Eleição ou morte!

15 de maio de 2013 § 2 Comentários

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Com que então dona Dilma botou pra correr o único técnico abalizado e “não criativo” que restava no alto comando da sua equipe econômica e ainda sinalizou que pensa em Arno Augustin para o lugar dele.

Nelson Barboza, o ex-Secretário Executivo do Ministério da Fazenda estava atrapalhando.

Não é petista, entende a matemática pela lógica inexorável dos números, reconhece um fato quando ele surge no seu caminho.

O resto do time, a começar pelo ministro, é composto só de “simsenhoras”, paus mandados que juram ver nos fatos e na matemática apenas e tão somente o que sua mestra mandar que vejam.

Arno Augustin já é mais que isto.

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Arno Augustin é um soldado pro-ativo da corrente “Democracia Socialista” do PT gaucho, um ninhozinho de cobras que passaram a vida desafiando a “Articulação“, de Lula, que acham branda demais, pelo controle do partido.

Hoje este senhor já acumula a inacreditável dobradinha de funções de Secretário do Tesouro Nacional e principal articulador oficial da campanha presidencial de Dilma. Agora pode vir a ser, também, o executor do que dona Dilma houver por bem decretar que a economia brasileira seja, os fatos que se fodam, o Congresso que se foda, a matemática que se foda, como sempre.

Eleição ou morte!

Ah, O Poder!

Em que momento o torturador esquece a resposta que estava procurando e se apaixona pelo ato de torturar? Pelo poder de infligir dor ao outro?

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Em que momento o guerrilheiro esquece “a causa” e entrega-se à vertigem de onipotência da escolha de quem vai viver e quem vai morrer? À volúpia de puxar o gatilho? Ao poder de ter esse poder?

Que tipo de processo leva os “partidos da ética na política” a passarem do assassinato moral dos paulo de tarsos venceslaus em nome da conquista do poder nacional para “a causa“, via caixa 2, para a eliminação física dos celsos daniel para que cada ex-idealista seduzido pelas delícias do poder de comprar possa seguir locupletando-se em paz?

Em que altura do caminho o pecadilho dos “incentivos” a congressistas venais para passar reformas de interesse nacional se transforma numa industria e o antigo contestador se converte no parteiro de uma nova nobreza?

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Essa história dos meios e dos fins sempre foi complicada. O ovo e a galinha. Uma coisa se transforma na outra.

Começa que o autor do projeto nunca é quem executa a obra. O formulador da “causa” está sempre distante de quem vai, afinal, tomar com ela o poder. Entre uma coisa e outra é preciso abrir a porta aos brutos para fazer o serviço sujo, tornar-se cumplice … ou vitima deles…

O resto vem da natureza diabólica do poder que sempre corrompe, e que corrompe absolutamente quando é absoluto.

Mas, êpa! Lá vai o Rousseau que me tocaia sempre tentando alçar seu vôo…

Quem disse que é preciso um processo para alguém tornar-se ruim“?

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Quem disse que não é o contrário?

Não, não existe um direito natural à vida. Na Natureza ela tem de ser arrancada, minuto a minuto, dos braços da morte.

A civilização, a ética, o altruísmo são contraintuitivos. São a superação da lei do mais forte; a quebra da regra do “survival of the fittest”.

E “democracia” é só a tradução dessa ruptura para o “engenheirês social“.

Os direitos das minorias, o respeito à divergência, o culto à liberdade que implica as renuncias da responsabilidade, tudo isso são tentativas de escapar à escravização à lei da selva de que todos somos filhos e que, por si mesma, só puxa pelo aperfeiçoamento da brutalidade, esta que entre os animais racionais serve-se, em tempos de paz, principalmente da mentira e da perfídia.

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Fazer prevalecer essa anti-natureza requer um acordo, uma anuência geral em torno de objetivos comuns que, por sua vez, pressupõem uma sintonia de linguagem e um afinamento dos discursos.

Educação, enfim. Mais que isso, até. Requer uma cultura…

E renuncias. Muitas renuncias.

Quase todos os nossos atos; quase todas as nossas reações, continuam, afinal, sendo pautadas pela mesma velha lógica dos homens das cavernas. Em direção à opressão navega-se sempre com vento a favor. Literal ou figuradamente, seguimos caçando e sendo caçados; comendo ($) até explodir enquanto houver comida ($) ao alcance da boca, a menos que continuar a fazer isso é que passe a custar a vida porque a sociedade assim convencionou.

Ha um livro recente muito interessante – The Caveman Logic, The Persistence of Primitive Thinking in a Modern World (aqui) – onde se demonstra isso de forma muito clara.

Enfim, bem que o Zé Dirceu avisou que com ela é que ia começar o governo do PT. Dona Dilma, seus soldadinhos do partido e seus empresários amestrados são predadores que não escondem mais as garras.

É matar ou morrer.

