O que se compra com o dinheiro do pré-sal?

22 de outubro de 2013 § 6 Comentários

ovo1

Mais do que um sucesso, foi um alívio o resultado do leilão do Campo de Libra, a “jóia da corôa” do pre-sal no qual o PT aposta todas as fichas do seu cada vez mais escasso cacife para salvar o Brasil do naufrágio para que apontam os números da operação do dia a dia destes seus quase 11 anos no comando da economia.

Pois afinal, trata-se, segundo a avaliação deles próprios, do maior tesouro atualmente mapeado no planeta e, no entanto, somente 11 das 40 empresas do mundo em condições de disputá-lo chegaram a se inscrever na aventura e, destas somente quatro – sendo duas estatais chinesas – concederam fazer a oferta mínima aceita pelo governo brasileiro. Sete desistiram a meio do caminho e a Petrobras teve de comprar, ainda, outros 10% que ninguém quis além dos 30% com que ela estava obrigada a arcar pelo modelo de partilha em vigor.

Dona Dilma correu à TV para comemorar, o que é justo posto que 24 horas antes ainda era duvidoso que alguma empresa tocada a dinheiro com dono se dispusesse a entrar na aventura.

ovo1

Refeitas as contas em cima do lance mínimo, a Total, meio estatal meio privada como tudo que há na França, e a Shell, tantas vezes apedrejada pelo PT, decidiram que vale o risco esta associação pelos próximos 30 anos com o país que recém golpeou as elétricas e seus acionistas internacionais e, nos últimos 11 anos, vive aplaudindo governos especializados em expropriações e calotes internacionais.

A comemoração de dona Dilma não deve ter animado especialmente os responsáveis por essa decisão pois ela já começou por inflar os números dos resultados esperados para o Brasil de modo a exorcizar o fantasma da cobrança por “privatarias” sempre denunciadas no alheio na campanha eleitoral que já está fervendo por aí. E isso porque o principal problema do PT, que nos pôs na presente entalada da sobreposição de um Tesouro Nacional esgotado com a infraestrutura esbagaçada, é justamente o de, sem qualquer sinal de hesitação, sacrificar literalmente tudo – dos recursos do Tesouro à credibilidade nacional – à aquisição de mais alguns milhares de votos.

ovo1

Dona Dilma festejou que mais de 80% dessa “fabulosa riqueza” que jaz a quatro quilômetros sob a crosta terrestre que, por sua vez, repousa debaixo de mais quatro quilômetros de águas oceânicas, “ficarão no Brasil”. O número resulta da “soma” dos 40% adquiridos pela Petrobras com os 41,65% de “excedente de óleo” (tudo que for extraído depois de pagos os custos de extração) que os sócios da empreitada pagarão ao governo.

Acontece que o maior sócio da empreitada é a própria Petrobras, o que nos diz que a conta real não é bem esta que ela comemora. Pois tirados 41,65% de 100% sobram 58,35% e os 40% disso de que a Petrobras é dona correspondem a 23,34% que, somados aos 41,65% que o governo já têm resultam em 64,99% que “ficarão no Brasil”, teoricamente. E teoricamente apenas porque a Petrobras, ela também proibida de cobrar mais do que paga pelos combustíveis que importa e repassa aos eleitores brasileiros, ficou reduzida à pior situação financeira em que já esteve nestes 60 anos em que tem sido “nossa”.

ovo1

Segundo estudo do Bank of America, a Petrobras é a empresa aberta com a maior dívida em todo o planeta, fora do setor financeiro, com um passivo de 112,7 bilhões de dólares, 6xs o seu Ebitda atual. Isso provocou a sua desclassificação pelas agências de risco, desclassificação esta que descerá mais um degrau nos próximos empréstimos tomados segundo regra que é função desse multiplicador.

