A mãe da crise de liderança

2 de julho de 2012 § Deixe um comentário

Na edição de domingo, 23/6, do New York Times, Thomas Friedman tratou por dois ângulos interessantes – o geracional e o tecnológico – de um assunto muito caro aqui ao Vespeiro, que é o da crise de liderança que se tornou epidêmica no mundo e explica o aprofundamento aparentemente sem limites da crise que se tornou aguda a partir de 2007.

Estou publicando o texto traduzido aí embaixo pra vocês conferirem.

Não ha propriamente novidade quanto a essência do processo na forma como ele o descreve. Mas ha pormenores interessantes no modo como ele nos leva a enxergar como o uso das novas tecnologias de comunicação pelos políticos e pelos agentes das suas campanhas eleitorais levam o “Popularismo, a ideologia onipresente do nosso tempo” que eu já chamei aqui de “Efeito Google” (neste texto) e de “síndrome do É proibido proibir” (nestes dois outros de janeiro e agosto de 2011) a contaminar irremediavelmente as relações entre representantes e representados nas democracias.

O que posso acrescentar ao artigo de Friedman é a observação de que a generalização do uso das novas ferramentas de comunicação pela massa dos eleitores no mesmo momento em que as eleições nas democracias se entregaram totalmente às técnicas do marketing de produtos comercializáveis foi uma coincidência infeliz que transformou a demagogia numa ciência e pôs os estadistas num canto.

Com o tempo isso pode matar a democracia.

A título de consolo, reafirmo, junto com Friedman e o escritor que ele cita, a minha crença de que a diluição da função do jornalismo, especialidade da qual um ferramental ético tecnicamente constituído é um elemento imprescindível que, de maneira nenhuma, vem de graça junto com a capacidade de registrar e difundir acontecimentos que a rede mundial pôs, indiscriminadamente, ao alcance de todos, é um fenômeno passageiro e de vida curta.

O jornalismo profissional, que foi o parteiro da democracia (o momento essencial dessa história está registrado aqui), continua sendo a principal condição da sobrevivência dela. A vida precisa de edição. E um trabalho de edição digno de ter “seguidores” requer gente tecnicamente capacitada para buscar a verdade dentro de regras estabelecidas e critérios identificáveis, um conjunto de processos e conhecimentos que exige um longo aprendizado em regime de dedicação integral e o empenho de toda uma vida como qualquer outro ramo especializado do conhecimento humano.

Se “circulação paga” deixou de ser, como foi até ha pouco tempo, um aval altamente democrático e eficiente da qualidade das regras com que se baliza essa busca, o mundo logo encontrará outros meios de expressar a certeza que já tem – e premente! – de que a mera capacidade de fazer um grito alcançar os quatro cantos do mundo, que hoje é de todos e de qualquer um, acompanhado do registro do numero de pessoas que foi alcançado por esse grito não é tudo que se requer – muito ao contrário – para se definir a qualidade do que é gritado e o interesse de se perder tempo em ouvir e entender cada barulho produzido.

Vamos a ele:

A ascensão do Popularismo

por Thomas L. Friedman

Saí de uma viagem por vários países da Europa na semana passada com a impressão de que toda conversa hoje em dia acaba com alguma variação deste tema: porque não existem mais líderes capazes de inspirar seus povos a enfrentar os grandes desafios do nosso tempo? Existem muitas explicações para o déficit global de lideranças mas eu vou focar apenas duas: uma é geracional, a outra é tecnológica.

Vamos começar com a tecnológica. Em 1965, Gordon Moore, co-fundador da Intel, formulou aquilo que ficou conhecido como a Lei de Moore, que estipulava que a capacidade de processamento de um único microship dobraria, daí por diante, a cada 18 a 24 meses. A teoria vem sendo confirmada pelos fatos desde então.

Observando a luta dos líderes europeus, árabes e americanos com suas respectivas crises eu me pergunto se não existe um corolário político para a Lei de Moore: a qualidade das lideranças políticas deteriora-se mais um ponto a cada 100 milhões de novas adesões ao Facebook e ao Twitter.

