O Brasil de mãos ao alto

20 de setembro de 2009 § 4 Comentários


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O Globo de sabado informa que quatro dos mais perigosos facínoras do Rio de Janeiro – chefes de quadrilhas organizadas de assassinos e traficantes – estão prestes a ser soltos por força desse monumento à hipocrisia institucionalizada; desta ode ao absurdo que é o nosso regime de “Progressão de Penas”.

O de hoje, segunda-feira, acrescenta que o traficante Elias Maluco, que retalhou a espada o jornalista Tim Lopes em 2002, tambem está prestes a voltar para as ruas. Quando ele trucidou o jornalista, aliás, já estava solto em função de “progressão da pena” recebida por crimes anteriores.

Em qualquer país civilizado um bandido condenado e que estivesse sob a guarda do Estado perpetrar uma barbaridade como esta derrubava o governo. Neste país que se acostumou a apanhar, é um fato que se repete tanto que nem os jornalistas cuidam mais de destacá-lo, embora em quase todo crime bárbaro que se pratica por aqui esteja envolvido alguem que a polícia prendeu e a Justiça soltou.

Ha décadas que eu repito a frase de um ex-comandante da PM de São Paulo que me dizia – e provava – que o Brasil era mantido em estado de sítio por não mais de algumas centenas de bandidos realmente perigosos, a maioria dos quais a polícia já tinha prendido mais de uma vez, mas que a Justiça devolvia às ruas.

Taí…

Os termos da notícia de sabado denunciam o grau do descalabro de que somos vítimas.

Sabem quem são os caras?

Ninguém menos que aqueles três que, de tão perigosos, não podiam ficar no Rio nem presos. Quando o governo do Paraná os tirou da Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Catanduvas, os meteu num avião e despachou de volta para o Rio, foi aquele perereco. Um empurra-empurra entre os dois governadores que envolveu dois aviões, três operações de pouso e decolagem, sete horas de voos e 20 horas de discussões sob o olhar incrédulo de uma Nação acuada pelo crime organizado.

O Estado carioca não só confessava a sua impotência para manter três bandidos fora das ruas como expressava francamente o pânico que lhe causava a perspectiva de que eles ficassem em um presídio a menos de um mínimo de dois Estados de distância das suas “bases”.

isaias do borelfu do zincomy thor

Já naquela altura, como sói acontecer em tudo que faz o Poder Publico no Brasil, entraram nas considerações das autoridades que decidiram manda-los de volta ao Rio tudo menos o interesse dos habitantes do Brasil real. O governo do Paraná alegou que os bandidos não tinham cometido “infrações disciplinares” em Catanduvas, o que “justificaria a permanência deles naquele presídio”, nem o governo do Rio “forneceu informações adicionais que justificassem a necessidade de mantê-los lá por mais tempo”…

O fato de “My Thor” (Marco Antonio Firmino Pereira da Silva, à direita) ser conhecido como “O Bandido da Machadinha” por ser esta a sua arma preferida para decapitar suas vítimas nas guerras do tráfico, é mero detalhe. Não entrou nas considerações então, nem entra nas considerações agora, das autoridades que prometem devolvê-lo às ruas.

Sabem o que é que conta?

Essa fera “comprovar que tem um emprego em vista quando sair da prisão”!! Basta isso para que o bom sr. Pereira da Silva reivindique o seu “direito cidadão” de cumprir apenas um sexto da pena e voltar em paz para a rua e para as machadinhas.

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As contas sobre essas penas divisíveis por seis , então, são o samba do crioulo doido. Junto com “My Thor” nossa Justiça pretende soltar Isaias do Borel (à esquerda), chefe de toda uma facção criminosa, Ricardo Chaves Castro de Lima, o “Fu da Mineira” (centro), tambem chefe de quadrilha do tráfico, e Marcio Candido da Silva, o “Porca Russa”, um dos maiores sequestradores já registrados pela crônica policial carioca.

Os três primeiros, em dezembro de 2006, comandaram de dentro da Penitenciária de Segurança Máxima de Bangu 1 uma onda de terror na cidade do Rio de Janeiro que resultou em 11 mortos, mais de 30 feridos e 11 ônibus incendiados. Foi para evitar que continuassem comandando “bondes” de dentro da prisão na nossa colômbia particular que o governador do Rio, rendido, os despachou para o Paraná.

Nada de novo.

Exportar seus criminosos por falta de condições de controlar seus próprio presídios é uma regra em quase todos os Estados brasileiros. Até Alkmin, São Paulo era das unicas exceções. Hoje não sei. É o que acontece nos países onde os funcionários publicos são indemissíveis: corrupção fora de controle.

Enfim…

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“Fu da Mineira”, com 22 crimes na ficha, foi condenado a 89 anos e já cumpriu 16. Ainda consta no Ministério Publico um mandado de prisão contra ele em aberto, mas isso não tem importância. Isaias do Borel foi condenado a 36  e cumpriu 18. “My Thor” pegou 27. Mas a legislação brasileira tem duas particularidades que tornam sem sentido as sentenças que ela própria emite. Uma diz que não será cumprida nenhuma pena maior que 30 anos. A outra, que é a que realmente vigora, diz que todo mundo pode se ver livre, mesmo das culpas mais hediondas, depois de cumprido um sexto dessa pena, ou seja, 5 anos, desde que alguém lá fora diga que lhe dá um emprego.

Não é fantástico!

Em relação ao que costuma acontecer com presos menos notórios mas não menos facinorosos, portanto, estamos no lucro somente no que diz respeito a Isaias que cumpriu metade da sua pena, coitado!

Na semana passada soltaram “Polegar”, o chefe do tráfico da Mangueira, sob a alegação de que teve “um comportamento excepcional” enquanto esteve preso. O juiz encarregado do seu caso, entretanto, disse ao Globo, com todas as letras, que ele já tinha direito à progressão desde agosto de 2007, mas que ele “conseguira mantê-lo sem desfrutar do benefício em função de processos referentes a quatro assassinatos de que ele participou na cadeia durante a chacina que culminou com a morte do rival Uê, em Bangu 1, ha sete anos”. “Polegar” de fato se comportou “excepcionalmente” na cadeia. Para quem tiver estomago para tanto, as fotos sobre esse massacre estão na internet: corpos queimados, retalhados e decapitados…

Não é um show?!

O Brasil vive de mãos ao alto graças ao velho vício instilado pelo modelo jesuíta de educação, aquele em que não se interroga a realidade em busca de provas das nossas hipóteses mas, ao contrário, trata-se de enquadrar a realidade às “verdades” que elegemos previamente, por mero exercício dialético e dedutivo.

É em função disso que se nega a realidade de que 99,9% dos miseráveis do Brasil são pessoas honestas e trabalhadoras para se afirmar a “verdade” previamente formulada de que o crime é consequência da pobreza. É em função disso que se nega a realidade de que algumas pessoas são diabólicas e seguirão sendo assim, para se afirmar a verdade idealmente estabelecida de que todos são igualmente remissíveis (se tiverem um emprego, bem entendido…) não importa a monstruosidade que tenham cometido. É em função disso que se privilegia o criminoso, “vítima da desigualdade”, coitado, e se esquece a vítima que, afinal de contas, possuia o que se quisesse roubar.

Afeito aos conceitos absolutos, às generalizações e à adjetivação moral das questões práticas, o esquema jesuíta de pensar não perde tempo com nuances; aponta as prisões cheias de ladrões de galinha pagando penas só merecidas por monstros para justificar que os monstros paguem penas de ladrões de galinha.

E fiá’da puta de quem disser o contrário!

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