O custo da impotência do eleitor

16 de julho de 2019 § 21 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 16/7/2019

Os Estados destinaram R$ 94 bi a 2,3 milhões de servidores inativos gastando em média R$ 40 mil por servidor. Já o investimento em toda a população de 210 milhões de plebeus foi quase quatro vezes menor em numeros absolutos, o que põe o gasto médio em R$ 125 por pessoa, 320 vezes menos que o que se “investe” nos aposentados da privilegiatura.

Esse é o resumo desta crise e da própria História do Brasil.

Essa nossa condição anacrônica de servidão semi-feudal só pode perdurar graças à “desorientação espacial”, digamos assim, em que anda perdida a imprensa nacional. O mundo ficou menor mas nem tanto. A Rede Globo, por exemplo, ainda que enquistada em pleno Rio de Janeiro, tem certeza de que vive numa sociedade sexualmente reprimida. De frente para a praia, nunca reparou naquilo que Pêro Vaz de Caminha viu de cara e marcou toda a nossa História: um país onde todo mundo anda pelado, naquela latitude abaixo da qual “não existe pecado”. Por isso agasta tanto que ela faça cara de heroína da revolução ao pregar a libertinagem na terra de João Ramalho, Caramuru e seus harens de filhas de caciques.

Não está sozinha. Boa parte do resto da imprensa frequentemente também imagina-se em alguma França, ou sei lá. Encasquetou meramente por eco que mudar regras de previdência é sempre “impopular”. Daí ter permanecido afirmando até tomar o desmentido na cara que reduzir a diferença média de 35 vezes entre as aposentadorias que o favelão nacional recebe e as que paga para a privilegiatura levaria os explorados às ruas para bradar contra o fim da própria espoliação.

Nem é da velha esquerda que se trata. Esta, de PT a FHC, não foi derrotada nem pela direita, nem pela internet. Morreu de morte morrida. Perdeu o trem do 3º Milênio e sumiu. Não tem proposta nenhuma pra nada. Por isso só fala de sexo. Mas dentro do universo do debate racional muita gente boa também tem boiado na interpretação do que está aí. O que explica essa desorientação é o vício muito brasileiro de excluir o povo de suas conjecturas. As “vitórias” e “derrotas” são sempre dos demiurgos. Tudo acontece ou deixa de acontecer exclusivamente graças a eles, e “é bom que seja assim” porque o povo brasileiro ignorante, coitado, não sabe o que é bom para ele próprio.

Ficou para tras do congresso que, vivendo de voto, logo entendeu que algo tinha mudado e deu 379 a 131. 64% da bancada do Nordeste (74% da do SE) votou a favor. Com isto querem crer os mais otimistas que por cima da constituição torta e da lei viciada, o Brasil já é governado pelo povo que tem encontrado os meios de dobrar os governos, as oposições e as instituições alinhadas contra os seus interesses. Tem um remoto fundo de verdade nisso. Mas não é realista relevar o quanto a falta de dinheiro para pagar funcionários terá pesado para fazer finalmente subir a cancela com que ha mais de 20 anos a privilegiatura mantinha a reforma da previdência barrada na porta do aparato das decisões nacionais, assim como imaginar que passado o sufoco ela jamais voltará ao ataque para nos impor o que não conseguiu com os “destaques” tentados.

Todos os problemas do Brasil, sem exceções, são consequência direta ou indireta da absoluta independência do País Oficial em relação ao País Real, e toda vez que esquecermos isso estaremos perdendo tempo (e vidas, muitas vidas). Na sequência da aprovação dessa reforma de que foram cirurgicamente extirpados todos os componentes revolucionários como a desconstitucionalização dos privilégios e a instituição do regime de contribuição, houve quem escrevesse sobre “a lentidão das decisões econômicas” e lembrasse que “foi preciso um impeachment e uma crise asfixiante” para que fizessemos a reforma com 20 anos de atraso, como se essa lentidão não passasse de preguiça ou respondesse a duvidas reais.

Sobre a reforma tributária, ha mais de meio século tida como “urgentíssima” por todos os especialistas, ha uma inflação de propostas no Congresso e nenhum sinal de consenso. Mas não é só por vaidade dos economistas. A razão real do marasmo é a de sempre: ha dois Brasis e o País Oficial, que decide por ambos, não paga os impostos que impõe ao País Real, logo não tem pressa. A questão decisiva para quem, mundo afora, optou por um ou outro sistema tributário é que onde o sistema apoia-se no imposto de valor agregado cobrado sobre o consumo o povo tem a ultima palavra sobre as decisões, logo o critério decisivo é o da transparência e justiça do imposto cobrado, e onde o de transações financeiras chegou a ser implantado o povo não participa das decisões e então o critério passa a ser só o do volume e o da facilidade de arrecadação.

