“Corre que não tem governo, seu trouxa!”

28 de abril de 2011 § 3 Comments

Das notícias que mais me fascinaram ultimamente foi essa do governo do Rio de Janeiro mandando instalar sirenes nas áreas de risco habitadas por famílias de miseráveis à espera da próxima catástrofe.

Nem fazer cumprir a lei e tirar essas famílias de lá, nem fazer obras para tornar seguras essas encostas inseguras, veja bem. Mas colocar sirenes a serem acionadas “quando ameaçar temporal”, como se seguir vivendo em áreas desde sempre proibidas para construçōes humanas fosse um risco tão inevitavel e irremovível quanto as falhas geológicas sobre as quais se equilibra o Japão.

Para as autoridades do Rio, entretanto, pareceu uma solução boa e barata…

CORRE QUE NÃO TEM GOVERNO, SEU TROUXA!”. É isso que gritam essas sirenes!

O Rio de Janeiro sempre consegue fazer com que o mais ácido dos brasileiros se descubra um doce. A descarga de bílis da mais recente indignidade sofrida nunca será a ultima. O próximo acinte poderá sempre ser ainda mais amargo.

O primeiro temporal depois da instalação das sirenes chegou e não deu outra. Não é que o governo do Rio de Janeiro é incapaz de prever o que virá pela frente, depois de confessar que é incapaz de mudar o que ficou para traz. Ele erra até na mera constatação daquilo que de fato acontece.

O Globo de anteontem era de morrer de rir se não fosse de morrer de chorar. Se fosse um filme, como disse alguém outro dia, não passava. Porque a ficção precisa fazer sentido.

Mas a realidade não.

A tempestade desabou, os morros quase vieram abaixo e as sirenes, nada. As que não entraram em curto em função da enchente, quando tocaram o pessoal já estava com água pela cintura.

Também teve fracasso 2.0. O “toque de modernidade” que o prefeito fez questão de dar à sua providência genial, acrescentando às sirenes a distribuição de celulares com um sistema de alerta para “chuvas de risco” via Twitter, a mesma ferramenta que resistiu à polícia do Ahmadinejad, passou por cima da muralha da internet da China e derrubou um par de ditaduras árabes sucumbiu nas mãos do funcionalismo tupiniquim.

Na Tijuca as mensagens de alerta de temporal só começaram a chegar depois que as ruas já estavam alagadas. E enquanto o pessoal bracejava na água, de lá pra cá, no salve-se quem puder, o sistema de monitoramento de tráfego do CET-Rio ainda dava as ruas mais alagadas como “boas para o trânsito”.

O Rio é um dos extratos concentrados de Brasil que existem por aí. Foi moral e fisicamente devastado por se ter tornado a opção preferencial da nata dos brasileiros que venceram na vida pela capacidade de se “bem relacionar” com “autoridades competentes” e donas das mais rentáveis porteiras da economia nacional.

Ladrão de sucesso mesmo acaba lá, na beira da praia. E faz tempo!

Convivem ali, lado a lado, com os pobres dos trabalhadores cariocas se esgueirando pelo meio, a riqueza mais culpada e a miséria mais vilipendiada do país.

Esse negócio de sirenes que urram aos céus o desprezo das autoridades brasileiras pelos brasileiros toda vez que eles mais precisam delas é pra lá de emblemático. Tem tudo a ver com o fato da cidade ter sido a capital do ultimo país do Ocidente a libertar os escravos e, mais adiante, ter permanecido por décadas a fio pontilhada de áreas onde a polícia não entrava desde que Leonel Brizola, lá nos anos 80, se compôs formalmente com o crime organizado.

Na cidade onde sobrevivem até hoje os palácios dos traficantes de escravos que, mancomunados com sua majestade, enriqueceram segurando a escravidão até a aurora do século 20, a polícia só se decidiu, finalmente, a ocupar os morros e libertar os miseráveis do jugo do crime organizado pela mesma razão que, cem anos atrás, o imperador finalmente se decidiu a libertar os escravos: para inglês ver; porque inglês mandou.

Brasileiro dane-se! Pode arder no mármore do inferno por milênios que ninguém se lixa!

O governo do Rio tomou os morros do crime organizado – fácil, como desde sempre era previsível – como libertou os escravos: porque não havia outro jeito. Porque os portos estavam cercados e seriamos expulsos do comércio internacional se não o fizéssemos, ha cem anos. Porque não haveria Copa nem Olimpíada se o tiroteio continuasse rolando solto uns poucos metros acima da linha da maré, ha cem dias.

Este é o retrato sem retoques do país que resulta desse modo brasileiro de estabelecer relações entre representados assim mesmo, amassadinhos, quietinhos, submissozinhos, e REPRESENTANTES todo poderosos, excelsas intocáveis excelências.

Infraestrutura? Aeroportos? Estradas? Segurança publica? Transportes coletivos modernos?

Estádios de futebol, que seja, para dar ao povo ao menos um bom circo?

Nada!

O governo que cobra os impostos mais altos do mundo não faz nada disso, a não ser que seja “para inglês ver”. E mesmo assim, olhe lá! Devagar! Com calma! Mordendo forte pelas beiradas! Dando a cada um “dos nossos” o seu justo quinhão.

Ou as obras começam já (com dois anos de atraso) ou não tem copa?

Ok. Vamos lá. Chamem os lobos; entreguem pra “iniciativa privada”. Mas veja bem: para “a nossa” iniciativa privada. E sem TCU! Porque aquele terço do PIB que embolsamos a cada ano é só pra sustentar o funcionalismo que trabalha demais, ganha pouco e é sempre insuficiente, coitado.

E, ademais, a especialidade cá em cima é estatizar infraestrutura para distribuir permissões especiais para o seu uso em troca de poder e não construí-la.

É nessa batida que vamos dilapidando a herança bendita, sonho de uma noite de verão, com a energia mais cara do mundo, ainda que hidrelétrica, expulsando fábricas daqui; sem portos, sem estradas, sem aeroportos; atravancados em cidades sem metrô; enlatados nos carros mais caros do mundo que bebem a gasolina mais cara e poluente do mundo, embora o petróleo e o álcool sejam “nossos”; toureando chineses e coreanos com a internet mais lenta e custosa e os salários mais taxados do planeta.

Mas, olhe lá! Tudo isso com um “Estado forte” de que “só temos de nos orgulhar”, e que pode sempre dar assistência à miséria que semeia. Tudo isso com 37 ministérios, cada um com a sua dezena de milhares de “autoridades” invulneráveis, e mais o Renan Calheiros assegurando o padrão ético da política e um Judiciário puxador de cordão em greve por um “reajuste” de 14,79%, nem uma casa centesimal a menos, enquanto a senhora presidenta, muito séria, muito bem posta, trata de “exorcizar a inflação” que bate à porta “diuturna e até noturnamente”.

É como eu digo sempre: ou tornamos esses caras instáveis, demissíveis pela menor falha em entregar tudo que são pagos para fazer, como qualquer um de nós e o resto do mundo já é, ou continuaremos sendo só as bundas que eles tão desaforadamente se comprazem em chutar.

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