Sobre territórios ocupados pelo crime

9 de dezembro de 2010 § Deixe um comentário

Democracia é como gravidez. Não existe pela metade. Ou a Lei vale para todos ou não vale para ninguém.

Fora do Brasil, acompanhei pela internet a “Guerra do Rio” e, principalmente, o modo como ela foi coberta pela imprensa.

Tenho repetido aqui que vejo a imprensa como uma espécie de termômetro da sensibilidade da classe media (que é quem escreve e lê jornal) que, ao devolver, inevitavelmente, o que as nossas escolas enfiam na cabeça dos brasileiros pelo pais afora – pobres cabeças! – nos permite vislumbrar a que distancia estamos de começar a mudar aquilo que exigimos dos governos, primeiro passo para que os governos comecem a pensar em mudar aquilo que nos entregam.

Cheguei a me animar com o gradual abandono do entusiasmo ufanista em que ela ameaçou embarcar no inicio do processo, diante da comovente reação do povo carioca a esse primeiro mísero sinal de atenção recebido em muitos anos (desde que Leonel Brizola – que a Dilma chama de “guru” – entregou um pedaço da cidade ao crime organizado).

O Rio virou, mesmo, uma pobre criança abandonada, carente até o limite onde se pode ser carente…

Senti-me aliviado quando foram ouvidas as vozes das lideranças da imprensa – que ainda as ha, mesmo que poucas – chamando a atenção do publico para a realidade da corrupção policial, da “ausência de polaridade” entre a policia e o crime no Rio de Janeiro (e não apenas lá), que permanece intocada. Meu orgulho cívico sentiu-se remendado quando o tom começou a mudar do agradecimento para a cobrança de uma verdadeira “pacificação” dos morros, em vez desta “para inglês ver”, determinada mais pela eleição e pela perspectiva da Olimpíada e da Copa que vêm aí do que pela vontade de restituir ao povo pobre do Rio o direito elementar de sair do inferno dos enclaves ocupados pelo crime.

Quanto tempo vai levar para os policiais das UPPs se corromperem e tomarem o lugar dos traficantes como exploradores da miséria dos morros? E os militares, quanto tempo resistirão ao “faça você também porque não vai acontecer nada mesmo”?

Decepcionei-me, mais uma vez, enfim, pela discussão não ter ido alem do binômio crime x corrupção policial.

Os morros cariocas não são o único nem o mais importante pedaço do Brasil onde a Lei não entra. A Lei não ocupará os morros cariocas enquanto não ocupar, primeiro, o território livre do Estado; os governos e sua extensão administrativa que é o funcionalismo publico.

O presidente da Republica não acata a Lei. O Poder Executivo não acata a Lei. Os membros do Poder Legislativo não acatam a Lei. E as poucas que acatam são leis especiais, feitas só para eles. As leis que negam o principio fundamental da democracia e do Estado de Direito que prescreve, antes de mais nada, a igualdade de todos perante a lei.

A policia carioca e todas as policias do Brasil, assim como os variados fiscais de todos os órgãos publicos e o resto da horda que vive de nos achacar, vão continuar vivendo impunemente na regra dos “arregos” com o crime organizado enquanto aqueles que os nomeiam para essas funções puderem continuar vivendo na regra dos “arregos” impostos aos contribuintes, dos achaques aos fornecedores do Estado, da posse e uso irretorquível e ilimitado das “suas” estatais, das ações em causa própria, dos privilégios e dos assaltos impunes ao Tesouro Nacional.

É tudo um sistema de vasos comunicantes. A impunidade é um imperativo para o nomeado pelo impune. É a cumplicidade que os une. Um não pode continuar impune se o outro não se tornar impune. A corrupção empurra a corrupção. O achacado numa ponta terá de achacar na outra e a corda estourará sempre do lado mais fraco. Do lado de quem paga dobrado para ter menos da metade. Do lado de quem paga com a vida porque é tudo que lhe resta.

O mais dolorido em todo esse sofrimento é que é tudo um desperdício. Um falso labirinto cuja saída está mapeada pela História. Uma mera armadilha da ignorância.

Somente quando a imprensa se impuser o dever de expor essa cadeia da impunidade a cada vez que qualquer dos efeitos dela se manifestar, seja onde for, apontando a raiz por mais distante que esteja o galho, poderemos começar a alimentar a esperança de que o povo venha a dirigir a força que tem de sobra, mas não sabe onde aplicar, para esmagar o mal no nascedouro.

Até lá, estaremos apenas enxugando gelo. Ou pior, apenas enxugando sangue.

Marcado:, , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento Sobre territórios ocupados pelo crime no VESPEIRO.

Meta

%d blogueiros gostam disto: