E quem precisa de educação no Brasil?

1 de abril de 2014 § 9 Comentários

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Foi tocar no assunto no artigo anterior e os fatos vieram em meu socorro.

A discussão sobre a última medida tomada da indigência educacional brasileira na Globonews, o canal de notícias com que a Globo mira a elite intelectual brasileira, mostrou que ela é ainda muito mais profunda do que registrou o último “Pisa”, um exame internacional que, este ano, deixou de lado as avaliações mais técnicas que costumava fazer em torno dos temas Leitura, Matemática e Ciências para se concentrar na solução de problemas de lógica e raciocínio.

Entre 44 países que participaram do certame testando alunos de 15 anos de idade, o Brasil ficou em 38º lugar…

A Globonews mobilizou seus amplos recursos entrevistando os “especialistas” do costume no Brasil e no exterior, que falaram longamente nas “causas” — também as do costume — da tragédia educacional brasileira, incluindo no rol os salários dos professores, a falta de verbas, a “inadequação do currículo à realidade do cotidiano dos estudantes”, etc., etc. e tal.

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Mas, como de hábito, a todos passou despercebida a “pista” que, lá do início da lista de classificação, clamava aos céus a razão essencial pela qual não saímos dessa miséria, ao contrário, afundamos cada vez mais nela.

Quem são, pela enésima vez, os primeiros classificados nesse exame? Os asiáticos. Quais asiáticos? Aqueles que, tendo partido de situações infinitamente mais calamitosas que a do Brasil de hoje, importaram tecnologias institucionais modernas – uns depois de perder uma guerra mundial e levar duas bombas atômicas na cabeça, outros a partir de condições nacionais de semi-selvageria e miséria absoluta – e, graças a isso, colheram o mesmo resultado que tinham colhido, pela mesmíssima razão, os países que as tinham adotado antes deles.

Até a sequência dos três primeiros colocados aponta nessa direção. O último dos três a importá-las – Cingapura – é o primeiro colocado, o penúltimo – a Coréia do Sul – é o segundo, e o que as importou ha mais tempo – o Japão – é o terceiro.

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São as consequências naturais da acomodação na abundância de quem a conquistou duas ou três gerações antes dos outros contra a disposição para a luta mais aguerrida em quem a tem desfrutado ha menos tempo.

Mas o que há de comum entre esses três países é que todos transplantaram para suas realidades os elementos básicos do ferramental institucional norte-americano, aquele que, no melhor momento da cultura da Humanidade, foi especialmente desenhado pela elite do Iluminismo fugida para a América para fundar uma sociedade que deveria ser a antítese da Europa feudal onde tudo que valia era ser amigo do rei, num processo revolucionário cujo sentido pode ser sintetizado na frase “nenhum dinheiro e nenhum poder que não seja fruto do mérito”.

A educação, que este teste procura medir, foi a faísca inicial da Revolução Americana.

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Tudo começou pela perda momentânea do controle que a Igreja e os monarcas absolutistas mantinham sobre a circulação da informação provocada pela invenção da prensa de Gutemberg que disseminou para além das trancafiadas bibliotecas de uns poucos conventos edições completas da Bíblia, uma das quais caiu nas mãos de Martinho Lutero que, ao lê-la, deu-se conta de que a versão que davam dela os bispos e os padres de cima de seus púlpitos não tinha nada a ver com o que realmente estava escrito no livro. Era tudo uma empulhação para justificar pela palavra “de deus em pessoa” a exploração dos muitos pelos poucos espertalhões dispostos aos crimes mais hediondos — sendo o cultivo deliberado da ignorância o maior deles — para manter seus privilégios.

Os primeiros “protestantes” das mentiras até então universalmente aceitas como verdades na Inglaterra, por exemplo, andavam pelos campos encapuzados, à noite, perseguidos de morte que eram, batendo de porta em porta dos camponeses analfabetos para ler-lhes à luz de velas trechos da verdadeira Bíblia e encerrar a visita com sua mensagem subversiva: “Não aceitem as verdades de segunda mão que o poder lhes impinge. Aprendam a ler para ir buscá-las diretamente na fonte. A libertação está na educação”.

