Acostumados à vida de burro de carga

3 de agosto de 2013 § 7 Comentários

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Tres anos atras estive na Noruega.

Desembarquei em Oslo e, como de praxe, fui seguindo distraído o fluxo de passageiros pelos corredores e escadarias de um aeroporto bem simpático e informal, com estruturas de madeira e ferro que faziam lembrar uma gigantesca cabana.

Quando dei por mim já estava em frente à esteira de bagagens!

Caramba“, pensei comigo. “Acho que segui a turma errada e perdi a área da imigração“.

Vou ao balcão de iformações mais próximo à procura do tradicional chiqueirinho com filas balizadas em zigue-zagues terminando em policiais aborrecidos que te fazem perguntas meio inaudíveis sem olhar pra nossa cara.

Não, o senhor não perdeu nada. Não fazemos check-in de passaportes aqui na Noruega. É só pegar a sua mala e descer por aquela escada rolante, que leva ao trem integrado ao metro. Ele o deixará em qualquer ponto de Oslo que desejar (a uns 100 km percorridos em uns 15-20 minutos)“.

!!!!“…

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Na semana passada estive na Bolívia com dois amigos. Santa Cruz de la Sierra, para ser mais exato, de passagem para um ponto isolado da fascinante porção amazônica daquele país. É um vôo de duas horas e meia direto de São Paulo. Mal sentei no avião a aeromoça entregou-me quatro longas tiras de papel em cores diferentes – azul, verde, rosa e branco, este um “vintage” em duas vias com “carbono” – com dezenas de “campos” para serem preenchidos e intermináveis questionários em letras miudas.

Acredite se quiser, até as perguntas diretas “Você já praticou atos terroristas?” e “Pertence a alguma organização secreta ou já praticou atos de espionagem?” estavam lá. Mas a papelada e a linguagem eram tão confusas e repetitivas que, em poucos minutos, o avião se tinha transformado numa verdadeira “chacrinha” com os passageiros baixando maletas de cabine para checar numeros de documentos e perguntando uns aos outros como preencher (ou não?) determinados campos ou responder esta ou aquela pergunta.

Uma vez em terra, um corredor curto e uma escada de uma construção meio-acabada (ou meio destruída?) padrão obra pública bem nosso conhecido, e lá estava o chiqueirinho com suas balizas e fitas.

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Duas filas se formaram levando, cada uma, a dois – e apenas dois – guichês de policiais de imigração. Embora houvesse menos de meio avião à minha frente, o ritmo de lesma paralítica logo me informou que haveria mais de uma hora de espera para caminhar aqueles tres metros.

Ilusão de noiva! Muito mais.

Não demorou muito e pelo vão formado entre as duas filas foi-se acumulando um terceiro magote de “VIP“s que os muitos policiais dedicados a fiscalizar as filas iam catando nelas e passando à frente dos outros.

Sendo um “estado plurinacional” com base em divisões étnicas, como certas correntes do PT querem que o Brasil venha a ser, todas as autoridades da Bolívia de Evo Moales têm os traços característicos da etnia à qual pertence o presidente. Mesmo assim, os passageiros com traços marcadamente indígenas, especialmente os mais pobres – mães e pais com crianças – eram os que recebiam pior tratamento. Algo tão ostensivamente ríspido e humilhante que revoltava e constrangia quem assistia à cena.

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Passada essa primeira barreira de guichês, haveria mais duas, cada uma das quais com a sua “autoridade” interessada num dos papeis coloridos, metade a ser entregue na entrada e metade – atenção, não os perca nem ande sem eles na Bolívia! – a ser devolvida na saída.

A saída, eu logo viria a saber, é ainda mais surrealista pois além das perguntas e conferências de papeis, haverá mais guichês e mais “autoridades” empenhadas em revistas à procura da droga cuja produção o governo dos agentes revistadores oficialmente patrocina…

Em algum lugar entre a Noruega e a Bolívia situa-se o Brasil em matéria de burocracia. Filiação a (chefes de) “partidos políticos” substituem, por enquanto, características raciais na definição de quem tem de trabalhar e quem pode só “ter um emprego” (no sentido de poussuí-lo para todo o sempre). Mas – e naquela fila interminável nós tivemos tempo mais que suficiente para discutí-lo e concluí-lo – a ausência de dois ou tres dos exageros relatados sobre a Bolívia não nos redime enquanto otários.

