Porque os ianques me irritam tanto

29 de janeiro de 2014 § 3 Comentários

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Nos idos de 2009 e 2010, quando a crise financeira estava no auge e o Estado “saiu do armário” e se atirou sem mais cerimônias nos braços do Capital em plena pátria do capitalismo democrático, a perspectiva do suicídio da democracia era um tema obsessivo do Vespeiro. Esse suicídio seria função da completa inapetência dos políticos profissionais movidos a voto de enfrentar o pânico geral causado pela destruição maciça de empregos e direitos do trabalho provocadas pela avassaladora entrada em cena, pelas portas da internet, do capitalismo de Estado chinês e das hordas de miseráveis fabricados pelo socialismo real dispostos a trabalhar por nada e em condições desumanas, tomando o lugar dos trabalhadores dos poucos territórios do planeta onde as relações de trabalho e entre empresas e consumidores tinham atingido o grau de civilização. (Confira neste artigo.)

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Desde então a involução do Brasil para o presente padrão de getulismo mitigado louco para vestir uma farda de coronel sul-americano a que fomos arrastados pelo PT tem merecido o melhor das minhas reservas de exasperação intelectual.

O esquerdismo americano com aquele seu tom peculiar que mistura uma sinceridade infantil meio idiota de “descoberta da pólvora” própria de quem nunca tinha tido de enfrentar os leões em cujo covil o resto do mundo tem vivido, á la Opinion Page do New York Times, com a estridência mercenária dos que se apressam por atender e monetizar a demanda por um discurso “líbr’ol” (leia-se com pronúncia ianque), à la Huffington Post, entretanto, nunca deixou de merecer um lugar de honra no receptáculo das minhas descargas de bílis. E isto porque, se a do resto do mundo teoriza sobre o que nunca viveu, a esquerda americana faz pior: nega ou finge dolosamente que esqueceu a sua própria história e mesmo a excepcionalidade da condição em que vivem ainda hoje sem ter a desculpa da desinformação e do analfabetismo centralmente planejados que nós outros temos.

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Hoje foi dia.

Levou-me a voltar a eles o artigo Capitalism vs. Democracy, de Thomas B. Edsall, comemorando no NYT (aqui), assim num tom de “Eu não disse!”, o livro de Thomas Piketty – Capital in the Twenty-First Century – que vem sendo festejado pela esquerda ianque como “um marco da ciência econômica”.

Ali afirma-se sem mencionar uma única vez as palavras “China”, “internet”, “exportação do trabalho” e “monopólio” (= a sociedade entre Estado e Capital), que o feroz efeito de concentração de renda que eu apontava nos artigos de 2009/2010 como o veneno que inevitavelmente faria isso, matará o capitalismo democrático. E fará isso pela extinção de todo o entusiasmado apoio que ele tinha entre a pequena parcela da humanidade que sempre desfrutou dele e que, recordo eu, em função disso avançou tanto nas ciências e no progresso material que conseguiu derrotar sozinho todos os totalitarismos selvagens que tentaram destruí-lo ao longo do século 20.

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E porque me irritaria tanto ver confirmado o meu próprio vaticínio?

Porque o ultra titulado senhor que, apesar do nome soando inglês, escreve originalmente em francês e leciona na Escola de Economia de Paris – e talvez venha daí a desonestidade essencial dessa sua “análise” que os aposentadocratas gauleses repetem sem nenhuma alteração desde antes dos tempos da fundação da USP na sua mauvaise conscience de quem sempre viveu às custas do Estado – afirma que esse processo de concentração de renda não é o resultado da derrota do capitalismo democrático pelo capitalismo de Estado – o nome do socialismo do Terceiro Milênio que trocou os kalashnikovs pelos bilhões de dólares – mas sim o fruto necessário das “contradições internas” do próprio capitalismo e blá, e blá, e blá

Um discurso de Zé Dirceu em tempos de centro acadêmico, em outras palavras. O da Papuda já não o repetiria sem piscar marotamente um olho e pôr um sorriso cínico nos lábios…

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Mas vai mais longe o homenzinho que o NYT leva tão à sério. Ele tem o requinte de afirmar que o “hiato” de justiça social e justa distribuição da renda vividos pelos Estados Unidos entre 1914 e 1973 – 60 longos anos! – deveu-se às guerras mundiais, à crise de 29 e a outros terremotos que fizeram os ricos perder dinheiro, veja você!