Com o caixa lá embaixo, a Petrobras terá de arcar com 40% dos pesadíssimos investimentos no Campo de Libra. Seu plano de desembolsos até 2017 já estava orçado em outros 236 bilhões de dólares que ela não tem. Só estes 10% a mais que teve de engolir neste leilão vão lhe custar 3,5 bilhões adicionais por ano e empréstimos de mais 21 bilhões, pagos a taxas de duplamente desclassificados.

Boa parte do que vai entrar por um bolso, portanto, estará saindo por outro.

Enfim, ainda que a conta venha a ser positiva no final, essa mania de tudo inflar e tudo relacionar à tarefa de colher votos a qualquer custo é o maior custo com que arcam o Brasil e os brasileiros hoje. É este o nome de família do famigerado Custo Brasil que pagamos e repagamos a cada passo…

ovo1

Quer consolar-nos dona Dilma com a ideia de que tudo, literalmente cada tostão disso, será investido em educação e saúde.

Ok. Vamos esquecer a legião dos ladrões. Aqueles fiscaizinhos todos com malas de 800 mil embaixo do colchão como o que  a TV flagrou na semana passada e daí para cima Brasil afora.

É mesmo de falta de dinheiro o problema da educação e da saúde públicas no Brasil?

Vejamos.

A educação é o instrumento por excelência da meritocracia. A negação do amiguismo, do partidarismo aparelhante, do emprego público garantido seja qual for a qualidade do serviço prestado, dos “campeões nacionais” fabricados com dinheiro público. É a ferramenta de eliminação, enfim, de tudo que o PT representa, patrocina e sustenta e o símbolo de tudo quanto ele odeia.

O PT substituiu, nestes 10 anos, o ensaio de introdução do mérito como baliza do sistema público de educação plantado pelo governo anterior, por uma política de cotas em que tudo e mais alguma coisa – da cor da pele à disposição do candidato de mentir na cara dura – é argumento legalmente válido para jogar o merecimento no lixo.

ovo1

Com uma só e mesma penada, também de inspiração nitidamente eleitoreira, este governo destruiu igualmente os dois instrumentos que faziam a qualidade da medicina do país ser apoiada no esforço e no mérito medidos e conferidos. Foram juntos para o saco o exame do MEC, de que estão dispensados os médicos convidados pelo PT, especialmente os cubanos, e a obrigação de residência e acabamento da educação teórica com a prática antes a cargo dos CRMs que garantia a qualidade da medicina de que dependerão nossos filhos.

Como é que professores com estabilidade no emprego e dispensados de entregar qualidade poderão formar os brasileiros para enfrentar o mundo da hipercompetitividade? Como é que os empreendedores que só contam com sua disposição para o esforço derrotarão os barões do BNDES e, depois deles, os chineses e os americanos com quem disputam mercados? Como é que a ciência e a medicina nacionais farão progressos se 30 anos de dedicação e esforços para aprender puderem ser derrotados por decretos de governantes amigos?

Não, não é de dinheiro o problema da educação brasileira, assim, como não depende de haver ou não petróleo debaixo do chão que se pisa (ou do mar que se navega) que determina quem vence e quem não vence no mundo de hoje, como provam a Venezuela e o Japão, a Arábia Saudita e a Coréia do Sul.

Dinheiro só compra bens menos duráveis. Como eleições, por exemplo.

ovo1

Marcado:, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

§ 6 Respostas para O que se compra com o dinheiro do pré-sal?

  • Rachel de Figueiredo Ferraz disse:

    Vou fingir que acredito na Dilma! O dinheiro vai para a saúde e educação!

    Curtir

  • sergiobiju disse:

    belo texto!

    Curtir

  • Varlice disse:

    Complementando seu belo texto:

    http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/gustavo-ioschpe-seu-valor-e-determinado-por-seu-salario

    Você acha que os médicos brasileiros ganham bem? Eles têm os maiores salários médios do país. Pois saiba que um médico americano ganha quatro vezes mais. Eu já ouvi muitos argumentos para explicar como melhorar o quadro da saúde brasileira. Inclusive do pessoal que diz que faltam verbas para o setor e que a solução é investir mais, ressuscitar a CPMF, entre outras. Mas não me recordo de ter ouvido alguém sugerindo que o problema era o salário dos médicos. Nem, muito menos, que as diferenças entre o sistema de saúde brasileiro e o americano se explicam pelo fato de que os nossos médicos ganham quatro vezes menos do que seus colegas americanos.

