Os cães de Pavlov
24 de fevereiro de 2014 § 2 Comentários
Se já não é mole para ninguém, mesmo com todo o equipamento de leitura da realidade exterior em ordem, entender o mundo globalizado e lidar com a necessidade de regorganizar política e socialmente uma humanidade que sequer fala a mesma língua para enfrentar um desafio que doravante só tem solução pelo todo, para os brasileiros, que vivem por traz de uma lente de distorção da realidade implantada em cada cabeça desde antes dela ter consciência da sua própria existência que determina quase que organicamente a formação dos circuitos de processamento do que os seus olhos haverão de enxergar lá fora é praticamente impossível.
Porque, para além da carga que se nos despeja do nascimento até à idade em que o cérebro humano ganha autonomia, vemos essa distorção ser reforçada a cada passo pelo vasto aparato de controle do que hoje se chama brandamente de “correção política” montado para reconfirmá-la e preservar o sistema de poder que nele se apoia.
Um sistema de poder que, se já não imola fisicamente os dissidentes em fogueiras acesas em praça pública, lincha-os moralmente, confisca-lhes o direito ao trabalho e à sobrevivência econômica (se for um político ou um operário intelectual) e se os degreda da mídia, o que equivale a uma espécie de condenação à não existência.
O “retrato” tirado do país nas manifestações de junho de 2013 – em que a multidão gritava 500 “nãos” mas não era capaz de esboçar um único “sim” neste país onde ha 32 partidos políticos, todos “de esquerda”, refletindo fielmente a “demanda” pautada pela tal lente distorsiva – é um exemplo eloquente da força desse mecanismo repressor do pensamento e da completa inadequação entre o repertório conceitual que nos é incutido e a realidade que tentamos inutilmente decifrar com ele.
Se para os filhos de outras culturas mais dóceis à evidência dos fatos, lidar com esse desafio é um longo aprendizado para o qual parte-se do zero, para nós, os filhos do dogma e do pressuposto, o aprendizado da realidade existente só pode começar para os que forem, antes, capazes de revogar a realidade suposta que lhes foi incutida a vida inteira como a única verdadeira.
São dois trabalhos. Logo, se a verdade sem adjetivos maiores que a consciência da precariedade de qualquer verdade está em 100, há quem possa partir para a busca dela do zero e ha quem tenha de partir de menos 100. Considerando-se que no primeiro terço dessa trajetória a inteligência humana não está pronta para um vôo autônomo, é fácil entender porque tão poucos logram conseguí-lo: a vida normalmente não dura o suficiente para percurso tão longo nos dois terços restantes.
Não estamos sozinhos nessa arapuca. É nesse mesmo labirinto que anda perdida toda a latinidade, aí incluída, pelas razões expostas acima, a maior parte da parcela alfabetizada dela. Sendo, aliás, a escola e a universidade os principais centros de reforço e elaboração dessa construção distorcida, é mais comum, entre nós, encontrar quem enxergue as coisas como elas são entre os que continuam virgens dessas duas experiências do que entre os letrados e, sobretudo, entre os semi-letrados que constituem a grande força de sustentação do “Sistema”.
Vem de muito longe essa bifurcação dos caminhos da humanidade. O momento decisivo se dá no século 12 quando a primeira universidade da Europa – a de Bolonha – passa do controle dos sábios para o controle dos príncipes (com os sábios incluídos no pacote) num momento de vácuo de poder com o esvaziamento do da Igreja que mantinha todo o Continente até certo ponto “amarradinho”.

