O Brasil na casinha do cachorro

20 de dezembro de 2017 § 35 Comentários

Em nenhum campo mais que no da política “o meio é a mensagem”. É o sistema que faz as pessoas e não o contrário. Ha sempre um elemento de “o ovo ou a galinha” nesse raciocínio mas o fato é que, como McLuhan demonstrou em sua obra, a alteração do meio, ou seja, da tecnologia institucional em uso, é muito mais determinante para definir ou mudar os resultados (as mudanças sociais e comportamentais necessárias) que o conteudo que transita por esse meio (o discurso do bem ou mesmo a boa intenção que, porventura, tenha nascido sincera).

O caso brasileiro é um exemplo eloquente. Seja quem for que ingresse na política ou no serviço publico do jeito que o “sistema” opera hoje, acaba por se corromper. A qualidade da matéria prima inserida no “processador” pode alterar a velocidade da corrosão mas ela é incoercível. Ninguem mergulha nesse mar de privilégios e impunidade e sai incólume. O bom comportamento num ambiente assim acaba assumindo o ar de uma denuncia. Ou o recem chegado se corrompe ou acaba sendo expelido como uma ameaça para os demais. Já começa, aliás, por se acumpliciar pois para entrar na política é obrigatório “acertar-se” com o dono de algum dos partidos que já vivem de dinheiro do governo e da distribuição de pedaços do estado enquanto no serviço público impera o espírito do “concurseiro” a quem não interessa quando nem onde, tudo que conta é por um pé dentro do privilégio…

Daí para a frente cria-se uma cadeia causal. O de entrada é um sistema de seleção negativa. O de permanência um filtro mais fino ainda. E como o “negócio” passa a ser a criação de dificuldades para proporcionar a venda de facilidades, essa filtragem negativa se estende para a sociedade como um todo. Quem insistir no caminho da lei morrerá afogado na burocracia pois para seguir adiante na velocidade que o mundo requer, é preciso subornar.

Em estados tanto quanto em empresas, é o sistema de governança muito mais que o esforço despendido por cada indivíduo solitariamente que define o resultado do trabalho. É uma ilusão de noiva achar que algo vai mudar mudando-se apenas as pessoas na operação do mesmo sistema político.

O sistema político faz a riqueza ou a pobreza das nações. É uma falácia o argumento de que o Brasil jamais poderia ter um sistema civilizado. Os suíços os e os americanos, entre outros, não nasceram como são hoje. Eles ficaram como são hoje porque por uma conjunção específica de acontecimentos históricos, cada um em seu momento, adotaram um sistema que resulta num filtro de seleção positiva. Não têm o sistema político que têm porque eram mais educados, mais ricos, ou mais virtuosos que os demais no ponto de partida. É o contrário, eles ficaram mais ricos e educados porque instituiram um filtro de seleção positiva. A matéria prima é a mesma aqui e lá, mais inclinada para o vício que para a virtude. Apenas lá, ao contrário daqui, o estado trabalha para desimpedir os caminhos para a virtude e atravancar os que conduzem ao vício. Tanto que o melhor do que hoje “assinam” como produção própria foi feito por estrangeiros fugitivos de sistemas nos quais só o vício consegue passagem.

A questão da segurança jurídica é crítica. Dada a propensão preferencial da espécie pelo vício, quanto mais longe se colocar a baliza das decisões do arbítrio e do pensamento abstrato, pai do arbítrio, melhor tende a ser o resultado. Existe uma fortíssima coincidência entre a riqueza das nações e o seu sistema jurídico. É sob o sistema de “common law”, que foi comum a toda a Europa, Portugal inclusive, até os primeiros passos das monarquias absolutistas no final do século 13, que vive a maioria das nações mais ricas e livres do mundo. Nesse sistema é o precedente que define a sentença e não o juiz. É o juri, não o meritissimo, quem define se o caso presente é mesmo idêntico ao anterior. Se a conclusão for que sim, a sentença será automaticamente a mesma que foi dada para aquele. O juiz está lá mais para conferir os ritos do processo que para qualquer outra coisa, mesmo porque o sentido da justiça terrena é reduzir as oportunidades de corrupção e não redesenhar a humanidade. O problema é que a corrupção se torna irresistivel justamente quando é a liberdade do indivíduo ou até a sua vida que está em jogo, como no caso das decisões judiciais. Os fatos são o que são e podem ser concretamente aferidos na sua sequência e na sua relação causal enquanto a vontade humana, livre para voar por definição, é sempre uma expressão do arbítrio, a própria negação da impessoalidade que torna previsivel, ou seja segura, a justiça que o investimento em desenvolvimento requer.

Assim também os sistemas políticos. A lei só será “amigavel para o usuário” se for feita por ele ou, no mínimo, para ele. A democracia foi inventada para isso. Neste mundo de multidões, porem, ela só pode ser “representativa”. E para ser mesmo “representativa” é preciso que o representante esteja permanentemente sujeito à cobrança do representado e esta, para ser efetiva, tem de ser feita “à mão armada”. Ou seja, a sobrevivência do mandato do cobrado (assim como a do emprego público) tem de estar permanentemente em jogo.

Qualquer brasileiro, por menos educado que seja, sabe que se contratar um empregado amanhã garatindo a ele que daí por diante será indemissível, faça o que fizer, e ele próprio definirá seu salário independentemente do serviço que entregar, em seis meses ele estará na casinha do cachorro e o tal empregado deitado em sua cama.

O Brasil está na casinha do cachorro. Para sair terá de ter a mão armada para ganhar controle efetivo sobre o desenvolvimento futuro das carreiras políticas e do funcionalismo. E só tem esse controle quem tem o poder de demitir. Só o recall, o referendo e as leis de inciativa popular dão esse poder ao povo de forma irrecorrivel. E só com eleições distritais puras essa arma passa a atirar apenas e tão somente se for acionada de modo responsavel, transparente e com garantia de atingir só o alvo visado.

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§ 35 Respostas para O Brasil na casinha do cachorro

  • Luiz Leitão disse:

    Perfeito, FLM! Este artigo é ainda mais didático. Siga em frente na disseminação do conceito libertador de voto distrital puro com recall, explicando de maneira cada vez mais simples, acessível, o caminho para a nossa libertação da privilegiatura.

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  • Mora disse:

    Perfeito o artigo. O cidadão fazer o sistema é como achar na matemática a probabilidade de que algum fato ocorra. Só se acha isso no infinito. E no infinito, no nosso mundo leva 500 anos para mais. O próprio ” Estadão ” parece acreditar nisso haja vista alguns de seus editoriais. É uma forma de ficar em ” cima ” do muro e não confrontar seja quem for. Só confrontar quando a maré estiver propícia para isso. E dessa forma surfar por mais 140 anos. Aliás, no fundo, deve ser o pensamento desse povo ” escravo “.

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  • Osvaldo Ferreira de Abreu Jr. disse:

    Ótimo artigo mesmo, expressando muito bem a nossa dura realidade, parabéns. A discusão do voto distrital, infelizmente, é muito reduzida perante a nossa sociedade, desconhecida para a maioria da população, de alguma forma, o funcionamento dessa opção precisava ser ampliado, nesse sentido, seus méritos são exemplares.

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  • Fernão. Perfeita análise.
    Realmente seria muito bom se tudo acontecesse. Filtro! Caberá a sociedade saber filtrar.
    Vejamos nas eleições. Será que aprenderam?

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  • Fernando Lencioni disse:

    Uma síntese brilhante. Inclusive no que se refere aos vícios de nosso sistema legal que me afligem diariamente. 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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  • Oswaldo Henrique Silveira disse:

    >

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  • Amaury Machado disse:

    Uma das ajudas à democracia, é pelear pela desratização da função pública aparelhada no governo e reeleição nunca mais.

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  • Renato Abucham disse:

    Para corroborar com seu argumento “O sistema político faz a riqueza ou a pobreza das nações.” menciono o desenvolvimento das duas Alemanhas e das duas Coreias.

    Mesmo povo, mesma educação, mesmos recursos após as guerras e desenvolvimento dramaticamente desiguais em termos de riqueza.