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Pensando a renuncia do papa

26 de fevereiro de 2013 § 2 Comentários

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O artigo no Estado deste domingo de Mario Vargas Llosa sobre a renuncia do papa Bento XVI (aqui), destaca-se da enxurrada de besteiras e grosserias que invadiu a imprensa desde que ele anunciou sua decisão pelo equilíbrio, pela acuidade e pelo senso de proporção histórica.

Nada como um grande homem para avaliar outro grande homem e para identificar e tratar dos grandes turning points da História…

Um aspecto fortuito mas significativo escapou à análise de Vargas Llosa mas certamente passou pela sua cabeça, discípulo que foi do autor que me referiu para esse pormenor nem tão pequeno assim.

Octavio Paz, que foi um dos homens que melhor definiu as contradições da alma latina, dizia que “nós, católicos, sentimo-nos confortáveis demais dentro da mentira”, e que esta é a brecha através da qual nos mantêm agarrados pelo pescoço os caudilhos populistas que nos irmanam na desgraça institucional e política.

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De fato nas culturas predominantemente católicas, o padre molestador de menininhos é figura central do anedotário popular desde séculos antes de Bocage torná-lo proverbial.

Foi a igreja católica americana, um enclave dentro de um ambiente de predominância da ética protestante onde se espera que as palavras correspondam aos fatos e que as leis sejam obedecidas, que rompeu o silêncio milenar em torno dessa chaga em cuja raiz está o desvio do celibato, e exigiu punições para a prática nefanda.

O papa alemão reagiu, tentou impor as punições e foi derrotado, nas palavras de Llosa, no atoleiro “das lutas ferozes, das intrigas e dos obscuros enredos de facções e dignitários da Cúria Romana que o poder (e não só ele) tornou inimigos”, o que comprovou que “os esforços das autoridades da Igreja ainda são orientados para proteger ou dissimular os crimes de pedofilia que são cometidos (e não só a estes), mais que a denunciá-los ou puni-los”.

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Não é preciso ir muito longe nem muito baixo, portanto, para entender como a longa convivência pacífica com a impunidade, que nós brasileiros conhecemos tão bem, corrompe qualquer sistema ao criar laços de solidariedade que preparam o caminho para outros crimes (como os do Banco do Vaticano), até que se transforma num imperativo de sobrevivência para grupos grandes o suficiente para engendrar partidos inteiros (ou redes de partidos) dedicados a estendê-la para todo o sempre…

Como pano de fundo para que Bento XVI resgatasse da Idade Média a figura da renuncia papal, está esta nossa época “em que as ideias e as razões importam muito menos que as imagens e os gestos”, fato que tornou Joseph Ratzinger “um anacronismo dentro de um anacronismo, pois pertencia ao grupo mais seleto de uma espécie em extinção: a dos intelectuais”, entre cujas características definidoras está a de “em vez de cobiçar, depreciar o poder absoluto” de que voluntariamente ele abriu mão.

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Sobre a substância histórica envolvida no episódio, as conclusões de Vargas Llosa que, no mesmo artigo, declara-se um “não crente”, aproximam-se, curiosamente, das de Thomas Jefferson, outro não crente cuja biografia escrita por Jon Meachan acabo de ler (aqui). No fim da vida, depois de escrever alguns dos documentos fundadores da democracia moderna, o terceiro presidente dos Estados Unidos dedicou-se a escrever sobre a vida de Jesus porque reconhecia nela, postos de lado os desvios da Igreja, o mais belo e consistente sistema ético e moral jamais inventado pelo homem, base fundamental da civilização.

Vargas Llosa sintetizou bem esse aspecto ao perscrutar e entender o dilema de Joseph Ratzinger de aferrar-se ao dogma “não por razões tolas ou superficiais”, mas sim correndo um risco calculado por medo de permitir que a igreja se pulverizasse e dissolvesse “num arquipélago de seitas em luta entre si, como as igrejas evangélicas”, pondo a perder o que ela tem de mais importante.

Pope Benedict XVI waves as he leads the Sunday mass during his one day pastoral visit to the Italian southern city of Lamezia Terme

Ele não só representou a tradição conservadora da Igreja como também sua melhor herança: a da ilustre e revolucionária cultura clássica e renascentista que, não podemos esquecer, a Igreja preservou e difundiu, por meio de seus conventos, bibliotecas e seminários. A cultura que impregnou o mundo com ideias, formas e costumes que acabaram com a escravidão e, distanciando-se de Roma, tornaram possíveis as noções de igualdade, solidariedade, direitos humanos, liberdade e democracia, impulsionando decisivamente o desenvolvimento do pensamento, da arte, das letras e contribuindo para acabar com a barbárie e para promover a civilização”.

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A reforma do Brasil começa pela reforma da linguagem da imprensa

1 de julho de 2011 § Deixe um comentário

(Este artigo ja estava escrito antes da manifestação do BNDES recuando da posição de protagonismo que tinha assumido na tentativa de fusão do Pão de Açucar com o Carrefour, por ordem de Dilma, o que reforça a tese que apresento abaixo)

E a Dilma que pensava que governar era pensar no bem do Brasil!

