Brasil veio de golpe em golpe até 64

7 de abril de 2014 § 5 Comentários

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A entrevista de José Serra para o Canal Livre da TV Bandeirantes ontem (assista à integra do programa neste link) tocou numa questão essencial a que se tem prestado muito pouca atenção na análise da história política e do debate ideológico no Brasil, sempre desastrosa e latinissimamente prejudicada pelas paixões a que se entregam os que se dispõem a tenta-la.

Desde a Republica vimos vindo de golpe em golpe repetindo basicamente os mesmos passos a cada volta nesse círculo vicioso. E sempre pela mesma razão fundamental, como procurei demonstrar no artigo Sexo, mentiras e rock & roll publicado ha poucos dias aqui no Vespeiro: a completa inexistência de qualquer know how de engenharia institucional – tecnologia das mais especializadas que não admite transposições fáceis ou intuitivas de outras áreas do conhecimento.

Salvo pelo hiato aberto pelo “governo acidental” de Fernando Henrique Cardoso, essas elites têm mostrado também, desconhecer as balizas mais elementares de gestão macroeconômica indispensáveis para prover um mínimo de estabilidade ao ambiente em que se desenvolvem as economias nacionais.

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Na Parte 3 da entrevista à Rede Bandeirantes Serra descreve em minúcias como esses fatores contribuíram para o desfecho de 31 de março de 1964:

  • o programa das famosas “Reformas de Base” do governo João Goulart “era o que a gente (a esquerda da época) queria mas não acreditávamos que elas pudessem de fato ser instaladas”;
  • de qualquer maneira, essas reformas (reforma agrária, voto do analfabeto, desapropriações e etc.) não teriam qualquer efeito no problema premente que a Nação enfrentava sob uma inflação de 90% ao ano (a herança de Juscelino e sua Brasília) sem qualquer mecanismo de proteção;
  • consciente disso Jango, que também não resistia às pressões vindas da máquina pública e concedia aumentos que agravavam o déficit e alimentavam mais ainda o descontrole da inflação, mantinha esse discurso porque era o único que tinha a oferecer e, sabendo-as inócuas, já se preparava havia tempos para deixar o poder para que a bomba não estourasse nas mãos dele;
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  • Serra não admite que houvesse um golpe em preparação ou, muito menos ainda, condições objetivas para que o país fosse empurrado para uma republica sindicalista ou uma ditadura do proletariado mas admite que a esquerda e o governo “gostavam de pregar sustos, de intimidar” e falavam e agiam como se tudo isso estivesse de fato em preparação enquanto Jango, na falta de qualquer expediente prático que lhe ocorresse por em curso, transformou seu programa de governo “num programa de agitação” para, com o concurso dos sindicatos, forçar o Congresso às suas reformas;
  • a direita levava a esquerda mais à sério do que ela própria, a se acreditar que o pensamento de Serra era representativo do da maioria dos seus correligionários da época: o ambiente internacional dentro do qual tudo isso se dava era o da Guerra Fria onde Estados Unidos e União Soviética “disputavam cada pedaço do mundo” e isso teve dois efeitos: a esquerda, a partir da revolução em Cuba, passou a acreditar, segundo Serra, que “se tinha sido possível fazê-la lá era porque a revolução estava logo ali, na esquina, ao alcance da mão”; a direita pensava exatamente do mesmo jeito e, pelas mesmas razões, acreditava que o país estava prestes a cair na órbita soviética.

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Não importa se foi um trama “de enganos” ou uma conjuntura real o fato é que os dois lados viam a mesma coisa, o que atesta a sinceridade das motivações que apontei nas decisões que moveram os conspiradores de 64 no artigo publicado na imprensa ontem.

Não sei quanto são exatas ou representativas da média do pensamento da esquerda da época essas impressões do José Serra de hoje sobre o que via e sentia o José Serra de então, um “grande agitador” com apenas 21 anos de idade.

O certo é que, então como hoje, cabiam coisas demais debaixo desse chapéu genérico “esquerda”, o que também é exatamente verdadeiro para o seu par e antípoda “direita”, como provaram os fatos subsequentes.

O Brasil ainda ha de amadurecer para colocar o muro divisório no lugar certo que é o que separa esquerda e direita democráticas de esquerda e direita antidemocráticas.

