Democracia é um subproduto da educação
21 de março de 2011 § 10 Comentários

De tudo de bom que a presidente Dilma Roussef disse a Claudia Safatle na entrevista que deu ao Valor na quinta-feira passada – e quase tudo que ela disse cabe nesse adjetivo – o melhor foi o seguinte:
“Acho fundamental o Brasil apostar na formação no exterior. Todos os países que deram um salto apostaram na formação de profissionais fora. Queremos isso nas ciências exatas – matemática, química, física, biologia e engenharia. Queremos parceria do governo americano (Obama chegaria dali a dois dias) em garantia de vagas nas melhores escolas. Nós damos a bolsa. Vamos buscar fazer isso não só nos Estados Unidos e de forma sistemática”.
Não é pouco para uma ex-guerrilheira que preside o governo de um partido que, até ha pouco, abraçava a ignorância como um dos seus mais caros valores e que tem na xenofobia uma de suas mais renitentes marcas registradas.
Tem havido muito barulho por nada (fora o sofrimento, o sangue derramado e a invariável frustração na obtenção dos resultados inicialmente visados), em torno das revoluções politicas. Esses espasmos de violência e de emoções em ebulição se prestam muito à mitificação pela literatura e pelo cinema mas, olhadas as coisas um pouco adiante dos primeiros arrancos de seus futuros mártires o que se vai encontrar é, invariavelmente, um opressor substituindo o outro e inaugurando uma nova dinastia a se sustentar no poder pela força.
Democracia mesmo – é o que a História confirma – é sempre um subproduto das revoluções educacionais.

Os pioneiros da Europa protestante, a democracia americana, a sua versão reeditada pelas reformas da Progressive Era, o Japão, os “tigres asiáticos”, onde quer que a democracia tenha plantado raízes sólidas, seja em processos mais longos de decantação cultural, seja em turn arounds artificialmente acelerados de longas tradições antidemocráticas, existe um pressuposto comum: a democracia se instala como subproduto de uma revolução educacional.
A primeira grande revolução educacional da era moderna foi o Protestantismo.
Quando Guttemberg, ao imprimir às centenas as bíblias que até então eram copiadas à mão e guardadas a sete chaves nas bibliotecas de uns poucos conventos, tornou acessível a todos aquilo que, na época, era tido como a fonte do conhecimento, o esquema de opressão montado pela Igreja e compartilhado pelas monarquias absolutistas em cima da falsificação de uma suposta “verdade revelada” começou a desabar.
Depois que Lutero “protestou” a fraude com argumentos (e não com opiniões), seus primeiros seguidores liberados para se apresentar como tal, na Inglaterra libertada de Roma pela libido insatisfeita de Henrique VIII, andavam pelo país, batendo de porta em porta, para ler a bíblia para a multidão analfabeta e deixar-lhes a mensagem subversiva:
“Não aceitem as verdades que vos chegam prontas! Aprendam a ler para poderem busca-la por si mesmos. Só a educação liberta!”

Era essa a essência da revolução de Lutero, que fez uma única exigência aos príncipes alemães interessados em se livrar do papa insuflando o Protestantismo: educação obrigatória e gratuita para todos, bancada pelo Estado.
Foi assim que nasceu o mundo moderno.
Libertada das fogueiras da Inquisição a inteligência, fertilizada pela experimentação, fez o mundo “renascer”. E o pensamento científico, desafiando a religião, redesenhou toda a realidade à nossa volta.
Depois disso nada mais foi como era antes.
A Inglaterra plantou o marco inicial submetendo o rei ao parlamento e o parlamento ao povo. E a sua extensão americana, tomando por base o novo Universo de corpos celestes em permanente movimento mantidos na harmonia de suas órbitas pela ação das forças e contra-forças da gravidade, descrito por Isaac Newton, desenhou a democracia de poderes independentes funcionando dentro de um regime de checks and balances e instituiu o esforço e o mérito individuais como únicos critérios de legitimação da riqueza e do poder que vem com ela.
