Um flagrante da doença do jornalismo

27 de janeiro de 2015 § 18 Comentários

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E o que dizer do fato dos jornais e televisões do Rio e de São Paulo só terem “descoberto” que a “Cidade Maravilhosa” e mais Belo Horizonte estavam ainda mais secas que a Paulicéia precisamente no dia em que Paraibuna chegou a zero e as torneiras secaram por lá?

Dos jornais de Minas não sei dizer, mas O Globo e a Globo eu acompanho diariamente e nunca tinha visto uma menção sequer a esse assunto até o meio da semana passada.

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Na sexta-feira publiquei um artigo no Estadão e no Vespeiro apontando o perigo das crises paralelas da imprensa e da democracia brasileiras e a natureza silenciosa da doença que afeta o nosso jornalismo cujos sintomas estão muito mais no que a imprensa não publica do que no que publica, deficiência agravada pela transposição de ferramentas do universo corporativo, bem menos nuançado que o da política, como o “benchmarking”, que ajuda esse processo de alienação porque, ao fazer as redações medirem-se umas pelas outras, leva-as a reconfirmarem-se nos seus erros em vez de detectar as lacunas da sua cobertura. Disse que os jornais estão tão viciados em repetir o que lhe dizem as fontes poluídas do jogo político brasileiro que vêm sendo confundidos com elas pela opinião pública. E que entregar o comando das redações para especialistas em administração de empresas que terceirizam a orientação de sua cobertura para jornalistas que só ocupam vagas a partir do segundo e terceiro escalões era uma temeridade que pode vir a ser fatal e que, além dos problemas de qualidade que acarreta, facilita o “aparelhamento” da produção jornalística.

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Como esperado, fui atacado pela brigada petista da internet, com jornalistas do segundo e terceiro escalão defendendo o espaço que essa distorção lhes permite ocupar acusando-me de “maniqueísmo”, “autoritarismo” e o resto dos adjetivos do costume que eles arrancam da definição do seu próprio comportamento para pespegar no dos outros.

Mas quando eu disse tudo aquilo tinha em mente a ausência de pautas propositivas que dessem a conhecer aos brasileiros sem nenhuma referência do que seja a democracia real, como funcionam as instituições de uma delas cobrindo sistematicamente, por exemplo, os processos de recall de juízes, funcionários públicos e representantes eleitos que acontecem todos os dias nas democracias sem aspas, coisa que, além de romper a cadeia da mesmice que vem matando a curiosidade do público para com nossos jornais, poderia contribuir para apontar caminhos de reformas reais capazes de armar o cidadão brasileiro dos mesmos recursos para fazer valer seus interesses nos momentos de decisão que têm os cidadãos dessas democracias.

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Esse caso da seca no Rio de Janeiro e Belo Horizonte vem provar que o buraco é ainda muito mais embaixo.

Como é possível que somente a seca de São Paulo e a iminência da falta d’água na Paulicéia venha merecendo ha mais de um ano cobertura cerrada e repetidas manchetes até dos jornais do Rio de Janeiro quando a situação deles próprios, agora está provado, era ainda mais crítica que a daqui?

Eu já lhes digo: isso aconteceu porque os candidatos ao governo do Rio de Janeiro com chance na disputa da eleição passada eram aliados do PT e o candidato mais forte ao governo de Minas era do próprio PT, de modo que agitar a falta d’água e o fantasma do racionamento só inetressava ao PT em São Paulo, onde esse foi o grande cavalo-de-batalha para incomodar um PSDB hegemônico que eles sabiam que continuaria no poder.

Que o PT agisse assim, aliás, tudo normal. É esse mesmo o jogo eleitoral: mostrar só o que é bom dos aliados e dos próprios candidatos e só o que é ruim dos adversários.

Nova leva de secretários de Alckmin inclui Saulo de Castro nos Transportes

Mas porque na imprensa se deu a mesma coisa?

