Japão é um milagre da educação

17 de março de 2011 § 1 comentário

Matéria do Financial Times publicada hoje (aqui), informa que vão faltar celulares, tablets, games e outros produtos eletrônicos em todo o mundo em função da tragédia que se abateu sobre o Japão. Pois a maior parte dos mais sensíveis componentes dos componentes internos que tornam inteligentes os equipamentos de alta tecnologia fabricados e montados pelo mundo afora são produzidos exclusivamente no Japão.

E quando digo componentes dos componentes, estou sendo literal. A Mitsubishi Gas Chemical tem uma fábrica em Fukushima que produz metade de todo o bismaleimidio-triazine, conhecido pela sigla BT, fabricado no mundo (a outra metade fica por conta de duas outras empresas japonesas, a Hitachi e a Sumitomo). A fábrica foi atingida e seriamente danificada pelo tsunami, não havendo previsão de quando poderá voltar a produzir. E o estoque de BT com as especificações do Mitsubishi existente hoje no mercado só dá para um mês e meio.

Acontece que o BT é a resina que recobre os chips de silício onde são impressos os circuitos microscópicos que tornam inteligentes os aparelhos que todos usamos hoje e fazem funcionar controles informatizados de vários tipos de industrias pelo mundo afora.

O Japão produz também 60% de todos os chips de silício consumidos no mundo. Mas o restante é produzido em Taiwan. É também principalmente em Taiwan que esses chips recebem os circuitos impressos. Mas o que os fixa um ao outro mantendo a necessária flexibilidade e aguentando o calor gerado pelo funcionamento desses semicondutores é a resina fabricada exclusivamente no Japão. Nenhum equipamento eletrônico hoje, fabricado onde quer que seja no mundo, pode prescindir desse componente.

Também não é possível reforçar a produção dos concorrentes da Mitsubishi para atender a emergência porque o BT que ela fabrica tem características diferentes das demais, incorporando tecnologia ainda mais moderna. Para substituir uns pelos outros, aparelhos como os celulares Nexus One, da Google, o novo Boeing 787 Dreamliner, prestes a ser lançado, games da Qualcomm e outros teriam de ser redesenhados.

O mundo hoje festeja marcas de fantasia e operações de marketing como se fossem elas as maravilhas que a tecnologia proporciona. Mas quem as torna inteligentes é o Japão, que lhes fabrica os insumos dos insumos, que são, a seguir, montados em Taiwan e, finalmente, enfiados dentro daquilo que o consumidor comum terá nas mãos na China, tudo, em geral, seguindo um design e um projeto de engenharia eletrônica original americano.

Tudo muito de acordo com a proverbial discrição do comportamento dos japoneses

O que se tem visto, nas entrelinhas da cobertura desse desastre de proporções quase bíblicas, a propósito, são verdadeiras lições para o mundo que tornam mais fácil entender como a educação fez da população daquela pequena ilha quase inteiramente desprovida de recursos naturais uma das sociedades mais desenvolvidas e prósperas que a humanidade já produziu.

Para além da crise na indústria de tecnologia de ponta que  tornará mais visível, daqui por diante, o papel crucial que o Japão tem nessa cadeia internacional de produção, tem chamado muito a atenção a compostura com que os japoneses enfrentam a desgraça.

A televisão mostrou cenas impressionantes nos centros para desabrigados, nos primeiros dias depois do tsunami, de gente que acabara de perder a família inteira, quando muito, deixando escapar uma ou outra lágrima na frente das câmeras; respondendo com as tradicionais mesuras e gestos de cabeça cada atenção recebida das equipes de socorro; deixando ordenadamente suas casas e até cidades nas operações de evacuação que se seguiram.

O próprio comportamento dos jornalistas japoneses que captaram essas cenas é de chamar a atenção pela sua parcimônia e comedimento.

Ao contrário do que vimos aqui no Brasil no desastre da região serrana carioca, ou nos Estados Unidos, quando da inundação de New Orleans, e mesmo em países europeus quando surge a oportunidade, não houve sequer ameaças de saque em parte alguma, apesar da escassez que quase imediatamente se instalou nas zonas mais atingidas.

Mesmo na desgraça o Japão é um exemplo para o mundo, em especial, para aqueles que acham que a História começou com o seu próprio nascimento e que educação que presta é só a que se recebe “na escola da vida”.

Foi a escola da vida que ensinou ao Japão, a duríssimas penas, a falta que faz a educação formal à qual o país inteiro se atirou com vontade ferrenha a partir da tabula rasa a que ficou reduzido  em 1945. Em 65 anos isso os lançou da miséria e da servidão dos shogunatos para o topo da lista das sociedades mais democráticas e mais afluentes que a humanidade jamais produziu.

Não existe outro caminho, aliás.

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