou em metástese em cada célula do estado nacional, habitantes daquele mundo encantado do Planalto Central onde as marés são eternamente montantes, os salários sobem 78% em plena crise e os empregos nunca desaparecem – os únicos interessados em impedir para todo o sempre que se trate de curar as ancestrais doenças deste brasilzão onde, desde sempre, nunca tão poucos deveram tanto a tantos. cumpadi4

Ainda Lula e Getúlio

10 de fevereiro de 2015 § 18 Comentários

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Os partidos da chamada “base” apresentaram 620 emendas às MPs 664 e 665 (notem que falta só uma para incidirmos no “numero da besta”), que tratam de fechar brechas nas regras de concessão do seguro desemprego, do abono salarial e da pensão por morte.

Se conheço bem o meu país haverá entre elas desde sugestões que abrem ainda mais brechas de acesso a esse maná até propostas criando exceções à regra e “direitos especiais” para cada membro da torcida do Corinthians nesse paricular segmento do “ajuste”.

É absolutamente certo, ainda, que nenhum dos 513 deputados e 81 senadores que nos representam teve a idéia de propor o corte de uma migalha sequer dos obscenos privilégios dos marajás dos três poderes que pudesse substituir um tostão que fosse dos R$ 18 bilhões que o governo “dos trabalhadores” espera arrancar do zé povinho trabalhador com essas medidas com que tratam de tomar-lhes também a bóia de flutuação no momento em que o tsunami da orgia de gastos dos chefes dos ladrões da Petrobras se aproxima rugindo da praia.

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Joaquim Levy com certeza tratou de alternativas do gênero mas logo foi avisado sobre quem pode e quem não pode “ser ajustado” nesta “Pátria Educadora” do PT. E como Dilma e seu exército Brancaleone – Freddy Mercadante Mercury, Pepe Legal Vargas  e Miguel Rossetto à frente, tinham acabado de confirmar que fazem mesmo tudo que lhes dá na veneta sem perguntar nada a ninguém, ninguém lá no Congresso também se sente obrigado a sustentar-lhes as propostas com votos.

O Joaquim que se rebole, e nós com ele…

Para tranquilizar a Nação, os jornais de hoje informam sobre duas providências decisivas: Aldemir Bendine – loiro? moreno? peruca? implante? – vai iniciar o seu périplo de “conversas com o mercado” para “acalmar investidores” dentro do mais disciplinado espírito da “Batalha das Comunicações”, enquanto Dilma, ela mesma, inicia uma bateria de aulas de reforço sobre como se comportar numa crise de confiança … com Lula Eu Não Sabia de Nada da Silva e João Invertido Santana.

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Por conta disso, o dólar passou hoje dos R$ 2,8 e é provavel que vire a quarta-feira de cinzas já a R$ 3. Bye, bye Terceiro Milênio…

Por coincidência terminei na noite passada a leitura do volume 3 do Getulio, de Lira Neto, onde constatei que entre o ditador do Estado Novo e criador do sindicalismo pelego de que Lula é a criatura por excelência e o nosso inventor da Dilma, o que há de mais perfeitamente comum é a inabalável “distração”.

Getulio, como Lula, “não sabia de nada” do “mar de lama” em que chafurdavam todos quantos habitavam os porões do Catete até a véspera do suicídio. Seus filhos vendiam fazendas da vida inteira da família Vargas para o capanga Gregório Fortunato por milhões e nem disso ele ficava sabendo. Jornalistas enlouqueciam sob tortura nos calabouços da sua polícia e ele nada. Toda uma “nova nobreza”, como esta que vai nascendo das quinas daquele prédio esquisito da Petrobras, constituiu-se comprando e vendendo licenças das importações e exportações que ele proibira ou explorando os cassinos e os “campeões nacionais” de infraestrutura da época e ele nem desconfiava. O nepotismo frequentava a sua sala de visitas e a cama de sua filha e nada.

