Robin Hood revisitado

25 de junho de 2019 § 12 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 25 de junho de 2019

Robin Hood jamais roubou dos ricos para dar aos pobres. Essa é uma releitura “marxistizada” do herói arquetípico inglês. Robin Hood roubava do Estado para devolver aos pobres o que o Estado lhes tinha roubado. João Sem Terra, o usurpador do trono, e seu odioso coletor de impostos, o xerife de Nottingham, é que eram os seus alvos recorrentes.

Não é um pormenor sem importância. É precisamente aí que os caminhos da humanidade se dividem para nunca mais se reencontrar.

Não é só por questão de gosto que na Inglaterra os castelos (e as igrejas) são de pedra e madeira e os franceses, russos, espanhóis ou portuguêses (assim como suas igrejas) são de ouro. Desde a Carta Magna de 1215, o rei inglês vem sendo mantido sempre e cada vez mais “pobre” e mais dependente do Parlamento para manter seus luxos e sustentar suas guerras. Cada novo pedido de recursos foi negociado em troca de uma garantia a mais de proteção da propriedade de quem só tinha de seu a força de trabalho contra o poder do rei de tomar para si o produto dele até que, a partir de 1680, o Parlamento e o povo já tivessem alcançado a supremacia que têm hoje.

Ao contrário das culturas latinas que da submissão à Igreja saltaram diretamente para a submissão ao absolutismo monárquico onde a propriedade é a peça chave de um sistema totalitário de opressão, na cultura saxônica o direito de propriedade decorre da luta quase milenar entre os representantes dos despossuidos e um déspota e transforma-se na principal ferramenta de libertação do indivíduo pelo trabalho. Vem com ela a responsabilidade individual pois, onde a propriedade não é um privilégio dos protegidos do rei, quem a detém é compelido pelo mercado a volta-la para a melhor satisfação do consumidor, sob pena de perde-la se for lento ou inepto no processo.

Foi por nunca ter tido vitórias contra o poder estabelecido “por deus” ou pelo sangue que ele tivesse “tornado azul” que a desesperança acabou empurrando a latinidade para o pensamento mágico, moeda da qual são as duas faces o conformismo que se abriga na religião ou as revoluções para “criar uma nova humanidade” depois de afogar a velha em sangue, único meio de atingir “o impossível” com o concurso de um “herói” que leve o povo a superar sua impotência. Inversamente, foi por te-las obtido sempre passo a passo e usando instrumentos prosaicos de tão objetivos, que o pensamento saxônico entronizou o “senso comum” como baliza suficiente para referir tudo na vida.

A sorte também é um fator decisivo. A história da Inglaterra teria sido outra não fosse a libido exacerbada de Henrique VIII e a inflexibilidade da Igreja com o pouco caso dele para com “o sacramento” do casamento. Ao proibir a religião católica e liberar todas as outras, Henrique VIII atraiu todos os perseguidos da Europa (sempre a gente mais interessante) e, inadvertidamente, proporcionou pela primeira vez na História a experiência de conviver pacíficamente com a diferença a uma sociedade humana o que, a par de abrir caminho para a ciência moderna tirando o dogma da frente da experimentação, levou os pensadores ingleses a elevar a tolerância a fundamento básico e inegociável das relações humanas, do que acabou por resultar mais uma caminhada da democracia sobre a Terra quando encontraram um território virgem de privilégios milenares para resistir-lhe.