Mas até lá essas generalizações seguirão atrapalhando as análises e alimentando novos confrontos.

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Mas não vamos perder a sequência do raciocínio.

Antes de mais nada registre-se que a entrevista de Serra ajuda a estabelecer que o problema essencial é o que tratei no artigo já referido: o completo desconhecimento da elite brasileira a respeito do que fazer e como fazer para estruturar a base institucional necessária para se construir uma Nação que a empurra sempre para a generalidade e faz de nós todos, digamos assim, especialistas na negação.

Ao fim de cada experiência em torno desse círculo vicioso, estabelecido sempre mais pelo acaso e pelas circunstâncias do que por planejamento e atos de vontade, passamos, em algum momento, a saber o que não queremos mas nunca sabemos exatamente o que queremos ou, melhor dizendo, não sabemos como construir um equipamento institucional suficientemente aberto para podermos viver sem sabermos exatamente o que queremos e ágil e maleável o suficiente para irmos reagindo aos fatos que se apresentarem.

É isso, afinal de contas, que é uma democracia. Só que os brasileiros não sabem disso.

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Junho de 2013 com os incontáveis “nãos” dos cartazes das manifestações e a absoluta ausência de “sins” em torno dos quais se possa construir qualquer consenso e mais esta crescente parcela de eleitores insatisfeitos sem candidato que os represente que as pesquisas registram neste momento, provam que pouco mudou nesse sentido desde os nossos primeiros tropeços republicanos.

A Revolução de 1930, uma vez instalada no poder, pela falta de um receituário institucional que pudesse ser proposto e compreendido por um corte significativo de uma população e uma elite essencialmente deseducadas, começou desde o primeiro minuto a caminhar para a “personificação” do processo, ou seja, para a ditadura.

Como a esquerda, que julgava ter “a História na mão”, é sempre mais voluntarista, 1935, com a “Intentona Comunista”, tão alienada quanto todas as outras tentativas anteriores (1922) e posteriores (“luta armada”), deu o pretexto que faltava para 1937 e a fase “dura” da ditadura getulista.

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A Revolução de 32 foi a versão da época do que foi 1964, com a diferença de que uma foi derrotada e a outra foi vitoriosa, assim como 1935 (a Intentona) foi o equivalente, trinta e poucos anos depois, do que foi a “luta armada” para acender a fogueira que começou a queimar a partir de 1968.

Um delírio voluntarista de uma minoria, coma diferença de que a mais recente pegou em armas e abraçou táticas de guerrilha que proporcionaram, na época, que esse tipo de minoria ficasse maior do que realmente era e desse mais trabalho para ser esmagada.

Democracia”, seja como for, nunca foi, nem um valor, nem um objetivo entre os protagonistas de qualquer desses episódios detonadores das nossas repetidas voltas no círculo das ditaduras. Os pedaços da nossa ordem institucional inspirados nela têm sido, quando muito, um recurso para a faclitação da tomada do poder a ser retirado de cena quando chega o momento de passá-lo ao adversário, a não ser para a minoria de sempre que entra em cena para reagir à ameaça de vê-la banida para sempre.

Mas esta, quando eventualmente chegou “”, não teve tempo, capacidade ou até a persistência necessárias para propor e emplacar uma receita viável de democracia e para consolidá-la para que pudesse seguir adiante por suas próprias pernas.

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Quando esses embates chegam às vias de fato, conflagrando o país, afloram à superfície os bebedores de sangue de ambos os lados — terroristas e torturadores — sobre os quais tenho uma teoria que pode até sugerir uma resposta sobre o porque de ficarmos tão obsessivamente presos à última Ditadura Militar mais que a qualquer outro desses episódios tão semelhantes entre si de que ainda falaremos aqui em outra ocasião.

Por enquanto ficamos nos elementos da equação que estão aquém da barreira do sangue.

Em todos esses processos, como não pode deixar de acontecer em ambientes não democráticos, só nada de braçada a horda dos cínicos que se aproveitam das tortuosidades e das zonas escuras do sistema para se locupletar.

De tão estável que é essa instabilidade do ambiente institucional; de tão previsível que é a sequência do processo, esse é o único segmento em que tem havido “progresso” real: eles são cada vez mais eficientes no trabalho de promoção da desinstitucionalização da nossa vida política que é o que cria o habitat de que necessitam para crescer e se multiplicar.

