Choque de verdade no paraíso da mentira

17 de maio de 2017 § 2 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 18/5/2017

Nos primeiros dias do segundo ano do governo Temer e indo para o quarto de paralisia o Brasil segue perdido nos falsos diagnósticos do mal que o acomete.

A ultima vez em que os fatos que a Lava Jato investiga foram avaliados no seu devido contexto foi nas sentenças do mensalão. Desde então tanto a imprensa quanto o Ministério Público deixaram a conspiração pelo poder de lado, focaram nos indivíduos e têm tratado tudo como se a acumulação de dinheiro fosse o fim ultimo de toda essa roubalheira.

Se fosse verdade, disso decorreria que o estado, benfazejo como “rousseaunianamente” é, não precisa de reforma, só precisa de limpeza. Mas o Brasil real não embarca mais nessa. Já entedeu que essa luta é pelo controle e a preservação e não pela desmontagem do “sistema” e tem pouco a ver com ele. E expressa o seu ceticismo com uma crescente indiferença. A “voz das ruas” calou-se. A “vanguarda do proletariado”, mesmo com as aposentadorias e os “direitos trabalhistas” que desempregam todo mundo menos os funcionarios públicos na berlinda, não enche uma praça de tamanho médio nem a rogo pessoal e intransferível do “maior líder da história da classe operária brasileira”.

Michel Temer e seus economistas hesitantes são os únicos que, por obra do destino, bandearam-se para a causa do país real. Só que se pusesse o foco no problema como ele é incidiria num “sincericídio”. Assim, tenta responder ao desafio jogando nos bastidores com as armas do passado. É um esforço louvável pela persistência, mas vão. O “sistema” mostra-se imune aos venenos e manhas que ele próprio inventou.

O populismo “socializa” as migalhas da corrupção para adubar o chão em que vai plantar a sua mentira. Estamos em plena safra. Mente a esquerda, criminosamente, quando diz que o “achaquismo” trabalhista não desemprega nem ha rombo na previdência; mentem o centro e a direita, por omissão, quando pedem mais sacrifícios ao povo “para salvaguardar o seu próprio futuro” e só, como se tudo que estivesse em jogo fosse a questão atuarial e demográfica que também existe.

Hoje 28% da população, 57,9 milhões de pessoas, numero que corresponde ao eleitorado cativo de Lula, é diretamente sustentada pelo estado. Recebe todo mes um cheque do seu provedor. Estatisticamente falando, toda família brasileira tem, portanto, ao menos um pé embarcado no “sistema”. Senão o seu próprio o de alguém muito próximo que bebe na mesma fonte em que a ponta de cima da “privilegiatura” se empanturra. E isso torna fluidas todas as fronteiras e distorce todas as cadeias de cumplicidade.

A esmagadora maioria desse quarto da população que também sabe identificar a mentira mas tem menos meios de se dar o luxo da verdade recebe um salário mínimo ou menos. 13,4 milhões dividem os R$ 24,7 bi do Bolsa Família. Tudo que os 5.560 municípios sustentam, que em geral é o que o cidadão comum realmente tem, é mantido com outros magérrimos R$ 27,7 bilhões. Os estados, vale dizer, as polícias e os professores, as duas primeiras corporações a pularem fora da reforma da Previdência, consomem R$ 106 bi. E a União, que não é Brasil, é Brasilia, se empanturra com R$ 273,6 bilhões. Como as aposentadorias “deles” se dão aos 50 anos e são “reajustadas” com os aumentos dos funcionários da ativa que, somente nos estados, foram de 50% acima da inflação em 10 anos, o INSS custa hoje R$ 507,8 bi. Mas não são os soldados das PMs, as professorazinhas do ensino básico e nem mesmo os “amarajalados” funcionários do rés do chão do Legislativo e do Judiciário que levam essa conta a essas alturas. O estado que nos assalta a pretexto de “redistribuir a renda” faz exatamente o contrário. Por cima de cada uma das corporações que o controlam boia a nata dos que cavam os seus privilégios legislando em causa própria, criando falcatruas semânticas ou simplesmente empilhando fraudes em cima de fraudes que, em geral, são eles próprios os encarregados de coibir, para fazer do céu o seu único limite.

Esse grupinho sabe exatamente o cheiro de revolução que têm os seus proventos indecentes num país que foi levado ao esgotamento muito mais que pela outra, por esse tipo de roubalheira “legalizada”. E como não ha argumento racional capaz de vender o seu peixe, trata de institucionalizar a mentira.