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Não é por outra razão que, desde sempre, o maior esforço de todo tirano é manter a informação controlada e fazer do sistema educacional uma máquina de falsificação da verdade.

O teste internacional “Pisa” mede precisamente a eficácia com que os tiranos brasileiros têm conseguido atingir esse objetivo, o que hoje depende essencialmente de manter todos longe da “prensa de Gutemberg” da hora, que é a internet. Não chega a ser uma tarefa hercúlea como pode parecer à primeira vista posto que, estando aqui dentro “tudo dominado”, o que resulta em que a esmagadora maioria mal fala português, é só deixá-la longe do inglês que eles só terão acesso ao que o poder constituído quiser lhes dizer. É, de qualquer maneira, impossível aprender democracia em português pois nenhuma sociedade que fala essa língua jamais viveu numa.

O controle absoluto das escolas e da imprensa – mais da primeira que da segunda porque uma coisa conduz naturalmente à outra – já dizia Antonio Gramsci, é o elemento essencial desse esquema de dominação.

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A educação é o instrumento essencial da meritocracia. E a meritocracia a antítese do “amiguismo”, do “emprego sem trabalho” mas com aposentadoria gorda e precoce, e do “jeitinho” para se conseguir tudo isso.

Logo, os privilegiados de hoje fogem da meritocracia como o diabo da cruz.

Agora pense bem. Lembra-se de quando José Serra decidiu dar aumentos de salário por aferição de desempenho para os professores de São Paulo, ainda que sendo só um adicional sobre os aumentos automáticos que eles arrancam anualmente só na mumunha sindical?

O Palácio dos Bandeirantes foi cercado pela milícia do sindicato dos professores, o mais agressivo e radicalmente ideologizado entre todos do país, que por diversas vezes tentou invadi-lo, derrubou seus muros, agrediu quem tentava entrar e sair de suas dependências e jurou de morte o então governador.

E como professores que nunca na vida foram submetidos a qualquer avaliação de desempenho poderiam formar alunos para enfrentar a competição global onde o que desempata o jogo é o desempenho e o esforço individual minuciosamente medidos e aferidos?

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Que incentivo tem o estudante brasileiro para ser mais que o 38º do mundo se o que decide quem vai se dar bem ou mal na vida neste país continua sendo a proximidade que as mãos sôfregas dos contendores estão do saco de “el rei” e se a diferença entre ficar ou não exposto à intempérie está em conseguir ou não saltar para dentro da nau dos exploradores entrando para o “serviço público” o que explica o fenômeno único no mundo da nossa juventude “concurseira”, que dedica a vida a entrar para o redil do Estado na base da água mole em pedra dura?

Quem precisa, enfim, de educação onde o esforço e o merecimento não contam para nada?

A primeira vítima dessa arapuca, ironicamente, são os próprios professores, já que salário não pode ser outra coisa, de forma sustentável, que função de resultado.

Mas como mudar isso se mais da metade da população já está direta ou indiretamente embarcada no Estado recebendo seu chequinho e vivendo de explorar a única minoria realmente discriminada deste país que é a que tem de trabalhar para viver?

Um dia inteiro de discussões na Globonews sobre o nosso vergonhoso desempenho no “Pisa” sem que a palavra “meritocracia” – um arranjo de sociedade que não admite meio termo: ou é ou não é – fosse mencionada uma vez sequer dá a medida do buraco. Porque reformas, mesmo nas democracias mais avançadas, só as puxadas pela imprensa. Os beneficiários do sistema é que não tomarão nunca a iniciativa de fazê-las. E no entanto a imprensa…

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Leia mais sobre instituições modernas neste link

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§ 9 Respostas para E quem precisa de educação no Brasil?

