A reforma do Brasil começa pela reforma da linguagem da imprensa

1 de julho de 2011 § Deixe um comentário

(Este artigo ja estava escrito antes da manifestação do BNDES recuando da posição de protagonismo que tinha assumido na tentativa de fusão do Pão de Açucar com o Carrefour, por ordem de Dilma, o que reforça a tese que apresento abaixo)

E a Dilma que pensava que governar era pensar no bem do Brasil!

Cada dia com sua agonia”.

A frase de Ideli Salvatti, proferida terça-feira, ainda antes da rendição do governo aos 18 “líderes” dos “partidos” da “base aliada” descreve com perfeição o que a presidente tem passado.

O resumo da história é o seguinte. Embora nem a imprensa ajude a deixar isso claro porque prefere transcrever o que lhe dizem os participantes do jogo do poder do que trabalhar para deixar mais claro o que está por traz dele, a insistência de Dilma mostra que seus economistas estão mais preocupados com a inflação do que confessam aos jornalistas. E ela sabe que a pólvora que vai detonar essa inflação é o acumulo de gastos que o seu antecessor enfiou nas nossas costas para rechear toda a máquina publica com a companheirada e proceder à pré-estatização da economia brasileira pelas interpostas pessoas dos barões do BNDES.

Por isso ela anunciou, no início do ano, o compromisso de cortar R$ 50 bilhões em despesas da União e foi procurar esse dinheiro onde menos ele faz falta para o país real.

Uma das contas que melhor se encaixa nessa categoria são os “restos a pagar”, isto é, dinheiro empenhado em gestões passadas (no caso a de 2009) para que os srs. deputados construam suas fontezinhas luminosas e outras obras eleitoreiras em suas “bases”. As emendas parlamentares de 2009 caducariam hoje, dia 30, mas os nossos nobres representantes queriam que o governo prorrogasse o prazo por mais seis meses, o que implicaria em gasto adicional de R$ 4,6 bilhões.

Dilma tentou de tudo mencionando sempre a necessidade de controlar a inflação, coisa que “deveria ser uma preocupação de todos”…

Os deputados – os do PT inclusive – começaram ameaçando mudar o texto da Medida Provisória que altera o regime de contratação das obras para a Copa e a Olimpíada, que já estão pra lá de atrasadas, para que elas tivessem de voltar do Senado para a Câmara.

Ela resistiu.

Mas então eles foram ao seu arsenal estratégico e desenterraram duas das muitas bombas de nêutrons que guardam lá para emergências como estas. E ameaçaram votar já a regulamentação da Emenda 29, aprovada em abril de 2008, que obriga a União a ampliar para 10% das suas receitas o gasto com Saúde (sem cortar um tostão de qualquer outra conta, naturalmente), e a PEC 300, de dezembro de 2010, que cria um fundo bancado pelo Tesouro para que os Estados paguem suas polícias e bombeiros.

As duas coisas juntas aumentariam as despesas da União em mais de R$ 50 bi.

Então ela teve de ceder.

Nos meus mais de 50 anos de “janela” raramente tenho visto um presidente assumindo o papel impopular de resistir à continuação da festa e tentando por um pouco de ordem na casa pra que ela não acabe em catástrofe, como já aconteceu tantas vezes. Normalmente são eles que comandam a esbórnia de modo que não dá nem pra começar a pensar em fazer este país avançar um passo na direção contrária dessa avacalhação geral onde só se salva quem se vende ao BNDES.

Mas nem a imprensa que ainda considera com um mínimo de seriedade o seu papel de fiscal do poder se apresenta como uma aliada clara de quem tenta sair dessa ciranda do deboche. Assimilou totalmente a linguagem subvertida criada pelos chantagistas para disfarçar o que são. Descreve o que se passa como se tudo estivesse dentro da normalidade do “jogo político”, isso quando não critica o “amadorismo” da presidente que não quer ceder a tudo que representa a figura patibular do seu vice e o resto dos abutres que se alinham por traz dele para arrancar mais uma carninha dos ossos do Brasil.

O Congresso está podre. A política no Brasil está podre. E ninguém sabe melhor nem está mais farto disso do que a opinião publica.

E, no entanto, uma presidente que, por diversas vezes já, mostrou sua disposição de resistir a essas feras não encontra ambiente para propor aos brasileiros a discussão dos problemas e das escolhas que temos – as fontes luminosas dos senhores deputados ou menos educação, hospitais, estradas, aeroportos? – porque falar claro neste país de eminências pardas é tido como “falta de jeito” e só se pode discutir o país nos termos dos chantagistas.

Dilma ainda resiste porque é uma estranha no ninho dessa modalidade de crime que a imprensa ainda chama de “política” por aqui. Ainda se choca com o que assiste por lá. Mas os jornalistas de Brasília não. Estão dessensibilizados por uma convivência tão longa com essa mixórdia quanto as carreiras dos sarneys da vida. A saída dessa arapuca começa por uma autocrítica que os leve a se aproximar de nós outros, os estranhos nesse ninho, e a chamar as coisas que acontecem dentro dele pelo verdadeiro nome que têm.

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