A arte de comer sem pagar – 1

11 de junho de 2012 § Deixe um comentário

Plus ça change, plus c’est la même chose.

Quanto mais a coisa muda, mais ela é a mesma coisa.

Na origem tudo deita raízes na grande encruzilhada “responsabilidade individual” ou “igualdade” (a qualquer custo) que, respectivamente, nas revoluções americana (1776) e francesa (1789) abriu as duas correntes ideológicas que até hoje dividem a humanidade. Mas o sentido da versão moderna dessa discussão é cada vez mais cruamente prático.

“Austeridade x crescimento” (hoje); “ortodoxos x heterodoxos” (anos 90); “monetaristas x estruturalistas” (anos 30); tudo são só arranjos diferentes da mesma musiquinha com que os eternos donos do poder distraem a platéia enquanto se exercitam na velha arte, de que nunca deixaram de ser os mestres, de passar adiante os micos que fabricam.

Na prática, traduz-se assim:

Na hora dos bonus: a cada um segundo o seu esforço e a sua capacidade ou a cada um segundo a sua “necessidade” (caso em que alguém de carne e osso, em nome do povo e da moral, decretará que ela é mínima e se arrogará o direito de decidir o que sera feito do excedente)?

Na hora dos onus: a cada um segundo a sua responsabilidade ou a todos indiscriminadamente, incluindo quem não participou da festa que gerou a conta a ser resgatada?

Qualquer que seja a resposta é certo que a conta não desaparecerá por milagre. Tudo que se pode mudar é a escolha de quem terá de pagá-la.

E aí – a História está de prova – a coisa varia pouco. Quem SEMPRE acaba pagando é quem não participou da festa.

Veja-se as variações em torno da crise da hora.

Nos Estados Unidos “a saída” foram as operações-gigantes de resgate de bancos e fundos “grandes demais para quebrar”, feitas à custa de emissão de moeda sem lastro.

Moeda sem quê?

É o seguinte:

Sendo ele o padrão mundial, imprimir mais dólares de papel representando a mesma riqueza (ou uma riqueza menor como, em geral, é o caso nessas horas) é decretar a redução, dólar por dólar, do valor de tudo que cada indivíduo ao redor do globo conquistou com o seu próprio suor.

Foi assim que você, eu, todos nós fomos constrangidos a pagar um pedaço da conta da festa do clube do bilhão la de Wall Street que, graças a isso, nunca teve de ser interrompida. Transferido o onus cá pra fora, lá dentro segue, impávida, a festança dos super bônus.

É a mesma coisa que a Europa falida quer fazer mas a que a Alemanha que não participou da festa ainda resiste. É a mesma coisa que Brasília sempre fez com o Brasil, com exceção do interregno acidental de Fernando Henrique Cardoso e sua Lei de Responsabilidade Fiscal.

Ou seja, o mundo virou uma espécie de Brasil dos anos 80…

E a China? Quem paga as contas da grande festa da China?

Como lá tudo é do mesmo dono, a corda dá a impressão de ser mais elastica. “Eu não te pago e você não me cobra e fica tudo em casa”.

Mas há uma ponta do sistema que está fincada além da Grande Muralha. E esta não é tão flexivel.

O dinheiro nada mais é, em última análise, que uma representação da quantidade de trabalho embutida num bem.

O remnibi não é um valor internacional. Mas o trabalho hoje é.

A China passa o seu mico – financia o oceânico rombo das suas contas – “emitindo” desvalorização do trabalho em escala planetária.

Exporta o seu desemprego; mata direitos trabalhistas e massacra salários pelo mundo afora. Apropriam-se da diferença (superávit comercial) com que compram longevidade para o seu reinado os príncipes e os barões do Partido Comunista Chinês.

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