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Assim, do simples “capitalista de compadrio” a quem o ditador de plantão concede a atribuição de roubar por ele e por seu esquema de poder presente desde o primeiro episódio já evoluímos para um tipo superior de criminoso que é responsável pela “infraestrutura” que trata de perenizar e profissionalizar esse varejo do crime.

São eles os especialistas em “lavar-em-jatos”; os que roubam dos que roubam ou, se quiserem, “os para quem roubam os que roubam” fora do universo mais tradicional da compra de votos pura e simples.

Especializam-se na minucia da regra do jogo e trabalham diuturnamente para torná-la tão cinza e flexível que nenhum processo da vida nacional possa ser previsível e todos fiquem dependentes de uma arbitrariedade que possa ser vendida.

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Do jogo econômico privado essa dubiedade foi migrando para dentro do próprio sistema político de modo que hoje o Poder Executivo, que por enquanto é a única peça móvel do conjunto, também precisa comprar desses ultraespecializados vendedores de “governabilidade”, a cada passo, o direito de seguir se movendo.

É contra essa “infraestrutura” que o PT se articula neste momento, mas não para fazer o processo recuar a um ambiente institucionalizado mas sim para suprimir essa instância de intermediação do arbítrio, objetivo para o qual foi um passo decisivo a proibição das contribuições privadas de campanha que passou recentemente no Supremo Tribunal Federal.

Fico lhes devendo duas, portanto: a minha teoria sobre a psicologia do bebedor de sangue dos processos revolucionários e o ostensivo cerco do PT às ferramentas eleitorais que corre por baixo do tiroteio de dossiês com que ele desvia a atenção da imprensa, num tempo em que as ditaduras são obrigadas a se fantasiar de “democracias”.

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E quem precisa de educação no Brasil?

1 de abril de 2014 § 9 Comentários

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Foi tocar no assunto no artigo anterior e os fatos vieram em meu socorro.

A discussão sobre a última medida tomada da indigência educacional brasileira na Globonews, o canal de notícias com que a Globo mira a elite intelectual brasileira, mostrou que ela é ainda muito mais profunda do que registrou o último “Pisa”, um exame internacional que, este ano, deixou de lado as avaliações mais técnicas que costumava fazer em torno dos temas Leitura, Matemática e Ciências para se concentrar na solução de problemas de lógica e raciocínio.

Entre 44 países que participaram do certame testando alunos de 15 anos de idade, o Brasil ficou em 38º lugar…

A Globonews mobilizou seus amplos recursos entrevistando os “especialistas” do costume no Brasil e no exterior, que falaram longamente nas “causas” — também as do costume — da tragédia educacional brasileira, incluindo no rol os salários dos professores, a falta de verbas, a “inadequação do currículo à realidade do cotidiano dos estudantes”, etc., etc. e tal.

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Mas, como de hábito, a todos passou despercebida a “pista” que, lá do início da lista de classificação, clamava aos céus a razão essencial pela qual não saímos dessa miséria, ao contrário, afundamos cada vez mais nela.

Quem são, pela enésima vez, os primeiros classificados nesse exame? Os asiáticos. Quais asiáticos? Aqueles que, tendo partido de situações infinitamente mais calamitosas que a do Brasil de hoje, importaram tecnologias institucionais modernas – uns depois de perder uma guerra mundial e levar duas bombas atômicas na cabeça, outros a partir de condições nacionais de semi-selvageria e miséria absoluta – e, graças a isso, colheram o mesmo resultado que tinham colhido, pela mesmíssima razão, os países que as tinham adotado antes deles.

Até a sequência dos três primeiros colocados aponta nessa direção. O último dos três a importá-las – Cingapura – é o primeiro colocado, o penúltimo – a Coréia do Sul – é o segundo, e o que as importou ha mais tempo – o Japão – é o terceiro.

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São as consequências naturais da acomodação na abundância de quem a conquistou duas ou três gerações antes dos outros contra a disposição para a luta mais aguerrida em quem a tem desfrutado ha menos tempo.

