Uma “causa” para todo esse protesto – 1

17 de outubro de 2011 § Leave a comment

Já não é mais Jim Stark nem Marlon Brando. O mundo virou um rebelde sem causa.

A vida imita a arte…

O site da Al Jazeera em inglês trazia, neste fim-de-semana, artigo bastante didático de Nouriel Roubini (aqui) sobre “a onda global de agitação política e social” na qual ele inclui “a Primavera Árabe, a onda de saques em Londres, os protestos da classe média de Israel contra a inflação e a deterioração do padrão de vida, os protestos dos estudantes chilenos, a onda de depredação de automóveis de luxo na Alemanha, o movimento contra a corrupção na India, a crescente insatisfação com a corrupção e a desigualdade na China e, agora, o movimento Occupy Wall Street que saltou de Nova York para o mundo”.

Para Roubini, o que eles têm em comum é que todos expressam, de alguma forma “a angustia das classes média e trabalhadora do mundo todo diante do que advém para elas da crescente concentração de poder e riqueza nas mãos das elites financeira e política, qual seja, o desemprego e o subemprego crescentes, a inadequação dos sistemas de educação da juventude para a realidade globalizada, o ressentimento generalizado contra a corrupção e o aprofundamento acelerado da desigualdade social”.

Ele é preciso, também, na identificação da causa essencial (ainda que não a considere a única) do processo que levou à crise.

“A súbita adição de 2,3 bilhões de trabalhadores chineses e indianos à força de trabalho global reduziu drasticamente o número de empregos para trabalhadores não especializados e levou à exportação dos empregos de nível médio dos países industrializados (o que reduziu a capacidade de consumo de uma ampla parcela da população). Nos países anglo saxões a resposta (dos políticos) foi democratizar o crédito (o que forçou o aumento da alavancagem financeira e eventualmente desencadeou a crise). Na Europa, o buraco entre as aspirações e a real capacidade de consumo foi preenchido com serviços públicos como educação e saúde (aposentadorias e redução da carga de trabalho) que não eram financiados pela real arrecadação, o que inflou o déficit publico”.

Roubini não chegou a mencionar o último e potencialmente mais perigoso elemento dessa equação que é o que o mundo está descobrindo agora. Não é só o Ocidente que está viciado em crédito barato direta ou indiretamente subsidiado pelo Estado. Também o crescimento chinês tem sido fortemente anabolizado por um nível de financiamento da produção e do consumo determinado por cálculos políticos e não sustentado por cálculos econômicos, com consequências semelhantes às que esse tipo de expediente teve no resto do mundo que agora começam a fugir ao controle do Partido Comunista Chinês.

Nada de muito diferente disso está acontecendo também, é bom lembrar, nos chamados BRICs ou, pelo menos, no primeiro inspirador da sigla, o Brasil de Lula, onde a sustentação do crescimento também tem sido feita à força de facilitação do crédito para consumo por iniciativa do governo, sobretudo nos períodos pré-eleitorais. A diferença, no caso brasileiro, é que, ao contrário do que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos, os governos petistas partiram de uma situação em que os bancos estavam completamente saneados e sob rígido controle da fiscalização, tudo obtido pelos sempre apedrejados PROER e ajuste das finanças do Estado executados pelo antecessor do PT na presidência, às custas da mesma (inevitável) “década perdida” que agora se inicia para os países centrais.

O que eles podem aprender de útil com o Brasil, portanto, é como sanear as finanças públicas e colocar o sistema financeiro sob controles confiáveis e não como por em risco esse patrimônio inestimável decretando que a vontade pessoal dos governantes está acima das leis da aritmética e gastando tanto mais quanto mais se aprofundar o buraco da dívida pública como a nossa Dilma tem recomendado que façam aos seus incrédulos ouvintes pelo mundo afora.

Roubini, entretanto, é muito preciso na descrição do passado mas pouco criativo na especulação sobre o futuro.

Com a redução geral do poder de compra, as empresas das economias avançadas estão, agora, cortando empregos para ajustar a oferta. Mas cortar empregos enfraquece a demanda futura porque reduz a renda e aumenta a desigualdade. E como o trabalho, que é custo para as empresas, é renda para os consumidores, aquilo que parece racional para cada empresa individualmente é destrutivo quando olhado em conjunto”.

(…)

Para estabilizar as economias de mercado será necessário voltar a um balanceamento adequado entre os mercados e a oferta de benefícios públicos. O que quer dizer afastarmo-nos tanto do modelo anglo saxão de mercados sem regulamentação quanto do modelo baseado no endividamento público da Europa Continental. Mesmo a alternativa asiática de crescimento – se é que existe uma – não conseguiu evitar o crescimento da desigualdade na China, na Índia e onde mais esteja em desenvolvimento”.

Va benne

Só que para fazer as coisas se moverem não adianta dizer onde se gostaria de chegar. É preciso mostrar como é que se chega lá.