    E os nossos dentistas? É a segunda carreira mais bem remunerada do país. Não sou especialista no setor, mas acho que estão fazendo um bom trabalho: o sorriso dos brasileiros é bem mais arrumado do que o de habitantes de outros países em desenvolvimento, como, por exemplo, os chineses, e até de países ricos, como os ingleses. Mas, veja só, coitados! Ganham 5,4 vezes menos do que os dentistas americanos, que levam para casa, anualmente, o equivalente a 346 000 reais, contra 64 000 reais dos brasileiros.

    E os advogados brasileiros? Como mostra a fábrica de pizzas que sai do nosso Judiciário, certamente devem estar entre os melhores do mundo. Mas, mordam-se de inveja: os advogados americanos ganham 4,4 vezes mais. De novo, já li muitas análises sobre o que precisa ser feito para melhorar nosso sistema legal, mas não me recordo de nenhum protesto da OAB sugerindo que nossas deficiências se explicam pela distância entre o salário dos nossos causídicos e seus congêneres do Hemisfério Norte.

    O que dizer então de nossos artistas? Sinceramente, acho-os melhores do que os americanos, especialmente na música. Como explicar então que ganhem quase quatro vezes menos do que os compatriotas de Madonna? E nossos profissionais de marketing e propaganda, que todos os anos levam uma enxurrada de leões em Cannes e criam promoções e eventos tão criativos? Quantos Washington Olivetto e Nizan Guanaes os americanos produziram? Quantos Rock in Rio e carnavais? Nenhum. Mas – ó destino cruel – nossos profissionais de marketing e propaganda recebem 3,5 vezes menos que seus concorrentes americanos. Não 3,5% menos, nem 35% menos: 3,5 vezes menos. E, por mais criativos e originais que sejam nossos publicitários, ainda não vi nenhum deles sugerir que, se ganhassem 3,5 vezes mais, seriam ainda mais espetaculares.

    Essas diferenças são praticamente iguais para qualquer profissão de nível superior que você queira comparar – os dados de vinte delas estão disponíveis em twitter.com/gioschpe. Na média dessas profissões, os americanos ganham 3,55 vezes mais que os brasileiros. Se retirarmos engenheiros e arquitetos da conta, a relação vai a 3,76. Entre essas carreiras, está a dos profissionais da educação. Os americanos ganham 3,97 vezes mais do que os brasileiros. Ou seja, a diferença entre professores brasileiros e americanos está bastante em linha com a observada em todas as demais profissões. Se você acha que o professor brasileiro ganha pouco, deveria notar que ganha pouco por ser brasileiro, não por ser professor.

    Essa diferença existe porque os países têm nível muito desigual de renda média, o PIB per capita. O americano é quatro vezes maior do que o brasileiro. Então é normal e esperado que, em todas as carreiras, haja uma diferença dessa magnitude entre um profissional brasileiro e outro americano. Isso não é prerrogativa dos EUA. Usei este país pela facilidade de obtenção de dados. Pegue a média dos países desenvolvidos e verá que a diferença é a mesma. Pegue a média dos países da África Subsaariana e verá que a diferença também será a mesma, apenas com o sinal trocado. Isso é óbvio. Por isso é que sempre me causa surpresa quando alguém pega um dado de gasto nominal em educação e diz assim: “Precisamos investir mais em educação se quisermos ter qualidade de Primeiro Mundo. Enquanto o gasto médio por aluno dos países da OCDE for de 8 893 dólares e o do Brasil for de 2 849 dólares, não poderemos esperar que a qualidade seja comparável”. Que professores e sindicalistas repitam esse mantra, até entendo. Como disse Upton Sinclair: “É difícil conseguir que uma pessoa entenda algo quando o seu salário depende de que não entenda”. Mas ouvir isso de gente inteligente e bem-intencionada é apenas um sinal de que o discurso das corporações dos professores abalou o discernimento mesmo das melhores mentes. Quase quatro quintos (78%) do gasto com educação no Brasil são destinados a pagar salários de professores e funcionários. Para que o Brasil gaste, em termos nominais, o mesmo que um país desenvolvido, seria necessário que os profissionais da educação ganhassem o mesmo que seus pares de países desenvolvidos. Seriam, então, a única categoria profissional com remuneração nesse patamar, em um país em que as demais profissões ganham quatro vezes menos.