Mas o que há de comum entre esses três países é que todos transplantaram para suas realidades os elementos básicos do ferramental institucional norte-americano, aquele que, no melhor momento da cultura da Humanidade, foi especialmente desenhado pela elite do Iluminismo fugida para a América para fundar uma sociedade que deveria ser a antítese da Europa feudal onde tudo que valia era ser amigo do rei, num processo revolucionário cujo sentido pode ser sintetizado na frase “nenhum dinheiro e nenhum poder que não seja fruto do mérito”.

A educação, que este teste procura medir, foi a faísca inicial da Revolução Americana.

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Tudo começou pela perda momentânea do controle que a Igreja e os monarcas absolutistas mantinham sobre a circulação da informação provocada pela invenção da prensa de Gutemberg que disseminou para além das trancafiadas bibliotecas de uns poucos conventos edições completas da Bíblia, uma das quais caiu nas mãos de Martinho Lutero que, ao lê-la, deu-se conta de que a versão que davam dela os bispos e os padres de cima de seus púlpitos não tinha nada a ver com o que realmente estava escrito no livro. Era tudo uma empulhação para justificar pela palavra “de deus em pessoa” a exploração dos muitos pelos poucos espertalhões dispostos aos crimes mais hediondos — sendo o cultivo deliberado da ignorância o maior deles — para manter seus privilégios.

Os primeiros “protestantes” das mentiras até então universalmente aceitas como verdades na Inglaterra, por exemplo, andavam pelos campos encapuzados, à noite, perseguidos de morte que eram, batendo de porta em porta dos camponeses analfabetos para ler-lhes à luz de velas trechos da verdadeira Bíblia e encerrar a visita com sua mensagem subversiva: “Não aceitem as verdades de segunda mão que o poder lhes impinge. Aprendam a ler para ir buscá-las diretamente na fonte. A libertação está na educação”.

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Não é por outra razão que, desde sempre, o maior esforço de todo tirano é manter a informação controlada e fazer do sistema educacional uma máquina de falsificação da verdade.

O teste internacional “Pisa” mede precisamente a eficácia com que os tiranos brasileiros têm conseguido atingir esse objetivo, o que hoje depende essencialmente de manter todos longe da “prensa de Gutemberg” da hora, que é a internet. Não chega a ser uma tarefa hercúlea como pode parecer à primeira vista posto que, estando aqui dentro “tudo dominado”, o que resulta em que a esmagadora maioria mal fala português, é só deixá-la longe do inglês que eles só terão acesso ao que o poder constituído quiser lhes dizer. É, de qualquer maneira, impossível aprender democracia em português pois nenhuma sociedade que fala essa língua jamais viveu numa.

O controle absoluto das escolas e da imprensa – mais da primeira que da segunda porque uma coisa conduz naturalmente à outra – já dizia Antonio Gramsci, é o elemento essencial desse esquema de dominação.

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A educação é o instrumento essencial da meritocracia. E a meritocracia a antítese do “amiguismo”, do “emprego sem trabalho” mas com aposentadoria gorda e precoce, e do “jeitinho” para se conseguir tudo isso.

Logo, os privilegiados de hoje fogem da meritocracia como o diabo da cruz.

Agora pense bem. Lembra-se de quando José Serra decidiu dar aumentos de salário por aferição de desempenho para os professores de São Paulo, ainda que sendo só um adicional sobre os aumentos automáticos que eles arrancam anualmente só na mumunha sindical?

O Palácio dos Bandeirantes foi cercado pela milícia do sindicato dos professores, o mais agressivo e radicalmente ideologizado entre todos do país, que por diversas vezes tentou invadi-lo, derrubou seus muros, agrediu quem tentava entrar e sair de suas dependências e jurou de morte o então governador.

E como professores que nunca na vida foram submetidos a qualquer avaliação de desempenho poderiam formar alunos para enfrentar a competição global onde o que desempata o jogo é o desempenho e o esforço individual minuciosamente medidos e aferidos?

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Que incentivo tem o estudante brasileiro para ser mais que o 38º do mundo se o que decide quem vai se dar bem ou mal na vida neste país continua sendo a proximidade que as mãos sôfregas dos contendores estão do saco de “el rei” e se a diferença entre ficar ou não exposto à intempérie está em conseguir ou não saltar para dentro da nau dos exploradores entrando para o “serviço público” o que explica o fenômeno único no mundo da nossa juventude “concurseira”, que dedica a vida a entrar para o redil do Estado na base da água mole em pedra dura?