Martela-se, ainda, no “mente quem diz que é possível baixar a carga de tributos no Brasil”. Mas mente mais ainda quem não acrescenta a esse raciocínio o seu complemento obrigatório, qual seja, “enquanto não se reduzir a farra do estado”. Dar por intocavel o tamanho do estado é dar por intocavel o tamanho da miséria do Brasil. É condenar mais uma geração que luta a viver no brejo e na guerra para que mais uma geração que não ganhou os privilégios que tem trabalhando possa desfrutá-los ao sol e em paz. O Brasil jamais poderá competir pelos empregos do mundo com o Estado custando o tanto que impede que os nossos impostos sejam tão baixos quanto os do resto do planeta, ou mais para compensar o handicap educacional que pagamos.

Todos esses raciocínios desviantes e desviados só podem ser abertamente defendidos no Brasil porque o eleitor é absolutamente impotente passado o ato de depositar o voto na urna. Eleições distritais, recall, referendo, iniciativa e eleições de retenção de juizes são a unica garantia jamais inventada de que o jogo será jogado sempre a favor do eleitor. Essas ferramentas são as manifestações de rua sistematizadas e instituidas como fator decisivo de sucesso de qualquer proposta de solução. É como a bomba atômica. Não precisa ser disparada. Basta o inimigo saber que você a tem para que passe a respeita-lo.

Os frutos da democracia

22 de julho de 2016 § 30 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 22/7/2016

O governo liberou quarta-feira os aumentos do Poder Judiciário acima de 41%. Primus inter pares porque é lá que se dizem os “sims’” e os “nãos” que confirmam ou anulam tudo que os outros poderes decidem, os “meritíssimos” recebem antes de todos os demais o seu pedaço do pacote de aumento do funcionalismo que, bem no meio da mais cruel crise já vivida pelo resto do Brasil, tomou mais R$ 60 bilhões da economia moribunda para garantir que as “excelências”, seus nomeados e os nomeados de seus nomeados continuem dormindo em paz no meio do pânico que grassa aqui fora.

No STF, que “dá o teto” para o salário de todo o setor público, o “por dentro” salta de R$ 33,7 mil para 39,2 mil, 16,3% a mais. É claro; todo mundo sabe que não ha um único juiz no Brasil, que dirá os do STF, que realmente vive com essa “mixaria”. Não ha cálculos publicados sobre quanto valem todos os “auxílios” e mordomias que lhes pagamos e são chamados de todos os nomes menos “salário” para que a Receita Federal que nos esfola a partir de pouco mais de dois salários mínimos se sinta juridicamente autorizada a tirar candidamente os olhos de cima deles. Por uma distração do “Sistema” na recente luta para expelir esse Eduardo Cunha que desafiou sua hierarquia interna, o país ficou sabendo, por exemplo, que o presidente da Câmara dos Deputados, computados todos os jatos, automóveis, pilotos, motoristas, combustível, hotéis, o “chef” e os tres auxiliares de cozinha, as empregadas e “valets de chambre”, os “auxílios” moradia, escola de filho, assistência médica, paletó, dentista, barbearia e o que mais se imaginar, ganha na verdade a bagatela de R$ 500 mil por mês.

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Somente os R$ 60 bi que vão custar esse ultimo aumento nominal – veja bem, não estamos falando da folha de pagamentos da União mas só de quanto ela vai aumentar enquanto você se afoga – poderiam pagar 33,8 milhões de vezes o salário médio do Brasil que, em 2016, chegou a R$ 1.776, ou 68 milhões de salários mínimos de R$ 880. E no entanto, notícias como essas são dadas pelos eruditos do colunismo social da Côrte em que se transfomaram os jornalistas políticos do Brasil, quase como uma vírgula em meio às elucubrações sobre as minúcias dos passes e transações entre partidos e chefes de partidos de que o país real não sabe sequer os nomes para decidir quem vai ficar com que pedaço da pele dele. Faz-se um mero registro desacompanhado de qualquer cálculo, comparação ou reportagem sobre como é a vida dos habitantes desse mundo inimaginavel para a multidão dos brasileiros das periferias “de bloco” que espera em obsequioso silêncio, imobilizada, que as “excelências” se resolvam.

Nesta ultima safra, registrou-se burocraticamente que o governo provisório que confirmou esses aumentos foi constrangido a faze-lo porque se ousasse sequer discutir o assunto a máfia travava de vez o país e acabava de matá-lo. Feito o parentese, com essa ameaça de quase genocídio apenas sugerida, volta-se ao infindável ti-ti-ti da Corte…

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Essa nossa constituição que vive sendo saudada aos quatro ventos como “democrática” é o avesso disso. Não passa de um vasto compêndio das exceções ao império da lei e dos privilégios garantidos a uns e negados a outros que abrange virtualmente todos os aspectos da vida e todas as categorias de brasileiros para garantir que nenhum possa se queixar a partir de uma posição moral não comprometida, mas que estabelece uma rígida hierarquia na privilegiatura que regulamenta até a menor das minúcias. O resultado é, sem tirar nem por, um sistema feudal em que “o rei” nomeia os seus barões e outras “nobrezas menores” a quem atribui “feudos”  nos ministérios e nas estatais que, por sua vez, criam as clientelas que “protegem”, tudo na base da distribuição de dinheiros que não são eles que produzem a quem fica dispensado de fazer por merece-lo.