Ali ressuscita-se e põe-se para caminhar sobre a Terra a versão frankenstein de um “direito romano” torcido para parir e sustentar o absolutismo monárquico pelo expediente da constante fabricação de leis de ocasião sob a égide do lema Princeps legibus solutus est (“o príncipe” – que as baixava – “está desobrigado de todas as leis“).
É o regime sob o qual você, brasileiro, vive até hoje, 9 séculos depois, e que o ministro Joaquim Barbosa tenta solitariamente abalar nesses últimos meses.
A Inglaterra mantem o sistema da Lei Comum (Common Law) baseada na tradição, patrimônio comum a toda a humanidade até uma certa altura, portugueses incluídos com o seu “direito foraleiro” e, no mesmo século 12, faz do costume instituição, aparelha-o de um método de processo com a sistematização dos precedentes e sacramenta o juri como garantia da prevalência da procura da verdade pela interrogação dos fatos sobre o arbítrio do juiz ou as verdades reveladas.
Daí por diante nunca mais houve remédio para quem enveredou pelo desvio de Bolonha. Uma olhada neste mapa é quanto basta para confirma-lo.
Os marcos seguintes do percurso são mistos de intenção e oportunidade.
No século 16 a libido de Henrique VIII leva ao rompimento final com a Igreja Católica e à abertura da Inglaterra a todos os perseguidos do mundo, o que proporciona a uma humanidade até então sempre obrigada, debaixo de bota, a afirmar a fé do soberano, a primeira experiência de livre convivência com a diferença de crenças, de um lado, o que suscita dos reis católicos do Continente a reação pelo Terror contra a novidade que ameaçava suas prerrogativas, do outro.
A França tenta embarcar na abertura (com a revolução da Fronda) mas perde. E é lá, na Universidade de Paris, que um rico estudante basco, exigindo de cada um dos seus seguidores o juramento solene de que “Eu sustentarei até à morte que é negro o branco que meus olhos vêm se assim determinar sua santidade o papa”, funda a Companhia de Jesus, os padres soldados da Contra Reforma que, até bem perto de nós, teriam o monopólio da educação, entre outros menos longevos, nos reinos de Portugal e Espanha.
O resto são decorrências.
Porque a utopia inglesa é a da liberdade enquanto a francesa é a da igualdade de que não existe um único exemplo na Natureza?
Viver a diversidade de crenças levou os pensadores ingleses, para segurar o terreno conquistado, a erigir a tolerância em fundamento inegociável de todas as relações humanas; a tirar o pressuposto da frente do fato e o dogma da frente da experimentação. Alguém se perguntou se não haveria algo mais a fazer as maçãs despencarem do galho que a vontade de deus, a Terra saiu do centro do Universo e o homem saiu do centro da Terra.
Nasceu a ciência moderna e nasceu a democracia, cujo fundamento último é, justamente, a ausência de certezas.
E os filhos da Contra Reforma, em que estavam pensando nessa hora?
Não existe igualdade na Natureza? Sem problemas. Tratamos de imaginar uma Natureza “anterior” a esta que se vê onde a igualdade “estava presente” e, ao lado dela, um demônio que, por pura maldade, desorganiza essa santa paz. O nome desse demônio varia segundo a conveniência do momento: a “propriedade privada”, a “sociedade” … “os americanos”; essas desconcertantes manifestações concretas da própria desigualdade, enfim.
Conclusão:
Quem já nasceu sabendo; quem teve o privilégio de conversar com deus ou trocar segredinhos sobre o futuro com “a História” e vive atormentado pela renitente rebeldia dos fatos contra a ordem em que deveriam se conformar em ter permanecido, trata de “disciplina-los” punindo quem os vê como são e assim contribui para impedir a igualdade “perdida” de retomar o seu devido lugar na ordem das coisas.
Já quem se pergunta humildemente porque diabos as coisas são como são, logo aprende que as respostas têm estado muito mais frequentemente erradas do que certas e que há grande chance de haver erro nas suas próprias convicções do momento e verdade nas alheias, e que portanto, a liberdade – de pensar, de dizer e de agir para lá e para cá ao sabor dos acontecimentos – tem de ser inegociável, ou não haverá segurança possível para ninguém.
Democracia é um subproduto da educação
21 de março de 2011 § 10 Comentários

De tudo de bom que a presidente Dilma Roussef disse a Claudia Safatle na entrevista que deu ao Valor na quinta-feira passada – e quase tudo que ela disse cabe nesse adjetivo – o melhor foi o seguinte:
“Acho fundamental o Brasil apostar na formação no exterior. Todos os países que deram um salto apostaram na formação de profissionais fora. Queremos isso nas ciências exatas – matemática, química, física, biologia e engenharia. Queremos parceria do governo americano (Obama chegaria dali a dois dias) em garantia de vagas nas melhores escolas. Nós damos a bolsa. Vamos buscar fazer isso não só nos Estados Unidos e de forma sistemática”.
Não é pouco para uma ex-guerrilheira que preside o governo de um partido que, até ha pouco, abraçava a ignorância como um dos seus mais caros valores e que tem na xenofobia uma de suas mais renitentes marcas registradas.
Tem havido muito barulho por nada (fora o sofrimento, o sangue derramado e a invariável frustração na obtenção dos resultados inicialmente visados), em torno das revoluções politicas. Esses espasmos de violência e de emoções em ebulição se prestam muito à mitificação pela literatura e pelo cinema mas, olhadas as coisas um pouco adiante dos primeiros arrancos de seus futuros mártires o que se vai encontrar é, invariavelmente, um opressor substituindo o outro e inaugurando uma nova dinastia a se sustentar no poder pela força.
Democracia mesmo – é o que a História confirma – é sempre um subproduto das revoluções educacionais.