Não foi a condição dos pobres de ganhá-lo que melhorou. Não foi a extinção das mumunhas entre os donos do poder e os donos do dinheiro, essas duas invenções do diabo para catar gente para os seus porões, que as proporcionou. Não foi o triunfo do merecimento sobre a corrupção que fez a mágica.Tudo aquilo que compôs o “sonho americano” não aconteceu de fato; foi só uma ilusão que afetou misteriosamente milhões de trouxas dispostos a morrer por ela em territórios alheios pelo mundo afora.

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A coincidência exata de datas entre a única ocasião em que o Estado e o Capital foram forçados pela conquista de instrumentos de democracia direta pelo povo dos Estados Unidos da América como o voto distrital com recall entre outros, mediante as reformas da Progressive Era encerradas precisamente em 1914, a permanecer afastados um do outro respeitando estritamente a fronteira entre as funções de cada um, especialmente na ordem econômica, e o maior surto de progresso vivido pela humanidade em todos os tempos não sugere sequer uma hesitação a este honesto “pensador”.

Não, monsieur Pikkety não faz concessões aos conceitos de causa e efeito. Sugere um “imposto global” para tirar dinheiro dos ricos e entregá-lo aos pobres, como estes que o PT nos impõe, de quase 40% do PIB na entrada que viram 1 ou 2% do PIB na saída da esmola do Bolsa Família e deixam esta Brasília morbidamente obesa e os vendedores de “assesso” aos cofres e obras “públicos” ainda fora da Papuda podres de ricos pelo meio do caminho. Ele quer insistir nesse remédio que todo o mundo que permaneceu onde estava em 1914 ao longo de todo o século 20 seguiu usando.

Admite, entretanto, que é impossível coordenar o mundo de hoje em torno desse “imposto global” e que portanto, pela falta dele, a democracia não resistirá.

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De modo que para apaziguar-me a urticária intelectual só resta mesmo correr de volta para o unguento do bom senso honesto do professor Fabio Barbieri, também recentemente citado aqui.

É ele que nos lembra que “não existe a dicotomia capitalismo-socialismo mas sim economias em pontos variados da distância que separa as quimeras teóricas da economia pura de mercado x a economia totalmente planificada”; que o poder de legislar sobre assuntos econômicos “abre a caixa de Pandora da dedicação à busca de privilégios legalizados”; que essa “pilhagem legalizada” elevada à condição de profissão dos poderosos gera um impulso permanente ao crescimento do Estado e da sua interferência nos mercados para aumentar os ganhos desses mercenários e que, quando essa pilhagem sistemática finalmente leva uma economia nacional à breca, logo surgem os intelectuais que vivem à sombra do Estado para dizer que o fracasso foi do capitalismo e do mercado e não da intervenção do Estado que mandou os dois a escanteio e que, portanto, é preciso mais intervenção…

Sobre aquele “hiato” de 60 anos, os únicos da história da humanidade durante os quais vigorou o capitalismo democrático num canto do mundo que por isso se tornou mais rico e mais sábio que todo o resto do planeta somado,  diz o dr. Barbieri, agora com mais sobradas razões, que foi mesmo um hiato, nada mais que um hiato: “o intervencionismo, em outros tempos chamado de mercantilismo, não é transitório mas sim a forma de organização social mais estável da História”, c.q.d.

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Bye, bye, Paraguai

2 de dezembro de 2013 § 3 Comentários

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Outro dia foi a China que anunciou que está saindo de onde o PT quer entrar.

Na semana passada, quem diria, quem passou por nós na contramão e dando adeus às Venezuelas e às Cubas dos sonhos do PT, foi o Paraguai que, na quinta-feira 28, acabou com a imunidade parlamentar dos seus senadores – ou melhor, com aquela parcela dela que é abusiva e antidemocrática – depois de duas semanas de rebelião aberta contra a decisão anterior, do dia 14, quando 23 dos colegas do senador punido votaram a favor da sua permanência impune no Senado.

Victor Bogado, do Partido Colorado, tinha a babá de seus filhos ganhando dois salários – um pela Câmara dos Deputados e outro pela Itaipu Binacional – e foi um dos primeiros a ter seus podres publicados no novo site da internet criado pelo presidente Horácio Cartes, do seu próprio partido, para prestar contas sobre gastos públicos e dar transparência ao que se passa dentro do governo.

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Pouco depois da votação espúria, um dos parlamentares que votou pela impunidade do senador alegando a imunidade parlamentar entrou numa pizzaria para jantar.

Foi o estopim. Ele foi expulso sob vaias e palavrões e, por pouco, não foi agredido pelo público.