Igualdade perante a lei; 1 homem, 1 voto; o direito de cada um decidir o que é melhor para si nas relações de trabalho; a proibição da representação que não seja teleguiada pelo Estado (fundo partidário, imposto sindical, etc.), nenhum dos fundamentos que definem “Democracia”, enfim, está presente neste Brasil do “regulamentismo absolutista”.

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O brasileiro vive se flagelando achando que é o povo mais corrupto do mundo mas esta é só mais uma das mentiras que lhe intrujam. No mundo inteiro, em tudo que o Estado entra, rouba-se. O problema é que no Brasil o Estado entra em tudo apenas e tão somente porque se quer roubar em tudo e isso continua sendo possível aqui. No resto do mundo, não existe mais essa discussão. Não é de Estado mínimo ou máximo mas de roubalheira mínima ou máxima que se trata. Para o Estado deixa-se apenas o que não se pode evitar de deixar, porque o que for deixado será inevitavelmente roubado e ha que por essa inexorabilidade na balança. Leis anti-corrupção, por melhores que sejam, são pra enxugar gelo e os esquemas organizados para negar isso pelos que vivem do Estado são ululantemente mentirosos. Todo mundo sabe disso. Não ha exceção de Azerbaidjão a Zaire.

No meio do desemprego e da quebradeira geral, um país acostumado a ser cavalgado busca desesperadamente uma esprança em que se agarrar. Mas desanima o fato de discussões encerradas no mundo todo não terem sequer começado por aqui. É deprimente entender, antes da partida para mais uma jornada de recuperação de prejuízos, que mais uma geração de brasileiros terá o seu acesso à modernidade barrada porque insistimos na roda quadrada.

O Brasil fica sonhando com colheitas mas o fim da miséria, a prosperidade, a paz social são frutos da democracia e é preciso antes adotá-la para poder colhê-los. Enquanto não sairmos do colunismo social da Corte para a cobertura intensiva, gráfica e subversiva do custo social da Côrte; enquanto não começarmos, não apenas a dizer, mas a bradar em fúria que não ha salário para nós porque ha salário demais para eles; enquanto não houver uma só lei para todos nós só colheremos mais do que já temos colhido.

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Um flagrante da doença do jornalismo

27 de janeiro de 2015 § 18 Comentários

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E o que dizer do fato dos jornais e televisões do Rio e de São Paulo só terem “descoberto” que a “Cidade Maravilhosa” e mais Belo Horizonte estavam ainda mais secas que a Paulicéia precisamente no dia em que Paraibuna chegou a zero e as torneiras secaram por lá?

Dos jornais de Minas não sei dizer, mas O Globo e a Globo eu acompanho diariamente e nunca tinha visto uma menção sequer a esse assunto até o meio da semana passada.

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Na sexta-feira publiquei um artigo no Estadão e no Vespeiro apontando o perigo das crises paralelas da imprensa e da democracia brasileiras e a natureza silenciosa da doença que afeta o nosso jornalismo cujos sintomas estão muito mais no que a imprensa não publica do que no que publica, deficiência agravada pela transposição de ferramentas do universo corporativo, bem menos nuançado que o da política, como o “benchmarking”, que ajuda esse processo de alienação porque, ao fazer as redações medirem-se umas pelas outras, leva-as a reconfirmarem-se nos seus erros em vez de detectar as lacunas da sua cobertura. Disse que os jornais estão tão viciados em repetir o que lhe dizem as fontes poluídas do jogo político brasileiro que vêm sendo confundidos com elas pela opinião pública. E que entregar o comando das redações para especialistas em administração de empresas que terceirizam a orientação de sua cobertura para jornalistas que só ocupam vagas a partir do segundo e terceiro escalões era uma temeridade que pode vir a ser fatal e que, além dos problemas de qualidade que acarreta, facilita o “aparelhamento” da produção jornalística.

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Como esperado, fui atacado pela brigada petista da internet, com jornalistas do segundo e terceiro escalão defendendo o espaço que essa distorção lhes permite ocupar acusando-me de “maniqueísmo”, “autoritarismo” e o resto dos adjetivos do costume que eles arrancam da definição do seu próprio comportamento para pespegar no dos outros.

Mas quando eu disse tudo aquilo tinha em mente a ausência de pautas propositivas que dessem a conhecer aos brasileiros sem nenhuma referência do que seja a democracia real, como funcionam as instituições de uma delas cobrindo sistematicamente, por exemplo, os processos de recall de juízes, funcionários públicos e representantes eleitos que acontecem todos os dias nas democracias sem aspas, coisa que, além de romper a cadeia da mesmice que vem matando a curiosidade do público para com nossos jornais, poderia contribuir para apontar caminhos de reformas reais capazes de armar o cidadão brasileiro dos mesmos recursos para fazer valer seus interesses nos momentos de decisão que têm os cidadãos dessas democracias.

