O cálculo de Lula

16 de abril de 2012 § 2 Comentários

O tema mais decisivo para definir a eterna oscilação do Brasil entre civilização e barbárie tem sido sistematicamente subestimado no debate político nacional porque envolve uma questão que fere o amor próprio dos jornalistas e envolve interesses diretos ou aspectos considerados sensíveis pelas empresas de informação que preferem não discuti-los em público.

Mas é contando com isso que Lula, do alto do seu olímpico desprezo por toda e qualquer convenção moral, faz os cálculos que embasam cada um dos seus passos na política.

A momentosa questão é:

Quanto realmente pesa o segmento livre da imprensa do Brasil? De que tamanho realmente é essa imprensa que investiga e faz denuncias? Quanta gente ela atinge?

A resposta curta e grossa é: quase ninguém.

Para ser preciso, ela é do tamanho dos jornais impressos de São Paulo, do Rio de Janeiro e de uns poucos estados mais com mercados publicitários capazes de sustentar um jornal, e mesmo assim, de nem todos os jornais impressos nessas praças. E atinge uma parcela da parcela (realmente) alfabetizada das populações dessas áreas.

O resto da imprensa ou está diretamente nas mãos do governo, ou vive da publicidade oficial ou é censurada – como são o rádio e a TV – pelos artifícios por baixo dos quais se esconde a censura dentro da legislação eleitoral à qual nós já nos acostumamos mas que escandalizariam qualquer súdito de democracias muito menos festejadas que a nossa.

Qual é o verdadeiro alcance do “efeito apagador” que o “horário eleitoral gratuito” proporciona? O que realmente fica gravado na cabeça do povão ao fim dos jornais das TVs: o capítulo do dia da novela da corrupção com os respectivos contraditórios exigidos pelas normas do bom jornalismo, ou as dúzias e dúzias de entradas dos mesmos políticos acusados se apresentando como santos abnegados na propaganda eleitoral enfiada nos intervalos desses mesmos jornais e ainda antes e depois deles?

Luís Ignácio Lula da Silva, que conhece como ninguém o Brasil dos grotões, sabe exatamente o que chega e o que não chega aos ouvidos do povão.

Por isso reage com tanto sarcasmo às ilusões  que a imprensa séria alimenta a respeito do alcance das denuncias que faz.

Esse caso da CPI do Cachoeira é exemplar.

O que teria levado o nosso Maquiavel de Garanhuns a soltar seus cachorros para levantar a caça que traria atrás de si, quando menos, a memória das “negociações salariais” entre Waldomiro Diniz, braço direito de seu chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o chefão da jogatina Carlinhos Cachoeira, filmadas na sala vizinha àquela em que ele despachava como Presidente da Republica no Palácio do Planalto nos idos de 2003?

O presidente do PT, Rui Falcão, foi explícito na declaração que gravou para a página de entrada do site oficial do partido. Não;  é claro que não se tratava da reconciliação do PT com a ética na política. Falcão pedia o apoio dos seus correligionários à CPI do Cachoeira “para levar à investigação do escândalo dos autores da farsa do Mensalão” que um STF presidido por um dos últimos ministros anteriores à “safra Lula” promete começar a julgar no máximo até julho próximo.

Fogo de encontro, portanto.

A função dessa CPI, na expectativa de Lula e seus esbirros é, segundo suas próprias declarações, a fabricação da prova definitiva de que “eu sou porque todo mundo também é“…

O mais foi fruto de emoção. Lula é um sujeito vingativo e Demostenes Torres foi o senador mais atuante na CPI dos Correios, na qual foi revolvida toda a sujeira do Mensalão. E Marcondes Perillo foi o governador que, naquela ocasião, contou ao país que informou Lula com antecedência de tudo que estava acontecendo no esquema operado por Marcos Valério.

Ora, os homens que ousaram apontar um dedo acusador contra “deus” flagrados irretorquivelmente com a boca na botija das organizações Cachoeira era bom demais para ele permitir que o fato passasse sem um carnaval.

Mas é na emoção que mora o perigo.

Será que eles tinham ouvido todas as gravações da PF? Como tinham tanta certeza de que o feitiço não acabaria virando contra o feiticeiro se desde 2003 já havia figuras de proa do PT no bolso de Cachoeira?

A resposta é: não tinham. “Deus” também pode se precipitar e eventualmente … errar.

E ha uma particularidade, em especial, que pode tornar esse erro fatal.

Cercado de experimentados “arapongas”, Carlinhos Cachoeira julgava-se garantido no quesito “prevenção contra grampos”. Acreditou cegamente nos “assessores” que lhe juraram que a Policia Federal não tinha condições de gravar conversas feitas dentro do sistema Nextel de rádio-telefonia, sobretudo se as contas fossem contratadas fora do país.

Foi assim que Cachoeira passou a operar todas as ramificações da quadrilha, dentro e fora do sistema institucional, por meio das várias dezenas de contas Nextel abertas nos EUA.

Mas com um pormenor especialmente venenoso.

Fazia isso com toda a tranquilidade do mundo. Usando todos os nomes e números verdadeiros. Dizendo tudo explicita e minuciosamente como se estivesse numa sala entre amigos (onde ele julgava de fato estar). De tal modo que mesmo neste paraíso dos advogados de bandidos que é o Brasil, será muito difícil dar o dito por não dito e tirá-lo da prisão ou manter fora dela os seus principais interlocutores.

O resto é apenas o óbvio.

A roubalheira está onde o governo está. E sendo mais de 80% dos governos do PT ou dos sócios do PT, é assim também que se distribuem os negócios das organizações Cachoeira.

Não demorou nada para que, de Demostenes e Perillo, saltássemos para Agnelo e – tchã, tchã, tchan tchaan –  Fernando Cavendish, o rei do Rio, o rei da Copa, o rei da Olimpíada, o “brother” do Cabral, unha e carne com Agnelo Queiroz; o rei do lixo de Brasília e a sua famigerada e onipresente Construtora Delta.

Só que Fernando Cavendish, quem diria, é também o rei do PAC filho da Dilma!

A gravação mostra o tipo de cavalheiro de fino trato que o sr. Cavendish é. E, pelo jeito, é mais falastrão que o boquirroto do Cachoeira…

R$ 884 milhões no PAC só no ano de 2011!

Xii, seu Lula! Vai dar merda!

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§ 2 Respostas para O cálculo de Lula

  • alberto mattos de faria disse:

    uma das coisas que eu mais queria nesse pais, é que o mensalão fosse julgado e que o Sr. molúsculo levasse a culpa !!!

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  • Varlice disse:

    Fernão
    Assim como você e tantos outros, espero também – do fundo do meu coração e para o bem de todos nós que diariamente, com o suor do nosso rosto, tentamos sobreviver neste país cujas autoridades há muito perderam a vergonha na cara – que dê uma merda federal, de tal sorte tão grande e envolvente que leve de roldão esse bando de vagabundos, salafrários, inconsequentes e sem-vergonhas que infestam não só a política, como também o funcionalismo público brasileiro. Cadeia para todos.
    Após a limpeza em regra de todo esse fedor, o próximo passo será nas urnas: um grande e sonoro NÃO aos vagabundos.

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