Confusões filosóficas do doutor Ciro
21 de setembro de 2009 § Deixe um comentário
Ontem, no Canal Livre da Band, o deputado-candidato Ciro Gomes defendeu o tratamento que se dá hoje aos menores infratores “enquanto este país não puder dar pra todo mundo educação e perspectiva de vida decente”. Não sei se foram estas exatamente as palavras, mas era algo por aí. “Infração”, referida a menores de idade é, como se sabe, uma expressão que pode significar qualquer coisa, de roubo de galinha a chacina de gente, neste Brasil do tudo menos responsabilização…
Na mesma entrevista, denunciou o preconceito que é se considerar as favelas e morros cariocas como antros de crime. Disse que 90% de quem mora nelas é trabalhador e 10% é gente que explora essa maioria usando uma mistura de assitencialismo e terror.
Eu, no artigo aí embaixo, fui menos preconceituoso que ele. Pus 99,9% do lado do bem. Mas o que importa é que esta segunda afirmação é, na prática, a denuncia da falácia da primeira. Porque se 90% dos miseráveis não usam sua miséria como desculpa para cair no crime, é mentira que os que caem, caem involuntariamente, empurrados pela miséria (que, por sua vez, segundo sua excelência, é uma espécie de construção deliberada das “elites golpistas” e não da politicalha bandalha).
Outra estatística eloquente foi deixada de lado pelo candidato a presidente. Ela mostra que mais de 90% dos assassinatos praticados no Estado do Rio de Janeiro ficam impunes. Nunca se descobre o culpado. No resto do Brasil é daí para pior.
Qualquer sujeito intelectualmente honesto suspeitaria, a partir desse dado, sobretudo se cruzado com o outro, que existem muito mais razões na nossa realidade concreta para se acreditar que os 10% que matam, arrebentam e barbarizam os outros 90% honestos nas favelas (que são suas vitimas preferenciais e não a “zelites”), fazem isso porque são covardes e filhos da puta e, sobretudo, porque sabem que vão ficar impunes. Mas apesar da sugestão dos jornalistas que o entrevistavam de que talvez a coisa fosse assim, ele insistia em ver uma relação de causalidade onde as estatísticas a negam, e em não ver relação de causalidade onde as estatísticas a afirmam…
Mais pra frente, Ciro Gomes fez mais um relato que apoia a conclusão acima. Falou do programa Ronda do Quarteirão que seu irmão está aplicando em Fortaleza e que está dando os resultados que se espera do aumento do policiamento e, consequentemente, da redução da impunidade, qual seja, a queda dos indices de criminalidade sem que a pobreza cearense tenha se movido um milímetro para baixo ou para cima. Reclamou, até, de que a “imprensa golpista” (porque noticia mensalões, farra das passagens e outras coisas do genero) não tenha registrado esse sucesso. Usou isso como uma espécie de prova adicional da má fé que imputa a essa imprensa.
Coincidentemente O Globo de hoje, que estava nas rotativas quando ele fazia essas declarações, traz matéria bastante bem feita sobre o sucesso do modelo adotado em Fortaleza e mostra um lado dele que o deputado-candidato não chegou a mencionar ontem.
A grande novidade do sistema em funcionamento em Fortaleza não é, exatamente, o policiamento comunitário, que já foi experimentado em vários lugares Brasil afora. É o cerco eletrônico que os Gomes fizeram aos policiais lá no feudo deles, para torná-los responsabilizaveis pelos seus atos (“accountable“, para usarmos a expressão-chave da democracia americana que nem tradução exata em português tem): os moradores recebem o numero do celular de cada policial e, nas emergências, chamam diretamente o do seu quarteirão, em vez de chamar a central; os chamados, gravados, têm de ser atendidos em no máximo cinco minutos; os veiculos em que os policiais fazem a ronda são rastreados por satélite e só podem andar dentro do perimetro que lhes foi atribuído; têm compurtador e rádio a bordo mas, mais importante de tudo, carregam duas cameras permanentemente ligadas mostrando tudo que acontece à frente e na traseira do veículo; mais duas cameras serão colocadas olhando pra dentro do veículo, pra ver o que os policiais estão fazendo…
O resultado, como não poderia deixar de ser, é uma beleza.
Sabendo que acabou a impunidade pra violência policial, o relaxo, o desleixo o suborno e a corrupção; sabendo que agora a luz está acesa os policiais foram obrigados a abandonar as práticas que usavam no escuro e estão trabalhando como o contribuinte gostaria que todo funcionario publico e todo político trabalhasse, o que vem reforçar a relação de causa e efeito acima sugerida: basta suspender a impunidade para as coisas passarem a funcionar.
Enfim, todos os fatos que o sr. Gomes relatou desmentiam as premissas de que partia e, mais especialmente, as conclusões a que chegava. Se com “imprensa golpista” o esculacho em Brasilia é o que é, imagine sem. Se tivessemos uma imprensa mais eficiente do que ela é hoje na fiscalização dos nossos representantes e servidores e fizessemos com todos eles o que os Gomes estão fazendo com os policiais do Ceará, esse país decolava reto pro Primeiro Mundo.
Mas como a impunidade é que é a regra, defendida de viva voz até pelos cadidatos a presidente que lá, na seara deles, acabaram com ela pelo menos pros policiais, ficamos onde estamos.



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