Como quase todo mundo que tem abordado essa charada no Ocidente, Roubini, do meio para o final de seu artigo, deixa-se arrastar para a discussão ideológica em torno do problema. E os debates ideológicos não são travados em torno da questão “como resolver um problema?” mas sim em torno de “como explorar as consequências de um problema para se afirmar no poder?“, seja ele o poder político, seja o da disputa pela hegemonia de uma linha teórica sobre outra nos arraiais intelectuais.

Logo, vamos ao que interessa:

Sim, a adição de 2,3 bilhões de novos braços a uma força global de trabalho que antes não contava nem um terço desse total – adição da qual as novas tecnologias de comunicação foram o veículo – tem necessariamente de provocar a diluição que provocou.

Fixar os olhos nesse dado fundamental já é um grande passo na direção de buscar o foco sem o qual a mais ampla mobilização popular de que o mundo tem notícia em muitos anos não deixará de ser o que é por enquanto: apenas um desperdício barulhento.

É preciso, agora, identificar com precisão o que de fato é capaz de mitigar os efeitos dessa diluição.

  1.  A taxação progressiva da riqueza, penalizando proporcionalmente mais os mais ricos não vai resolvê-lo. Vai apenas tornar menos injusta a repartição das perdas que todos continuaremos a sofrer. É uma satisfação obrigatória que precisa ser dada rapidamente à ponta dos que mais estão sofrendo com a crise para que ela não degenere em espasmos de ódio sem controle. Mas não é a solução do problema.
  2. Mesmo sendo urgentemente necessária, pelas mesmas razões acima e mais algumas, a reorganização dos controles do sistema  financeiro internacional também não será suficiente para reverter a crise. Se não bastasse a enormidade do numero referido – 2,3 bilhões de novos bolsos dividindo o mesmo bolo salarial – sobram as evidências de que o principal fator a determinar o crescimento em mestástese do peso do setor financeiro nas economias ocidentais foram os 30 anos de fusões e aquisições no setor de manufaturas e empresas em geral em todo o planeta de que ele foi apenas o agente operacional, ainda que regiamente remunerado.
  3. Essa onda de fusões e aquisições conduzindo a uma acelerada monopolização em todos os setores da produção e, portanto, a um processo de concentração aguda da riqueza e a um aumento avassalador da corrupção, por sua vez, ocorreu não em função de uma conspiração política ou de maquinações dos donos do dinheiro, mas como reação à entrada em cena do capitalismo de Estado chinês que, com a sua ação planetária de dumping salarial e monetário, tomou de assalto todos os consumidores do mundo inteiro.
  4. Tendo a economia planetária se tornado uma só e um sistema vazo comunicante, não ha como reverter esse processo de monopolização que, inevitavelmente e por definição massacra o consumidor e o trabalhador assalariado, a não ser que todas as economias de peso do mundo concordem em revertê-lo ao mesmo tempo. Quem tomar essa iniciativa sozinho será inapelavelmente excluído do mercado.
  5. A maior de todas as distorções do sistema hoje é a concentração de todos os ganhos nesse processo principalmente nas mãos do Estado chinês que já não sabe o que fazer com tanto dinheiro. Enquanto os 2,3 bilhões de trabalhadores que entraram no mercado não se tornarem consumidores (isto é, não tiverem seus salários e direitos igualados aos do resto do mundo) não será quebrado o círculo vicioso descrito por Roubini (“menos consumo levando a menos produção, menos produção levando a menos empregos e salários, menos salários levando a menos consumo…“). O processo terá de começar de novo a partir do ponto a que foi rebaixado com a entrada em cena dos 2,3 bilhões de novos trabalhadores. 
  6. Nenhum governo ou partido político do mundo poderá mudar nada de significativo nessa nova realidade sozinho. Se tivermos de esperar que todos os que estão atualmente no poder caiam por força dessa circunstância, os que estão na oposição subam e por sua vez fracassem nas suas tentativas solitárias, até que o mundo se convença de que o buraco é mais embaixo, ele já poderá estar tão fundo que não haverá mais como sair dele.
  7. Não ha como evitar a abordagem ideológica entre os profissionais do poder. Mas se ao menos a grande imprensa internacional voltasse a ter um mínimo de autonomia intelectual e voz própria como já teve no passado em vez de apenas amplificar as vozes dos que se digladiam pelo poder como tem feito até aqui, haveria ao menos um discurso objetivo e desinteressado em torno desse problema.

Isso poderia contribuir para que a força desse gigantesco protesto mundial ainda sem rumo se concentrasse sobre o alvo certo e a libertação dos trabalhadores da Ásia (ou das ásias do mundo) poderia ser acelerada.

Sem ela, não nos salvamos. Doravante é assim: ou crescemos ou empobrecemos todos juntos, dando-se o “estouro” de cada parcela nacional do todo da economia global com uma diferença apenas de meses.

O resto é embromação para enganar eleitor.

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