A democracia moderna nasce, portanto, da primeira grande vitória do pensamento científico sobre a ideologia (religião), na virada do século 18 para o 19. E daí por diante, seus altos e baixos, seus progressos e retrocessos, estarão sempre ligados a esse embate.

Um século mais tarde ela passaria pela sua primeira crise profunda. Mesmo onde o novo regime não se tinha fixado, ele abalara mortalmente as monarquias sobreviventes. De tal modo que, nem as jovens democracias, nem essas monarquias periclitantes, estavam prontas para o terremoto que viria.
A desordenada transição da economia rural para a economia industrial e o processo descontrolado de urbanização que concentrou e colocou mais perto uma da outra a opulência e a miséria nas cidades, levaram, em todo o mundo, ao desmoronamento do ordenamento – ético e moral inclusive e principalmente – que servira à sociedade e à economia rurais.
Ao mesmo tempo a economia industrial estava aumentando para patamares nunca antes suspeitados a capacidade de acumulação de riqueza por particulares e, com ela, o poder de corrupção dos magnatas da nova era.
Não sobrou quase nada.
Com o privilégio sustentado pela corrupção voltando a reinar e a consequente desmoralização da democracia criou-se o caldo de cultura propício ao desenvolvimento de novos regimes de força.
E o século 20 nasceu com as revoluções políticas voltando a ensanguentar o mundo.

Esse processo de deformação não se deu com a mesma intensidade em toda a parte, porém. A democracia resistiu e, eventualmente, reformulou-se, onde ela tinha fundamentos na educação. E caiu aos pedaços onde – como em Portugal, por excelência – tinha sido fruto de transplantes tão artificiais quanto superficiais, feitos apenas para dar sobrevida às velhas oligarquias de sempre.
Mas ninguém passou incólume por ele. Nos Estados Unidos, foi dentro desse ambiente deletério que rolou, já no final do século 19, a primeira onda da revolução da gestão corporativa que tudo submetia à eficiência. As fusões e aquisições de empresas levaram a um grau inédito de concentração da riqueza e acumulação de capital e a corrupção foi ao nível do paroxismo.
Com o cidadão comum espremido entre os grandes monopólios e políticos corruptos que respondiam muito mais prontamente ao poder do dinheiro que aos interesses do seus representados, o país enfrentou o desafio de reescrever suas regras para a nova realidade.
A receita poderia ser seguida pelo Brasil que está hoje mais ou menos onde eles estavam nesse momento.
A legislação antitruste, estabelecendo a defesa da concorrência em nome do interesse do consumidor como um valor superior ao da eficiência para limitar o direito de crescer e ocupar espaços do capital, foi o primeiro marco dessa transformação. A conquista de ferramentas de democracia direta inspiradas no sistema suíço como as leis de inciativa popular, os referendos e o direito ao recall (impeachment) de qualquer funcionário eleito a qualquer momento, numa luta que durou quase 40 anos, acabou por restabelecer a legitimidade do sistema representativo e relançar a democracia americana para o seu período de apogeu (século 20).

Mas o pressuposto das reformas desse período, que ficou conhecido como a Progressive Era, foi, mais uma vez, uma profunda reforma educacional inspirada no chamado “movimento anti-intelectualista americano” que concentrou fortemente o ensino publico nas ciências exatas, plantou as bases da revolução tecnológica e projetou a economia americana para os patamares de hoje.
O Japão, destruído moral e materialmente ao fim da 2a Guerra Mundial, foi o próximo a embarcar nas asas da educação. Convencido de que tinham perdido a guerra para a ciência do inimigo, consciência que se tornou ainda mais aguda depois das explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki, o Japão se concentrou absolutamente na construção de um sistema de educação para a ciência, a tecnologia e a inovação. Nos meados dos anos 60 já era, saindo do zero, uma presença notável na competição mundial. Daí por diante, a pequena ilha, desprovida de tudo menos de gente com vontade e conhecimento, tornou-se a segunda maior economia do mundo.