A conexão do mundo pelas mídias sociais e pelos celulares com internet está mudando a natureza da conversa entre lideranças e liderados em toda a parte. Estamos indo de conversas de mão única de cima para baixo para conversas de mão dupla que vão de baixo para cima e de cima para baixo. Ha várias vantagens no novo modelo: mais participação, mais inovação e mais transparência. Mas não estaria havendo também um excesso de participação – isto é, lideranças atentas a tantas vozes o tempo todo e tão preocupadas em monitorar todas as tendências que elas acabam se tornando prisioneiras?

Veja essa frase que estava numa matéria do site Politico na semana passada: “As campanhas de Romney e Obama passam o dia correndo uma atrás da outra no Twitter, enquanto se queixam de que ninguém gasta um minuto para discutir qualquer assunto sério. Mas todas as vezes que elas têm a oportunidade de escolher serem grandes, elas acabam optando por continuar sendo pequenas“.

Eu ouvi uma nova palavra em Londres na semana passada que define isso tudo com precisão: “Popularismo“. O Popularismo é a ideologia onipresente do nosso tempo. Leia as pesquisas, monitore os blogs, acompanhe os feeds do Twitter e do Facebook e vá precisamente para onde as pessoas estão e não para onde você acha que elas deveriam estar. E, a propósito, se todo mundo está “seguindo“, quem está liderando?

Por cima disso ha, ainda, o problema da exposição. Qualquer um com um celular nas mãos, hoje, é um paparazzi; qualquer um com uma conta no Twitter é um repórter; qualquer um com acesso ao Youtube é um cinegrafista. E quando todo mundo é paparazzi, repórter e cinegrafista, todos os outros são figuras públicas.

Agora, se você for realmente uma figura pública – um político, por exemplo – a vigilância constante pode se tornar algo tão insuportável que a vida pública passa a ser algo a ser evitado a qualquer custo. Alexander Downer, ex-primeiro-ministro da Austrália, me disse o seguinte, faz pouco tempo: “As lideranças políticas estão sendo submetidas a um massacre fiscalizatório como nunca houve antes. Isso não chega a desencorajar os melhores entre eles, mas a sensação de ridículo e a interação constante com o público está tornando cada vez mais difícil tomar decisões bem pensadas e corajosas“.

Quanto à mudança geracional, nós passamos de uma geração que acreditava em investir no futuro para a geração os Baby Boomers que acredita em se endividar para gastar hoje. Basta comparar os Bush pai e filho. O pai se apresentou como voluntário para a 2a Guerra Mundial assim que acabou o bombardeio de Pearl Harbour e temperou o seu caráter na Guerra Fria – uma época perigosa em que os políticos não podiam apenas seguir as pesquisas. E como presidente aumentou os impostos quando o equilíbrio fiscal assim o exigiu. O seu filho da geração Baby Boomer simplesmente rasgou esse figurino e se tornou o primeiro presidente da história dos Estados Unidos a cortar impostos no meio, não apenas de uma, mas de duas guerras.

Quando você vive cercado de tecnologias que favorecem e valorizam os julgamentos e as respostas de curto prazo e de pessoas acostumadas a usa-las para ter a sensação de satisfação imediata de qualquer desejo, mas vive mergulhado em problemas cuja solução exige processos longos e difíceis como são as crises globais de crédito e emprego ou a necessidade de reconstruir países como os do Mundo Árabe, de alto a baixo – você tem um problema sério de descompasso e afinação e um enorme desafio de liderança.

No mundo de hoje, todas as lideranças estão precisando pedir aos seus povos que aceitem mais deveres e não apenas que dividam mais benefícios; que estudem e trabalhem mais apenas para não andar para trás. E isso exige uma tremenda capacidade de liderança que começa pela disposição de dizer a verdade ao povo.

Dov Seideman, autor do livro “Como” e que é dono da empresa LRN especializada em treinar CEO’s em matéria de liderança, vem ha tempos argumentando que “nada inspira mais as pessoas que a verdade“. A maioria dos líderes políticos pensa que dizer a verdade ao povo vai deixá-los vulneráveis em relação aos seus adversários. Eles estão errados.