A imprensa e o resto do país viveu a semana retrasada inteira da troca apaixonada de insultos em torno do tema do impedimento das autoridades judiciárias para decidir sobre “feitos” de que (CPPenal, art. 252, IV) “ele próprio ou seu cônjuge ou parente, consanguíneo ou afim em linha reta ou colateral até o terceiro grau, inclusive, for parte ou diretamente interessado”. Mas a concessão ou não de habeas corpus é a faixa mais estreita da imensa zona de conflito em que todos vivem mergulhados. Sendo o Ministério Publico, com média de aposentadorias de R$ 30 mil, o Judiciário, com R$ 29 mil, e o Legislativo, com R$ 25 mil no país em que a média aqui fora é R$ 1,6 mil e o limite legal R$ 5,5 mil, que chance tem a minoria interessada em justiça de não ver o seu trabalho desfeito pela maioria se a cupula da Lava Jato não denunciar o problema como ele é em vez de seguir com enxugamento de gelo e silêncio? Qual o jornalista, especialmente os que viveram e constituiram família no isolamento de Brasilia, cujos “conjuges, parentes, consanguíneos ou afins” não são “parte direta ou indiretamente interessada” nas prerrogativas da “privilegiatura”? Porque, ao fim de quatro anos, o tema dos supersalários, das super-aposentadorias, da colonização do estado pelas corporações e pelos caronas dessa intrincada cadeia que se alimenta do Brasil dos Miseráveis não se apossou sequer da “voz das ruas”?

Não seria porque dinheiro pouco têm sob as asas do estado muitos e são todos um pouco cumplices do “sistema” que a ninguem nega ao menos “um golinho”?

É um choque de verdade que está fazendo falta aqui no paraíso da mentira. O resto acontece sozinho.

O silêncio dos culpados

21 de março de 2017 § 30 Comentários

Artigo para o Estado de S. Paulo de 21/3/2017

Esta quarta-feira, 15, foi daqueles dias em que os fatos se impuseram à “narrativa” do Brasil com uma contundência de doer. Capital por capital, cidadezinha por cidadezinha, giro após giro das TVs pelo país, a mesma cena: grupelhos de funcionários públicos estáveis no emprego, com aposentadorias integrais e aumentos de salário garantidos até 2020 barrando a passagem das multidões de desempregados, subempregados e empregados com empregos ameaçados (todos menos os públicos) e aposentadorias de fome (todas menos as públicas), que esperavam passivamente nas estações e engarrafamentos gigantes que os “donos do Brasil” em “greve geral” contra as reformas da previdência e trabalhista lhes concedessem a graça de seguir na luta pela sobrevivência.

Um retrato doloroso mas fiel da nossa realidade.

Esse Brasil órfão, sem voz, abandonado à própria sorte, impedido de trabalhar, está morrendo de overdose de funcionalismo, de supersalários e, mais especialmente, de acumulo de aposentadorias e superaposentadorias precoces. Pouco mais de 980 mil aposentados da União geram um déficit maior na previdência que o resto dos 32 milhões de aposentados do setor privado somados. Não se sabe a quanto os 26 estados e 5.570 municípios com seus respectivos executivos, legislativos e judiciários empurrarão essa conta (“sem contrapartidas”!), mas somente a folha da União vai subir este ano dos R$ 258 bilhões que custou em 2016 para R$ 283 bilhões. São quase 10% a mais e como o orçamento cresceu só 7%, isso significa que, no mesmo momento em que estão arrancando catéteres de quimioterapia das veias de doentes com câncer e abandonando-os para morrer no hospital publico de referência em oncologia do Rio de Janeiro por “falta de recursos” (imagine nos “grotões”!), mais e mais dinheiro dos impostos que esses doentes pagaram é desviado das atividades-fim para os bolsos dos eternamente imunes às crises que fabricam.

Se todos os moderadíssimos cortes de despesas propostos pudessem ser executados o governo Temer prometia aos miseráveis do Brasil que chegariam ao fim de 2017 com um acrescentamento à divida que o estado atira-lhes anualmente às costas de “apenas” R$ 140 bilhões por cima dos R$ 2,81 trilhões a que o total já chegou. Mas os últimos “direitos adquiridos” pela casta dos “grevistas” de quarta-feira vão custar mais que isso e o governo já está desistindo de buscar a diferença com reformas, mesmo as que mantêm intacta a escandalosa desigualdade que ha hoje nas contas da previdência. Novos impostos já estão prontos para ser disparados.