    Como conseguir a reforma política instituindo voto distrital com recall se dependemos deles realizar essa reforma? Por bem, pode durar uma eternidade.

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  • Pasquale disse:

    Suíços, não suissos. (não confundir com swiss)

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  • Ari disse:

    Pergunto: a formatação jurídica e a formatação política citadas floresceram em algum país predominantemente católico; e esta formatação religiosa dificultaria a ocorrência das duas primeiras?

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    • Adriana disse:

      Boa pergunta. O catolicismo é fator importante de atraso das nações. Sou católica, mas acredito que a atuação política da igreja católica leva ao atraso.

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      • luizleitao disse:

        Certamente, o catolicismo é um fator de atraso. I couldn’t agree more!, Acrescentando que essas outras religões, digamos, modernas, como a evangélica, são, na verdade, a vanguarda do atraso, e com penetração cada vez maior.

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    • whataboy disse:

      Mesmo que a Igreja Católica ainda tenha alguma atuação política relevante, não é suficiente para justificar o quadro institucional sem filtros positivos.
      Ah então a culpa não é da igreja, mas do catolicismo adotado pela maioria da população? Já temos anos de decadência na prática e na educação católica frente aos evangélicos e nosso quadro institucional só mostrou agravar os filtros para seleção negativa.

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  • Milton Leite Bandeira disse:

    MILTON LEITE BANDEIRA Promotor Mobilizar Cultural  É espantoso o ferrão do Fernão, como consegue escrever um texto com a espontaneidade de um parto, logo que vem à luz nos brinda com sua originalidade, a graciosidade e a perplexidade  de um seis vezes patriota cão de olho azul com uma coleira cor de rosa. Texto digno de se tornar uma referência a um projeto cultural de Nação existente em Juiz de Fora, que levou 24 anos, 4 meses e 21 dias para ser assimilado e aprovado pela CAMARA MUNICIPAL DE  JUIZ DE FORA (21 novembro 2017)  intitulado ‘FÓRUM BRAZILINDIO – Reexistencia cultural – Comunicação global’, objetivando o debate/diálogo em torno da AGENDA 21 – 40 capítulos, uma ECO/92 permanente e continuada visando o ‘JK – 32ª META CULTURAL – PROJETO DE NAÇÕES’. 

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  • whataboy disse:

    Sim, Fernando. Um diagnóstico que deveria ser a base de qualquer explicação de cientista político ou sociólogo que se preze.
    No entanto, uma vez por mês, cínicos moralistas, sabotadores ou mal-pensantes no conforto de suas posições chamam a atenção dos cidadãos brasileiros para que deixem de subornar o guarda da esquina, como se fôssemos um país condenado pela baixa estatura moral.
    Da próxima vez que eu ver esse tipo de lição, antes de vomitar, vou mostrar o seu texto.

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  • Adriana disse:

    Excelente artigo! A comparação da casinha do cachorro faz com que até o privilegiado que dá voltas para justificar seus privilégios, enfim entenda. Evidentemente jamais aceitará mudanças.
    Ótima também a questão da decisão por jurados. Quem atua na justiça sabe que falta bom senso na nossa justiça. Só há bom senso e justiça em decisões coletivas, nunca autoritárias.
    Pagamos demais pelo autoritarismo, inclusive o judicial, que nos é imposto. Na verdade entregamos tudo ao Estado, que trata o cidadão honesto como um pária.

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  • Olavo Leal disse:

    Caro FLM: excelente!, mais uma vez.
    “… Daí para a frente cria-se uma cadeia causal. O de entrada é um sistema de seleção negativa. O de permanência um filtro mais fino ainda. E como o “negócio” passa a ser a criação de dificuldades para proporcionar a venda de facilidades, essa filtragem negativa se estende para a sociedade como um todo. Quem insistir no caminho da lei morrerá afogado na burocracia pois para seguir adiante na velocidade que o mundo requer, é preciso subornar. …”
    Só esta parte do texto vale por quase todo ele. Vivemos (ou somos obrigados a viver) assim, sendo objetos da criação de dificuldades para proporcionar a venda de facilidades.
    Que destino!! Precisamos, mesmo, ir para as ruas.