A melhor coisa de se dizer a verdade é que ela cria um laço concreto entre você e as pessoas“, diz Seideman, “porque quando você prova às pessoas que confia nelas dizendo-lhes a verdade fica mais fácil elas confiarem em você também“. Disfarçar os problemas torna muito mais difícil sair deles. “Dar a verdade às pessoas é como dar-lhes um chão firme em que pisar. Isso por si só já empurra para a ação. Quando todos estão apoiados numa verdade compartilhada, você começa a resolver junto os problemas. E esse é o primeiro passo para se encontrar um caminho novo e melhor“.

Mas não é o que temos visto acontecer, seja na América, seja no Mundo Árabe, seja na Europa de hoje. Fico imaginando se apenas um deles, unzinho só, agarrasse a oportunidade de por o seu povo diante da verdade: dizer-lhes claramente o que estão enfrentando, do que eles são capazes, que plano é preciso por em prática para sair da enrascada e qual a contribuição que se requer de cada um para chegar a um novo caminho.

O primeiro que fizer isso será o primeiro que terá “seguidores” e “amigos” de verdade, e não apenas os “seguidores” e “amigos” virtuais de hoje.

As super-empresas e você

2 de março de 2012 § Deixe um comentário

O artigo é de David Rothkopf e saiu na Foreing Policy.

O valor das vendas anuais da maior empresa privada do mundo, a Wal-Mart Stores Inc. é maior que o PIB de todos os países do mundo menos os 25 maiores. Com 2,1 milhões de empregados, ela tem em sua folha de pagamentos mais gente que a população de 100 dos países do mundo. O maior gestor de investimento do mundo, gerido por uma empresa bem low-profile de Nova York chamada BlackRock, controla US$ 3,5 trilhões em valores – mais que as reservas nacionais de qualquer país no planeta. Em 2010, uma instituição filantrópica privada, a Gates Foundation com seus fundos de US$ 33,5 bilhões, distribuiu mais dinheiro em diferentes ações pelo mundo afora do que a Organização Mundial de Saúde tinha no seu orçamento anual.

Ao longo do último século, as maiores organizações privadas do mundo se tornaram maiores que tudo menos meia dúzia dos governos dos mais ricos países do mundo em matéria de recursos, alcance global e influência. Ao mesmo tempo, até os países mais ricos estão às voltas com burocracias inchadas, crises orçamentárias e a perda generalizada de confiança do público nos governos. Os governos estão ainda, em toda a parte, limitados a agir dentro de suas fronteiras  em uma época em que todos os problemas que afetam as pessoas são, cada vez mais, transnacionais.

Conseguir um balanço adequado dos poderes público e privado é o maior desafio de nossa época. Encontre o ponto de equilíbrio – uma dose prudente de regulamentação, poder suficiente às pessoas para competir, condições de dinamismo para a economia, condições justas de luta para todos – e a sua será uma das sociedades prósperas do século 21. Erre a equação e o resultado virá na forma de instabilidade social, prosperidade declinante, menos condições de construir o seu próprio destino. E decisões que hoje ainda parecem inteiramente locais vão ter consequências geopolíticas decisivas.

Nos Estados Unidos esta é a questão política do momento. O governo é grande demais, um fardo para a sociedade e uma ameaça para as liberdades individuais? Ou foi cooptado pelos donos do dinheiro e é fraco demais para proteger os interesses das pessoas comuns? Tem contribuído para o bem estar geral ou está institucionalizando a desigualdade, a serviço de uns poucos – os 1% – e não da maioria?

Na Europa esse debate também está quente, ainda que abafado no momento pela discussão sobre quanto de suas prerrogativas o governo de cada país deve ceder à União Europeia e a que interesses esse governo colaborativo serve – o que já deixa para trás o papel tradicional do estado-nação. Faça essa pergunta a um grego e a um alemão e você colherá respostas bem diferentes.

Na China, o cabo-de-guerra entre o público e o privado é visível em todos os níveis de uma sociedade que está se reinventando numa velocidade tão alucinante que estabilidade e  crescimento frequentemente parecem conceitos tão irreconciliáveis quanto eles são essenciais um para o outro. É um tipo de desafio que também esta sendo enfrentado em outros lugares do mundo emergente, da Rússia das batalhas entre oligarcas e governantes ao mundo árabe mergulhado na agitação social que reage tanto contra esquemas patrimonialistas e governos a serviço dos interesses econômicos de pequenas elites quanto contra a falta de liberdade e oportunidade para todos.