Esta passando da hora, portanto, de darmos uma “freada de arrumação”. As emoções da Lava Jato são vertiginosas e a delícia de ver ladrões de casaca perderem o sono uma vez na vida não tem preço. Mas esquecer o cérebro no meio do caminho é catastrófico. O primeiro ponto é manter em mente que corrupção não é mais que déficit de democracia. E democracia é controle do estado pelo povo e não o contrário. “O pior sistema que existe excluidos todos os outros” como dizia Winston Churchill. A rápida evolução dessa burrada do “financiamento público” de campanhas para o seu corolário obrigatório que é a “lista fechada” é mais uma prova disso. Cassa o seu direito ao voto. O outro ponto essencial é dar a cada coisa o seu devido peso. A Lava Jato é imprescindivel. Mas fingir que só ela basta para nos tirar da rota de desastre é nada menos que suicídio. Quanto é que se rouba do Brasil por fora da lei? Via Odebrecht, a rainha do nosso cupinzeiro, foram R$ 10 a 12 bilhões de reais em cerca de 10 anos, diz a polícia. Mas sejamos realisticamente generosos. Multipliquemos esse valor por 10, por 20 vezes. Se tudo parar rigorosamente onde já chegou; se nenhuma obra mais pagar “pedágio”, funcionário inútil for contratado ou “direito” novo for “adquirido”, estaremos todos mortos e enterrados, mais nossos filhos e netos, antes que o completo cessamento da roubalheira “por fora” zere a conta do que nos arrancam todo santo mês “por dentro” com a vasta coleção de leis que só valem para “eles”.

A discussão do que realmente decide o nosso destino, portanto, nem começou. Desde o apeamento do PT do poder só o que não depende do Brasil tem nos dado sobrevida: a saúde da economia americana, os soluços da China e das commodities, os capitais que se aventuram por juros maiores que zero. O governo Temer tem vivido de expedientes; só lhe foi dado mexer naquilo que é possível mexer sem mexer no que é preciso mexer para o Brasil voltar a respirar: repatriações de dinheiros fugidos, manipulações do câmbio e dos juros, “ajustes” de estatais arrombadas via incentivo à aposentadoria, raspagens de fundos de cofres tipo FGTS para lembrar aos moribundos como é estar vivo…

A mansa passividade das multidões detidas pelas barricadas da “greve geral” de quarta-feira estando em causa questão tão explosiva quanto é a aposentadoria em toda a parte do mundo dá, no entanto, a medida dos sacrifícios que esse Brasil enjeitado e sem voz estaria disposto a aceitar se lhe acenassem com a menor contrapartida. Mas a função de expor, de medir, de comparar o que falta aos miseráveis com o que obscenamente sobra à casta que se apropriou do estado não é do presidente da republica, muito menos de um acidental e periclitante como o nosso que sofre represálias cada vez que ousa mover o nariz na direção do quadrante de onde vem o mau cheiro. Essa função é SEMPRE da imprensa.

Se não houvesse nenhum sinal de que tudo está derretendo de podre no reino dessa nossa “dinamarca” lá de cima já seria inaceitável que ela não fosse fuçar esse departamento dia sim, dia não. Mas no estado de arrebentação em que vai um país onde os pilotos e aviões da força aérea nacional estão oficialmente reduzidos à condição de choferes de marajás, as “assessorias” são do tamanho de governos democráticos inteiros e os salários e mordomias do Poder Judiciário competem com os dos tubarões de Wall Street esse silêncio é indecente.

A “bala de prata” existe, sim

12 de novembro de 2014 § 29 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 12/11/2014

Se tiver plebiscito, arriscamos o inarriscável; se não tiver não tem reforma e não desatolamos do pântano da traficância de “governabilidade” onde tudo apodrece.

Existe a “bala de prata” capaz de nos livrar dessa armadilha?

Existe. E é uma lástima que tenhamos chegado ao ponto de estar impedidos de usá-la por falta de segurança institucional, sobretudo depois que a Comissão Executiva Nacional do PT, em desafio ao Congresso Nacional, renovou o compromisso com a imposição de uma “democracia popular hegemônica” por via plebiscitária na “Resolução Política” de 3 de novembro último.