Daí por diante foi como uma epidemia. Restaurantes, bares, comércios, shoppings centers e até estádios de futebol e hospitais (estes abrindo exceções só para emergências) começaram a por cartazes na porta anunciando que “não atendemos ratos neste estabelecimento”. A única exceção foi uma funerária que pôs anúncios nos jornais dizendo que receberia qualquer um dos traidores “com todo o prazer”.

O povo montou uma vigília na frente do Congresso e um site foi abeto na internet com fotos dos 23 traíras e acompanhamento diário dos seus passos.

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Em duas semanas nova votação foi convocada, a imunidade do senador caiu e ele foi cassado.

Nesse meio tempo Genoíno ia para casa e José Dirceu passava a ganhar R$ 20 mil por mês para conspirar contra a democracia brasileira do jeito a que já está acostumado, enquanto todos os partidos de algum peso fechavam as portas para a admissão de Joaquim Barbosa como seu candidato em 2014.

O Paraguai esteve 35 anos sob a ditadura de Alfredo Stroessner, 14 anos a mais que os nossos ditos “de chumbo”. Nunca experimentou nada que lembrasse remotamente uma democracia digna desse nome.

E no entanto, taí respirando novos ares graças às novas condições de circulação da informação e articulação da resistência civil.

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E o Brasil?

Algo de muito semelhante ocorreu aqui no mês de junho deste ano. Mesmo com todo o marasmo em que vive a nossa política, bastou que alguém agitasse uma bandeira – no caso o STF com as condenações do Mensalão – e o povo se levantou com força suficiente para por o “Sistema” em pânico.

Mas nenhuma força organizada deu sequência ao movimento o que ensejou que os profissionais do golpe armassem a sequência de quebras-quebras que tirou a gente séria das ruas.

Se tivesse havido uma única voz disposta a puxar a fila, ela seguiria andando. Mas você pode virar e revirar os nossos 32 “partidos de esquerda”, inclusive os “de oposição” e seus milhares de candidatos; ver e rever o horário eleitoral e não encontrará rigorosamente nada que escape daquela tapeação vergonhosa que conhecemos, ofensiva à nossa inteligência de tão rasa e explícita.

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Pior, você pode revirar todos os jornais, ouvir todas as rádios, ver todos os programas jornalísticos da TV, e nada que não sejam esses próprios candidatos e o que uns estão dizendo sobre os outros lhe será apresentado. Haverá até quem afirme gostar e quem afirme não gostar deste ou daquele entre eles. Mas sugestão nova, propostas ou reportagens sobre modos diferentes de gerir a coisa pública; informações sobre como os outros que dão certo estão fazendo isso, zero!

Mesmo os acontecimentos do Paraguai tiveram uma cobertura menor que um reles desastre de trem em Nova York.

Não há exemplo histórico de processos como o brasileiro que tenham sido revertidos senão por dois tipos de expedientes: uma iniciativa forte do Poder Judiciário ou a articulação de propostas novas e campanhas para levá-las a efeito protagonizadas pela imprensa. Ou então essas duas coisas junto.

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O voto distrital com recall foi um dos instrumentos que foi criado assim e tem currículo mais brilhante no rol das revoluções pacíficas da humanidade. Tem mudado mundos e fundos nos últimos dois séculos e está aí esperando quem a tome para mudar o Brasil.

Mas, até agora, a única figura institucionalmente forte que vi pregar esse remédio no Brasil foi – adivinhe! – o ministro Joaquim Barbosa aquele que, pela primeira vez em nossa história, pôs essa bandidagem da porta da prisão para dentro, ainda que tenha sido impedido de trancá-la.

Aécio Neves, esse alegre candidato “de oposição” em busca de um discurso, é um dos que se adotasse este, correria o sério risco de, pela primeira vez na vida, dizer alguma coisa que valesse a pena ser ouvida.

a5APRENDA TUDO SOBRE VOTO DISTRITAL COM RECALL NESTE LINK

É a sustentabilidade, seus idiotas!*

3 de dezembro de 2012 § 1 comentário

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Esse negócio de incentivos pontuais ao emprego e ao consumo aqui e ali, ao sabor das eleições, não convence quem investe a longo prazo porque é manifestamente insustentável.

O governo é o primeiro a afirmar isso, alias, já que as medidas vêm com prazo de validade curtinho, o que é uma confissão de que são uma enganação e não mudança pra valer de uma conjuntura intrinsecamente adversa ao desenvolvimento sustentado.

É como se o governo dissesse: “Sim, admitimos que com o ambiente que criamos (de desvario tributário, de infraestrutura sucatada, de burocracia paralizante, de educação em frangalhos, etc.) é impossível sobreviver no mercado globalizado e por isso vamos dar um alívio temporário em alguns dos componentes desses custos letais para a competitividade do produto nacional de modo a prolongar um pouco a vossa agonia”.