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Esse caso da seca no Rio de Janeiro e Belo Horizonte vem provar que o buraco é ainda muito mais embaixo.

Como é possível que somente a seca de São Paulo e a iminência da falta d’água na Paulicéia venha merecendo ha mais de um ano cobertura cerrada e repetidas manchetes até dos jornais do Rio de Janeiro quando a situação deles próprios, agora está provado, era ainda mais crítica que a daqui?

Eu já lhes digo: isso aconteceu porque os candidatos ao governo do Rio de Janeiro com chance na disputa da eleição passada eram aliados do PT e o candidato mais forte ao governo de Minas era do próprio PT, de modo que agitar a falta d’água e o fantasma do racionamento só inetressava ao PT em São Paulo, onde esse foi o grande cavalo-de-batalha para incomodar um PSDB hegemônico que eles sabiam que continuaria no poder.

Que o PT agisse assim, aliás, tudo normal. É esse mesmo o jogo eleitoral: mostrar só o que é bom dos aliados e dos próprios candidatos e só o que é ruim dos adversários.

Nova leva de secretários de Alckmin inclui Saulo de Castro nos Transportes

Mas porque na imprensa se deu a mesma coisa?

Se fosse tudo uma conspiração de petistas infiltrados nas redações seria menos grave. Mas não foi isso. É que o jornalismo brasileiro está tão viciado em publicar somente o que lhe jogam no colo as fontes oficiais, inculsive e principalmente as denuncias a que lhe “dão acesso” as interessadas em atingir inimigos internos que fazem parecer que a imprensa está cumprindo bem a sua funcão que, com exceção da cobertura básica de polícia, já não ha chefia de reportagem nem jornalistas setorizados encarregados de percorrer sistematicamente as encruzilhadas do Sistema onde caem as informações sobre a vida da cidade e do país. Nem mesmo a varredura das diversas janelas para essas realidades que a internet oferece hoje a imprensa está tratando de fazer.

Como não interessava nem ao PT – o que fez do caso de São Paulo o cavalo-de-batalha que foi e ainda é – nem aos partidos de oposição ou meia oposição apontar a ameaça que pesava sobre Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a imprensa tomou essa bola gigante no meio das pernas. Deu um ano inteiro de manchetes sobre a iminência da flata d’água em São Paulo, e nem uma palavra sobre Belo Horizonte e Rio onde as torneiras vieram a secar antes que as daqui, nem mesmo nos jornais do próprio Rio de Janeiro e possivelmente nos de Minas Gerais, c.q.d.

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Acorda, jornalista!

11 de junho de 2014 § 16 Comentários

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Artigo publicado na Folha de S. Paulo de 11 de junho de 2014

Um golpe contra a democracia está em curso desde o último dia 26 de maio e a circunstância que o torna mais ameaçador do que nunca antes na história deste país é a atitude de avestruz que a imprensa tem mantido, deixando de alertar a população para a gravidade dessa agressão.

O decreto nº 8.243, assinado por Dilma Rousseff, que cria um “Sistema Nacional de Participação Social”, começa por decidir por todos nós que “sociedade civil” deixa de ser o conjunto dos brasileiros e seus representantes eleitos por voto secreto, segundo padrão universalmente consagrado de aferição da legitimidade desse processo, e passa a ser um grupo indefinido de “movimentos sociais” que ninguém elegeu e que cabe ao secretário-geral da Presidência, e a ninguém mais, convocar para examinar ou propor qualquer lei, política ou instituição existente ou que vier a ser criada daqui por diante em todas as instâncias e entes de governo, diretas e indiretas, o que afeta também os governos estaduais e municipais hoje na oposição.

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Apesar da violência desse enunciado, a maioria dos jornais e televisões do país nem sequer registrou o fato. E mesmo os que entraram no assunto depois vêm diluindo o tema no noticiário como se não houvesse nada com que seus leitores devessem se preocupar. Prossegue a sucessão de manchetes em torno do golpe de 1964, mas para o de 2014 o destaque é próximo de zero. Nenhum critério jornalístico justifica isso.

Esse decreto é, na verdade, um excerto do Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que o PT já tentou impor antes ao país também por decreto – nas vésperas do Natal de 2009, no apagar das luzes do governo Lula –, mas que, graças à forte reação da imprensa e consequente mobilização da opinião pública, foi obrigado a abortar.

O PNDH-3 contém 521 propostas que, além da revogação da Lei de Anistia, que passou “no tapa” depois que a imprensa comprou a ideia do governo de que a prioridade nacional é voltar 50 anos para trás e não correr 50 anos para a frente, institui “comissões de direitos humanos” nos Legislativos para fazer uma triagem prévia das matérias que eles poderão ou não processar; impõe a censura à imprensa; obriga a um processo de “reeducação” todos os professores do país; veda ao Judiciário dar sentenças de reintegração de posse de propriedades “rurais ou urbanas” invadidas, prerrogativa que se torna exclusiva dos “movimentos sociais”; desmonta as polícias estaduais para criar uma central única de comando de todas as polícias do país, e vai por aí afora.

