A mãe da crise de liderança

2 de julho de 2012 § Deixe um comentário

Na edição de domingo, 23/6, do New York Times, Thomas Friedman tratou por dois ângulos interessantes – o geracional e o tecnológico – de um assunto muito caro aqui ao Vespeiro, que é o da crise de liderança que se tornou epidêmica no mundo e explica o aprofundamento aparentemente sem limites da crise que se tornou aguda a partir de 2007.

Estou publicando o texto traduzido aí embaixo pra vocês conferirem.

Não ha propriamente novidade quanto a essência do processo na forma como ele o descreve. Mas ha pormenores interessantes no modo como ele nos leva a enxergar como o uso das novas tecnologias de comunicação pelos políticos e pelos agentes das suas campanhas eleitorais levam o “Popularismo, a ideologia onipresente do nosso tempo” que eu já chamei aqui de “Efeito Google” (neste texto) e de “síndrome do É proibido proibir” (nestes dois outros de janeiro e agosto de 2011) a contaminar irremediavelmente as relações entre representantes e representados nas democracias.

O que posso acrescentar ao artigo de Friedman é a observação de que a generalização do uso das novas ferramentas de comunicação pela massa dos eleitores no mesmo momento em que as eleições nas democracias se entregaram totalmente às técnicas do marketing de produtos comercializáveis foi uma coincidência infeliz que transformou a demagogia numa ciência e pôs os estadistas num canto.

Com o tempo isso pode matar a democracia.

A título de consolo, reafirmo, junto com Friedman e o escritor que ele cita, a minha crença de que a diluição da função do jornalismo, especialidade da qual um ferramental ético tecnicamente constituído é um elemento imprescindível que, de maneira nenhuma, vem de graça junto com a capacidade de registrar e difundir acontecimentos que a rede mundial pôs, indiscriminadamente, ao alcance de todos, é um fenômeno passageiro e de vida curta.

O jornalismo profissional, que foi o parteiro da democracia (o momento essencial dessa história está registrado aqui), continua sendo a principal condição da sobrevivência dela. A vida precisa de edição. E um trabalho de edição digno de ter “seguidores” requer gente tecnicamente capacitada para buscar a verdade dentro de regras estabelecidas e critérios identificáveis, um conjunto de processos e conhecimentos que exige um longo aprendizado em regime de dedicação integral e o empenho de toda uma vida como qualquer outro ramo especializado do conhecimento humano.

Se “circulação paga” deixou de ser, como foi até ha pouco tempo, um aval altamente democrático e eficiente da qualidade das regras com que se baliza essa busca, o mundo logo encontrará outros meios de expressar a certeza que já tem – e premente! – de que a mera capacidade de fazer um grito alcançar os quatro cantos do mundo, que hoje é de todos e de qualquer um, acompanhado do registro do numero de pessoas que foi alcançado por esse grito não é tudo que se requer – muito ao contrário – para se definir a qualidade do que é gritado e o interesse de se perder tempo em ouvir e entender cada barulho produzido.

Vamos a ele:

A ascensão do Popularismo

por Thomas L. Friedman

Saí de uma viagem por vários países da Europa na semana passada com a impressão de que toda conversa hoje em dia acaba com alguma variação deste tema: porque não existem mais líderes capazes de inspirar seus povos a enfrentar os grandes desafios do nosso tempo? Existem muitas explicações para o déficit global de lideranças mas eu vou focar apenas duas: uma é geracional, a outra é tecnológica.

Vamos começar com a tecnológica. Em 1965, Gordon Moore, co-fundador da Intel, formulou aquilo que ficou conhecido como a Lei de Moore, que estipulava que a capacidade de processamento de um único microship dobraria, daí por diante, a cada 18 a 24 meses. A teoria vem sendo confirmada pelos fatos desde então.

Observando a luta dos líderes europeus, árabes e americanos com suas respectivas crises eu me pergunto se não existe um corolário político para a Lei de Moore: a qualidade das lideranças políticas deteriora-se mais um ponto a cada 100 milhões de novas adesões ao Facebook e ao Twitter.

A conexão do mundo pelas mídias sociais e pelos celulares com internet está mudando a natureza da conversa entre lideranças e liderados em toda a parte. Estamos indo de conversas de mão única de cima para baixo para conversas de mão dupla que vão de baixo para cima e de cima para baixo. Ha várias vantagens no novo modelo: mais participação, mais inovação e mais transparência. Mas não estaria havendo também um excesso de participação – isto é, lideranças atentas a tantas vozes o tempo todo e tão preocupadas em monitorar todas as tendências que elas acabam se tornando prisioneiras?