Se fosse tudo uma conspiração de petistas infiltrados nas redações seria menos grave. Mas não foi isso. É que o jornalismo brasileiro está tão viciado em publicar somente o que lhe jogam no colo as fontes oficiais, inculsive e principalmente as denuncias a que lhe “dão acesso” as interessadas em atingir inimigos internos que fazem parecer que a imprensa está cumprindo bem a sua funcão que, com exceção da cobertura básica de polícia, já não ha chefia de reportagem nem jornalistas setorizados encarregados de percorrer sistematicamente as encruzilhadas do Sistema onde caem as informações sobre a vida da cidade e do país. Nem mesmo a varredura das diversas janelas para essas realidades que a internet oferece hoje a imprensa está tratando de fazer.

Como não interessava nem ao PT – o que fez do caso de São Paulo o cavalo-de-batalha que foi e ainda é – nem aos partidos de oposição ou meia oposição apontar a ameaça que pesava sobre Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a imprensa tomou essa bola gigante no meio das pernas. Deu um ano inteiro de manchetes sobre a iminência da flata d’água em São Paulo, e nem uma palavra sobre Belo Horizonte e Rio onde as torneiras vieram a secar antes que as daqui, nem mesmo nos jornais do próprio Rio de Janeiro e possivelmente nos de Minas Gerais, c.q.d.

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§ 18 Respostas para Um flagrante da doença do jornalismo

  • Varlice Ramos disse:

    Bravo, Fernão!
    ‘Je suis Fernão’.
    Toujours.

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  • Rogerio Igel disse:

    Parabéns Fernão, vindo de você estes dois artigos tem toda credibilidade.
    Eu já vi artigos sobre a nossa incapacidade de transportar água para onde ela é
    necessária no Economist e nada na nossa imprensa.
    Basta ver a aberração que é a transposição do São Francisco.
    Abraços

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    • Claudia Taa disse:

      Duro falar isso, mas….imprensa? que imprensa?

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      • Carmen Leibovici disse:

        Claudia,eu vou dar a minha modesta opinião s/o que acho da imprensa brasileira.Paulista,melhor dizendo,pois é a única que eu tenho contato.

        Em primeiro lugar,eu acho que a gente não tem muitas opções de jornais físicos.Tem a Folha e o Estado,que eu saiba.Eu gosto do Estado porque acho mais crítico e informa bem e seriamente ,de modo que a gente pode chegar às nossas próprias conclusões a respeito do que acontece aqui e no mundo.

        Isto é muito,muitíssimo!

        O que talvez falte um pouco é discussão,discussão franca, em relação aos nossos problemas daqui,problemas esses que nos impedem de avançar como democracia e que são ,as vezes,”espinhosos”,mas que ,na minha opinião ,deveriam ser encarados mais corajosamente.

        Vou dar um exemplo a partir de outra imprensa que conheço mais ou menos ,que é a imprensa israelense,mais especificamente a que publica em inglês e em papel,que é o Jerusalem Post.(Mas as que publicam em hebraico discutem tudo mais ainda!)
        Israel é uma democracia ,com várias limitações,mas é uma democracia.Lá,então,por exemplo,quando aparece um negócio como esse do grupo “Fora do Eixo”(grupo financiado pelo governo brasileiro do PTpara “fazer jornalismo”),a gente vê 300 jornalistas(e não jornalistas também) dando opinião de cá ,opinião de lá,que você fica até tonta,mas ajuda a chegar a uma conclusão e impede ,assim,o próprio governo de usar certas coisas de maneira escusa.Lá,se discute tudo e especialmente política,através do jornal e fora dele,as vezes até demais!Como se fosse futebol aqui.Quando surge um assunto mais polêmico,a gente vê 2,3 4 críticos,ou não críticos,discutindo aquilo lado a lado,num caderno específico.

        No mais,eu estou satisfeita com a informação daqui,mas ressalto que,quando não estou assinando o jornal por alguma razão e me baseio só na internet,eu literalmente BÓIO!Fico quase angustiada!

        PS:Eu não tenho televisão.