Coreia do Sul e Taiwan, igualmente sem recursos naturais e ameaçadas pelas ditaduras de que se tinham desmembrado, seguiram-lhe os passos por caminhos semelhantes aos que Dilma prescreve para o Brasil. Entraram para o folclore local, aliás, os voos das sextas-feiras entre o Japão, a Coreia e Taiwan, em que cientistas e técnicos de alto nível das empresas japonesas embarcavam para trabalhar em empresas coreanas e chinesas que lhes pagavam, num fim de semana, mais do que ganhavam em casa na semana inteira para ensinar o que sabiam aos seus nacionais. Paralelamente, os governos desses países criaram extensos programas de bolsas de estudos mandando milhares de seus estudantes aprender no Ocidente.

A história é exatamente semelhante em todas as democracias construídas no século 20.
Onde elementos de democracia foram plantados artificialmente, sem a devida base educacional, balança-se ao sabor da sorte, menos quando calha de haver um governante letrado, com noções de história; mais quando calha de acontecer o contrário. Onde a educação foi o caminho, o sistema político é sólido. E as economias, então, nem se fala: não importam as riquezas naturais nem o tamanho das populações, elas são exatamente proporcionais à colocação desses países nas avaliações internacionais de desempenho de seus estudantes nas ciências exatas.
O mais formidável handicap do Brasil é sem duvida nenhuma este. Com a educação publica inteiramente aparelhada ideologicamente e o sistema voltado exclusivamente para os interesses corporativos que o parasitam, é sempre aí que despertam, com o ânimo aplastado, todos quantos sonham com um Brasil democrático e sem miséria.
Saber que a presidente da Republica é um destes e está disposta a derrubar essa barreira ainda que seja começando por formar uma nova geração de futuros professores onde quer que eles possam de fato aprender é altamente animador.

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Apesar dos diversos acenos da senhora Dilma em direção a uma possível democracia de fato e de direito, me reservo o direito de colocar de molho as barbas que não tenho.
Você, Fernando, é um ser humano generoso e altruista.
Já eu, sou macaca velha e acredito que do dizer ao fazer existe uma longa, esburacada e pedregosa distância.
Abraços desconfiados
Varlice
seguro morreu de velho, varlice.
mas o meu papel é comentar o que acontece, um dia depois do outro.
e o que vem acontecendo me sugere que existem dois pt’s: o da elite ilustrada do funcionalismo publico, tecnocratico e corporativo, e o pt bandalho e semi-analfabeto da turma cevada no imposto sindical.
acho que é isso que começa a aparecer na diferença de estilo entre dilma e lula.
Li hoje de manhã seu artigo no Estadão, que me causou ao mesmo tempo ânimo e nostalgia. Animo porque embora seja absolutamente óbvio que a questão central no Brasil seja a valorização do ensino e da pesquisa, é preciso ficar martelando e martelando, contra, claro, a militância anti-estudo recente; nostalgia porque me fez voltar a um tempo onde esxatamente o que você defende JÁ foi feito, e com muito sucesso. Refiro-me ao projeto, pelos idos de 1940, do então Cel.Casimiro Montenegro, de fundar uma instituição de ensino voltada para a oesquisa e a formação de engenheiros aeronáuticos e eletrônicos, ou seja : o ITA. Baseado no modelo do MIT (Massachussets Institute of Technology), trazendo professores de lá – inclusive o primeiro reitor -, o ITA se formou a partir do conceito de excelência, com professores de vários países. Não havia nem a xenofobia nem o obscurantismo que hoje domina o dito pensamento “intelectual” brasileiro. O ITA formou profissionais que se espalharam como um leque nas mais diversas áreas: indústria automobilística(montadoras e auto-peças), indústria eletrônica, comunicações (Embratel,etc.), indústria aeronáutica ,claro, e por aí vai, incluindo órgãos governamentais como o SERPRO. Espalhando o conceito de competência e seriedade, seus alunos, vindos de todos os cantos do país e de todas as classes sociais. O Brasil não aprende com seus erros, menos ainda com seus acertos! Então, é preciso que venha novamente alguém lúcido e preparado como você para colocar de volta em pauta a solução que já tinha dado resultados tão eficientes há mais de 50 anos!