Mas continua recusando-se a extirpar o cancer.

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Nunca tivemos juros reais tão baixos, cambio tão alto e economia indo tão mal ao mesmo tempo.

Por que?

Porque, como indicam os números dos aportes do Tesouro para o BNDES que começaram de leve em 2009 a título de medida para combater a crise mundial e, em dois anos, saltaram para 51% do que o banco empresta hoje, pesando o financiamento desse ralo mais de 20% da divida pública (veja matéria completa no Valor), não ha mais como sustentar esse tipo de “espetáculo do crescimento“.

Os números do PIB divulgados sexta-feira apontam para uma expansão do consumo das famílias, em 12 meses, de 3,4% enquanto a produção industrial, mesmo turbinada com reduções de IPI e juros subsidiados, caiu 0,9% e os investimentos privados (- 2%) seguem diminuindo.

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Estamos financiando consumo com endividamento publico e só quem lucra com isso são os chineses que fabricam a tralha que encanta a “nova classe media”. A indústria nacional não consegue dar conta da demanda e o governo corre pra lá e pra cá atras dos fatos, apagando incêndios.

Isso agrava o clima de desconfiança que é o veneno que mata os investimentos.

Está chegando a hora da verdade. O PT terá de escolher entre o fim da festa da “companheirada” e dos “aliados mercenários” e o fim da festa da “nova classe media” que sustenta os índices de popularidade dos seus presidentes.

Já lá vão 10 anos queimando reservas pra ir distribuindo “poder de consumo” e empurrando as reformas estruturais com a barriga.

Acabou!

Sem reformas pra valer não vai.

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* It’s the economy, stupid“, foi a frase que James Carville, diretor da campanha de Bill Clinton contra George W. Bush, colocou num cartaz na parede para que a equipe focasse naquilo que realmente interessava.

Um dia ainda daremos a sorte de ter azar!

18 de setembro de 2009 § Deixe um comentário

dadosAcabaram as anestesias monetárias; agora só reformas de base podem alterar esse rumo.

É isso que quer dizer a notícia de que, pela primeira vez em 31 anos (desde 1978), as commodities (grãos e minérios, que geram pouco emprego e têm preços instáveis e fora do controle humano) ultrapassaram os manufaturados (que geram muito emprego e têm preços estáveis e controláveis pelo homem) na pauta de exportações brasileiras.

Como diz o presidente da Associação Brasileira da Industria Elétrica e Eletrônica, com “um quilo de notebook valendo quatro toneladas de carne”, não adianta se fiar em commodities no mundo de hoje. Nem no mundo de ontem, aliás. Nos anos 30, cada oscilação do preço do café, nosso único item de exportação, acabava numa crise para o Brasil…

Por baixo do discurso da marolinha que já passou, o governo já caiu na real sobre a importância dessa ameaça. Embora ainda não o confesse com todas as letras, Lula já percebeu que começa a ficar muito dificil evitar que a crise da industria entre em cena com toda a força com que vem vindo antes de outubro de 2010, e se transforme no grande tema da reta final da campanha eleitoral.

Se Deus fosse mesmo brasileiro, faria com que, em vez de olhar só pra esse aspecto, Lula tivesse uma iluminação e metesse na cabeça de entrar para a história como o homem que, realmente, mudou o rumo das coisas no Brasil. Afinal, ele é a única pessoa, no horizonte discernível para os próximos muitos e muitos anos, que poderia contrariar os interesses que vão se opor a que o Brasil, finalmente, faça reformas para aumentar para sempre nossa eficiência econômica. Se com o PT no poder isso é altamente improvavel, com o PT na oposição é rigorosamente impossível…

Os políticos só se movem na direção certa quando se torna impossível seguir na direção errada. E por isso seria melhor que não houvesse nenhum amortecedor e sentíssemos, de uma vez e com força total, todos os efeitos dos nossos defeitos, para que melhorasse a disposição nacional para corrigí-los.

Mas Deus não é brasileiro. Antes da crise, o mundo andava a tal velocidade para a frente que vencia a nossa marcha para traz, dando a impressão de que andavamos para a frente. No que diz respeito às exportações, o consumo mundial estava tão desenfreado que o Brasil, aumentando o valor do dólar, conseguia compensar a absoluta inapetência dos nossos governantes e políticos para fazer reformas estruturais, já que preço não era problema: tudo estava em alta.