É preciso achar um ponto de equilíbrio. Ha uma década e meia os Estados Unidos estavam comemorando o triunfo do capitalismo e a derrota do estatismo pelas forças do mercado. Dançava-se sobre o túmulo do comunismo e do socialismo Mas hoje está claro que a comemoração foi prematura.

Desde então o mundo evoluiu da luta entre capitalismo e comunismo para algo bem mais complexo: uma batalha entre diferentes formas de capitalismo na qual a diferença está nos papéis relativos dos agentes públicos e privados. Enquanto o modelo do livre mercado que Washington promovia se vê às voltas com ferimentos auto-infligidos, outros formatos ganham terreno. Modelos em ascensão competem por influência – do “capitalismo à chinesa” de Pequim ao “capitalismo desenvolvimentista democrático” da Índia e do Brasil; das economias apoiadas numa forte disciplina fiscal mas também numa aliança forte entre o público e o privado da Europa do Norte ao “capitalismo de estado empreendedor” de países pequenos como Israel, Singapura e os Emirados Árabes.

Nos Estados unidos e outros países que adotaram o modelo americano, a noção de que a mão pesada do poder econômico nas esferas legal, legislativa e regulatória desequilibrou as coisas a favor do poder econômico vai se generalizando. A desigualdade aumentou, tanto no que diz respeito à distribuição dos benefícios econômicos e aos privilégios ostentados por uma elite super-poderosa quanto, o que é mais grave, no que se refere ao alcance da lei. Nada pode ilustrar melhor essas distorções que a última crise na qual as grandes instituições financeiras passaram por cima dos regulamentos, abusaram da liberdade que lhes foi dada, convenceram o governo a resgatá-las (mas não às vítima dos seus abusos) e, em seguida, barraram as reformas e voltaram quase exatamente às mesmas práticas que as meteram na enrascada inicial. O resultado é essa ressaca moral que se manifesta em movimentos como o Occupy Wall Street e os protestos nacionalistas contra a globalização.

O mundo precisa de uma nova ordem institucional que reflita a nova realidade. Todos os países do mundo tiveram sua soberania enfraquecida; a autoridade dos governos deixou de ser o que era. Pilares básicos do poder do Estado como o controle de fronteiras, o poder de emitir dinheiro, o poder de impor a lei e o de projetar força internacionalmente foram afetados de modo irreversível. Graças à internet, os meios de transportes modernos e a globalização em geral, os Estados nacionais não conseguem mais ver, quantificar ou controlar a maior parte das coisas que atravessam as suas fronteiras. Só uma pequena minoria de países tem moedas de fato conversíveis enquanto a quantidade de papéis de valor internacional emitidos por entidades privadas, como os derivativos, ultrapassa enormemente o valor das moedas emitidas por governos. As companhias globais têm hoje meios de escapar de regulamentos e legislações nacionais que não lhes convêm simplesmente mudando suas operações de lugar. Em contrapartida, não existem mais de 20 países com condições reais de projetar poder além de suas fronteiras.

Uma companhia como a Exxon Mobil, com vendas de US$ 350 bilhões em 2011, opera em duas vezes mais países do que aqueles em que um pais rico como a Suécia, por exemplo, mantém embaixadas. O orçamento de defesa da Suécia inteira, aliás, é seis vezes menor do que os gastos previstos no orçamento anual da Exxon. O gigante da energia tem mais dinheiro investido e um envolvimento muito mais decisivo em dezenas de economias; é capaz de mobilizar muito mais recursos para influenciar decisões políticas pelo mundo afora do que a Suécia. Agora responda: qual entidade, a Suécia ou a Exxon, influenciará mais as decisões internacionais sobre a mudança climática? Ou qualquer decisão internacional sobre meio ambiente?