é assim mesmo, ana lucia,
pra gostar do Brasil é preciso ter uma certa vocação pra mulher de malandro: gostar de apanhar…
mas, se serve de consolo, isso não foi fácil pra ninguém. só tem um jeito, insistir, insistir, insistir.
levar duas bombas atômicas na cabeça às vezes acelera o processo.
mas hoje ja tem gente que conseguiu mais barato.
o ita é mesmo um exemplo perfeito!
fica dado o toque para os “pauteiros”, figuras que andam escassas nas redações de hoje.
Gostaria de lhe informar que enviei ao Estadão uma carta comentando sobre algumas questões desse artigo, no entanto, acredito que não será publicado. Por este motivo publiquei em nosso site e por questão de honestidade venho lhe informar.
prezado jefferson,
não tenho qualquer controle sobre o que o jornal o estado de s. paulo, do qual sou mero colaborador eventual, publica ou deixa de publicar. registro a propósito, desde já, o meu pleito para que, no que depender de mim, sejam publicadas todas as manifestações de seus leitores a respeito de meu artigo, inclusive e principalmente as mais criticas.
antes de ir adiante indico ao leitor o site a que você se refere para que eles possam tomar conhecimento de suas criticas: http://www.digitusdei.com.br/
espero que voce faça o mesmo com esta resposta.
vamos a ela:
não sou ateu. acredito em deus mas não pratico nenhuma religião ou ritual estabelecido. respeito igualmente todas elas.
em nenhum momento afirmei que nunca tenha havido católicos que deram contribuições à ciência. o que disse é que Lutero foi o primeiro a propor a educação publica obrigatória para todos e bancada pelo estado (e os príncipes alemães, por exigência dele, os primeiros a instituí-la).
também nunca afirmei que os católicos não tenham criado e mantido as suas escolas antes e depois de Lutero, apenas que nunca propuseram educação obrigatória para todos como dever do Estado. a igreja católica sempre teve suas instituições, mas era absolutamente seletiva quanto a quem ensinava tanto quanto sobre o quê ensinava. isto é, não abraçava propriamente a idéia de criar um método para se procurar livremente a verdade a partir dos fatos, que é o que significa a expressão “pensamento científico”. a educação católica dedicava-se, antes, digamos assim, a estruturar métodos (dialéticos) para se sustentar “verdades reveladas” apesar do que pudessem os fatos sugerir aos mais distraídos.
numa das universidades católicas que o sr. menciona, a propósito, a de Bolonha, é que foi urdida, por volta de 1300, a falsificação do direito romano com que ate hoje nos vemos às voltas, criada para dar forma jurídica ao “direito divino” dos reis absolutistas e suas famílias de governar seus povos para todo o sempre que teria sido “revelado” à igreja de Roma. foi ela que nos desviou do direito natural (common law) que a Europa inteira adotava até então e a Inglaterra e seus desdobramentos continuam adotando até hoje, onde o juiz não tem poderes arbitrários para julgar e sentenciar, mas apenas o de conferir, com auxilio de testemunhas e de um juri, segundo um método pré-estabelecdo, se o caso em julgamento é ou não é semelhante ao precedente em que se baseou para entrar no tribunal, caso em que terá obrigatoriamente a mesma sentença do precedente.
isso explica em grande parte a diferença de grau na corrupção que afeta os países amarrados a esse falso “direito romano”, como o Brasil e outros latinos da Europa, e os que continuaram seguindo a “common law” que, até antes de Bolonha, era um patrimônio de toda a humanidade..
creio que o sr. foi infeliz na escolha do adjetivo “herege”, pendurado ao nome de Lutero, para defender o espírito democrático da igreja católica, já que era justamente esta a acusação para a qual a Inquisição prescrevia, depois da tortura do suspeito de heresia, a pena de morte na fogueira.