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Mesmo carregando Brasilia nas costas, a industria conseguia exportar. E a pressão por reformas esvaziou…

Assim que a crise tirou esse anestésico de cena a industria brasileira sentiu o baque. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que está entre as pouquissimas pessoas do alto escalão do governo que (por enquanto) não vive de voto, sabe que ela não agüenta muito tempo na míngua em que anda e que as armas do seu arsenal para mudar esse quadro estão esgotadas. O dólar veio de uma paridade de 2,33 para cada real, em dezembro de 2008, para os 1,80 de hoje. São quase 23% a menos. O que significa que, no auge da crise, quando está todo mundo economizando tostões, o preço dos produtos da industria brasileira subiu 23% lá fora. Por isso ele tem alertado todos os dias a “perda de competitividade da industria brasileira”.

Mas seus alertas não batem nos políticos porque a alta do preço das commodities está anestesiando o efeito da perda de mercado dos manufaturados nas contas gerais da Nação e as isenções temporárias de impostos estão dando um fôlego extra para alguns setores da industria. Isso permite que Lula e o Congresso sigam empurrando as reformas com a barriga, acentuando nossos problemas com a criação novas fontes permanentes de gastos, a redução do investimento em infraestrutura e a multiplicação dos discursos de louvação à irresponsabilidade.

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Mas enquanto “o cara” encanta o mundo, o fosso em que está caindo a industria se aprofunda. Alem da alta das commodities, outros canais de entrada de dólares fora do controle do governo estão engrossando diariamente. A Bolsa de Valores é um. Mas existe outro, de que se fala muito pouco, que é ainda mais incontrolável. A crise fez os países centrais abaixarem para quase zero o seu juro. O nosso também caiu mas, proporcionalmente ao dos países centrais, continua muito alto. Assim, toneladas de dólares que antes estavam no abrigo seguro dos títulos do Tesouro americano, hoje saíram de lá para procurar remunerações melhores. Uma parte são estes que fazem a Bolsa brasileira subir a alturas que não correspondem ao desempenho das empresas vendidas lá. Outra parte vem meio por baixo do pano. Fundos de investimento de todos os tipos e financeiras do mundo inteiro, remuneram os seus cotistas girando muitas centenas de bilhões de dólares naquilo que o jargão financeiro chama de “arbitragem”: tomam dinheiro emprestado onde o juro é muito baixo e compram títulos de países onde o juro é muito alto, embolsando a diferença sem fazer força. É uma bola de neve gigante, impossivel de deter, que ajuda a acentuar a alta das commodities (via bolsas) e infla ainda mais o real.

É nesse vácuo que os concorrentes do Brasil, especialmente os tigres asiáticos e a China, avançam. A crise aumentou a capacidade ociosa das industrias do mundo inteiro e levou a um acirramento da concorrência. Os preços caem e nossa industria já não consegue disputar nem o mercado interno, invadido pelos asiáticos. Com os maiores impostos e os maiores juros do mundo e a infra-estrutura mais cara e sucatada nas áreas de transporte e educação, para citarmos apenas os mais penalizados em relação aos dos concorrentes, eles conseguem dar meia volta ao mundo e chegar aqui mais baratos que os fabricados aqui ao lado com mão de obra mal educada, sobrecarregados de impostos e tendo de chegar ao mercado de caminhão por estradas esburacadas. Nossa mão de obra é tão cara quanto a dos países centrais, mas não é o trabalhador brasileiro que custa caro. É o governo. Assim, ficamos só com o lado ruim: produtos caros e mercado interno fraco porque não é salário, é imposto que faz a nossa mão de obra cara.

E o pior é que esses impostos viram cargos e não obras…

O governo, no entanto, mascara os efeitos de tudo isso distribuindo dinheiro publico com expedientes assistencialistas (aqueles que remediam temporariamente mas não curam), o que dá a impressão de que o mercado interno está crescendo. É irresistivel: o miserável vai pela primeira vez às compras e fica eternamente grato; o comércio cala a boca porque passa a ganhar algum; o Lula olha as pesquisas e acredita sinceramente que é genio…

A conta já está chegando. Pra começar, mudaram a regra porque ela não cabia mais na obrigação de superavit que havia. Está ruindo a obra mais importante de FHC, que foi a (temporaria) obrigação de responsabilidade fiscal. E lá vêm, de volta, os impostos mortos e os impostos novos, causa mortis da industria, pra ver se dá pra levar tudo isso até a eleição com o nariz fora d’água.

Sei lá…

Talvez um dia o Brasil dê a sorte de ter azar!

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