Comparar o tamanho de empresas privadas com o de países é sempre uma tarefa complicada porque as métricas são diferentes, mas considere o seguinte: a milésima maior companhia do mundo tem vendas anuais maiores que os PIBs de 57 países. Trata-se da Owens-Illinois, que produz garrafas de vidro; suas vendas passaram de US$ 7 bilhões em 2010, mais que o PIB do Benin, das Bermudas, do Haiti, de Kosovo, Liechtenstein, Moldávia, Mônaco, Nicarágua, Níger, Ruanda, Tadjiquistão e dúzias de outros países. Na verdade, as 500 companhias listadas entre as maiores do mundo pela Forbes poderiam, sem exceção, se alinhar entre as 100 maiores economias do mundo. (PIB é uma medida complicada e enganosa que não pode ser comparada diretamente a vendas de uma empresa. Mas a comparação dá, de qualquer maneira, uma ideia de grandeza.)

O fenômeno do poder corporativo não é novo, é verdade. A Companhia das Índias Ocidentais Britânica governou o subcontinente indiano e mantinha um dos maiores exércitos do mundo em seu tempo. Andrew Carnegie e Henry Ford construíram cidades completas com escolas e o mais para seus milhares de trabalhadores. Ao longo do século passado esses papéis que companhias privadas dividem com o Estado foram mudando e se tornando mais complexos à medida que as multinacionais iam crescendo. Hoje em dia muitas dessas companhias podem se dar o luxo de ter a sua própria política externa. Lançam suas próprias campanhas políticas, como a Exxon fez, por exemplo, com seu lobby para impedir que os Estados Unidos assinassem o Protocolo de Kyoto. Assumem importantes iniciativas na área de segurança, como aconteceu com a Blackwater na guerra do Iraque. Montam sistemas de saúde, de treinamento, de habitação e assumem outras funções que os estados nacionais deveriam mas já não aguentam oferecer.

O resultado disso é que sociedades inteiras tornam-se dependentes de corporações gigantes com excesso de poder nas mãos mas com centros de decisão distantes e que respondem apenas e tão somente aos seus acionistas. E aparelhos institucionais construídos a duras penas ficam cada vez mais fracos, incapazes de processar os pleitos das pessoas. O contrato social, base da democracia, vai sendo rasgado numa realidade em que os problemas que eles teriam de resolver estão, cada vez mais, fora da sua jurisdição.

Este artigo não é um chamado para a revolução. Se a carnificina, as experiências em arquitetura social e a polarização do século 20 nos ensinou alguma coisa foi que soluções extremas não funcionam quando se trata de procurar a melhor dosagem de poder público e poder privado. Nenhuma sociedade pode ir para a frente sem conseguir um equilíbrio entre os dois. Para alguns americanos é preocupante realizar que ficou bem reduzida a prerrogativa de influenciar a decisão sobre o modo pelo qual esse equilíbrio deve ser procurado. Mas para a maioria, para os 99% que saíram perdendo nessa troca, esse capitalismo híbrido que está emergindo da competição global pelo mercado das idéias (tão avesso às tradições da democracia ianque) vai acabar parecendo uma alternativa mais justa e sustentável do que o que eles têm hoje em dia.

(Tradução FLM)
 

“Non duco, ducor”, a Síndrome de Google

28 de janeiro de 2012 § 1 comentário

Para todo lado que se olhe, inclusive e especialmente o das democracias, o cenário é desolador.

Líder”…

Os jornais e as televisões adoram a palavra de que abusam tanto mais quanto menor for a adequação do termo à realidade.

Mas o fato que define o tempo em que vivemos é que eles não existem mais.

Excluído o “Vale tudo por dinheiro” que permeia das religiões televisivas às formas mais íntimas do relacionamento humano, não existe qualquer outro “norte” discernível que seja capaz de por dez gatos pingados na mesma faixa de sintonia.

Do cenário político europeu aos pais diante do desafio da educação dos filhos; da oposição brasileira aos que se confrontam nos impasses que travam a Europa e os Estados Unidos, todo mundo está perdido com exceção dos cínicos cujo rumo se define exatamente em função da falta de rumo dos demais.

Esta é a Era do Google, o moto perpetuo do “é proibido proibir”; a ferramenta matemática de realimentação sem limites (“até além da centésima casa decimal”) de qualquer desejo manifestado.

A humanidade está sem rumo e é proibido que se lhe faça sugestões. E tendo a missão do homem na Terra ficado reduzida a atender “demandas”, é preciso que a política perca o rumo também para não ser apedrejada como elitista e anti-democrática.