Quem precisa, enfim, de educação onde o esforço e o merecimento não contam para nada?

A primeira vítima dessa arapuca, ironicamente, são os próprios professores, já que salário não pode ser outra coisa, de forma sustentável, que função de resultado.

Mas como mudar isso se mais da metade da população já está direta ou indiretamente embarcada no Estado recebendo seu chequinho e vivendo de explorar a única minoria realmente discriminada deste país que é a que tem de trabalhar para viver?

Um dia inteiro de discussões na Globonews sobre o nosso vergonhoso desempenho no “Pisa” sem que a palavra “meritocracia” – um arranjo de sociedade que não admite meio termo: ou é ou não é – fosse mencionada uma vez sequer dá a medida do buraco. Porque reformas, mesmo nas democracias mais avançadas, só as puxadas pela imprensa. Os beneficiários do sistema é que não tomarão nunca a iniciativa de fazê-las. E no entanto a imprensa…

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Leia mais sobre instituições modernas neste link

Por um PT que roube mas faça!

22 de março de 2013 § 2 Comentários

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Os jornais desta semana estavam de deixar a gente pequenininho.

Começamos com a safra anual de cadáveres das enxurradas das serras cariocas, que desde 2011 correm por terrenos devastados que continuam exatamente como as daquele ano os deixaram. Os bilhões do socorro estão nos bolsos de sempre.

Terminamos com a revelação revoltante da ruina nova em folha dos prédios do Minha Casa, Minha Vida, o programa xodó de dona Dilma, em que foram atirados os sobreviventes pretos e pobres do afogamento em massa no lixo de dois anos atrás no Morro do Bumba.

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Tudo isso naquele mesmo Rio de Janeiro de Sérgio Cabral, o obsceno sócio de Fernando Cavendish, o ininvestigável dono da Delta Construções, campeã das campeãs das licitações das obras do PAC, filho da Dilma, em que Lula e ela vivem se esfregando sempre que podem.

De troco, levamos para o fim-de-semana a revelação de que Lula se transformou uma espécie de Rosemary Noronha da Dilma, levando e trazendo a “influência” do nome dela aos mais “barra suja” entre os títeres da África e da América Latina para conseguir para os tradicionais ladravazes da coisa pública desta república – Odebrecht, Camargo Correa e OAS – mamatas bilionárias aquém e além-mar.

Entre uma coisa e outra, assistimos à devolução cerimonial dos primeiros ministérios “faxinados” por sua excelência aos mesmos vendilhões que, em dias mais ensolarados que os últimos, ela houve por bem expulsar do templo.

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Como pano de fundo de tudo, fomos brindados com a notícia de que a popularidade de Dilma continua crescendo, já tendo ultrapassado até a de “deus pai”, e que a explicação para isto pode ser encontrada principalmente no Nordeste, onde a multidão dos tomadores de Bolsas Família embevecidamente agradecida a “Mãe Dilma” e “Pai Lula”, como eles são chamados naquelas beiradas de sertão, aumenta a cada dia com a seca, enquanto o candidato “de oposição de esquerda”, neto de Miguel Arraes, inicia confabulações com José Serra, o traíra fundamental, sinal seguro de que terá um vôo sem escalas para a cova do opróbrio e do esquecimento.

Tudo isso nos diz que dona Dilma relaxou, gozou e aderiu de corpo e alma à conta de chegar que inspira todas as ações estratégicas de seus correligionários, certa de que tem dinheiro bastante para comprar incontáveis milhões de miseráveis e dezenas de eleições antes que o Brasil acabe.

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Provavelmente está certa.

É que a carga tributária que foi sendo amontoada sobre os produtores brasileiros um pouco a cada ano ao longo dos últimos 114 anos de República, sempre para tapar buracos e fechar contas de chegar, incluia a expectativa de que pelo menos a metade dela nunca chegasse a ser arrecadada, graças à sonegação.

O que o Brasil e o PT nunca esperaram é que, justo na vez dele, todo o dinheiro e todas as transações do mundo fossem convertidas em bits e a Receita Federal, aparelhada com os supercomputadores da NASA, se transformasse no implacável instrumento de opressão em que se transformou.