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Ciente de que tal amontoado de brutalidades jamais será aprovado pelo Legislativo, o PT está tratando de fazer com esse Poder o mesmo que fez com o Judiciário. Os juízes não dão as sentenças que queremos? Substituam-se os juízes por juízes “amigos”. Um Legislativo eleito pelo conjunto dos brasileiros jamais transformará essas 521 propostas em lei? Substituam-se os legisladores por “movimentos sociais” amestrados sob a tutela da Presidência da República…

O argumento de que esse é o jeito de forçar o Congresso a reformas não é honesto. Para forçar reformas que o povo deseje, existem instrumentos consagrados tais como o do voto distrital com recall, que arma as mãos de todos os eleitores para demitir na hora os representantes que resistirem ou agirem contra a sua vontade. Este tipo de participação, sim, opera milagres estritamente dentro dos limites da democracia. Substituir os representantes eleitos por “representantes” que ninguém elegeu tem outro nome: chama-se golpe.

Depois da rendição do Judiciário com a renúncia de Joaquim Barbosa, só sobra a imprensa. E os feriados da Copa farão com que só haja pouco mais de meia dúzia de sessões legislativas completas em junho e julho somados. Depois é véspera de eleição. É bom, portanto, que ela desperte já dessa letargia, pois não haverá segunda chance: está escrito no PNDH-3 que a imprensa é a próxima instituição nacional a ser desmontada.

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A demolição do Cade e a imprensa com Alzhaimer

21 de março de 2014 § 4 Comentários

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E, de repente, a imprensa decide que está na hora de deixar de esconder que o “caso Alstom” não afeta só o PSDB — dos seus fundadores mortos ate hoje estão todos pendurados na cruz há meses sem fim — mas sim todos os partidos em todas as capitais do país onde foram construídos metrôs ou comprados trens urbanos nas quais o PT e seus aliados, que têm pavimentado essa via cucis com a ajuda dos fariseus do “jornalismo”, fazem a esmagadora maioria, tais como Porto Alegre, o Distrito Federal, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e etc.

Enfim, o esquema “teria ocorrido” em 15 licitações pelo pais afora entre 1998 e 2013 como já se sabia desde o primeiro dia dessa história mas tem sido zelosa e recorrentemente “esquecido” por toda a imprensa nacional.

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Como anteontem o Cade publicou a íntegra da sua “investigação” sobre o “cartel da Alstom” (que na verdade não é nem pode ser só da Alstom o que é uma decorrência da própria expressão “cartel”), a imprensa foi obrigada a se lembrar desse “pormenor” que, a julgar pelos antecedentes, voltará a ser equecido assim que cessar a obrigação de ler documentos e as redações voltrem à paz modorrenta da repetição automática do que lhe dizem as “fontes” do costume, quais sejam, estas que o PT instalou dentro do Cade para converter aquela que deveria ser a mais importante agência governamental dentro de um regime de capitalismo democrático em uma mera fábrica de fofocas eleitoreiras que não encontram respaldo sequer nos dossiês que ela própria produz.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica, recorde-se, foi criado como uma autarquia ligada ao Ministério da Justiça para zelar para que os interesses de nenhuma empresa,  individualmente, se sobreponham ao interesse do consumidor brasileiro que é ter o maior número de concorrentes em cada setor da economia disputando a sua preferência pela soma do menor preço com a maior qualidade.

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Mas deixou de ter qualquer significado num governo a que qualquer instrumento verdadeiramente democrático horroriza e que, nestes 12 anos, não fez outra coisa senão colocar toda a força do Estado para produzir o efeito exatamente oposto, gastando centenas de bilhões de dólares dos contribuintes, via BNDES, para esmagar a concorrência e atirar contra eles próprios um monopólio em cada setor estratégico da economia brasileira.

Como resultado não é só no seu papel de  consumidor que o brasileiro está condenado a servir esses monopólios que o tratam da maneira que os Procons inutilmente registram; é por esse meio transverso que o PT exerce, também, o mais absoluto controle sobre as demais empresas brasileiras – e por tabela sobre os seus empregados – que ficam sujeitas aos barões do BNDES, ou como compradores únicos da sua produção, ou como fornecedores únicos dos insumos necessários a ela.

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É por meio dessa arma que o PT exerce a sua ditadura mal disfarçada condenando à morte econômica todo e qualquer desafeto, seja no garrote vil da “concorência” com um desses monstros, seja na guilhotina de uma “fiscalização tributária” servida por um sistema de espionagem computadorizada que só tem semelhante na NSA que tanto indignou dona Dilma de Pasadena, e que escaneia uma balburdia tributária feita sob medida para não poder ser cumprida integralmente por nenhuma empresa de modo a deixar todas elas sempre expostas ao cutelo do governo.

