A imprensa e a segurança pública

18 de julho de 2012 § Deixe um comentário

Dos números propriamente ditos ao modo como a imprensa os apresentou, a conta do verdadeiro massacre de crianças e jovens que vem ocorrendo no Brasil é um retrato detalhado do nosso fracasso como sociedade.

Somos o 4º país do mundo (entre 91 pesquisados) onde mais se trucida crianças e adolescentes (de 0 a 19 anos). El Salvador (1º lugar com 18 por 100 mil), a Venezuela do guru do lulismo, coronel Hugo Chávez (2º com 15,5), e Trinidad Tobago (3º com 14,3) ainda batem o Brasil (4º com 13,8). Mas deixe estar. Nos estamos nos calcanhares deles e havemos de chegar lá!

Em 1980, quando a “Constituição Cidadã” mais palavrosa do mundo ainda estava em projeto e um resto de pudor limitava a livre manifestação da idiotia objetiva (apud Nelson Rodrigues) que hoje nos avassala, somente 3,1 brasileirinhos e brasileirinhas a cada 100 mil morriam nas mãos de assassinos.

Trinta anos de discursos e de legislação “os mais avançados do mundo” não só em garantir a impunidade de seja qual for a ignomínia praticada por menores de idade, mas também de justificá-las moralmente e valorizá-las socialmente, o que transformou os menores de idade nos agentes ideais para assumir os trabalhos mais sujos do crime organizado, o número saltou para 13,8 jovens e crianças a cada 100 mil trucidados nas ruas e becos deste país “sem miséria”.

346,4% a mais.

É pouco. Ainda vai subir muito mais.

E o que o garante, antes de mais nada, é o modo como os três principais jornais do Rio e de São Paulo publicaram esse material.

Embora cada um dos brasileiros que já tenha vivido o bastante para andar uma vez por nossas ruas saiba, de tanto apanhar na cara, que é a impunidade que está por trás deste e de outros dos nossos fenômenos de polichinelo, essa palavra não foi grafada nenhuma vez nas três páginas inteiras de matérias publicadas pelo Globo, pela Folha e pelo Estado de S. Paulo (na televisão então, nem se fala).

A Folha e o Estado, antecipando o risco dessa obviedade vir a ser mais uma vez denunciada em voz alta, já começaram preventivamente a enfileirar desculpas para negá-lo. A Folha foi buscar fora de seus quadros quem fosse capaz de sugerir que o salto responde “à melhora das estatísticas de coleta de criminalidade“. O Estado conseguiu achar em seus próprios quadros quem dissesse coisa ainda pior. Pisoteando todos os cânones do bom jornalismo, o próprio “repórter” que assina a matéria volta-nos, logo abaixo, com o chapéu de “analista” (!!!) para nos garantir que tudo isso vem da própria fisiologia do cérebro humano e que – contenham-se as mães dos massacrados nesse seu desespero tolo! – os números são os que são porque “este país não sabe lidar com a imaturidade da juventude“…

Como as chefias de redação estão hoje pavlovianamente condicionadas a salivar incontidamente ao som da palavra “infográfico” eles aparecem, parecidíssimos uns com os outros, nas matérias dos três jornais. Mas não para destacar qualquer conclusão ou cruzamento de informações que fosse fruto de raciocínios. Apenas para repetir, como sempre, o que as matérias escritas já diziam.

No Globo havia um, até, do qual um leitor com imaginação ainda podia extrair um paralelo interessante. Mostrava em duas linhas, uma agudamente ascendente – a dos crimes – e outra agudamente descendente – a das mortes por “outras causas externas” – que em matéria de segurança e saúde públicas nós nos desempenhamos mais ou menos como na economia sob o lulismo: tomamos carona no progresso alheio, cujos remédios importamos até sem pagar direitos quando a coisa aperta, mas naquilo que é de nossa própria responsabilidade e indústria tudo sempre perseverantemente piora.

Nas entrelinhas do “ranking dos estados mais violentos” que o jornal carioca publica estavam, aliás, as pistas que nossos jornalistas se mostram decididos a não ver. Reconheço-lhes a abnegação e o esforço nesse sentido mas é impossível escondê-las completamente ao se tratar desse assunto.

Uma mostrava que São Paulo passou do 4º lugar em 2000, com 22,3 mortos por 100 mil habitantes, para 26º com 5,4 em 2010. Outra, que o Rio de Janeiro passou de 1º lugar em violência, com 25,9 mortes por 100 mil em 2000, para 10º, com 17,2 em 2012. Mas como a redução à quarta parte em São Paulo, coisa digna do Guiness, responde à decisão política do governador Alkmin de atacar a corrupção impune de suas polícias e redobrar a repressão ao crime, políticas às quais ele deveria voltar com todo empenho agora que as coisas andam piorando, e a melhora no Rio ao início da ocupação dos territórios livres do crime organizado pela polícia, nossos solertes jornalistas houveram por bem “abafar o caso”.

Sempre há o dia de amanhã para conferirmos se relações de causa e efeito tão fulminantes quanto estas ainda virão a ser destacadas, discutidas e cobradas com o respeito e o empenho que merecem a memória das 176.044 crianças e jovens ceifados na flor da idade em nossas ruas de 1981 para cá; para ver se alguém terá, agora que afinal seus autores estão no poder, a coragem de trazer para o primeiro plano a pergunta sobre se o Estatuto do Menor realmente salva nossas crianças ou as atira aos lobos. Ou se, como de costume, ainda teremos de ouvir que a solução está em desarmar “gente perigosa” como esses amigos de esportes violentos como o tiro olímpico, que é o remédio oficial das Organizações Globo para a questão do crime violento no Brasil ou, pior, que não ha solução porque a culpa, numa sociedade injusta, não é de quem mata, é de quem é morto.

Eu sou cético. Não para sempre ou quanto à espécie humana em definitivo. Mas com relação à parcela dela que vive este momento deste país gravemente doente.

Nada emocional. É só uma constatação. Não existe exemplo histórico – mesmo nas democracias mais avançadas – de políticos tomando a iniciativa de fazer reformas. Nas poucas vezes em que elas aconteceram, aconteceram porque o impulso veio de baixo e foi decididamente carregado pela imprensa, a ferramenta que as democracias inventaram para empurrar goela abaixo dos políticos aquilo que eles não querem engolir.

Quando o discurso da imprensa e o dos políticos é igual, como é o caso, entre outros, no que diz respeito ao problema da segurança pública no Brasil, é porque o óvulo da reforma nem sequer foi fecundado ainda.

Estamos tão distantes desta da seguraça pública quanto um dia ainda há de se provar que estivemos.

Vai sem dizer que a imprensa está procurando no lugar errado a raiz da crise que vive. É porque ela se permite com tanta largueza afinar seu discurso com o dos políticos que o público aqui fora a trata cada vez mais com o mesmo respeito que vota a eles.

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