O “povo sem rei” da América do Norte pós 1776 veio juntar-se ao suíço que, graças à geografia também nunca tivera um, como os únicos, desde sempre, a desfrutar essa liberdade. Vivendo nas temíveis montanhas entre dois pedaços da Europa cujas passagens só eles conheciam, que aos reis de ambos os lados interessava atravessar a toda hora, os suíços foram deixados em paz e passaram ao largo do absolutismo. Inventaram seu sistema federalista a partir de 1291 e, como toda comunidade de iguais, desaguaram naturalmente na democracia para resolver – no voto – os problemas cotidianos da comunidade. Vieram bem até as invasões napoleônicas, quando ficaram sob o jugo da França. Foram então beber no modelo americano para restabelecer sua democracia. Desde aí esses dois povos – o suiço e o norte-americano – vêm “trocando figurinhas” para aperfeiçoar suas democracias nos momentos de crise. É na Suíça que, graças à ação concertada de patriotas e de jornalistas que foram em caravana à Europa para entender o sistema de democracia direta praticado por eles e vende-lo em seu país, que os Estados Unidos vão buscar a chave que os levariam a transformarem-se na maior potência do planeta. Tão corrompida e desmoralizada junto à opinião pública quanto está a brasileira hoje na virada do século 19 para o 20, a “velha política” americana sofreu um golpe fatal quando um atentado matou o presidente eleito William McKinley nos primeiros dias de seu mandato tirando Theodore Roosevelt do “exílio” da vice-presidência em que o tinha metido um golpe articulado pelas velhas raposas do Partido Republicano. Foi com ele que as ferramentas de democracia direta suíças puderam ser apresentadas aos Estados Unidos de cima de sua tribuna mais alta e ganhar o impulso que as fez prosperar por todo o século 20 e até hoje.

O Brasil tem estado dividido desde sempre entre a sua “americanidade”, vivida ao longo dos quatro séculos em que não fomos mais que vilas isoladas cujas camaras municipais eleitas tinham de prover todas as necessidades da comunidade, de que são filhas a Conjuração Mineira, as rebeliões federalistas pernambucanas, a Republica Sonhada do “Manifesto” de Itu e o curto interregno de Prudente de Morais e Rui Barbosa em que foi plantado o precário arcabouço juridico em que se agarra até hoje a livre iniciativa no Brasil, e a corrupção sistêmica dos últimos estertores do absolutismo decadente que invadiu o Rio de Janeiro em 1808, de que são filhos a Republica Real, golpeada ao nascer pelos ditadores positivistas, o getulismo que o entronizou no poder, o lulismo e a terra arrasada que aí está.

Distante quanto possa parecer hoje, o DNA brasileiro é democrático. Tem-nos faltado a ajuda decisiva da sorte.

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§ 12 Respostas para Robin Hood revisitado

  • AMAURY MACHADO disse:

    Mas, sem um Robin People parece mais difícil combater o roubem público.

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  • Antonio Salles Neto disse:

    Brilhante reflexão. O tempo é uma ilusão e isso fica mais evidente quando trazemos à tona a história humana recente.

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  • José Luiz de Sanctis disse:

    Excelente artigo! Precisamos que cada brasileiro dê uma de Robin Hood. Há muitos “João Sem Terra” no parlamento a serem escorraçados.

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  • Luiz Inacio Borges disse:

    Grande Fernão. Parabéns!!!

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  • terezasayeg disse:

    Falta-nos sorte e um mínimo de senso comum.

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  • marcos a. moraes disse:

    Retórica interessante. mas vc se esqueceu dos generais de 1964. Ou eles não eram positivistas, absolutistas, estatizantes, autoritários?

    Ah, sim. Incompetentes?

    MAM

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    • Olavo Leal disse:

      Tudo que os generais possam ter sido – ou acusados de – foi direcionado para que o Brasil escapasse da doutrina comunista, fruto da Guerra Fria – tão esquecida por aqueles que querem justificar o terrorismo da época. Houve, sim, necessidade de eles agirem assim, sob pena de o País capitular a Moscou, Havana, Pequim, Tirana etc.
      Incompetentes, porém, foram os que pegaram em armas, para atingir objetivos funestos ao Brasil, e nada conseguiram, a não ser enganar nosso povo.