O ministro da Justiça, com aquele ar de santarrão, sempre a dar explicações para o inexplicavel e justificações para o injustificável na televisão toda vez em que seu partido é flagrado em delito, o que acontece com frequência cada vez maior, tem, aliás, se revelado o olho do furacão da ditadura mal disfarçada que vivemos. E ei-lo outra vez nele, como responsável pelo Cade que é.

a9O pior papel, contudo, tem sido o da imprensa. Nenhum ser humano adulto em pleno Terceiro Milênio tem o direito de ter qualquer dúvida razoável de que um setor como o da fabricação de trens reunindo 8 empresas em todo o mundo – as que se compuseram no famigerado “cartel da Alstom” – se comporá sempre em “cartel” para dividir as poucas licitações que o mundo oferece nessa área.

É essa a explicação porque todos os nossos metrôs de todos os nossos governos estaduais de todos os nossos partidos estão nesse mesmo saco, sem que haja grande cupa deles nisso.

Desde sempre, portanto, esse barulho todo dirigido contra apenas um deles não pode deixar de ser um jogo de cartas marcadas.

Ninguém é santo?

Mais que isso. Ninguém pode ser santo nesse lodaçal institucional sobre o qual escorrega a vida política brasileira.

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Mas obtusidade tem limite. Se alguém perdeu algum capítulo dessa novela, especialmente sendo um especialista em informação, tinha a obrigação de pelo menos desconfiar e ir investigar melhor o que lhe diziam. Ou ao menos ir ao arquivo posto que desde o primeiro dia dessas “denúncias”, já se sabia o que foi incidentalmente lembrado ontem, a saber, que todos, especialmente quem mais grita contra os demais, estão com o rabo preso nesse mesmo torniquete.

Mas é inútil. Essa lembrança só assoma a cabeça dos nossos jornalistas de seis em seis meses. No meio tempo, come livre e forte o disse-que-disse nunca checado, sempre “dado a acesso”, em que, ultimamente, cresce a palavra “suborno”, supostamente de uma empresa contra outra para ganhar paradas para as quais … elas estão previamente acertadas num “cartel”.

Faz sentido?

Que importa? Afinal, este é o paraíso dos analfabetos funcionais que conseguem ler alguma coisa mas não entendem o que lêm. Então fica o dito pelo não dito na memória do eleitor e isso é o que interessa ao PT.

Mas e aos jornalistas? Esses que nunca desconfiam de nada? Do jeito que a coisa vai, só se safarão aqueles que chamarem a si esse qualificativo apenas desairoso — o de não entenderem o que leem ou ouvem — para evitar que lhes sirva a carapuça de outros muito piores.

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Sartre e a corrupção pela vaidade

10 de fevereiro de 2014 § 3 Comentários

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No clássico mas pouquíssimo divulgado “Amor, Luxo e Capitalismo”, livrinho que é uma preciosidade que merece ser mais conhecida, Werner Sombart demonstra, com a meticulosidade dos sábios alemães, como foi que, no momento em que um príncipe italiano apaixonado tirou sua mulher da alcova onde todas eram mantidas até então e a pôs no comando das festas do seu castelo, como todos os de então uma mera fortaleza de pedra sem conforto interno nenhum, a arte da decoração e a busca do luxo detonaram o surgimento da burguesia, aquele extrato dos artesãos e comerciantes capazes de viver nas cidades do produto do seu trabalho que não existia na sociedade da Baixa Idade Média onde ou se era “nobre”, ou seja, proprietário de terra, o único meio de produção de riqueza, ou se era “servo“, ou seja, o miserável que trabalhava a terra e entregava a parte do leão ao barão.

É, por assim dizer, o exato momento do parto das sociedades modernas.

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Quem mora neste nosso país que viveu por séculos da troca de espelinhos e miçangas que atendiam a vaidade dos índios pelo “pau-de-tinta” que produzia o raro corante vermelho que tingia a roupa que atendia a vaidade dos ricos e poderosos da Alta Idade Média já devia ter suspeitado do peso da vaidade na aventura humana. Mas essa é a história que abriu o Vespeiro e você pode conferi-la neste link.

Eu a retomei só para lembrar que a vaidade sempre moveu a História, e entre as diversas formas que ela assume, a da vaidade intelectual talvez seja a mais forte de todas posto que dobra e escraviza não apenas o bruto mas os cérebros mais refinados que se entregam ao pecado de Fausto em troca do brilho fácil e do viciante gostinho de onipotência que vêm junto com o insensamento e a adoração públicas.

O Caderno 2 do Estadão de hoje traz matéria que faz pensar a respeito sobre “As Ligações Perigosas”, a nova biografia do casal Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir recém publicado pela historiadora escocesa Carole Seymour-Jones (aqui).