Isso fez com que todos os 35% do PIB a que monta o par de milhões de leis, portarias, decretos e gambiarras escritas no último século e pouco com o propósito de nos arrancar dinheiro passassem a ser integralmente arrecadados.

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O resultado está hoje em matéria do Valor, reportando estudo encomendado pelo jornal à LCA Consultores, que mostra que os R$ 43 bilhões em renuncias fiscais distribuídos entre o povo e os amigos do PT no ano passado não chegam a custar 1% do que o PT arrecada hoje havendo, portanto, bife que chegue para ser distribuído a granel pelos próximos muitos anos, de modo a comprar mais governabilidade do que há para vender e a aumentar ilimitadamente a horda dos eternamente gratos a “mãinha” e “painho”, antes que os efeitos da morte da indústria nacional, que é o reverso dessa medalha, se façam sentir nas ruas.

Até lá, seguimos importando baratinho da China o que antes era feito aqui e aparelhando os barracos do Brasil de belos e reluzentes eletrodomésticos.

Posta essa perspectiva, e considerando que pelo grau de estrangulamento em que vamos a agricultura é a próxima a morrer de aterosclerose rodoviária e falência múltipla dos portos e aeroportos, pus os prós e os contras na balança e, bem pé no chão, proponho ao país uma nova campanha, mais condizente com a nossa realidade de irreversível miséria moral.

Rouba, PT! Mas faz, pelo amor de deus!

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Rumo à “oposição zero”

19 de outubro de 2012 § 1 comentário

São Paulo, onde a campanha vai de mal a pior, e Salvador, onde aparentemente vai menos mal, são as duas eleições que determinarão quanto sobrará de oposição digna desse nome à construção do “reich de mil anos” do PT.

Goste-se ou não do PSDB e de José Serra, ou do DEM e de ACM Neto, esses dois partidos são tudo o que continua excluído da salada geral da “base de apoio do governo” e sua sobrevida depende estritamente deles manterem o controle, respectivamente, da maior e da terceira maior cidades do país.

O PSDB (e, nestes quesitos, até José Serra) tem posições civilizadas quanto à necessidade de reforço das instituições fundamentais que devem balizar os processos da política e da economia. E o DEM, se é mais flexível quanto a essas questões mais “abstratas”, tem ao menos um posicionamento ideológico claro quanto à defesa da livre iniciativa, o excesso de intervenção do Estado na economia e o excesso de impostos.

O resto é o resto. Faz, automaticamente, a opção preferencial por quem estiver no poder. Ou então, é o PT de amanhã com o mesmíssimo discurso do PT de ontem, como é o caso do PSOL.

O DEM caiu de 340 para 276 prefeitos e uma capital (Aracaju) por enquanto. Longe das “alianças” em torno do poder ha mais de 10 anos, o que ficou lá ficou por compromisso ideológico. Tudo que, dentro dele, tinha aquele cheirinho de cola-a-tudo (que venha a vencer) mas não podia bandear-se para o PMDB, dono da cadeira cativa à direita de todo e qualquer “deus” que vier a se tornar “pai”, correu para o PSD de Gilberto Kassab que é uma espécie de PMDB da direita que só não está hoje alinhado ao PT porque o partido não sentiu que valia a pena comprá-lo, oferecido que foi, mesmo a preço de ocasião.

Tem, de qualquer maneira 494 prefeitos entre roubados ao DEM e saídos do forno agora, surgindo como a 4a maior agremiação (o DEM fica sendo a 8a).

O festejado PSB, que afastou-se momentaneamente do PT mais em função da inabilidade deste em torno de quizílias envolvendo praças específicas do que de qualquer diferença de princípios que se note, poderia surgir como uma força real se o país mostrasse que quer uma esquerda menos poluída depois do Mensalão.

Mas tudo indica que não é este o caso.

Já o PSDB, segue com o problema de sempre: tem currículo mas não tem voz e vive mergulhado no seu dilema hamletiano, nem reivindicando o que foi e fez, nem afirmando desabridamente o que será ou o que se recusa a ser. Ou seja, segue negando-se como alternativa a uma massa de eleitores órfãos que, desde Marina Silva, vaga pelo deserto oferecendo-se para adoção.

