Uma “causa” para todo esse protesto – 2
18 de outubro de 2011 § Leave a comment
Ficou capenga o meu artigo de ontem sobre a ausência de foco das manifestações que se espalharam pelo mundo a partir do Occupy Wall Street iniciado em Nova York ha um mês.
Eu critiquei o artigo de Nouriel Roubini por mencionar como solução a situação ideal com que todo mundo sonha, muito ao estilo dos políticos brasileiros, mas sem dar nenhuma sugestão sobre como chegar lá.
Mas acabei fazendo a mesma coisa que ele. Fiquei apenas na enumeração daqueles entre os pleitos dos manifestantes que, ainda que muito justos, não são solução para o problema. E apenas indiquei que a solução não está no Ocidente, onde se acumulam as piores consequências do processo ora em curso no mundo, mas sim na Ásia, onde ele se origina.
Recordo a síntese de que processo é esse.
Ao jogar no mercado de trabalho 2,3 bilhões de novos braços pagos a preço vil, a China e a Índia (assim como os países menores que engrossam essa conta), aviltaram o valor do trabalho no mundo todo sem aumentar de forma correspondente o numero de consumidores porque o que esse novo contingente ganha mal dá para viver.
Há muito mais trabalhadores e cada vez menos demanda.
A única maneira de reequilibrar o quadro é ajudar esses trabalhadores a serem melhor remunerados o quanto antes porque a lei do mercado sempre acerta as contas por baixo. O consumidor compra o bem mais barato, que é o produzido pelo trabalhador mais mal pago, e assim os trabalhadores bem pagos, que é a outra identidade dos consumidores, acabam sendo expulsos do mercado. Disso resulta, ao longo do tempo, que todos os salários do mundo são rebaixados até encontrar o nível em que serão capazes de concorrer com os dos trabalhadores chineses e indianos.
Ora, salários baixos são, em última instância, sinônimo de falta de democracia. Quanto mais democracia, mais poder de reivindicação e mais direitos conquistados. O inverso também é verdadeiro. Só debaixo de pau é que se consegue segurar a insatisfação de quem se mata de trabalhar por nada ou, pior ainda, de quem fica sem emprego nenhum.
Logo, se quiserem manter os seus direitos, os seus salários e a sua democracia os trabalhadores do Ocidente terão de se organizar politicamente para ajudar a acelerar a libertação dos trabalhadores semi escravos da Ásia, boicotando o consumo do que eles produzem e trabalhando ativamente pelo aumento dos direitos e dos salários deles.
Impossível?
E quem diria que seria possível levar, em menos de um mês, uma manifestação local a se transformar numa manifestação global? Não são as próprias empresas ocidentais, ao alcance da pressão direta de seus conterrâneos, as que mais se servem desses trabalhadores semi-escravos da Ásia?
É o mundo aqui fora que terá de fazer campanha salarial pelos trabalhadores chineses e denunciar quem os explora no Ocidente para aumentar seus lucros. O empenho da China em censurar a internet, o que felizmente é tecnicamente impossível, não é outra coisa, aliás, senão uma confissão da vulnerabilidade que ela sente a campanhas de mobilização por mais direitos (= a mais salários) vindas de fora da sua “muralha” que ela sabe que, mais cedo ou mais tarde, começarão a acontecer.
É hora, portanto, de tratar de criar um foco para essa mobilização mundial que já se provou possível.
O caminho para isso é uma política comercial e uma atitude de consumo condicionadas a uma política de direitos humanos, nos níveis governamentais, e uma política sindical globalmente sincronizada para exigir a elevação do nível mínimo de direitos e salários ao menos nas industrias que fabricam bens de consumo global.
E a melhor contribuição que pode dar quem analisa profissionalmente esse problema é demonstrar exaustivamente o seu componente essencial, qual seja, o de que neste novo mundo sem fronteiras o salário do trabalhador de Nova York ou de Geneve, será determinado muito mais pelo que a Foxconn estiver pagando em Shenzhen do que por qualquer ação política cosmética ao alcance do presidente Obama, do Congresso dos Estados Unidos ou do comando da União Européia em Bruxelas.
Uma vez comprendido esse dado incontornável da realidade, o resto fica mais fácil.




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