A arte de comer sem pagar – 2
11 de junho de 2012 § Deixe um comentário
Comecei a escrever A arte de comer sem pagar – 1 na sexta-feira entre os feriados. Tentei engatar, no final, a idéia de que a China exporta tembém o seu modelo econômico concentrador e monopolista e isso predispõe o Ocidente para outras distorções e crises, mas logo vi que seriam idéias demais para espaço de menos.
Domingo o artigo de Pedro Malan para O Estado de S. Paulo (aqui) veio me ajudar.
A frase do ex-presidente do Conselho de Ministros da Fazenda da União Européia com que ele abre seu texto explica tudo:
“Não é que as lideranças políticas europeias não saibam o que fazer; o que elas não sabem é como se reeleger, depois de tentarem fazer o que precisa ser feito“.
Retomo, então, de onde parei no artigo anterior:
A China não exporta só o seu desemprego e o seu padrão de remuneração do trabalho. Desde que o processo começou (e já lá vão uns bons 30 anos desde o início da globalização como função da revolução da informática) ela vem exportando também o seu modelo econômico concentrador e monopolista, uma vez que, para competir com a escala de produção dos seus monopólios servidos por quase escravos, só criando monopólios servidos por quase escravos do lado de cá também, via o tsunami de fusões e aquisições que, ha décadas, vêm inflando desmedidamente o setor financeiro.
Isso inicia um processo de causação circular cumulativo, outro conceito de que Malan trata em seu artigo (ainda que em um contexto diferente).
As empresas tornam-se “grandes demais para quebrar” e os governos, diante da ameaça de crise social como função do desemprego que seria criado pela falência de uma delas (ou até de banimento da democracia por eleitores revoltados, como acontece agora na periferia da Europa), entram com as operações de resgate financeiro (com emissão de moeda), o que acaba realimentando a irrresponsabilidade dos gestores dessas empresas (moral hazard) e preparando o terreno para novas crises.
Esse conluio cada vez mais íntimo entre governos e empresas privadas das quais eles vão se tornando sócios-proprietários, vai rebaixando a função fiscalizadora de uns sobre as outras ficando os assalariados/consumidores cada vez mais órfãos na outra ponta.
E com isso o mundo inteiro vai se tornando cada vez mais parecido com a China anti-democrática onde, se não ha o problema de se reeleger depois de tomar medidas impopulares, há o de evitar a qualquer custo explosões como a de Tianamen, em 1989, que ocorrem em países sem canais democráticos se a pressão sobre o assalariado/consumidor passar do limite.
O Partido Comunista Chinês, tornado “capitalista selvagem” graças ao seu poder ilimitado, corrompe-se cada vez mais e, para comprar mais longevidade no poder, cava buracos financeiros que, depois, precisam ser tapados com “enxurradas de obras”, que são os equivalentes dos resgates financeiros para preservar empregos do Ocidente ou às “enxurradas de crédito” para manter o crescimento em voga no Brasil do PT. É assim que eles têm construído aquelas cidades inteiras onde não mora ninguém que fazem o mundo se perguntar até quando esse tipo de expediente pode aguentar.
Com o que, voltamos ao ponto de partida: debater “ortodoxias” e “heterodoxias” pode ser um esporte atraente para a Academia mas, na vida real, todo mudo sabe o que precisa ser feito; o problema é como manter-se no poder depois de faze-lo. Ou, se a empurração com a barriga for suficientemente longe, como manter-se democrático num ambiente de concentração crescente da riqueza e dissolução das fronteiras entre o público e o privado.
Ou seja, essas crises sem fim em que o mundo tem vivido atolado começam e acabam, a cada volta dos processos de causação circular cumulativos que as vão agravando cada vez mais, com a compra de poder politico (e/ou de poder econômico) com dinheiro alheio pelos mesmos espertalhões de sempre.
A arte de comer sem pagar – 1
11 de junho de 2012 § Deixe um comentário
Plus ça change, plus c’est la même chose.
Quanto mais a coisa muda, mais ela é a mesma coisa.
Na origem tudo deita raízes na grande encruzilhada “responsabilidade individual” ou “igualdade” (a qualquer custo) que, respectivamente, nas revoluções americana (1776) e francesa (1789) abriu as duas correntes ideológicas que até hoje dividem a humanidade. Mas o sentido da versão moderna dessa discussão é cada vez mais cruamente prático.
“Austeridade x crescimento” (hoje); “ortodoxos x heterodoxos” (anos 90); “monetaristas x estruturalistas” (anos 30); tudo são só arranjos diferentes da mesma musiquinha com que os eternos donos do poder distraem a platéia enquanto se exercitam na velha arte, de que nunca deixaram de ser os mestres, de passar adiante os micos que fabricam.
Na prática, traduz-se assim:
Na hora dos bonus: a cada um segundo o seu esforço e a sua capacidade ou a cada um segundo a sua “necessidade” (caso em que alguém de carne e osso, em nome do povo e da moral, decretará que ela é mínima e se arrogará o direito de decidir o que sera feito do excedente)?
Na hora dos onus: a cada um segundo a sua responsabilidade ou a todos indiscriminadamente, incluindo quem não participou da festa que gerou a conta a ser resgatada?
Qualquer que seja a resposta é certo que a conta não desaparecerá por milagre. Tudo que se pode mudar é a escolha de quem terá de pagá-la.
E aí – a História está de prova – a coisa varia pouco. Quem SEMPRE acaba pagando é quem não participou da festa.
Veja-se as variações em torno da crise da hora.
Nos Estados Unidos “a saída” foram as operações-gigantes de resgate de bancos e fundos “grandes demais para quebrar”, feitas à custa de emissão de moeda sem lastro.
Moeda sem quê?
É o seguinte:
Sendo ele o padrão mundial, imprimir mais dólares de papel representando a mesma riqueza (ou uma riqueza menor como, em geral, é o caso nessas horas) é decretar a redução, dólar por dólar, do valor de tudo que cada indivíduo ao redor do globo conquistou com o seu próprio suor.
Foi assim que você, eu, todos nós fomos constrangidos a pagar um pedaço da conta da festa do clube do bilhão la de Wall Street que, graças a isso, nunca teve de ser interrompida. Transferido o onus cá pra fora, lá dentro segue, impávida, a festança dos super bônus.
É a mesma coisa que a Europa falida quer fazer mas a que a Alemanha que não participou da festa ainda resiste. É a mesma coisa que Brasília sempre fez com o Brasil, com exceção do interregno acidental de Fernando Henrique Cardoso e sua Lei de Responsabilidade Fiscal.
Ou seja, o mundo virou uma espécie de Brasil dos anos 80…
E a China? Quem paga as contas da grande festa da China?
Como lá tudo é do mesmo dono, a corda dá a impressão de ser mais elastica. “Eu não te pago e você não me cobra e fica tudo em casa”.
Mas há uma ponta do sistema que está fincada além da Grande Muralha. E esta não é tão flexivel.
O dinheiro nada mais é, em última análise, que uma representação da quantidade de trabalho embutida num bem.
O remnibi não é um valor internacional. Mas o trabalho hoje é.
A China passa o seu mico – financia o oceânico rombo das suas contas – “emitindo” desvalorização do trabalho em escala planetária.
Exporta o seu desemprego; mata direitos trabalhistas e massacra salários pelo mundo afora. Apropriam-se da diferença (superávit comercial) com que compram longevidade para o seu reinado os príncipes e os barões do Partido Comunista Chinês.







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