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O que o livro confirma, para além dos detalhes carregados de sal e pimenta da vertente sexual dessa relação, é algo que quem viveu aquele período sem se deixar intoxicar pela ideologia tida como “politicamente coreta” na época já sabia. Jean Paul Sartre não se tornou o homem intelectualmente venal que foi de repente. Nem descobriu-se quem era ele com revelações até então insuspeitadas feitas após sua morte. Ele sempre foi regular e consistentemente dócil a quem quer que estivesse com a força nas mãos no seu habitat parisiense, na época o grande palco planetário dos candidatos a “maitre-a-penser“, fossem eles os nazistas com que ele confraternizou durante toda a Ocupação – abjeção que fez com que o ex-amigo de sempre, Albert Camus, rompesse ruidosamente com ele – ou fossem eles os “ditadores do proletariado” cujos crimes ele acobertou e justificou não apenas antes mas, principalmente, depois que deixou de haver qualquer dúvida de que eles estivessem mesmo sendo perpetrados, num tempo em que denunciar o genocídio que estava em curso pela Ásia afora (depois do da Rússia e dos da Europa Oriental) expunha quem ousasse faze-lo, com raríssimas exceções, ao apedrejamento moral na praça pública da imprensa, abjeção que colocou Raymond Aron frente a frente com ele, denunciando “O ópio dos intelectuais”.

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Como quase sempre, é a ocasião que faz o ladrão. O pensador circunscrito ao diálogo consigo mesmo ou ao quase anonimato dos textos antigos tinha poucos apelos para se prostituir (e mesmo assim já havia os que o fizessem). Mas nas sociedades midiáticas da “Era das Comunicações” a coisa muda de figura. O que passou a haver então, como continua havendo até hoje, era uma imprensa instrumentalizada pela luta pelo poder – e ela sempre foi e continua sendo um alvo prioritário de quem está empenhado nela – trabalhando consciente e dolosamente para falsificar a imagem “dos sartres” da vida e pinta-los como o avesso do que são, transformando-os em semi-deuses do “pensamento progressista” para seduzí-los pela vaidade, em troca de fazer deles o grande ponto de referência do sistema de “lavagem  de argumentos” carregados de má consciência montado para justificar os crimes de lesa-humanidade dos loucos pelo poder da vez.

Ele próprio era menos condescendente consigo mesmo e, nos momentos críticos, frente a frente com sua própria consicência, descrevia-se como “um canalha desprezivel; um funcionário público sádico e nojento“, como revelam documentos exibidos por Seymour-Jones.

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Brilho intelectual, dotes artísticos e outros talentos excepcionais quase nunca andam juntos com caráteres íntegros ou, muito menos, com coragem moral e intelectual. Ao contrário, tendem a ser mais um elemento de corrupção de seus portadores.

É isso que faz do ofício de relatar a história de hoje buscando permanentemente o necessário distanciamento das paixões políticas do momento, como se requer do jornalista profissional, uma especialidade tão difícil e perigosa, requerendo um policiamento ético permanente e todo um aparato de “checks-and-balances” para garanti-lo tão fundamental e rigoroso quanto o que cerca qualquer outro dos poderes constituídos de uma democracia.

Lições esquecidas neste momento em que, com o mundo entregue mais que nunca ao vale tudo pela adoração do “bezerro de ouro“, a crise global do capitalismo democrático, da qual a crise do modelo de negócios que sustentava o jornalismo profissional é ao mesmo tempo causa e consequência, tirou-o das mãos dos vocacionados para essa missão e depositou-o preferencialmente, como tudo o mais, nas dos agentes da luta pelo poder pela vertente do dinheiro.

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A canalha vai ao paraíso

20 de janeiro de 2014 § 13 Comentários

jo1

Eles estão como pediram ao diabo.

As capas dos jornais deste fim de semana (e quem é que consegue ir além delas?) tinha para todo mundo. Eles “tiveram acesso” a denúncias de “suposta corrupção” “envolvendo” o PSDB em delitos cometidos ha 20 anos, Marta Suplicy, do PT, em outros de ha 10, Gilberto Kassab, do PSD, por mutretas de ha quatro ou cinco, o ubíquo Jorge Murad da Roseana do PMDB, por mamar até no sangue das masmorras sórdidas de madame e mais uma meia dúzia de gatunos, todos menos um sócios do PT, mamando em falcatruas variadas.

A imprensa esforça-se por mostrar-se democrática na sua nulidade. E todo dia a lista se repete. E todo dia a lista cresce. No mais são as especulações de praxe sobre quem, no meio desse mutuo escoicear, está disposto a se juntar com quem para escoicear o próximo. E disso não passa.

jo1

A concorrência entre os “contemplados” é a isca que a canalha usa para rebaixar a disposição dos jornais e televisões de apurar aquilo a que os seus arapongas e aloprados lhes “dão acesso”. Como se um não publicar o outro publica e os Conselhos de Administração sem jornalistas que mandam no jornalismo de hoje exigem “medidas aferíveis de desempenho” (nada desses critérios subjetivos de qualidade de alienados que não se dedicam exclusivamente à nobre arte de “add value to the shareholder”) e “furo” é o que dá pra medir com régua nesse vago mundo dos escrevinhadores, o desastre se completa.