Veja essa frase que estava numa matéria do site Politico na semana passada: “As campanhas de Romney e Obama passam o dia correndo uma atrás da outra no Twitter, enquanto se queixam de que ninguém gasta um minuto para discutir qualquer assunto sério. Mas todas as vezes que elas têm a oportunidade de escolher serem grandes, elas acabam optando por continuar sendo pequenas“.

Eu ouvi uma nova palavra em Londres na semana passada que define isso tudo com precisão: “Popularismo“. O Popularismo é a ideologia onipresente do nosso tempo. Leia as pesquisas, monitore os blogs, acompanhe os feeds do Twitter e do Facebook e vá precisamente para onde as pessoas estão e não para onde você acha que elas deveriam estar. E, a propósito, se todo mundo está “seguindo“, quem está liderando?

Por cima disso ha, ainda, o problema da exposição. Qualquer um com um celular nas mãos, hoje, é um paparazzi; qualquer um com uma conta no Twitter é um repórter; qualquer um com acesso ao Youtube é um cinegrafista. E quando todo mundo é paparazzi, repórter e cinegrafista, todos os outros são figuras públicas.

Agora, se você for realmente uma figura pública – um político, por exemplo – a vigilância constante pode se tornar algo tão insuportável que a vida pública passa a ser algo a ser evitado a qualquer custo. Alexander Downer, ex-primeiro-ministro da Austrália, me disse o seguinte, faz pouco tempo: “As lideranças políticas estão sendo submetidas a um massacre fiscalizatório como nunca houve antes. Isso não chega a desencorajar os melhores entre eles, mas a sensação de ridículo e a interação constante com o público está tornando cada vez mais difícil tomar decisões bem pensadas e corajosas“.

Quanto à mudança geracional, nós passamos de uma geração que acreditava em investir no futuro para a geração os Baby Boomers que acredita em se endividar para gastar hoje. Basta comparar os Bush pai e filho. O pai se apresentou como voluntário para a 2a Guerra Mundial assim que acabou o bombardeio de Pearl Harbour e temperou o seu caráter na Guerra Fria – uma época perigosa em que os políticos não podiam apenas seguir as pesquisas. E como presidente aumentou os impostos quando o equilíbrio fiscal assim o exigiu. O seu filho da geração Baby Boomer simplesmente rasgou esse figurino e se tornou o primeiro presidente da história dos Estados Unidos a cortar impostos no meio, não apenas de uma, mas de duas guerras.

Quando você vive cercado de tecnologias que favorecem e valorizam os julgamentos e as respostas de curto prazo e de pessoas acostumadas a usa-las para ter a sensação de satisfação imediata de qualquer desejo, mas vive mergulhado em problemas cuja solução exige processos longos e difíceis como são as crises globais de crédito e emprego ou a necessidade de reconstruir países como os do Mundo Árabe, de alto a baixo – você tem um problema sério de descompasso e afinação e um enorme desafio de liderança.

No mundo de hoje, todas as lideranças estão precisando pedir aos seus povos que aceitem mais deveres e não apenas que dividam mais benefícios; que estudem e trabalhem mais apenas para não andar para trás. E isso exige uma tremenda capacidade de liderança que começa pela disposição de dizer a verdade ao povo.

Dov Seideman, autor do livro “Como” e que é dono da empresa LRN especializada em treinar CEO’s em matéria de liderança, vem ha tempos argumentando que “nada inspira mais as pessoas que a verdade“. A maioria dos líderes políticos pensa que dizer a verdade ao povo vai deixá-los vulneráveis em relação aos seus adversários. Eles estão errados.

A melhor coisa de se dizer a verdade é que ela cria um laço concreto entre você e as pessoas“, diz Seideman, “porque quando você prova às pessoas que confia nelas dizendo-lhes a verdade fica mais fácil elas confiarem em você também“. Disfarçar os problemas torna muito mais difícil sair deles. “Dar a verdade às pessoas é como dar-lhes um chão firme em que pisar. Isso por si só já empurra para a ação. Quando todos estão apoiados numa verdade compartilhada, você começa a resolver junto os problemas. E esse é o primeiro passo para se encontrar um caminho novo e melhor“.

Mas não é o que temos visto acontecer, seja na América, seja no Mundo Árabe, seja na Europa de hoje. Fico imaginando se apenas um deles, unzinho só, agarrasse a oportunidade de por o seu povo diante da verdade: dizer-lhes claramente o que estão enfrentando, do que eles são capazes, que plano é preciso por em prática para sair da enrascada e qual a contribuição que se requer de cada um para chegar a um novo caminho.

O primeiro que fizer isso será o primeiro que terá “seguidores” e “amigos” de verdade, e não apenas os “seguidores” e “amigos” virtuais de hoje.

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