A reforma política visa, em última instância, contemplar o eterno desafio da democracia representativa: como fazer o representante votar segundo a vontade dos seus representados e não segundo os seus interesses escusos. As distorções da nossa ordem eleitoral e partidária são dolosas: não é falta de receita melhor; é consequência da intocável onipotência do político brasileiro depois de eleito. Para consertar isso é preciso atacar a causa e não os efeitos.

Não é o que vem sendo proposto.

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Onde não ha intenções inconfessáveis, já foi explicado aqui, o instrumento do plebiscito é usado exclusivamente para dirimir questões de formulação simples, sem mais implicações que a expressamente contida na pergunta submetida aos eleitores para um “sim” ou um “não”.

Misturar ordem partidária, ordem eleitoral, financiamento de campanhas, cláusula de barreira, democracia direta e não sei quanta coisa mais num único pacote e pedir uma decisão por “sim” ou “não” e maioria simples, como quer o PT, é muito mais complicado e perigoso que isso.

Pra que começar a conversa das reformas, então, se com plebiscito está jurado que levaremos gato por lebre e sem plebiscito o canal que sobra é o dos próprios beneficiários das perversões do sistema atual que jamais se disporão a alterá-lo?

A saída dessa sinuca está em redefinir apenas a norma que regula a relação de cada um de nós com o nosso representante eleito. Esta, sim, pode ser reduzida a uma pergunta simples sem nenhuma implicação outra senão a que está expressamente contida na sua própria formulação e ir a plebiscito com totais segurança e adequação entre forma e função. Assim: “Você é a favor do direito de retomada a qualquer momento do mandato atribuído ao seu representante eleito por votação distrital”?

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Se “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido”, nada mais lógico que cada cidadão continue sendo o proprietário exclusivo do mandato temporária e condicionalmente atribuído pelo seu voto a um representante também para retirá-lo a qualquer momento e por qualquer razão, seja ela traição ou só falta de empenho.

Você não precisa ser pego roubando o seu empregador – e ai de você se for! – ou fazendo o jogo do concorrente dele para ser demitido. Basta que se dedique menos que o colega ao seu lado. Porque com os políticos deveria ser diferente?

A resposta é: absolutamente não deveria.

Na verdade é esta, e apenas esta, a fronteira da servidão.

Para que o direito de “recall”, como o chamam os americanos, ou de “chamar de volta” o seu voto, de “retomar” um mandato, de “dar um cartão vermelho” ao seu representante eleito (podemos começar essa batalha pensando num bom nome para esse expediente em português) sem que isso provoque qualquer perturbação na vida da Nação; para que o país possa ir sendo reformado sempre que isso parecer necessário a quem nele trabalha para sustentar a família enfrentando a concorrência feroz do resto do mundo, é preciso que o direito de recall venha acompanhado do voto distrital puro.

a6Nesse sistema cada candidato só pode se oferecer aos eleitores de um distrito – algo como o pessoal que vota na mesma zona eleitoral que você, no âmbito municipal, ou como a soma de vários distritos se a cidade for grande o bastante ou a eleição for estadual ou federal – de modo que fica-se sabendo exatamente quem representa quem. Para derrubar um representante insatisfatório qualquer cidadão, do mendigo da rua para cima, pode iniciar uma petição. Se “X%” dos eleitores daquele distrito (uma porcentagem a ser definida que lá fora varia entre 5% e 7% dos votos que o candidato obteve) houver por bem faze-lo, convoca-se uma votação só naquele distrito e, se a maioria assim decidir, ele cai.

Mas atenção: a finalidade é obter o recall, sendo o voto distrital apenas o meio de facilitar o exercício desse direito. Propor o voto distrital puro, ou misto, ou sei lá que outra variação, sem o recall num país onde a política está cercada de caras-de-pau pelos vinte e oito lados na expectativa de que uma mera “pressão moral” mude o comportamento de quem não se vexa de nos assaltar diariamente sem sequer usar máscara já não pode ser chamado só de ingenuidade. É quase cumplicidade.

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A combinação de recall com voto distrital puro é simples e transparente: todos os eleitores, sem exceções nem privilégios, participam; cada cidadão passa a ter um poder concreto mas ninguém, individualmente, fica com poder demais. Mesmo assim torna-se imediatamente claro para o politico que cada um de nós tem o poder de derrubá-lo a qualquer momento sem pedir licença a ninguém mais que os outros eleitores do seu distrito que concorreram para elegê-lo.