Non duco, ducor*.

Vivemos a era da inversão “on demand” da antiga máxima de São Paulo.

É assim que, fácil como nunca antes na história deste mundo, o vácuo vai sendo preenchido pelos que fazem tudo por dinheiro ainda mantendo uma aparência de respeito pelas regras, como no universo dos advogados e das grandes corporções, e os que fazem tudo por dinheiro sem respeitar regra nenhuma, como se vai tornando norma no universo virtual.

Políticos, BBBs, mega-piratas, Estados-piratas, estes sim, agora livres e desobrigados pela promoção da covardia ao status de virtude, sabem, como sempre, exatamente onde querem chegar.

Ja a democracia – coitada! – vai sendo arrastada pela Medina, aos trambolhões. Só se levanta o seu outrora santo nome, hoje em dia, para defender a descriminalização da livre predação que rola na internet.

*Não conduzo, sou conduzido

Roendo os pilares da democracia

7 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

Agora é oficial: a reunião de cúpula do G-20 aprovou, em Cannes, a lista dos 29 bancos globais “grandes demais para quebrar”, iniciativa que será replicada em países como o Brasil e outros emergentes em negociações marcadas para começar no primeiro trimestre de 2012.

A intenção parece boa à primeira vista. Trata-se de reforçar as obrigações desses bancos para que, “em caso de turbulências, eles não precisem ser socorridos pelos governos de novo“. Os bancos que já estão na primeira lista – 8 dos Estados Unidos, os dois grandes da Suíça, 15 da União Europeia, três japoneses e um chinês – terão de aumentar seu capital numa proporção variando entre 1 e 2,5% dos seus ativos, acima do aumento já definido para todos de 7% até 2019 se, até lá, todos estivermos vivos.

O conceito fundamental da democracia é o da responsabilidade individual.

Num mundo que sempre foi marcado pela desigualdade econômica outorgada pelos donos do poder político a quem se dispõe a ajuda-los a mante-lo nas mãos, a revolução democrática estabeleceu que só o merecimento, conquistado pelo esforço individual, poderia legitimar a riqueza. E que, para tanto, era necessário separar a economia do Estado, cuja principal função passaria a ser, não mais a de principal agente econômico do sistema, mas a de normatizar e fiscalizar o poder econômico colocando-se à margem dele.

Num segundo momento, quando o aperfeiçoamento das técnicas de gestão corporativa levaram a um crescimento tal do poder econômico que ele passou a submeter o poder político (na virada do século 19 para o 20 nos Estados Unidos), a democracia americana houve por bem estabelecer limites até para a acumulação de riqueza por merecimento, criando a legislação antitruste que obrigava à divisão das propriedades que crescessem além do limite que as dispensasse dos rigores da competição que, quanto mais acirrada, em maiores benefícios resulta para a massa dos consumidores e dos assalariados.

O conceito da empresa “grande demais para quebrar” surge no contexto da competição desigual entre as empresas com crescimento limitado por lei do capitalismo democrático e os monopólios do capitalismo de estado chinês depois que as tecnologias da informação tornaram o trabalho exportável e o mercado consumidor planetário.

Foi um expediente de emergência do governo dos Estados Unidos para evitar que a crise financeira de 2008, ela própria consequência dos paliativos políticos que, há décadas, vinham sendo aplicados para compensar a perda de poder de competição dos produtos americanos em relação aos chineses, se tornasse politicamente incontrolável.

O despejo de centenas de bilhões de dólares do governo em empresas privadas falidas criou o escândalo e a comoção que criou nos Estados Unidos justamente porque fere o conceito fundamental da democracia. Se o mérito legitima a diferença para cima, a responsabilidade pelo fracasso deve ser integralmente assumida por quem foi responsável por ele.

Consagrar institucionalmente o conceito do “grande demais para quebrar” coloca o processo numa direção sem retorno. Não ha lei escrita no papel que faça mais para estimular a prudência e o zelo do banqueiro pelo dinheiro que não é dele do que a perspectiva de ficar na miséria se ele o tratar mal.