 

O efeito dos mensalões e cachoeiras em duas das capitais mais diretamente atingidas por eles é eloquente nesse sentido. Em Goiânia, terra de Delúbio, de Demóstenes Torres e de Carlinhos Cachoeira, os votos nulos subiram 220% este ano ainda que a abstenção tenha sido a menor desde a eleição de 2000 e uma das mais baixas entre as capitais. Ou seja, os eleitores fizeram questão de votar, mas para anular seu voto em protesto.

Já na São Paulo de José Dirceu e de Genoíno, o aumento dos votos nulos foi de 67% e a taxa de abstenção foi a maior desde 2000. Ou seja, ha mais desilusão com o poder do voto que em Goiânia junto com um forte crescimento do voto de protesto.

Nos dois casos, porém, ninguém conseguiu se apresentar como uma alternativa capaz de atrair os votos negados aos, ou em protesto contra os  bandalhos o que, no final das contas, reverteu em favor … do próprio petismo.

No país inteiro, cresceu 27% o numero de eleitores que deixaram de votar, anularam o seu voto ou votaram em branco.

Ha, portanto, uma boa parcela de brasileiros que resiste a deixar-se anestesiar pelas injeções de anabolizantes do consumo do lulismo, mas que também não consegue raciocinar com clareza sobre as implicações práticas de suas decisões na mecânica da democracia à brasileira.

Ha aí uma falha não só dos candidatos e partidos que poderiam ter investido em esclarecê-los, mas também da imprensa em geral, que não alertou suficientemente os indignados e os desiludidos sobre o resultado prático do seu gesto de negação.

Seja como for, perdidas Salvador e São Paulo, desestruturam-se as bases para a construção de alternativas, não digo competitivas, mas ao menos “perturbativas”, de oposição organizada.

Neste caso o inevitável prognóstico seria seguirmos derrapando para um “chavismo” tanto mais “cordial” (no sentido buarquiano da expressão) quanto menos favoráveis forem os ventos que movem os grandes importadores de commodities do mundo. Enquanto eles seguirem colocando nos cofres que compram “poder de consumo” para a “nova classe média” movida a crédito subsidiado mais do que sai deles para pagar a colonização do Estado pela companheirada e a montagem do anel de ferro dos monopólios “privados” satélites do BNDES, vamos na maciota.

Depois que o vento mudar…

Uma sugestão para José Serra

11 de setembro de 2012 § Deixe um comentário

Entre Haddad e Russomano o acerto é com deus (o da terra ou o do céu), sempre com a mediação do grande sacerdote de ambos, o reverendíssimo Paulo Salim Maluf.

Melhor não se meter.

Mas para o Serra a sugestão vale.

Lula parece que não estava chegando e a Dilma agora entrou na campanha com a conversa de que “Juntos (Haddad e ela) podemos consolidar projetos fundamentais do governo federal como o Proinfância construindo muitas creches“.

Ora, se alguém ainda duvidava que direito autoral não vale mais nada, está aí a defecção da ministra Ana de Holanda, que defendia que se pague a quem produz arte ou vive de escrever do mesmo modo e pela mesma razão porque se paga a quem produz coisas e por isso foi atirada para fora do governo do PT em favor de Marta Suplicy que de cultura entende tanto quanto eu de botox e vestidos cor-de-rosa.

Assim como Lula roubou a estabilização da economia e, dizem eles, até o Bolsa Família do PSDB, porque Serra não rouba do Haddad esse Proinfância?

Digo, com o nome e tudo já que construir creches não é propriamente produto exclusivo do tirocínio criativo dos candidatos petistas às prefeituras “deste país“.

Se fosse ele eu o faria assumida e cerimonialmente.

Gravaria um programa inteiro para anunciar que “estou assumindo o programa petista de construção de creches e espero do governo da União o mesmo compromisso de executá-lo ou financiar a sua execução numa São Paulo peesedebista ou, em caso contrário, ofereço o meu próximo horário eleitoral para que a presidenta Dilma explique aos paulistanos como se vingará nas criancinhas da cidade se seus pais não votarem no candidato dela“.

Ficaria por considerar a conveniência de lembrar ou não, neste mesmo programa, quanto o governo federal arranca e quanto devolve para São Paulo. Mas desde já tenho certeza de que, ainda que tal estratagema não bastasse para virar o jogo, teria um grande efeito educativo para o eleitorado brasileiro.

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