Os pioneiros da Europa protestante, a democracia americana, a sua versão reeditada pelas reformas da Progressive Era, o Japão, os “tigres asiáticos”, onde quer que a democracia tenha plantado raízes sólidas, seja em processos mais longos de decantação cultural, seja em turn arounds artificialmente acelerados de longas tradições antidemocráticas, existe um pressuposto comum: a democracia se instala como subproduto de uma revolução educacional.
A primeira grande revolução educacional da era moderna foi o Protestantismo.
Quando Guttemberg, ao imprimir às centenas as bíblias que até então eram copiadas à mão e guardadas a sete chaves nas bibliotecas de uns poucos conventos, tornou acessível a todos aquilo que, na época, era tido como a fonte do conhecimento, o esquema de opressão montado pela Igreja e compartilhado pelas monarquias absolutistas em cima da falsificação de uma suposta “verdade revelada” começou a desabar.
Depois que Lutero “protestou” a fraude com argumentos (e não com opiniões), seus primeiros seguidores liberados para se apresentar como tal, na Inglaterra libertada de Roma pela libido insatisfeita de Henrique VIII, andavam pelo país, batendo de porta em porta, para ler a bíblia para a multidão analfabeta e deixar-lhes a mensagem subversiva:
“Não aceitem as verdades que vos chegam prontas! Aprendam a ler para poderem busca-la por si mesmos. Só a educação liberta!”

Era essa a essência da revolução de Lutero, que fez uma única exigência aos príncipes alemães interessados em se livrar do papa insuflando o Protestantismo: educação obrigatória e gratuita para todos, bancada pelo Estado.
Foi assim que nasceu o mundo moderno.
Libertada das fogueiras da Inquisição a inteligência, fertilizada pela experimentação, fez o mundo “renascer”. E o pensamento científico, desafiando a religião, redesenhou toda a realidade à nossa volta.
Depois disso nada mais foi como era antes.
A Inglaterra plantou o marco inicial submetendo o rei ao parlamento e o parlamento ao povo. E a sua extensão americana, tomando por base o novo Universo de corpos celestes em permanente movimento mantidos na harmonia de suas órbitas pela ação das forças e contra-forças da gravidade, descrito por Isaac Newton, desenhou a democracia de poderes independentes funcionando dentro de um regime de checks and balances e instituiu o esforço e o mérito individuais como únicos critérios de legitimação da riqueza e do poder que vem com ela.
A democracia moderna nasce, portanto, da primeira grande vitória do pensamento científico sobre a ideologia (religião), na virada do século 18 para o 19. E daí por diante, seus altos e baixos, seus progressos e retrocessos, estarão sempre ligados a esse embate.

Um século mais tarde ela passaria pela sua primeira crise profunda. Mesmo onde o novo regime não se tinha fixado, ele abalara mortalmente as monarquias sobreviventes. De tal modo que, nem as jovens democracias, nem essas monarquias periclitantes, estavam prontas para o terremoto que viria.
A desordenada transição da economia rural para a economia industrial e o processo descontrolado de urbanização que concentrou e colocou mais perto uma da outra a opulência e a miséria nas cidades, levaram, em todo o mundo, ao desmoronamento do ordenamento – ético e moral inclusive e principalmente – que servira à sociedade e à economia rurais.
Ao mesmo tempo a economia industrial estava aumentando para patamares nunca antes suspeitados a capacidade de acumulação de riqueza por particulares e, com ela, o poder de corrupção dos magnatas da nova era.
Não sobrou quase nada.
Com o privilégio sustentado pela corrupção voltando a reinar e a consequente desmoralização da democracia criou-se o caldo de cultura propício ao desenvolvimento de novos regimes de força.
E o século 20 nasceu com as revoluções políticas voltando a ensanguentar o mundo.