e aí entramos em outro ponto do meu artigo: foi só quando se sentiu livre dessa ameaça, pela primeira vez na Europa na Inglaterra pós Henrique VIII, que a inteligência pode se entregar à experimentação (que seria uma heresia contra o dogma da revelação) o que levou à estruturação do pensamento científico e ao renascimento.
não vem ao caso discutir, também, quem matou mais judeus, se foi a Inquisição ou os seguidores de Lutero, e qual dessas variedades de pogroms foi mais decisivo para o “renascimento” do nazismo (que, confesso, não me constava que tivesse vivido antes do período que o tornou mais celebre).
enfim, prezado jefferson, a historia nos mostra que perigoso mesmo é acreditar que só existe uma verdade e misturar religião com política, ou seja, dar cor religiosa a quem deve ter o monopólio da força ou vice-versa, porque invariavelmente, quando se faz isso, quem dispõe dessa arma acaba por usá-la e isso, em geral, é mortal para quem não professa a fé oficialmente aceita como “A verdadeira”.
democracia, é o que procurei mostrar naquele artigo, é a tradução institucionalizada do conceito de TOLERÂNCIA, e estaremos tanto mais próximos dela quanto mais nos afastarmos de expressões e pensamentos que supõem o conceito contrário, de INTOLERÂNCIA, como é o caso daquilo que encerra a palavra “herege”.
a História é a Historia, e o que tenhamos sido porventura, no passado, não determina irretorquivelmente o que teremos de ser no futuro, estejamos falando de pessoas, individualmente, ou de suas obras, como são as igrejas. a idéia geral é de que todos podemos melhorar, desde que tenhamos a coragem de sustentar uma visão critica a respeito do que já fomos. creio que é para isso, afinal, que servem as religiões quando olhadas por seu lado positivo.
Fernão,
Infelizmente meu curto tempo não permitira que eu me prolongue nesse debate. Farei uma breve observação e indicarei sua resposta em nosso site.
Antes de tecer algumas considerações, gostaria de ressaltar que não discordei de seu artigo em totalidade, mas apenas nos pontos em que se aplicava uma certa culpabilidade a Igreja Católica.
Conforme expressado em sua resposta, pode não ter sido sua intenção negar a contribuição Católica a ciência e a educação, no entanto, repito que foi o que seu artigo deixou transparecer, gerando protesto não só de minha pessoa, mas de outros leitores conforme pode ser visto no fórum do Estadão.
Com relação a sua crítica ao método de ensino da Igreja, é preciso entender a cultura da época. Não podemos nos escandalizar que as Universidades Pontifícias ensinassem de acordo com a Igreja, já que a ela estavam submetidas. E a missão da Igreja é a mesma desde seu início, levar a verdade revelada a todos os povos. Aliás, é um absurdo para nós Católicos, a situação em que as Universidades Católicas espalhadas pelo mundo se encontram hoje totalmente alheias a nossa fé. As universidades medievais usavam o método Lectio e disputatio, ou seja, não bastava apenas o que ensinava-se nas aulas, era preciso que se realizassem debates livres onde diferentes opiniões eram confrontadas. Diz Pieper: “Houve na universidade medieval a instituição regular da “disputatio”, que, por princípio, não recusava nenhum argumento e nenhum contendor, prática que obrigava, assim, à consideração temática sob um ângulo universal”.( Pieper, J.; Abertura para o Todo: a Chance da Universidade, Trad.: Gilda N. M. de Barros e Luiz Jean Lauand, http://www.hottopos.com.br/mirand9/abertu.htm, acessado em 30/08/2005.)
É um engano pensar que as pessoas viviam em clima de opressão. E conforme demonstrei em meu primeiro texto, a submissão aos dogmas católicos não é um antônimo de desenvolvimento científico, vide os inúmeros de exemplos que citei.