Cada dia com sua agonia”.

A frase de Ideli Salvatti, proferida terça-feira, ainda antes da rendição do governo aos 18 “líderes” dos “partidos” da “base aliada” descreve com perfeição o que a presidente tem passado.

O resumo da história é o seguinte. Embora nem a imprensa ajude a deixar isso claro porque prefere transcrever o que lhe dizem os participantes do jogo do poder do que trabalhar para deixar mais claro o que está por traz dele, a insistência de Dilma mostra que seus economistas estão mais preocupados com a inflação do que confessam aos jornalistas. E ela sabe que a pólvora que vai detonar essa inflação é o acumulo de gastos que o seu antecessor enfiou nas nossas costas para rechear toda a máquina publica com a companheirada e proceder à pré-estatização da economia brasileira pelas interpostas pessoas dos barões do BNDES.

Por isso ela anunciou, no início do ano, o compromisso de cortar R$ 50 bilhões em despesas da União e foi procurar esse dinheiro onde menos ele faz falta para o país real.

Uma das contas que melhor se encaixa nessa categoria são os “restos a pagar”, isto é, dinheiro empenhado em gestões passadas (no caso a de 2009) para que os srs. deputados construam suas fontezinhas luminosas e outras obras eleitoreiras em suas “bases”. As emendas parlamentares de 2009 caducariam hoje, dia 30, mas os nossos nobres representantes queriam que o governo prorrogasse o prazo por mais seis meses, o que implicaria em gasto adicional de R$ 4,6 bilhões.

Dilma tentou de tudo mencionando sempre a necessidade de controlar a inflação, coisa que “deveria ser uma preocupação de todos”…

Os deputados – os do PT inclusive – começaram ameaçando mudar o texto da Medida Provisória que altera o regime de contratação das obras para a Copa e a Olimpíada, que já estão pra lá de atrasadas, para que elas tivessem de voltar do Senado para a Câmara.

Ela resistiu.

Mas então eles foram ao seu arsenal estratégico e desenterraram duas das muitas bombas de nêutrons que guardam lá para emergências como estas. E ameaçaram votar já a regulamentação da Emenda 29, aprovada em abril de 2008, que obriga a União a ampliar para 10% das suas receitas o gasto com Saúde (sem cortar um tostão de qualquer outra conta, naturalmente), e a PEC 300, de dezembro de 2010, que cria um fundo bancado pelo Tesouro para que os Estados paguem suas polícias e bombeiros.

As duas coisas juntas aumentariam as despesas da União em mais de R$ 50 bi.

Então ela teve de ceder.

Nos meus mais de 50 anos de “janela” raramente tenho visto um presidente assumindo o papel impopular de resistir à continuação da festa e tentando por um pouco de ordem na casa pra que ela não acabe em catástrofe, como já aconteceu tantas vezes. Normalmente são eles que comandam a esbórnia de modo que não dá nem pra começar a pensar em fazer este país avançar um passo na direção contrária dessa avacalhação geral onde só se salva quem se vende ao BNDES.

Mas nem a imprensa que ainda considera com um mínimo de seriedade o seu papel de fiscal do poder se apresenta como uma aliada clara de quem tenta sair dessa ciranda do deboche. Assimilou totalmente a linguagem subvertida criada pelos chantagistas para disfarçar o que são. Descreve o que se passa como se tudo estivesse dentro da normalidade do “jogo político”, isso quando não critica o “amadorismo” da presidente que não quer ceder a tudo que representa a figura patibular do seu vice e o resto dos abutres que se alinham por traz dele para arrancar mais uma carninha dos ossos do Brasil.

O Congresso está podre. A política no Brasil está podre. E ninguém sabe melhor nem está mais farto disso do que a opinião publica.

E, no entanto, uma presidente que, por diversas vezes já, mostrou sua disposição de resistir a essas feras não encontra ambiente para propor aos brasileiros a discussão dos problemas e das escolhas que temos – as fontes luminosas dos senhores deputados ou menos educação, hospitais, estradas, aeroportos? – porque falar claro neste país de eminências pardas é tido como “falta de jeito” e só se pode discutir o país nos termos dos chantagistas.

Dilma ainda resiste porque é uma estranha no ninho dessa modalidade de crime que a imprensa ainda chama de “política” por aqui. Ainda se choca com o que assiste por lá. Mas os jornalistas de Brasília não. Estão dessensibilizados por uma convivência tão longa com essa mixórdia quanto as carreiras dos sarneys da vida. A saída dessa arapuca começa por uma autocrítica que os leve a se aproximar de nós outros, os estranhos nesse ninho, e a chamar as coisas que acontecem dentro dele pelo verdadeiro nome que têm.

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