Esse processo de deformação não se deu com a mesma intensidade em toda a parte, porém. A democracia resistiu e, eventualmente, reformulou-se, onde ela tinha fundamentos na educação. E caiu aos pedaços onde – como em Portugal, por excelência – tinha sido fruto de transplantes tão artificiais quanto superficiais, feitos apenas para dar sobrevida às velhas oligarquias de sempre.
Mas ninguém passou incólume por ele. Nos Estados Unidos, foi dentro desse ambiente deletério que rolou, já no final do século 19, a primeira onda da revolução da gestão corporativa que tudo submetia à eficiência. As fusões e aquisições de empresas levaram a um grau inédito de concentração da riqueza e acumulação de capital e a corrupção foi ao nível do paroxismo.
Com o cidadão comum espremido entre os grandes monopólios e políticos corruptos que respondiam muito mais prontamente ao poder do dinheiro que aos interesses do seus representados, o país enfrentou o desafio de reescrever suas regras para a nova realidade.
A receita poderia ser seguida pelo Brasil que está hoje mais ou menos onde eles estavam nesse momento.
A legislação antitruste, estabelecendo a defesa da concorrência em nome do interesse do consumidor como um valor superior ao da eficiência para limitar o direito de crescer e ocupar espaços do capital, foi o primeiro marco dessa transformação. A conquista de ferramentas de democracia direta inspiradas no sistema suíço como as leis de inciativa popular, os referendos e o direito ao recall (impeachment) de qualquer funcionário eleito a qualquer momento, numa luta que durou quase 40 anos, acabou por restabelecer a legitimidade do sistema representativo e relançar a democracia americana para o seu período de apogeu (século 20).

Mas o pressuposto das reformas desse período, que ficou conhecido como a Progressive Era, foi, mais uma vez, uma profunda reforma educacional inspirada no chamado “movimento anti-intelectualista americano” que concentrou fortemente o ensino publico nas ciências exatas, plantou as bases da revolução tecnológica e projetou a economia americana para os patamares de hoje.
O Japão, destruído moral e materialmente ao fim da 2a Guerra Mundial, foi o próximo a embarcar nas asas da educação. Convencido de que tinham perdido a guerra para a ciência do inimigo, consciência que se tornou ainda mais aguda depois das explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki, o Japão se concentrou absolutamente na construção de um sistema de educação para a ciência, a tecnologia e a inovação. Nos meados dos anos 60 já era, saindo do zero, uma presença notável na competição mundial. Daí por diante, a pequena ilha, desprovida de tudo menos de gente com vontade e conhecimento, tornou-se a segunda maior economia do mundo.
Coreia do Sul e Taiwan, igualmente sem recursos naturais e ameaçadas pelas ditaduras de que se tinham desmembrado, seguiram-lhe os passos por caminhos semelhantes aos que Dilma prescreve para o Brasil. Entraram para o folclore local, aliás, os voos das sextas-feiras entre o Japão, a Coreia e Taiwan, em que cientistas e técnicos de alto nível das empresas japonesas embarcavam para trabalhar em empresas coreanas e chinesas que lhes pagavam, num fim de semana, mais do que ganhavam em casa na semana inteira para ensinar o que sabiam aos seus nacionais. Paralelamente, os governos desses países criaram extensos programas de bolsas de estudos mandando milhares de seus estudantes aprender no Ocidente.

A história é exatamente semelhante em todas as democracias construídas no século 20.
Onde elementos de democracia foram plantados artificialmente, sem a devida base educacional, balança-se ao sabor da sorte, menos quando calha de haver um governante letrado, com noções de história; mais quando calha de acontecer o contrário. Onde a educação foi o caminho, o sistema político é sólido. E as economias, então, nem se fala: não importam as riquezas naturais nem o tamanho das populações, elas são exatamente proporcionais à colocação desses países nas avaliações internacionais de desempenho de seus estudantes nas ciências exatas.
O mais formidável handicap do Brasil é sem duvida nenhuma este. Com a educação publica inteiramente aparelhada ideologicamente e o sistema voltado exclusivamente para os interesses corporativos que o parasitam, é sempre aí que despertam, com o ânimo aplastado, todos quantos sonham com um Brasil democrático e sem miséria.
Saber que a presidente da Republica é um destes e está disposta a derrubar essa barreira ainda que seja começando por formar uma nova geração de futuros professores onde quer que eles possam de fato aprender é altamente animador.








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