O “grande demais para quebrar” estabelece um elo formal entre empresas privadas e governos. E, como já se viu nesta crise (GM e outras também foram socorridas) não são só os bancos que criam “riscos sistêmicos” capazes de justificar socorros de emergência, seja em nome do exorcismo ao contágio financeiro, seja no da prevenção do desemprego em massa e da instabilidade social e política.

Ha 100 anos, para prevenir o mesmo tipo de ameaça, a democracia americana legislou “pró mercado”, tomando a medida mais clara, límpida e lógica: estabeleceu que nenhuma empresa poderia ficar grande o suficiente para se tornar “grande demais para quebrar”. A partir de um determinado limite, era obrigatório dividir essa propriedade fazendo de um monstro ameaçador dois ou mais competidores regulando-se mutuamente em benefício do consumidor.

Um século mais tarde, barrada essa alternativa em função da outra metade do mundo entrar na disputa com monopólios sustentados pelos tesouros nacionais, foram obrigados ao remendo de uma legislação “pró business” como eles dizem lá, mas que seria mais adequadamente chamada de legislação “pró corporações” que, sejam quais forem os eufemismos empregados, cria uma categoria de empresários e negociantes que não responde com o próprio bolso pelos seus erros, ou seja, uma classe de cidadãos que está acima da lei que vale para todos os outros.

E o pior é que estatizar os bancos para eliminar esse privilégio seria pior emenda que o soneto. Algo como a revolução francesa que decapitou reis para criar imperadores.

É contra isso que berram o Tea Party por um lado e o Occupy Wall Street por outro.

Como já disse em outro artigo, não ha alternativa. Ou é o mérito ou é o Estado quem distribui vitórias e derrotas na economia. Quando é o mérito, educação e dedicação no trabalho são os fatores decisivos de sucesso. Quando é o Estado…

A democracia e o movimento de redistribuição planetária da renda

7 de julho de 2011 § Deixe um comentário

Desde o inicio da crise financeira internacional venho chamando a atenção, aqui no Vespeiro, para a ameaça que os seus desdobramentos colocam para a sobrevivência da democracia.

Essa crise reflete o aprofundamento do primeiro grande movimento planetário de redistribuição da renda ao mesmo tempo em que marca a definitiva perda de controle dos Estados Nacionais sobre as economias nacionais para bem dos países que, como China e Brasil, estavam abaixo da média internacional de salários e para mal dos países que, como os Estados Unidos e os europeus, estavam muito acima dela.

A exasperação que se cria com a concentração da renda e a queda continua da qualidade de vida dos assalariados nos países centrais em função de fatores que estão além do alcance dos governos e dos políticos nacionais está levando a uma perigosa polarização ideológica e ao rápido desgaste da associação que até ha poucos anos era vista como necessária entre democracia e progresso material. Inversamente, a ascensão das economias e dos salários nos países periféricos apesar dos desmandos de seus governantes e políticos infla a bola de tiranos e autocratas populistas.

Na semana passada o New York Times publicou uma pesquisa da Northeastern University – “The Jobless and Wageless Recovery From the Great Recession of 2007-2009,” – dando uma nova medida da nova realidade nos Estados Unidos.

“Desde que a recuperação econômica começou, em junho de 2009 depois de 18 meses de recessão, as grandes corporações se apropriaram de 88% do crescimento da renda nacional registrada no período enquanto a massa salarial cresceu um pouquinho mais de 1%”.

Os números concretos são mais eloquentes que as estatísticas.

“…entre o segundo trimestre de 2009, quando a retomada teve início, e o quarto trimestre de 2010, a renda nacional cresceu US$ 528 bilhões com US$ 464 bilhões inflando os lucros antes dos impostos das empresas enquanto apenas US$ 7 bilhões foram acrescentados à massa salarial, descontada a inflação…muito menos do que ocorreu nas ultimas quatro retomadas de recessões vividas pelo país nas ultimas três décadas (…) Na recuperação da recessão de 2000-2001, 15% do crescimento se transformou em salários e 53% em lucros das empresas. Na que começou em 1991, a história foi bem diferente: 50% do ganho foi transformado em salários enquanto os lucros das empresas caíram 1%”.