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  • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

    O grande papel da imprensa nesses nossos dias politicamente caóticos e de governança atravancada por interesses escusos do toma lá dá cá é educar o povo indignado, abrindo-lhe os olhos para a necessidade premente do voto distrital com referendos e “recalls”. Pressionar os partidos políticos que aí estão para realmente representarem o povo, de quem deveria emanar o poder, para tomarem a iniciativa de liderar as discussões a nível de Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais para estabelecer o voto distrital. O papel dos jornalistas é fundamental como lideranças na formação do senso comum com o apoio dos verdadeiros políticos e estadistas que amam o Brasil. Temos, porém, que tomar muito cuidado para não sermos revisitados por alguma Robin Ruindade – formada em “Ecunomia” na Universidade da Terra do Nunca Antes – com projetos mirabolantes de contabilidade fantástica. Diálogo, persistência, tolerância, diplomacia, tenacidade e resiliência são necessários para a Nação brasileira alcançar o voto distrital, de preferência o puro! Para achar a saída do labirinto em que nosso país se encontra, não temamos os ” minotauros ” que pululam em todas as nossas instituições! O fio da meada é a necessidade de liberdade e democracia manifestada pelo Povo, até nas praças e ruas, reivindicando como num referendum espontâneo o que queremos para o futuro do Brasil a partir de agora!

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  • Amaury Machado disse:

    O “quê” é isso aí. Vamos pra cima do ” como”? Que é isso aí também. Nao vamos perder os quinhentos anos de história. Vamos fazer os futuros quinhentos anos.

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  • marcos a. moraes disse:

    Há um erro crasso de avaliação histórica nesta reflexão. Portugal não saiu da submissão ao absolutismo religioso para o monárquico. isso jamais aconteceu. Vc disse que:

    “Ao contrário das culturas latinas que da submissão à Igreja saltaram diretamente para a submissão ao absolutismo monárquico onde a propriedade é a peça chave de um sistema totalitário de opressão…”

    Nada mais falso. Portugal tornou-se nação independente, duplamente, ao se libertar do islã e do reino de Castela no ano 1143; portanto, quase 400 anos antes da Espanha. Para tanto, contou com um comando absoluto e o apoio da ICAR.

    A Espanha levou 300 anos para construir seu comando semi absoluto divido entre a tarada Isabel e Fernando.

    Então o absolutismo foi arma e munição para a Independência. Sorte ou azar? Existe isso em história?

    Reafirmo. A sua luta pelo voto distrital puro, recall e referendo – fundamentais para a nação avançar politicamente – não pode ser prejudicada pelos seus espasmos autocratas…

    MAM

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  • Antonio Brigolatto Carmona Barrionuevo disse:

    Estamos trabalhando na divulgação do sistema de eleições distrital puro com recall, Ficou acertado que nosso trabalho será feito em duas etapas. A primeira etapa será voltada para a divulgação de como o sistema funciona, percebemos que 99% dos brasileiros não conhecem o sistema distrital puro com recall, estamos fazendo um trabalho de formiguinhas pessoas à pessoas e solicitando que elas passem fazer parte do grupo de divulgadores. quando atingirmos uma cifra expressiva de pessoas que conheçam como o sistema funciona, entraremos com a segunda etapa. Essa etapa consiste em convocar passeatas pacificas em todo o território brasileiro, para solicitar pacificamente que o sistema seja implantado na nossa democracia. Se convocarmos as pessoas para uma passeata e essas pessoas não conhecem e nunca ouviram falar como o sistema funciona, podemos tirar os cavalos da chuva que elas não vão participar. Com milhões de pessoas nas ruas e praças espalhadas pelo Brasil afora os políticos vão sujar as cuecas e calcinhas. A pressão só vai aumentar, ou eles implantam o sistema ou na próxima eleição estarão fora. Estamos convidando-lhe para participar dessa força, que esta ganhando corpo e que com o sistema implantado na nossa democracia, em poucos anos vamos surpreender o mundo com um pais a caminho da prosperidade. Fora desse lixo que é nossa democracia de mentirinha, onde as castas engordam com seus privilégios absurdos totalmente fora da realidade do nosso povo, que esta derramando suor e sangue para manter essa imundície.

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