A escolha da palavra Herege quando me referi a Lutero, que de sua parte considera “infeliz”, eu a fiz de maneira proposital, pois essa é a designação que a Igreja prescreve até hoje, para alguém que tenha sido batizado como Católico e tenha negado verdades de fé. Chamei Lutero de herege, pois é assim que o consideramos.
creio que o sr. foi infeliz na escolha do adjetivo “herege”, pendurado ao nome de Lutero, para defender o espírito democrático da igreja católica, já que era justamente esta a acusação para a qual a Inquisição prescrevia, depois da tortura do suspeito de heresia, a pena de morte na fogueira.
A Inquisição do qual o senhor cita acima, é justamente a instituição mas deturpada da história. Todos são capazes de falar sobre ela baseado nos sofismas herdado durante séculos. Conforme diz a própria Enciclopédia Iluminista de 1765, os tribunais inquisitórios foi vítima de intensos exageros:
“Sem dúvida, imputaram-se a um tribunal, tão justamente detestado, excessos de horrores que ele nem sempre cometeu; mas é incorreto se levantar contra a Inquisição por fatos duvidosos e, mais ainda, procurar na mentira o meio de torná-la odiosa”. (Encyclopédie cit., VIII,1765,).
Mas, é impossível traçar uma defesa da Inquisição em um curto artigo, portanto recomendo a leitura da obra ” A Inquisição em seu mundo” do Prof. João Bernadino Gonzaga, uma obra imparcial onde ele analiza o direto penal da inquisição baseando-se na mentalidade da época. Pois, é um erro condenar a Idade Média baseando-se em liberdade de expressão, liberdade de crença, direitos humanos, já que estes são conceitos modernos que até a duzentos anos atrás (depois de Lutero), era inconcebível da forma que conhecemos.
Nós jovens Católicos Tradicionalistas (assim que nos chamam), somos a prova que é possível buscar o conhecimento sendo fiel ao Santo Magistério Católico.
No mais, mesmo discordando quando trata do catolicismo, seu artigo é riquíssimo em informações e um clamor necessário pela educação. E espero que também, mesmo o senhor discordando de meu ponto de vista, que eu possa ter acrescentado informações históricas úteis.
Pax et bonvs!
Jefferson Nóbrega
Apostolado Digitus Dei
http://www.digitusdei.com.br
Ad Marjorem Dei Gloriam
Essa citação: “… Queremos isso nas ciências exatas – matemática, química, física, biologia e engenharia …”. Realmente fico um tanto quanto perplexo … as ciências humanas, não necessitam de investimentos e bolsas ? Ou será que só há preocupação com o cuidado e a preservação de corpos para trabalharem em áreas tecnológicas e engenharias ? E desenvolvimento científico nas áreas em que há produção de bens ? Isso realmente me espanta, pois, a começar com Lutero, sua preocupação estava com a possibilidade dos indivíduos lerem e compreenderem as questões próprias daquele contexto: conhecimento teológico, portanto, bastante humano. Bem verdade que, como sou das humanas, é obvio que minha inquietação surge da ausência de projetos para essa área. Proponho que se pense na situação das faculdades de direito no Brasil. Forma-se, na melhor da hipóteses, profissionais aptos (majoritariamente, relativamente aptos, se se considerar o índice de reprovação na prova da OAB) à aplicar a lei, e despreparados para pressionar as instâncias de poder por transformações sociais efetivas. E os cursos de pedagogia, também carecem de um “mergulho” na filosofia, sociologia, antropologia e ciências políticas. Enfim …
estou de acordo, caro ronaldo. também “sou das humanas”…
mas, no deserto em que vivemos, qualquer chuvisco merece saudação.
só não estou de acordo com o exemplo do direito pois que o nosso não é coisa feita para a razão: foi todinho montado para servir o poder e não para conte-lo.
e o que significa, na verdade, ser “apto” no que diz respeito à nossa babel legislativa e legisferante?
pode-se aplicar metodo ao sistema onde bem mais de 80% dos casos morrem por “falha formal” inteiramente alheia aos fatos em julgamento?