Ou seja, como sói acontecer nos momentos de perdas chora mais quem pode menos, do que resulta uma forte concentração da renda agravada pela consolidação, forçada pela competição chinesa, dos diversos setores da economia em monopólios (ou quase) que exportam seus empregos para as regiões mais pobres do mundo, aumentando seus lucros e suas vendas fora dos países sede onde o desemprego e a proletarização da força de trabalho tendem a se agravar.

O Economist desta semana traz um artigo de Steven Greenhouse, escrevendo dos Estados Unidos, que completa esse quadro e aponta para os mesmos inevitáveis desdobramentos políticos para os quais venho chamando a atenção dos leitores do Vespeiro.

Segue a tradução dos trechos mais interessantes:

Gideon Rachman levantou um bom ponto em seu artigo do ultimo dia 5 no Financial Times quando disse que as presentes crises político-econômicas dos Estados Unidos e da Europa são basicamente os dois lados de uma mesma crise. Em Washington discute-se a ampliação do limite para o endividamento publico; em Bruxelas todos contemplam impotentes o abismo do excesso de endividamento público. Mas o problema básico é o mesmo. Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia estão com as finanças publicas fora de controle e têm sistemas políticos disfuncionais demais para resolver o problema”.

“…dos dois lados do Atlântico a crise econômica está polarizando a política, o que torna muito mais difícil encontrar soluções racionais. Os movimentos populistas estão em alta – seja o Tea Party nos EUA, o Partido de Libertação Holandesa ou o movimento dos Verdadeiros Finlandeses, na Europa…”

 “…Europa e Estados Unidos sempre se apontaram mutuamente como polos opostos no tratamento das questões econômicas, o que fez com que demorasse para cair a ficha da similaridade das suas situações, que hoje são muito maiores que as diferenças: dividas crescentes, economias fracas, estados de bem estar social cada vez mais caros e irreformáveis, medo do futuro e impasse político são os pontos comuns aos dois”.

“…(pode-se por em duvida as generalizações envolvendo países europeus muito diferentes entre si) mas a questão dos humores políticos, da alta ansiedade predominante e da conexão disso tudo com a crescente radicalização do discurso é indiscutivelmente verdadeira”.

“…a China vai ser a maior economia do mundo em 10 ou 15 anos. E se alguém ainda não se deu conta disso, lembro que a China é um país comunista. A cada ano que a China continuar crescendo a tese de que é necessário ser democrático para crescer e se desenvolver vai enfraquecer mais um pouco”.

“Na verdade o que tem acontecido na Europa e nos Estados Unidos até o momento sugere a hipótese contrária: a de que ter governos democráticos pode se tornar, na moderna conjuntura, o principal empecilho para uma gestão econômica competente. Os sistemas de incentivos criados pela competição política democrática nas sociedades midiáticas em plena era da internet podem, na verdade, estar empurrando os países para a autodestruição fiscal”.

“Nós estamos mergulhando numa progressiva falência intelectual puxada pela polarização política e por um divisionismo vicioso que deságua num populismo delirantemente irresponsável que supera tudo com que poderia sonhar algum agente subversivo do Partido Comunista Chinês”.

(…)

Na semana passada Clive Crook escreveu um artigo, também no Financial Times, sugerindo que os Estados Unidos criassem estabilizadores fiscais de disparo automático para tirar a questão dos estímulos com dinheiro publico em momentos de recessão das mãos do Congresso. Segundo ele, quanto menos decisões políticas ficassem nas mãos daquela “instituição falida”, melhor”.

“Eu até concordo com o argumento. Mas ele embute algo de muito preocupante quanto ao lugar que resta para uma vida democrática neste particular momento da História. Se chegamos ao ponto de concluir que é melhor tirar o mais possível as decisões políticas das mãos dos representantes eleitos, é melhor começarmos rápido a tratar dos problemas que estão tornando o sistema representativo inviável”.

“A democracia é um imperativo moral, antes que uma necessidade econômica, é verdade. Mas se as democracias não conseguirem entregar uma governança responsável, seja em matéria econômica ou em outras mais gerais, então a governança será cada vez menos democrática e a questão moral fará cada vez menos diferença”.

“E esta é uma questão em relação à qual a Europa e os Estados Unidos, onde a democracia tem suas raízes mais profundas, deveriam se colocar do mesmo lado”.

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