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      • Carmen Leibovici disse:

        Queria corrigir uma coisa:no trecho em que digo,no meu comentário em resposta à Claudia,que certos assuntos deveriam ser tratados mais corajosamente,acho que não usei o termo apropriado ; acho que o termo apropriado seria “mais abertamente”.

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  • A imprensa se tornou porta voz oficial do governo. As notícias sobre órgãos internos são completamente disparatadas. Não se sabe, nas redações, contestar a informação de burocratas, checar a veracidade dos argumentos oficiais, e muito mais grave, os próprios redatores demonstram não entender o que estão escrevendo. Por exemplo, a queda de 50% dos preços do petróleo no mercado internacional, é mencionada como danosa a Petrobras, quando é exatamente o contrário. Pois se o preço interno está congelado, e ela importa quantidade razoável de gasolina, seus lucros só podem aumentar com preços de aquisição menores, já que a receita aumenta. Somente a pequena parte que a Petrobras exporta é que se sujeita ao mercado internacional, mas que não tem importância para o todo. E todo mundo bota a boca no pré-sal, como se o petróleo a 50 dólares o barril fosse o fim do pré-sal. Mas com o mercado cativo, com o monopólio restabelecido até na petroquímica, o petróleo pode chegar a 5 dólares o barril que a Petrobras continua exatamente fazendo a mesma coisa: apenas ganhando mais dinheiro com a importação, já que os preços internos estão isentos de qualquer competição. É um caso em que a incompetência poderia ser benéfica para o monopólio, especialmente para um ritmo de queda de produção, embora maléfica para a sociedade, pois compromete sua balança comercial. Mas se houvesse algum balanço entre os interesses da sociedade e os do monopólio, estes não existiram, embora a maioria dos jornalistas sequer desconfia disto.

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  • Carmen Leibovici disse:

    “Que o PT agisse assim, aliás, tudo normal. É esse mesmo o jogo eleitoral: mostrar só o que é bom dos aliados e dos próprios candidatos e só o que é ruim dos adversários.”

    Na verdade,que o PT agisse assim,não é normal não e nem pode ser considerado jogo eleitoral normal.Isso é safadeza e sem vergonhice das grossas porque o PT naqueles estados teria a obrigação de comunicar o problema.Que a imprensa deveria ter corrido atrás para saber,deveria,mas a obrigação de qualquer governo decente é comunicar o que se passa com os interesses da população e é por isso que são eleitos.
    Eu me lembro ,quando o Fernando Henrique Cardoso estava deixando a presidência,há 12 ,13 anos atrás,ele alertou sobre esse problema de energia e água.Eu me lembro disso!Quer dizer, o cara é decente,porque não estava preocupado com mesquinhezas eleitoreiras mas sim com GRANDEZA- na verdadeira acepção da palavra-estava preocupado em alertar o povo sobre um problema grave e real ,e o que ele disse acabou acontecendo.

    Agora em relação a imprensa ,o “benchmarking”-que o Google acaba de me elucidar de que se trata-deveria servir para melhorar as empresas, mas como a preguiça e,as vezes, a sem- vergonhice,e como quase sempre a incompetência prevalecem em boa parte dos negócios do Brasil, ele acaba sendo usado para copiar o que o outro jornal ,que investe ,diz.”Benchmarking” na mão dessa gente deve só servir de porta-aberta para fuxicar e arrumar fuxico para os outros lerem.Nada sério de verdade.

    Enfim,é a incompetência reinando,e os srs petistas de plantão-que não se ofendam com o que digo a seguir-agem como macaquinhos fingido-se de intelectuais.Até as palavrinhas que usam ,como “maniqueista”,”reacionário” e tal, acabam tendo uma conotação que dá alergia na gente!Eles conseguem tirar sentido do que poderia fazer sentido.É um horror!

    A verdade dói,mas faz bem ser ouvida de vez em quando!

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  • Carmen Leibovici disse:

    Complemento frase anterior:

    ”Benchmarking” na mão dessa gente deve só servir de porta-aberta para fuxicar e arrumar fuxico para os outros lerem.Nada sério de verdade.Crítica séria ,que é bom,eles não sabem fazer!