Isso muda radical e definitivamente a qualidade do jogo. Transfere não só a pauta como também a iniciativa das reformas – a política e todas as outras que quisermos fazer – das mãos de quem diz que fala pelo povo para as do povo em pessoa. Não tem tapeação. Com essa arma na mão, você nunca mais terá de pedir aos deputados que façam esta ou aquela reforma ou punam este ou aquele corrupto. Você ordenará ao seu deputado que faça isso – e exatamente segundo a sua encomenda – ou ele terá de procurar outro emprego.

Todos os povos que adotaram esse sistema puseram a corrupção sob controle e, de reforma em reforma empurrada goela abaixo dos políticos sob a mira dessa arma, viraram senhores do seu próprio destino. Os outros estão como nós estamos.

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MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O RECALL COM VOTO DISTRITAL 

1

A reforma que inclui todas as reformas

2

Voto distrital com recall: como funciona

3

Mais informações sobre a arma do recall

4

Recall sem batatas nem legumes

5

Porque não ha perigo no recall

6

Democracia à mão armada

7

Discutindo recall na TV Bandeirantes

8

O modelo honesto de participação popular

A mudança que os 74% estão procurando

9 de junho de 2014 § 6 Comentários

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74% dos eleitores brasileiros querem mudanças profundas“, constatou o DataFolha.

Está aumentando! Na última rodada eram 70%. Esse é o “candidato” que mais cresce nas pesquisas mas nenhum dos competidores com número nas nossas urnas eletrônicas conseguiu associar-se a ele. O número desses “não representados” cresce, aliás, exatamente porque nenhum dos candidatos da oposição propõe mudanças no sistema. Só propõem mudar quem vai operar o mesmo sistema nos próximos quatro anos.

Aécio chega, até, a ancorar o seu discurso na introdução da meritocracia na equação de governo mas justifica-se, para tanto, com os mesmíssimos argumentos que Lula e cia. invocam para recusa-la: a sua augusta; a sua magnânima vontade.

Não serve!

Isso não pode mais ser uma escolha do governante de plantão. Ha que se tornar impossível recusa-la; viver fora dela; manter um emprego público sem ela. A meritocracia já é o maior dever de todo brasileiro que se mata de trabalhar aqui fora por um lugarzinho ao sol. Está na hora dela se tornar também o seu mais sagrado direito. E o que opera esse milagre é a instituição do voto distrital com recall.

Assim como mais que o salário ou mesmo o prêmio da remuneração variável é a perspectiva de perder o emprego que faz todo mundo trabalhar duro no Brasil Real tentando fazer mais que o vizinho; assim como a perspectiva do castigo é a única coisa que de fato detém o crime e a impunidade o fator que mais o incentiva, o recall é a semente da meritocracia na política e no serviço público. E meritocracia não é outra coisa senão sinônimo de fim da impunidade.

Com que mudança mais profunda poderiam sonhar os 74% de brasileiros desanimados de seu país e “não representados” pelos candidatos que estão aí, do que a de planta-la definitivamente nos universos da política e do serviço público brasileiros?

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Mas o que é esse tal de recall? Porque o voto distrital puro é o pré-requisito para que ele possa ser implantado? Porque qualquer eleitor, do menos ao mais escolarizado, é capaz de entender a lógica dessa ferramenta e o poder fulminante que ela tem?

Essas são as respostas que eu ofereço na série de artigos cujos links volto a indicar aos leitores e sugerir aos candidatos no final desta introdução: porque armar a mão de cada eleitor com o poder de retomar a qualquer hora o mandato concedido a quem não corresponder às suas expectativas inverte a relação de forças entre o Estado e o cidadão que hoje impera no Brasil; são eles que passarão a depender de nós e não mais o contrário. Passa a ser nossa a iniciativa de propor reformas e deles a obrigação de executa-las, sob pena de perder o mandato.

Porque, então, a imprensa nunca falou nisso?

Apenas e tão somente porque a nenhum político interessa falar nisso pela razão óbvia de que ele prefere continuar para todo o sempre refestelado na impunidade e sem nenhum “patrão” cobrando o seu trabalho, e a imprensa brasileira de hoje limita-se a aderir ou a se colocar “contra” o que os seus “políticos de referência” propõem ou deixam de propor. A imprensa abandona a eles o comando da pauta política nacional; o poder de decidir o que o país deve ou não discutir em vez de confronta-los com as alternativas que o mundo testou e aprovou e obriga-los a se posicionar diante delas.