    Essa não é uma questão menor. É em virtude dessa incompreensão sobre gastos diferentes para realidades diferentes que o Brasil já comprometeu os ganhos do pré-sal em um sistema educacional fracassado, e agora caminha para queimar mais incríveis 5% do PIB ao aumentar os investimentos em educação de 5% para 10% do PIB. Você, eu e a geração de nossos filhos pagaremos caro por esse populismo. Quem defende aumento de remuneração sem esperar nenhuma contrapartida em termos da qualidade do serviço está subvertendo uma das leis basilares da economia: a que estabelece que remunerações são proporcionais à produtividade do trabalhador. Americanos e europeus não ganham quatro ou cinco vezes mais do que nós porque seus patrões são bonzinhos, mas porque é isso que produzem. Basta ver os dados da Organização Internacional do Trabalho: o trabalhador brasileiro produz, por hora trabalhada, um quinto do que produz o americano. Se usarmos o critério de produtividade e renda nominal para balizar a remuneração dos nossos profissionais da educação, a conclusão inescapável é que o professor brasileiro ganha demais em relação ao que entrega. No último Pisa, o teste de qualidade educacional mais respeitado do mundo, a educação brasileira ficou em 53º lugar. Na sua vizinhança não estavam os países de Primeiro Mundo, mas sim Colômbia, Trinidad e Tobago, Montenegro e Jordânia.

    Mesmo que fosse financeiramente factível, o que não é, a educação no Brasil não melhoraria se os professores passassem a ganhar o mesmo que os de países desenvolvidos. Dezenas de estudos acadêmicos mostram que não há correlação entre o salário dos professores e o aprendizado dos alunos. Qualquer gestor acharia absurdo dar aumento significativo a funcionários que estão entregando péssimos resultados. Está na hora de aplicar a mesma lógica à área da educação. O que efetivamente importa é a formação de professores, capacitação de gestores, currículo nacional unificado, dever de casa, avaliação, melhoria do material didático, uso efetivo do tempo de sala de aula e tudo o mais que os países que deram certo fizeram antes de poder pagar salários mais altos. Salário não cai do céu: conquista-se.

    Curtir

  • Fausto Italiano disse:

    NA RADIOGRAFIA DE ‘NOSSA’ GALINHA PERCEBE-SE UM OVO DE
    OURO SUPERDIMENSIONADO. TALVEZ NÃO CONSIGA TRANSITAR
    PELO RETO. CASO DECIDAM POR UM PALIATIVO LAXANTE………..
    PODERÁ RESULTAR (SÓ) EM MERDA ! KKKKKKKKK

    Curtir

  • Fausto Italiano disse:

    * Em tempo : Parece que o tiro poderá sair pela cloaca !………..

    Curtir

  • ben disse:

    A administração petista me fez lembrar de um filme: “Apertem os cintos, o piloto sumiu”. E também de uma tragédia: O capitão embriagado do Exxon Valdez. Lula o paizão e Dilma a gerentona não passam de mitos. Estamos entregues ao Deus dará.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento O que se compra com o dinheiro do pré-sal? no VESPEIRO.

Meta

%d blogueiros gostam disto: