Por uma Agência Internacional de Classificação de Democracia

11 de junho de 2013 § 1 comentário

1A notícia de que a Standard & Poor colocou a nota de risco do Brasil em perspectiva negativa no final da semana passada apontando os números falseados da inflação e do déficit nas contas públicas como justificativa lembrou-me a ideia que sempre me passa pela cabeça nessas ocasiões.

Reparem como isso ajudou a mudar o discurso e o comportamento do governo que foi obrigado a, pelo menos formalmente, reforçar o papel do Banco Central e conter o voluntarismo de dona Dilma.

É pena que só quem tem dinheiro no mundo continue se prevenindo dos comportamentos que possam vir a ameaçá-los e que só esse tipo de denuncia (que é do que se trata) renda tanta publicidade tão bem sincronizada por toda a imprensa nacional e internacional.

Faz muito mais falta a este planeta uma Agência Internacional de Classificação de Democracia.

Arsenal

Pense bem.

Até os mais notórios bandidos do mundo de hoje tratam de fingir-se de democráticos ou de disfarçar as violências institucionais que perpetram com algum tipo de verniz democrático. Tudo isso ficou mais fácil com as modernas comunicações e a internet que tende a empurrar incoercivelmente o processo político para expedientes plebiscitários.

O lado bom é que isso é uma prova de que a democracia hoje é um valor universal e uma exigência de todos os povos. O que a maioria desses povos não sabe é definir com mais precisão o que é ou o que não é um comportamento ou uma instituição democráticos.

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Tendo partido de diferentes graus de servidão e avançado alguma coisa na direção de aberturas democratizantes, não chega a ficar claro para eles a que foi, exatamente, que chegaram, e o que falta conquistar para que os regimes sob os quais vivem passem a merecer de fato o nome de democracia.

A maior dificuldade dos aspirantes a democracias é, enfim, o desconhecimento do que seja ela. E como há uma tendência natural em quem nunca teve nada de ficar excessivamente agradecido por muito pouco, esses neófitos tornam-se vítimas fáceis para os lobos populistas e para as feras neo-autoritárias.

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Sem ter uma ideia clara sobre a que têm direito de aspirar, podem levar séculos se tiverem de descobrir isso sozinhos em ambientes contaminados por sólidas paredes de ignorância e censura à informação, seja ela a diretamente imposta pelo governante autoritário, seja a censura granmscianamente infiltrada nos meios de difusão das ideias e da cultura, a escola em especial, de modo a impor subliminarmente um pensamento unitário essencialmente antidemocrático.

É este, por exemplo, o caso do Brasil.

Se tais avaliações tivessem o mesmo destaque planetário que recebem os alertas sobre expedientes de governantes que ameaçam os investimentos estrangeiros nos países avaliados pelas agências de risco de hoje e rendessem o mesmo tipo de sanção econômica (dinheiro mais caro, investimentos minguantes, etc.), o avanço da democracia no mundo mudaria de velocidade ao concentrar todas as atenções naquilo que realmente interessa.

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O Brasil, por exemplo, renderia manchetes como: “Brasil é rebaixado pela ausência do instituto básico do um homem-um voto”, ou “Foros especiais configuram desigualdade perante a lei e desmascaram democracia brasileira”, ou ainda, “Impossibilidade de ligar representante a representados põe Brasil fora do clube das democracias”. A lista seria enorme…

E se isso nos obrigasse a discutir essas questões essenciais em vez das quimeras da governabilidade e das nuances ideológicas dos atores da comédia brasiliense que tanto apaixonam os jornalistas da capital da República, certamente avançaríamos muito.

Todos teriam a ganhar, aliás, mesmo porque, afinal de contas, excluídas as novidades inventadas pelos tubarões da ponta tecnicamente mais avançada do capitalismo como as que, paridas em Wall Street, enganaram as agências de risco e mergulharam o mundo numa crise, o que essas agências medem são exatamente as violências contra a democracia que permitem a governantes de países institucionalmente imaturos por a economia a serviço dos seus delírios de poder em vez de colocá-la a serviço do bem público, ameaçando assim também os investimentos dos estrangeiros que se arriscaram a apostar neles. Caberia portanto, denunciar o que propicia tais abusos, antes de esperar para gritar só depois deles acontecerem.

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§ Uma Resposta para Por uma Agência Internacional de Classificação de Democracia

  • Carlos 2013 disse:

    A idéia pareceu-me muito boa. Somente assim teríamos uma objetiva avaliação dos países. As crises nascem em função da perda de confiança, sobretudo. (Sobre o tema, ver nota final).

    Creio que mais do que uma medida de onde estamos, precisa-se de uma avaliação do sistema de “Gestão Democrática”. (SGD).

    Quando se discute a ISO 9000 e outras similares, avalia-se o Sistema de Gestão da Qualidade. Baseia-se na firme convicção que se gerenciarmos bem o sistema, a qualidade vai melhorar e diminui-se o risco de retrocessos (perda repentina da qualidade do produto ou serviço).

    Há que se diminuir o risco de retrocessos por causa de algum governo desvariado ou causa externa qualquer. É um processo sem fim, que exige monitoramento ( vigilância).

    Na ISO 9000 temos os “quesitos”. No caso da avaliação do SGD, quais seriam estes “quesitos”? Apenas e tão somente para dar um chute inicial, sugiro que os eventuais interessados visitem o site abaixo:

    http://www.embaixada-americana.org.br/democracia/government.htm

    Alguns poderão me criticar pela fonte, mas assumo o risco.

    Nota- Recomendo o livro “ Sociedade de Confiança” de Alain Peyrefitte. “ Ensaio sobre as Origens e a Natureza do Desenvolvimento” . Pesado, difícil, mas imprescindível. Certamente muitos dos leitores do Vespeiro já o leram.

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