Um dia ainda daremos a sorte de ter azar!

18 de setembro de 2009 § Deixe um comentário

dadosAcabaram as anestesias monetárias; agora só reformas de base podem alterar esse rumo.

É isso que quer dizer a notícia de que, pela primeira vez em 31 anos (desde 1978), as commodities (grãos e minérios, que geram pouco emprego e têm preços instáveis e fora do controle humano) ultrapassaram os manufaturados (que geram muito emprego e têm preços estáveis e controláveis pelo homem) na pauta de exportações brasileiras.

Como diz o presidente da Associação Brasileira da Industria Elétrica e Eletrônica, com “um quilo de notebook valendo quatro toneladas de carne”, não adianta se fiar em commodities no mundo de hoje. Nem no mundo de ontem, aliás. Nos anos 30, cada oscilação do preço do café, nosso único item de exportação, acabava numa crise para o Brasil…

Por baixo do discurso da marolinha que já passou, o governo já caiu na real sobre a importância dessa ameaça. Embora ainda não o confesse com todas as letras, Lula já percebeu que começa a ficar muito dificil evitar que a crise da industria entre em cena com toda a força com que vem vindo antes de outubro de 2010, e se transforme no grande tema da reta final da campanha eleitoral.

Se Deus fosse mesmo brasileiro, faria com que, em vez de olhar só pra esse aspecto, Lula tivesse uma iluminação e metesse na cabeça de entrar para a história como o homem que, realmente, mudou o rumo das coisas no Brasil. Afinal, ele é a única pessoa, no horizonte discernível para os próximos muitos e muitos anos, que poderia contrariar os interesses que vão se opor a que o Brasil, finalmente, faça reformas para aumentar para sempre nossa eficiência econômica. Se com o PT no poder isso é altamente improvavel, com o PT na oposição é rigorosamente impossível…

Os políticos só se movem na direção certa quando se torna impossível seguir na direção errada. E por isso seria melhor que não houvesse nenhum amortecedor e sentíssemos, de uma vez e com força total, todos os efeitos dos nossos defeitos, para que melhorasse a disposição nacional para corrigí-los.

Mas Deus não é brasileiro. Antes da crise, o mundo andava a tal velocidade para a frente que vencia a nossa marcha para traz, dando a impressão de que andavamos para a frente. No que diz respeito às exportações, o consumo mundial estava tão desenfreado que o Brasil, aumentando o valor do dólar, conseguia compensar a absoluta inapetência dos nossos governantes e políticos para fazer reformas estruturais, já que preço não era problema: tudo estava em alta.

export

Mesmo carregando Brasilia nas costas, a industria conseguia exportar. E a pressão por reformas esvaziou…

Assim que a crise tirou esse anestésico de cena a industria brasileira sentiu o baque. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que está entre as pouquissimas pessoas do alto escalão do governo que (por enquanto) não vive de voto, sabe que ela não agüenta muito tempo na míngua em que anda e que as armas do seu arsenal para mudar esse quadro estão esgotadas. O dólar veio de uma paridade de 2,33 para cada real, em dezembro de 2008, para os 1,80 de hoje. São quase 23% a menos. O que significa que, no auge da crise, quando está todo mundo economizando tostões, o preço dos produtos da industria brasileira subiu 23% lá fora. Por isso ele tem alertado todos os dias a “perda de competitividade da industria brasileira”.

Mas seus alertas não batem nos políticos porque a alta do preço das commodities está anestesiando o efeito da perda de mercado dos manufaturados nas contas gerais da Nação e as isenções temporárias de impostos estão dando um fôlego extra para alguns setores da industria. Isso permite que Lula e o Congresso sigam empurrando as reformas com a barriga, acentuando nossos problemas com a criação novas fontes permanentes de gastos, a redução do investimento em infraestrutura e a multiplicação dos discursos de louvação à irresponsabilidade.

dolar

Mas enquanto “o cara” encanta o mundo, o fosso em que está caindo a industria se aprofunda. Alem da alta das commodities, outros canais de entrada de dólares fora do controle do governo estão engrossando diariamente. A Bolsa de Valores é um. Mas existe outro, de que se fala muito pouco, que é ainda mais incontrolável. A crise fez os países centrais abaixarem para quase zero o seu juro. O nosso também caiu mas, proporcionalmente ao dos países centrais, continua muito alto. Assim, toneladas de dólares que antes estavam no abrigo seguro dos títulos do Tesouro americano, hoje saíram de lá para procurar remunerações melhores. Uma parte são estes que fazem a Bolsa brasileira subir a alturas que não correspondem ao desempenho das empresas vendidas lá. Outra parte vem meio por baixo do pano. Fundos de investimento de todos os tipos e financeiras do mundo inteiro, remuneram os seus cotistas girando muitas centenas de bilhões de dólares naquilo que o jargão financeiro chama de “arbitragem”: tomam dinheiro emprestado onde o juro é muito baixo e compram títulos de países onde o juro é muito alto, embolsando a diferença sem fazer força. É uma bola de neve gigante, impossivel de deter, que ajuda a acentuar a alta das commodities (via bolsas) e infla ainda mais o real.

É nesse vácuo que os concorrentes do Brasil, especialmente os tigres asiáticos e a China, avançam. A crise aumentou a capacidade ociosa das industrias do mundo inteiro e levou a um acirramento da concorrência. Os preços caem e nossa industria já não consegue disputar nem o mercado interno, invadido pelos asiáticos. Com os maiores impostos e os maiores juros do mundo e a infra-estrutura mais cara e sucatada nas áreas de transporte e educação, para citarmos apenas os mais penalizados em relação aos dos concorrentes, eles conseguem dar meia volta ao mundo e chegar aqui mais baratos que os fabricados aqui ao lado com mão de obra mal educada, sobrecarregados de impostos e tendo de chegar ao mercado de caminhão por estradas esburacadas. Nossa mão de obra é tão cara quanto a dos países centrais, mas não é o trabalhador brasileiro que custa caro. É o governo. Assim, ficamos só com o lado ruim: produtos caros e mercado interno fraco porque não é salário, é imposto que faz a nossa mão de obra cara.

E o pior é que esses impostos viram cargos e não obras…

O governo, no entanto, mascara os efeitos de tudo isso distribuindo dinheiro publico com expedientes assistencialistas (aqueles que remediam temporariamente mas não curam), o que dá a impressão de que o mercado interno está crescendo. É irresistivel: o miserável vai pela primeira vez às compras e fica eternamente grato; o comércio cala a boca porque passa a ganhar algum; o Lula olha as pesquisas e acredita sinceramente que é genio…

A conta já está chegando. Pra começar, mudaram a regra porque ela não cabia mais na obrigação de superavit que havia. Está ruindo a obra mais importante de FHC, que foi a (temporaria) obrigação de responsabilidade fiscal. E lá vêm, de volta, os impostos mortos e os impostos novos, causa mortis da industria, pra ver se dá pra levar tudo isso até a eleição com o nariz fora d’água.

Sei lá…

Talvez um dia o Brasil dê a sorte de ter azar!

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