  • Marcos Ronald Roman Gonçalves disse:

    Se meritocracia é a solução, mas escolas e imprensa estão dominados por aqueles cujo “mérito” é a habilidade de afagar não os mafagafos, mas os testículos dos “puderoso”, resta o engajamento na guerra-cultural desde já e aguardar os frutos para daqui duas ou três gerações; cerca de 50 a 75 anos.

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    • flm disse:

      não demora necessariamente tanto, marcos.
      o mais dificil é descobrir o que abre o canal para resolver os problemas. é isso que fazem as instituições modernas como o voto distrital com recall, entre outras.
      com canais abertos à mudança o resto acontece sozinho, um tanto a cada crise.
      o que não da é pra permanecer na idade média em pleno 3ro milenio, e isso vai ficar claro logo depois da eleição, quando a conta chegar e o país cair na real.
      é essa a hora em que é preciso saber o que fazer; o que querer; ou volta-se à estaca zero como tem acontecido sempre no Brasil.
      o meu papel e o seu, é divulgar o caminho da solução.
      não tem outro jeito de fazer, aliás…
      a imprensa é mais vitima que culpada nisso. como nunca antes no Brasil, ela não tem noção do que tem o dever de exigir

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      • Marcos Ronald Roman Gonçalves disse:

        “Necessariamente” não, mas é o que acontecerá.
        Qualquer um com menos de 40 anos pode ser um exemplo típico do efeito tiro pela culatra. Quanto mais se tenta convencer o idiota com argumentos racionais, mais ele fica convicto da certeza da “racionalidade” de sua própria real irracionalidade. Falando praticamente, quase todos não podem ser recuperados, reconvertidos. Não acredita? Tente racionalizar com um petista ou psolista. Mas, antes, tome dois ou três Engov.
        “O resto acontece sozinho”. Não compartilho dessa fé. Eu digo algo diverso. Sozinha somente a entropia acontece. E entropia é desorganização, destruição. Até um país como Sverige está sentindo o resultado de duas ou três gerações “perdidas”, cuja meta é pendurar-se no deus-estado como carrapatos em um cão sarneto.
        A imprensa é vítima? Peloamordosmeusfilhinhos! Nem vou perder meu tempo argumentando sobre isso.

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  • Ronaldo disse:

    Uma grande jornada começa sempre pelo primeiro passo.A seqüência e a freqüência destes passos dão a velocidade de cruzeiro que opera maravilhas como a dos países asiáticos. Esta é a única saida. Na mosca.

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  • Carlos Leôncio de Magalhães disse:

    Na mosca MESMO!!!

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  • Varlice disse:

    Não achei na internet o texto integral do Ioschpe que saiu na última Veja e que discorre sobre sobre, em última análise, a natureza esperta do brasileiro.
    Abaixo uma frase dele:

    “Em países onde há mais cola na escola, há mais desonestidade na vida adulta, e aqueles que mais colam são também os mesmos que, quando adultos, mais mentem para seus clientes, exageram despesas para seus empregadores e trapaceiam suas seguradoras.” (Gustavo Ioschpe, Veja, edição 2367, p. 80)

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  • José Luiz disse:

    Reproduzo aqui o mesmo comentário do artigo relacionado anterior. A educação liberta, sabem muito bem esses crápulas da “nobreza de ceva” e os “salvadores da pátria”, por isso ela não existe aqui. Um povo ignorante é mais fácil de ser dominado, tangido. E não há interesse nem força capaz de quebrar esse círculo vicioso.

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  • […] Publicado em “E quem precisa de educação no Brasil?”  […]

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  • Adorei! Sou Professora do Município do Rio de Janeiro e nunca entrou na minha cabeça ser tratada de maneira pasteurizada. Trabalho muito, procuro dar aos meus alunos da escola pública o mesmo que da escola particular. Mas conheço Professores que mandam a turma copiar enquanto corrigem Provas da escola particular!

    Temos sim que ganhar pelo mérito!

    Republiquei seu artigo no meu Blog!

    Parabéns !

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