A imprensa que, em outros tempos, propôs e empurrou os políticos para as grandes guinadas da nossa trajetória política como a Abolição, a República, a volta à democracia constitucional (sob Getúlio) e a volta das eleições diretas (sob os militares), transformou-se, hoje, em mera caixa de ressonância do que dizem as suas fontes viciadas e abriu mão do papel propositivo que está legitimada para ter, elemento constitutivo que é de toda e qualquer democracia. É isso que justifica o apelido de “Quarto Poder” — mais independente que os outros três por estar livre das injunções das eleições e das nomeações — que a imprensa tem nas democracias.

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Enquanto a referência do debate político brasileiro nesta era da globalização não sair das fronteiras do Brasil não haverá avanço nenhum. Seguiremos oscilando entre o despotismo puro e simples e o despotismo esclarecido em que temos vivido desde sempre.

É impossível aprender democracia em português, simplesmente porque nenhuma das sociedades que falam essa língua jamais experimentou uma. E não é só de exercício da democracia que se trata. Até o ato de pensar, de estudar e de pesquisar “inquisitivamente” nos é negado pelo vício secular do modo jesuíta de raciocinar “defensivamente” que nos foi incutido e a que estamos todos condenados desde antes de nascer. Nós não interrogamos os fatos em busca da verdade, preferimos lutar contra eles para enquadrá-los às nossas mentiras.

A função, por excelência, do jornalismo brasileiro nestes tempos de progressiva exclusão do país da competição global deveria ser, portanto, contribuir para inserir o Brasil no mundo moderno que é aquele que está lá fora. Oferecer-lhe parâmetros.

O divisor de águas da modernidade está no grau de inserção da representação política e do serviço público de cada sociedade no sistema meritocrático a que elas já estão inexoravelmente submetidas pela globalização da economia. Quanto maior a dissintonia entre esses dois universos mais lenta será a capacidade de se reformar para reagir a um mundo em permanente mudança e mais alto será o imposto burocrático a ser pago por essa sociedade na forma de exclusão dos mercados globais por falta de condições de competir com os mais ágeis.

O voto distrital com recall põe esses dois lados dançando para a mesma música, submetidos ao mesmo tipo de pressão. Com o mandato dos políticos passando a depender a cada dia da renovação do voto de confiança do seu eleitor, assim como o emprego desse eleitor depende a cada dia da renovação do seu contrato com o seu empregador, tudo se afina: todos passam a correr na mesma direção e na mesma velocidade, uns jogando a favor dos outros.

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O que eu volto a oferecer a seguir são as razões da minha profunda convicção no poder fulminante desse instrumento. Siga a série pelos links abaixo e, se concordar comigo, ajude a espalhar essa idéia:

1

https://vespeiro.com/2013/07/10/a-reforma-que-inclui-todas-as-reformas/

2

https://vespeiro.com/2013/07/12/voto-distrital-com-recall-como-funciona/

3

https://vespeiro.com/2013/07/15/mais-informacoes-sobre-a-arma-do-recall/

4

https://vespeiro.com/2013/07/23/recall-sem-batatas-nem-legumes/

5

https://vespeiro.com/2013/08/02/porque-nao-ha-perigo-no-recall-7/

6

https://vespeiro.com/2013/08/21/democracia-a-mao-armada-9/

7

https://vespeiro.com/2013/07/20/discutindo-recall-na-tv-bandeirantes-6/

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Voto distrital com recall: a série

13 de maio de 2014 § 13 Comentários

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1

A reforma que inclui todas as reformas

2

Voto distrital com recall: como funciona

3

Mais informações sobre a arma do recall

4

Recall, sem batatas nem legumes

5

Porque não ha perigo no recall

6

Democracia à mão armada

7

Discutindo recall na TV Bandeirantes

8

O modelo honesto de participação popular

9

https://vespeiro.com/2015/12/01/receita-de-reconstrucao-nacional/

10

https://vespeiro.com/2015/12/15/noticias-da-democracia/

11

https://vespeiro.com/2016/03/30/o-que-fazer-depois-do-grito-2/ 

12

https://vespeiro.com/2016/01/27/o-fim-do-feudalismo-sem-gallantry/

13

https://vespeiro.com/2015/01/21/como-e-a-selecao-de-juizes-nos-eua/

Onde estou?

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