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Deixar-se roubar um pouco mais ou um pouco menos não nos faz menos coniventes com a roubalheira. Só a posição norueguesa, posta a qual vastos setores do Estado em todas as suas instâncias desaparecem junto com os demais setores criados para gerir, “apoiar” e fiscalizar os primeiros, se justifica. Pois afinal – sobretudo neste planeta integralmente conectado, onde cada passo é traçável e universalmente filmado – o check-in no primeiro aeroporto e a certeza de que o checado embarcou é tudo quanto é necessário já que, uma vez no avião, ou o cara saltou de paraquedas ou desembarcou no seu destino.

Basta, portanto, um banco de dados. Todo o resto daquele aparato – do deles, do nosso, do de todo mundo que ainda mantém um – não é mais que a horda dos carrapatos com que os Estados nacionais e os seus “proprietários” sobrecarregam quem tem um trabalho em vez de um emprego, mas ninguém ainda parece se dar conta disso.

A humanidade, não por acaso ainda eivada de miséria à beira da era da ciência total, acostumou-se à vida de burro de carga.

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§ 7 Respostas para Acostumados à vida de burro de carga

  • Coincidência: acabo (quarta-feira) de chegar da Escandinávia – Suécia, Dinamarca, Finlândia, Noruega e arredores – e constatei tudo o que você conta. As monarquias parlamentares (com recall ou sem) funcionam maravilhosamente: saúde, educação (ensino gratuto até os 16 anos, inclusive na escola particular que o cidadão escolher); segurança nem é um issue – e sem burrocracia. Tudo limpo, vi apenas umas bitucas de cigarro nas ruas – claro que em pontos de desembarque de turistas.

    Mesma coisa na Rússia – mas não vi russos e crianças nas ruas, muuito menos os pedintes de 1992 – será que filho da putin matou todos? – e da Grã-Bretanha nem falo. O teu famoso ‘livro sobre’ é cada vez mais necessário: tudo que vi lá – inclusive o Baby Boy George Alexander Louis, Prince of Cambridge and Future King – é resultado direto daquilo e das leis antigas (que ouvi um brasileiro comentar como a “Magda Carta”). Cala a boca…

    Já Stonehenge me pirou. Sonho de criança, onde ouvi vozes milenares dizendo coisas que eu não entendia. Como, quando, para que fizeram aquilo? E o que deixaremos para ser decifrado? Penso em terrenos de desova e desmanche de carros roubados – serão interpretados como locais de culto a deuses do velho século 20? Chi lo sá… ALICE
    ou
    CECILIA THOMPSON
    jornalista/tradutora*
    Telefone (5511) 5572-1371
    E-mail: cecithompson@uol.con.br

    * tradutora do inglês, francês, italiano, espanhol e alemão

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    • Varlice disse:

      O que deixaremos para ser decifrado?
      Imagine milhares de (pares de) bolsas de silicone que não se desintegram junto a montículos de pó.
      Dirão: naqueles tempos, uma raça de amazonas reinava sobre todos e todas. Pertenciam a uma classe especial e seguiam rituais próprios que ainda não conseguimos muito bem entender, mas com certeza eram superiores.

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  • flm disse:

    pois é, cecil,
    houve tempo, entretanto, em que os hábitos foram bem piores nos castelos dos principes da Dinamarca, segundo o bardo inglês…
    não desanimemos, portanto.
    a internet acelera até a História de modo que é certo que os seus netos, ao menos, verão…
    bj e bom regresso ao passado

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  • Quando vi o título “Acostumados à vida de burro de carga” pensava que você se referia exclusivamente e corretamente à vida dos Homens (sexo masculino), pois é isso que a vida dos Homens tem sido durante toda a História da humanidade. Feministas criminosas inverteram a interpretação da História da humanidade e disseram que os Homens eram privilegiados. Na verdade, o lema do mundo sempre foi “mulheres e crianças, primeiro”, e os Homens sempre foram doutrinados e escravizados a entregar sua identidade, seu ser e sua própria vida em benefício das mulheres.

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  • Joao Camargo disse:

    Fernao,

    De um modo geral eu procuro ler o Vespeiro quase que Diariamente tem dia que para mim nao Da Metro Ruim CPTM Pior Radial parada e por ai vai.

    Mas eu sugererir a vc que marca-se um encontro informal com alguns leitores Missiovistas do estadao la no estadao mesmo so para trocarmos Figurinhas cada um conta um pouco de sua experiencia de Vida e porque deseja um Brasil Melhor.

    Abs

    Joao Camargo

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  • Nilson disse:

    Ótima ideia a do João Camargo. Nilson

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  • Joao Camargo disse:

    Ola,

    Dr Paulo…

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