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Às vésperas da tragédia seu ministro da Justiça, avô da nossa oposição, proclamava a sua inocência quase com as mesmas palavras com que o ministro da Justiça de Dilma voltou a proclamar a dela ainda ontem. “Não ha nenhum fato que indique que a presidente da Republica tenha qualquer envolvimento no escândalo da Petrobras“, exceto, naturalmente o da assinatura dela, de próprio punho, na qualidade de presidente do Conselho de Administração da Petrobras, de ministra das Minas e Energia, de ministra-chefe da Casa Civil ou de presidente da Republica, estar no pé de cada contrato mediante os quais foram surrupiados da “nossa” petroleira R$ 88 bilhões “ou mais”.

Insignificâncias!

Carlos Heitor Cony, assim como Samuel Wainer ha 60 anos, escreve e assina, hoje na Folha, que acredita que Dilma não soubesse de nada, ainda que o escândalo venha sendo coberto ao vivo e em cores, dia por dia, delação por delação, falcatrua por falcatrua diante dos olhos de toda a Nação já faz uns bons anos; ainda que os promotores do Paraná tenham vindo mais de uma vez a público para dizer ao país que, mesmo com a polícia lá dentro e parte dos ladrões na cadeia a roubalheira não cessou. Até José Dirceu, agora está provado, como todo chefe de quadrilha que se preza nesta nossa republica de novo “popular” continuou comandando de dentro da Papuda a emissão das “consultorias” mediante a mera assinatura das quais ganha-se o direito de arrombar os cofres públicos, exatamente como fazia Gregório Fortunato ha 60 anos quando, exatamente pelo mesmo expediente, amealhou 65 milhões de cruzeiros sob as barbas do bom velhinho.

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É curioso, a propósito, conferir a diferença de qualidade da pesquisa do próprio Lira Neto ao longo dos seus três volumes. Enquanto ele tratou do Brasil e dos personagens da virada do século 19 para o 20 quando os Vargas degolavam gente viva lá na fronteira, à la Estado Islâmico, até a queda da ditadura do Estado Novo, nos idos de 1945, tempos de personagens e de jargão ainda bem distantes dos de hoje, ele mostrou um nível de objetividade e isenção. No “período democrático” do Getúlio já convertido do nazismo para o filo-socialismo estatizante do ultimo volume, onde já estão presentes diversas das vacas sagradas que ainda assombram esta geração de brasileiros com os respectivos carimbos ideológicos oficializados por nossas escolas  — Tancredo, Leonel Brizola, Jango Goulart, Carlos Lacerda e alguns dos militares que chegaram até 64 — ele passa a derrapar com frequência crescente.

A falha do livro como um todo – na média muitíssimo bom de ler e equilibrado quanto a tudo que “já passou”, imprensa inclusive, mas nem tanto com tudo quanto continua por aí, de novo imprensa inclusive) – é, aliás, estar centrado exclusivamente na pessoa de Getulio e não na história das instituições que ele urdiu e do país que ele moldou, que são estas que entortam irremediavelmente o Brasil até hoje e continuarão a entortá-lo irremediavelmente enquanto durarem. Estas mal são mencionadas a não ser superficialmente, ao longo do livro todo, e disso resulta que, o tempo inteiro, o leitor menos passivo sinta um estranho descompasso entre a figura sempre afável de uma espécie de déspota esclarecido benfazejo e impoluto que, a julgar por Lira Neto, não queria saber de nada do que faziam à sua volta e em seu nome, ainda que tendo passado a vida toda no meio de cenas de sangue e ladroagem de dinheiros públicos protagonizadas por irmãos, parentes, subordinados e próximos brutos, assassinos confessos e corruptos.

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No terceiro volume tudo isso se agrava e o próprio Lira Neto, antes mais contido, passa a tomar partido explícito quanto aos fatos e os personagens de ha 60 anos que chegaram ate os nossos dias em carne e osso ou como os mitos ainda frescos que “explicam” o Brasil atual. Ele não chega a afirmá-lo porque isso seria impossível à luz dos documentos em que se baseia, mas pensa e escreve como se acreditasse sobre Getulio no que Carlos Heitor Cony diz acreditar sobre Dilma.

Ele aparece sempre — menos pelas interrupções de fatos documentados que parecem enfiados como cunhas numa história que lhes é estranha — como a vítima inocente de jornalistas psicopatas que queriam o mal do Brasil e, só pelo gosto de feri-lo, tiravam do nada as denuncias que, nunca substanciadas suficientemente no livro, compõem o quadro de uma conspiração de ódios gratuitos e calúnias cujo alvo último era o povo que Getulio “amava”.

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No meio da madrugada passada, enquanto sublinhava os paragrafos abertos para os fatos no meio do discorrer sobre o drama pessoal daquele bom velhinho do final do último volume, eu me perguntava porque será que os intelectuais brasileiros são sempre tão irresistível e irrefreadamente pró-poder. E enquanto vinham-me à cabeça, num turbilhão já meio sonolento, a gênese da raça sob 700 anos de “regime militar” combatendo árabes lá na pontinha da Europa e mais outros 300 fugindo das fogueiras da Inquisição e o que isso pode ter resultado em matéria de “survival of the fittest”, pensava comigo se não estava invertida a ordem dos fatores na minha proposição: é porque os nossos intelectuais são os que a tudo isso sobreviveram que o poder é o que é no Brasil.

Enfim, sei lá…

O que sei de excelente fonte é que Lula, que não é de ler nada, leu o Getúlio 3 e ficou fascinado. Tão fascinado que ia e voltava por seus capítulos como Getulio ia e voltava de seus retiros nos pampas, e reuniu-se várias vezes com Lira Neto para ilustrar-se com mais profundidade sobre as artes e manhas de desaparecer de cena quando os efeitos de sua obra afloravam nas ruas na forma de inflação, desemprego e revolta contra a corrupção, ficar esperando de fora até que a água passasse do nariz e então ressurgir do nada atirando bóias para os afogados, em que ele sempre foi mestre.

Tudo de novo?

Na véspera de morrer, para “salvar os trabalhadores do Brasill da sanha do capitalismo internacional“, ele criou a Petrobras e a Eletrobras com que os petistas estão nos matando agora. Quem viver verá.

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Abaixo a revolução!

18 de novembro de 2014 § 29 Comentários

Vejo o tom subindo no debate nacional, o que se reflete também aqui, entre os comentaristas habituais dos textos do Vespeiro. E vejo-o com reações ambíguas. Por um lado, anima ver o fim da passividade que ajudou a nos trazer até às beiradas em que andamos agora; por outro, inquieta pensar que isso possa levar o país a cair outra vez na velha tentação latina de “cortar caminho”. É difícil, mesmo, contemplar o caminho do meio no contexto de instituições tão espúrias quanto travadas em que vivemos. Mas acredito firmemente que não existe outro.

Nos comentários à matéria anterior, discuti com a leitora Varlice os limites da imagem que usei da guilhotina. Em seguida fui aos arquivos do Vespeiro para remete-la a um texto mais completo sobre a idéia de revolução (que sei que ela não abraça pessoalmente) publicado em janeiro deste ano. Por falta de qualquer coisa que pudesse acrescentar, além da réplica feita ao comentário dessa amiga ao texto anterior a este, achei que é oportuno repetí-lo neste momento. Aí vai:

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Revendo ha pouco no celular os destaques e anotações que fiz à margem do “1889” de Laurentino Gomes (versão e-book), detenho-me em duas penduradas no manifesto de criação do primeiro Clube Republicano do Pará às vésperas do golpe que pôs fim ao Império por Lauro Sodré, um ex-estudante da Escola Militar que foi o grande centro de fermentação dos cânones positivistas de Augusto Comte que a Europa já abandonara meio século antes mas que os militares brasileiros de então (e Getulio Vargas depois deles) ainda abraçavam com fervor.

A primeira era esta:

…é sobre as ruinas e os destroços do passado que se levantará o futuro. Progredir é continuar mas a construção tem por preliminar indispensavel a demolição…

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E a segunda, esta:

…nas republicas a unica distinção é aquela que é oriunda do mérito e das virtudes individuais”.