O resultado é que a imprensa que alardeia que está saneando o país fazendo exclusivamente papel de polícia está mesmo é fornecendo ao partido do “Eu sou, mas quem não é?” o grande liquidificador em que ele trata de moer todas as frutas no mesmo malcheiroso “suco de nada” diante do qual o poder de optar, que é a única arma de que dispõe o eleitor, fica completamente anulado.

jo1

É a mesma receita que eles aplicaram para transformar as esperanças ressuscitadas pela quase zebra da quase condenação dos mensaleiros em um idêntico “suco de nada” graças à mesma boa “condição objetiva” que se lhes apresentou: a falta de uma liderança das manifestações de junho capaz de expressar em português claro o que é que eles queriam à par daquilo que não queriam, de modo a se diferenciar daqueles “black blocs” de encomenda,  providencialmente mascarados que, para confundir alhos com bugalhos, transformaram as ruas do país inteiro numa “zona” nos meses que se seguiram às primeiras manifestações espontâneas até que os ressuscitados do STF enfiassem suas esperanças no saco e voltassem, mudos, para a toca da desesperança de onde tinham saído. Repararam como o tal “fenômeno black bloc” em torno do qual tanto se elocubrou, desapareceu tão de repente quanto surgiu assim que se esvaziou a onda de protestos que roeu em um mês metade da aprovação da Dilma em junho? Pois é…

Deserto de liderenças e passividade da imprensa, uma coisa é consequência da outra, na verdade.

É à imprensa que cabe abrir os novos caminhos. Ou pelo menos indicar os que já estão abertos mas ninguém está vendo. Levar os olhos e os ouvidos do cidadão para além do ponto a que a canalha quer mantê-los limitados. Municiá-los com exemplos e argumentos até que surja um líder com vontade de gritá-los e capacidade de traduzí-los para as massas.

jo1

Da rua só saem lideranças revolucionárias. As lideranças reformistas, que são as que fazem o mundo andar para frente, quando surgiram, surgiram na imprensa ou pela imprensa. Isso é um dado histórico.

No jornalismo de CEO, em que os donos das empresas de comunicação abrem mão da responsabilidade de liderar a pauta da discussão nacional e os CEOs não estão autorizados a assumí-la nem que surja um com capacidade para fazê-lo, entretanto, quem assume essa tarefa desprezada é o governo e, mais especialmente, as suas polícias, arapongas e aloprados. Ou, quando muito, os governos que estão e os governos que querem estar, alternadamente, já que acusar é muito fáçil e amor com amor se paga.

Os jornais, que nasceram para ser ferramentas constitutivas do aparato institucional das democracias tão imprescindíveis que um dos inventores dela (Thomas Jefferson) dizia que a governos sem jornais ou jornais sem um governo, preferia a segunda opção, transformaram-se, no Brasil do Terceiro Milênio, em meros bonecos de ventríloqüo dos contendores da briga de navalha no escuro que por aqui se trava pelo poder. São armas que atiram a esmo as balas com que eles os carregam para alvejarem-se uns aos outros.

jo1

Charles de Gaulle, o estadista que impediu que a França “passasse do chão” depois de cair quase sem resistência nos braços de Hitler e a reergueu para o clube restrito das potências que mandaram no século 20 nos dois períodos em que esteve no primeiro posto da Nação entre o fim da 2a Guerra Mundial e 1969 quando se retirou para morrer, dizia que para governar o país e levá-lo a recuperar um papel condizente com sua história, o sujeito tinha de ter “une certaine idée de la France”.

Para governar e pautar um jornal de modo a torná-lo relevante como ele precisa ser para não se tornar dispensável na luta pelo aperfeiçoamento institucional do meio em que atua e, como consequência, um mau negócio, também é preciso ter “uma certa ideia do Brasil”.

Ainda que o tipo se proíba de propor suas próprias soluções como elemento norteador dessa tarefa – coisa que, vá lá! – tem ao menos a obrigação de divulgar as que foram testadas e aprovadas por outros povos empenhados na mesma luta que nós para crescer livres de quem lhes chupe o sangue da carótida.

jo1

A internet está aí, janela escancarada para o mundo precisando de edição, cobrindo ao vivo e em cores até o que acontece de bom nele, só que caoticamente e em inglês. E o jornalismo de CEO só fala inglês para papaguear termos adinistrativos ou financeiros em voga junto às fontes dessas especialidades encarnadas por outros “Chief Executive Officers” e seus interlocutores em “boards” de administradores de empresas que seguem, todos eles, a cartilha do “benchmarking” expressão que significa, literalmente, medir-se tomando por referência o seu semelhante, o que é o avesso de ousar e de inovar.

Funciona para fabricar parafusos e salsichas, assim como para outras atividades igualmente indiferentes à necessidade de inovação e insumos culturais.

Para promover a democracia é um desastre porque as respostas para esse desafio estão todas em inglês e como as “fontes” das seções de Política são aqueles nobres senhores de cabelo implantado e pintado que você conhece bem, que não falam inglês e têm horror a quem fale porque é nessa língua que estão os remédios capazes de varrê-los para o lixo da História, o jornalismo de CEO também abre mão do seu.

Enquanto for assim não ha como escaparmos ao “suco de nada” que disso resulta, este que, enquanto durar, garante que a canalha não sai do paraíso.

jo1

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