A democracia e o movimento de redistribuição planetária da renda
7 de julho de 2011 § Deixe um comentário

Desde o inicio da crise financeira internacional venho chamando a atenção, aqui no Vespeiro, para a ameaça que os seus desdobramentos colocam para a sobrevivência da democracia.
Essa crise reflete o aprofundamento do primeiro grande movimento planetário de redistribuição da renda ao mesmo tempo em que marca a definitiva perda de controle dos Estados Nacionais sobre as economias nacionais para bem dos países que, como China e Brasil, estavam abaixo da média internacional de salários e para mal dos países que, como os Estados Unidos e os europeus, estavam muito acima dela.
A exasperação que se cria com a concentração da renda e a queda continua da qualidade de vida dos assalariados nos países centrais em função de fatores que estão além do alcance dos governos e dos políticos nacionais está levando a uma perigosa polarização ideológica e ao rápido desgaste da associação que até ha poucos anos era vista como necessária entre democracia e progresso material. Inversamente, a ascensão das economias e dos salários nos países periféricos apesar dos desmandos de seus governantes e políticos infla a bola de tiranos e autocratas populistas.

Na semana passada o New York Times publicou uma pesquisa da Northeastern University – “The Jobless and Wageless Recovery From the Great Recession of 2007-2009,” – dando uma nova medida da nova realidade nos Estados Unidos.
“Desde que a recuperação econômica começou, em junho de 2009 depois de 18 meses de recessão, as grandes corporações se apropriaram de 88% do crescimento da renda nacional registrada no período enquanto a massa salarial cresceu um pouquinho mais de 1%”.
Os números concretos são mais eloquentes que as estatísticas.
“…entre o segundo trimestre de 2009, quando a retomada teve início, e o quarto trimestre de 2010, a renda nacional cresceu US$ 528 bilhões com US$ 464 bilhões inflando os lucros antes dos impostos das empresas enquanto apenas US$ 7 bilhões foram acrescentados à massa salarial, descontada a inflação…muito menos do que ocorreu nas ultimas quatro retomadas de recessões vividas pelo país nas ultimas três décadas (…) Na recuperação da recessão de 2000-2001, 15% do crescimento se transformou em salários e 53% em lucros das empresas. Na que começou em 1991, a história foi bem diferente: 50% do ganho foi transformado em salários enquanto os lucros das empresas caíram 1%”.
Ou seja, como sói acontecer nos momentos de perdas chora mais quem pode menos, do que resulta uma forte concentração da renda agravada pela consolidação, forçada pela competição chinesa, dos diversos setores da economia em monopólios (ou quase) que exportam seus empregos para as regiões mais pobres do mundo, aumentando seus lucros e suas vendas fora dos países sede onde o desemprego e a proletarização da força de trabalho tendem a se agravar.
O Economist desta semana traz um artigo de Steven Greenhouse, escrevendo dos Estados Unidos, que completa esse quadro e aponta para os mesmos inevitáveis desdobramentos políticos para os quais venho chamando a atenção dos leitores do Vespeiro.
Segue a tradução dos trechos mais interessantes:
“Gideon Rachman levantou um bom ponto em seu artigo do ultimo dia 5 no Financial Times quando disse que as presentes crises político-econômicas dos Estados Unidos e da Europa são basicamente os dois lados de uma mesma crise. Em Washington discute-se a ampliação do limite para o endividamento publico; em Bruxelas todos contemplam impotentes o abismo do excesso de endividamento público. Mas o problema básico é o mesmo. Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia estão com as finanças publicas fora de controle e têm sistemas políticos disfuncionais demais para resolver o problema”.
“…dos dois lados do Atlântico a crise econômica está polarizando a política, o que torna muito mais difícil encontrar soluções racionais. Os movimentos populistas estão em alta – seja o Tea Party nos EUA, o Partido de Libertação Holandesa ou o movimento dos Verdadeiros Finlandeses, na Europa…”
“…Europa e Estados Unidos sempre se apontaram mutuamente como polos opostos no tratamento das questões econômicas, o que fez com que demorasse para cair a ficha da similaridade das suas situações, que hoje são muito maiores que as diferenças: dividas crescentes, economias fracas, estados de bem estar social cada vez mais caros e irreformáveis, medo do futuro e impasse político são os pontos comuns aos dois”.
“…(pode-se por em duvida as generalizações envolvendo países europeus muito diferentes entre si) mas a questão dos humores políticos, da alta ansiedade predominante e da conexão disso tudo com a crescente radicalização do discurso é indiscutivelmente verdadeira”.

“…a China vai ser a maior economia do mundo em 10 ou 15 anos. E se alguém ainda não se deu conta disso, lembro que a China é um país comunista. A cada ano que a China continuar crescendo a tese de que é necessário ser democrático para crescer e se desenvolver vai enfraquecer mais um pouco”.
“Na verdade o que tem acontecido na Europa e nos Estados Unidos até o momento sugere a hipótese contrária: a de que ter governos democráticos pode se tornar, na moderna conjuntura, o principal empecilho para uma gestão econômica competente. Os sistemas de incentivos criados pela competição política democrática nas sociedades midiáticas em plena era da internet podem, na verdade, estar empurrando os países para a autodestruição fiscal”.
“Nós estamos mergulhando numa progressiva falência intelectual puxada pela polarização política e por um divisionismo vicioso que deságua num populismo delirantemente irresponsável que supera tudo com que poderia sonhar algum agente subversivo do Partido Comunista Chinês”.
(…)

“Na semana passada Clive Crook escreveu um artigo, também no Financial Times, sugerindo que os Estados Unidos criassem estabilizadores fiscais de disparo automático para tirar a questão dos estímulos com dinheiro publico em momentos de recessão das mãos do Congresso. Segundo ele, quanto menos decisões políticas ficassem nas mãos daquela “instituição falida”, melhor”.
“Eu até concordo com o argumento. Mas ele embute algo de muito preocupante quanto ao lugar que resta para uma vida democrática neste particular momento da História. Se chegamos ao ponto de concluir que é melhor tirar o mais possível as decisões políticas das mãos dos representantes eleitos, é melhor começarmos rápido a tratar dos problemas que estão tornando o sistema representativo inviável”.
“A democracia é um imperativo moral, antes que uma necessidade econômica, é verdade. Mas se as democracias não conseguirem entregar uma governança responsável, seja em matéria econômica ou em outras mais gerais, então a governança será cada vez menos democrática e a questão moral fará cada vez menos diferença”.
“E esta é uma questão em relação à qual a Europa e os Estados Unidos, onde a democracia tem suas raízes mais profundas, deveriam se colocar do mesmo lado”.

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