Taí a principal chave que explica a diferença entre a estabilidade das repúblicas saxônicas, nascidas de parto natural, pela discussão e pelo convencimento, e a eterna turbulência das republicas latinas (da francesa para baixo) extraídas a fórceps e nunca recuperadas das lesões sofridas nesses processos dolorosos.

Como é que o “mérito” e as “virtudes individuais” poderiam se estabelecer como únicas fontes de legitimação de toda e qualquer “distinção” a partir de um regime que se impôs pela força ou pela traição?

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Ser ou não ser, eis a questão!

Nas revoluções – e tanto mais quanto mais violentas tiverem sido – a força impõe-se sobre o merecimento, o que fica carimbado para sempre na consciência virgem do novo regime nascente sob a forma de um trauma indelével. O que sobra em pé, finda a tempestade, nunca são as belas idéias que põem as revoluções em marcha, é o terror que elas empregam para se impor e consolidar.

Depois que o passado está “destroçado”, como queria o nosso revolucionário – o que ocorre necessariamente, ou pela força, ou pela traição – é a facção que menos se impuser limites no uso da violência ou da felonia que ficará em posição de “levantar o futuro”.

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O resultado prático desses processos naufraga, portanto, sempre na mesma contradição: é daqueles que venceram pela imoralidade que se espera a instituição do império da moralidade…

O que ha de mais curioso nesse manifesto de Lauro Sodré, entretanto, é que numa única de suas frases ele inclui a tese e a antítese de tudo que ele acaba por afirmar e esbarra, certamente sem querer, na síntese do grande divisor de águas que separa a cultura política saxônica da cultura política latina:

Progredir é continuar, mas a construção tem por preliminar indispensável a demolição…

Berliner Mauer Sprengstoffanschlag

A cultura política saxônica é, precisamente, a expressão da continuidade, da convivência entre as instituições do passado e as instituições do presente; a latina é o resultado das demolições sucessivas, de banho de sangue em banho de sangue.

Lá, entre eles, rola uma cabeça ou outra dos inflexíveis empedernidos, enquanto prossegue a discussão. Entre nós a regra geral é rolarem todas as que seguirem insistindo em discutir.

É este o engano trágico de todos os latinos (e não só deles), arrancados de suas raízes, apagada a memória do que foram, sem saber o que serão num mundo que recomeça sempre do zero. E é este o segredo dos povos saxônicos que nunca queimaram os navios com que vêm navegando de ilha em ilha na sua trajetória histórica sem interrupções.

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Eles seguem transitando livre e naturalmente entre o presente e o passado reconhecendo com autêntica familiaridade todas as etapas desse caminho. Frequentam a mesma paisagem institucional que seus antepassados frequentaram. Vivem o que são e o que foram como estágios diferentes de uma trajetória que é de todos e de que todos conscientemente sentem-se resultantes.

São todos habitantes da mesma ilha, súditos dos mesmos reis e do mesmo Parlamento, regidos pelas mesmas leis e pelos mesmos tribunais que, cada um a seu tempo, vieram somar-se à caminhada História adiante com os que já a vinham empreendendo antes deles. Novos e velhos equipamentos institucionais convivem lado a lado, moderando-se e complementando-se mutuamente; sem pressa nenhuma se vai afastando para o lado aquilo que a prática comprova dispensável ou incompatível com as necessidades do presente.

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Eles aposentam suas velhas instituições com todas as honras pelos serviços prestados. Suas leis são as mesmas velhas leis de sempre, que são leis, humildemente, apenas e tão somente porque se têm provado bons arranjos para a solução de problemas determinados desde o início dos tempos, e não por se apoiarem em qualquer verdade pretensamente absoluta ou para forjar “uma nova ordem” ou engendrar “uma nova humanidade”.

Tudo é maleável, flexível e adaptável, como gente é.

Não ha “lados” irreconciliáveis; não ha verdades absolutas; não ha “soluções” definitivas. Há um processo; cuida-se de tornar segura a navegação e não de empurrar tudo à força para chegar onde, afinal de contas, ninguém sabe aonde as coisas haverão de acabar por ter numa caminhada que não tem final à vista…

Progredir é continuar”. E exatamente por isso a demolição não é uma preliminar indispensável. Muito pelo contrário.

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