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  • Acho que muito dessa desinformação pode não ser culpa do governo. Creio que além disso, o Fernão nos faz crer que os profissionais de imprensa, raras as exceções, são incompetentes. Bem como as empresas para as quais trabalham.

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    • Carmen Leibovici disse:

      sr.Carlos Alberto,se muito dessa desinformação pode não ser culpa do governo,de quem será então?o sr.pode responder,por favor?

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    • Ricardo vasconcelos disse:

      O problema é que a maioria dos jornalista é mal preparada e incompetente mesmo. Conheci turmas de estudantes de jornalismo cujo passatempo predileto na faculdade era fumar um baseado e fazer “política universitária”. Quando vão pro mercado de trabalho (ou seja, pra mídia garroteada pelo poder político e pelo interesse econômico), não conseguem redigir um artigo sem cometer algum erro de concordância. Os mais preparados não tem liberdade para escrever o que deveriam escrever: é que as redações já recebem as pautas direcionadas pelos interesses dos administradores e proprietários do veículo de imprensa. Prevalece o interesse econômico do grupo ou a pressão/apoio político que este sofre/oferta na sua relação com o grupo político com o qual “simpatiza”. O jornalista que se meter a besta de escrever algo fora do script está fora do mercado. Talvez vá trabalhar em jornaleco do interior, com pouca circulação. Ou então, quando bem sucedido, publica um blog para ser lido/ouvido por um público diferenciado, que certamente não lê mais jornais locais e nem tem mais paciência para assistir o noticiário televisivo nacional.

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    • flm disse:

      eu não falei em desinformação e nem disse que nada disso é culpa do governo, carlos alberto.
      disse, sim, que a imprensa está viciada numa pauta passiva onde os assuntos só entram em consideração se as fontes habituais (ou o jornal do vizinho) os mencionarem.
      sobre competência e incompetência, ela é igual, no meio jornalístico, à média do que acontece em qualquer outro.
      mas também não foi de competência ou incompetência que eu tratei, mas sim da inadequação de forçar administradores de empresas a jogarem como jornalistas (ou jornalistas a jogarem como administradores de empresas).
      a mensagem é que devemos voltar a entregar o jornalismo para os jornalistas.

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  • Carmen Leibovici disse:

    Fernão,você quer dizer Jornalistas,como J maiúsculo,certo?Porque, como diz o Ricardo Vasconcelos,não tem sido formados ultimamente jornalistas com J maiúsculo;médicos com M maiúsculo e assim por diante.

    Isso não é nem culpa do PT(só tem piorado com ele)mas sim culpa da modificação que começou a haver no ensino brasileiro ,e talvez no internacional,há cerca de uns 35 anos atrás ,quando começou-se a introduzir provas (em todos os níveis,desde o primário até o universitário)pelo sistema de teste.Foi ai o inicio do fim do pensamento como ferramenta para a vida.Parou-se a partir dai de pensar e a mídia acompanhou a tendência desastrosa,com poucas exceções,que se tornaram a nossa imensa sorte,porque sem elas ,realmente,estaríamos no deserto tomado pelas pragas.

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    • Carmen Leibovici disse:

      O que eu disse a respeito do sistema de testes ser o fator que desencadeou a mediocridade,é minha opinião.

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    • Carmen Leibovici disse:

      E ,além de não estarem sendo formados profissionais bons,é verdade também que o interesse econômico tem se sobreposto a tudo,absolutamente tudo,nas sociedades,o que precisaria ser revertido porque os seres humanos não são apenas “econômicos”mais muito mais do que isso,mesmo que inclusive isso.

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  • Estamos que nem Sereia da Cantareira
    fb.com/video.php?v=990611000957747

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  • Carmen Leibovici disse:

    O caderno do Jerusalem Post que contém praticamente só discussões,acho que não sai todos os dias.Acho que só num dia ele é bem abrangente…

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