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  • Estou no 2º parágrafo e digo: este é um verdadeiro Vespeiro! Parabéns! Sugiro contratar seguranças, seguro e fazer testamento! Tem que ser homem para escrever isso… Agora, continuo! MAM

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  • Realmente perfeito. Pode dar a volta olímpica, pendurar as chuteiras e correr pros abraços! MAM

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  • luizleitao disse:

    Mais um comentário, porque esse texto está D+! Vou salvá-lo em PDF e enviá-lo a todos os meus amigos e conhecidos, para que o absorvam e o repassem. Já rebloguei e postei no LinkedIn. Vamos lá, gente, divulguem, espalhem, comentem com outros, porque o FLM merece essa força!

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  • Sergio Moura disse:

    Não há dúvida. Motivo porque iniciativas como o Novo e o Livres, apesar de seus méritos, não trarão resultados. Temos de mudar profundamente o sistema político-eleitoral brasileiro, o que os políticos não farão. Meu livro Podemos ser prósperos – se os políticos deixarem mostra como. Está disponível na Amazon.

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  • José Silvério Vasconcelos Miranda disse:

    Infelizmente, no Brasil ainda prevalece a cultura dos invertebrados.
    Qualquer ” borrabotas” que se elege para alguma coisa, talvez, vereador
    em Pedras de Maria da Fé, torna-se autoridade, com direito a carteiradas é tudo mais. Deputado então, no interior é semideus. Juiz de
    Direito é quase Deus, desembargador tem certeza que é. Eleições diretas para todos os cargos e dizer para quem vota que a autoridade é
    ele. O seu representante é seu empregado e poderá ser demitido ” Ad
    nutum”. Recall para todos. Talvez meus netos possam desfrutar de um
    País normal

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    • Fernando Lencioni disse:

      Exatamente! Fico indignado em ver como essas verdades simples não conseguem encontrar eco nos movimentos que foram criados depois dos absurdos que vivemos nos últimos tempos. Mas, ao mesmo tempo, compreendo por que eles jamais propuseram nada aproveitável. Para resolver um problema é preciso estudar cuidadosamente, colher dados históricos, pensar profunda e detidamente antes da ação. A carroça foi colocada na frente dos burros. Jamais levaria a lugar algum.

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  • Ricardo Kauffmann disse:

    O artigo é bem escrito e oportuno. Temos que concentrar esforços em levar essas assunto para as camadas menos esclarecidas. Pois na nossa “democracia” quem decide é a base da pirâmide social, desqualicada para escolher.
    Ou restringe ou educa.

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    • luizleitao disse:

      Exatamente, Ricardo. Hoje, eu enviei o artigo em PDF para varios contatos, mas vinha pensando, e vi que isso é trabalho de formiga. Para atingir as massas, só mesmo a TV e o rádio. Como várias cabeças pensam melhor do que uma, deveríamos unir esforços para tentar equacionar isso, encontrar um meio de fazer esse conceito, agora já tão claro para mim (ao cabo de diversos artigos de FLM), chegar às massas atraves desses canais. está aí uma causa para a qual eu contribuiria, com trabalho e financeiramente, com o maior prazer e entusiasmo.

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  • flm disse:

    vamos chegar a isso antes do que você pensa, luiz…

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  • patricia disse:

    (Sim, com John Wayne, ninguém folga. Eu não tenho Twitter.)

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  • patricia disse:

    (Escrevi aqui, porque o que o senhor escreveu no Twitter a respeito da América de lá, é o que eu sinto.)

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  • Varlice Ramos disse:

    Sempre um alívio e uma esperança ler seus escritos, Fernão.
    Tenho certeza, a mesma de antanho, de que chegaremos lá.
    Uma questão de tempo.
    Abraço carinhoso, Boas Festas e esperança redobrada para este 2018 que se aproxima.

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  • Varlice Ramos disse:

    Sempre um alívio e uma esperança ler seus escritos, Fernão.
    Tenho certeza, a mesma de antanho, de que chegaremos lá.
    Uma questão de tempo.
    Abraço carinhoso, Boas Festas e esperança redobrada para este 2018 que se aproxima.

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