Na Grécia, as dores do adeus ao mundo das aldeias
4 de novembro de 2011 § 3 Comentários
Bismark costumava dizer que “Europa” é um conceito geográfico e não um conceito político.
Isto para resumir a realidade de que se não existe sintonia nem mesmo entre as aldeias que constituem as Nações do grande promontório a Oeste da Ásia nas quais, frequentemente, falam-se línguas diferentes, que dirá entre cada uma delas.
Mas “economia global” é sim um conceito político, no sentido de que ha uma só lei a regê-la, e uma lei que, respondendo ao que há de mais básico na natureza humana, dispensa o consenso exigido nas democracias e arrasta de roldão toda a geografia atrás de si.
É acatá-la ou morrer, pelo menos por enquanto.
Os gregos podem chorar sua saudade e insistir em querer a Grécia só para eles, mas é tarde. A Grécia enquanto ilha do arquipélago econômico global não é mais dos gregos, é só mais um dos quintais da humanidade.
No momento, para ser mais específico, ela é o local do casco do frágil navio onde todos nós flutuamos alguns centímetros acima do caos econômico que apresenta o maior rombo por onde mina a água que ameaça levar-nos ao fundo. E esta ameaça é tão real e premente que concorrem à reunião em que se pretende decidir os meios de tapar esse furo de Barak Obama a Dilma Roussef, passando por tudo quanto ha no meio depois de dada a volta ao mundo.
Não é certo ainda, enquanto escrevo, se os gregos tomarão a iniciativa de se jogar sozinhos ao mar ou mesmo se isto vai lhes ser permitido ainda que o desejem.
Mas, se acontecer, será provavelmente a última vez que veremos algo parecido.
A Europa terá de ter o seu “banco central” único pela mesma razão que o Brasil teve de acabar com a “conta de movimento” do Banco do Brasil que permitia a cada governador gastar o que quisesse e mandar a conta para a União no passado recente, jogando o país inteiro em sucessivas voragens inflacionárias e outras formas de ressaca que são sempre a consequência desse tipo de abuso das drogas da política.
Mais adiante, o mundo todo também terá de se compor em torno, senão de um banco central internacional único, ao menos de um acordo sobre as regras mínimas de comportamento neste salão que agora nós todos somos obrigados a frequentar ao mesmo tempo, gostando ou não.
Serão tempos duros para a liberdade, sinônimo de particularismo e diversidade. Mas voltaremos a correr atrás dela quando calhar.
O que se está assistindo nesta Europa que estertora e cujos líderes nacionais, exasperados com a novidade da própria impotência, chutam-se uns aos outros cada dia com menos cerimônia, são as dores do parto daquilo que, no futuro, será conhecido como o governo planetário que, pelo menos no que diz respeito à economia, virá a se instalar para por um fim, quando todos estivermos fartos, a esta nova era de desordem e sofrimentos que está apenas começando.




Brilhante, Fernão! Abraço
Como você tão bem já escreveu antes, só iremos para frente quando todos tivermos entrado no barco; aí, então, ele partirá. Até que o último não seja incluído, não teremos solução.
E isso pressupõe também, é claro, a África com sua fome crônica (e indecente) e doenças dela advindas.
Abs
Fazrendo uma analogia bem simples, a Grécia é como aquele morador que tem carrão importado na garagem, usa roupas de grife, mas há seis meses não paga mais o condomínio. E quando algo não funciona bem no prédio, é o primeiro a reclamar.