Pelo imposto da dignidade
1 de outubro de 2012 § 1 comentário
O motim que explodiu na semana passada na unidade de Taiyuan, província de Shanxi, China, da Foxconn, com 40 feridos, foi o enésimo episódio de violência do trabalho registrado sob essa marca que se vai transformando no símbolo mundial do capitalismo selvagem, mas que cresceu e apareceu no cenário das gigantes da manufatura da China especializando-se em trabalhar para a Apple, representante máxima do último refinamento do capitalismo democrático.
A Apple e a Foxconn são, por assim dizer, o ponto onde a cobra morde o próprio rabo, a mostrar que a civilização é mesmo só uma fina camada de verniz e a dar uma nova leitura ao velho ditado de que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“.
Comentei quinta-feira passada a entrevista à Veja do poeta Ferreira Gullar em que ele dizia que, sendo um reflexo dos instintos humanos que empurram para a desigualdade e a injustiça mas, ao mesmo tempo, a forma mais eficaz de produzir riqueza, único remédio capaz de corrigir essas injustiças da natureza, o capitalismo é uma necessidade, “uma fatalidade” que precisa ser controlada, sendo função do Estado impedir que ele seja reduzido a uma mera expressão da lei do mais forte e leve a exploração do homem pelo homem a níveis extremos.
Somente essa fábrica da Foxconn, grupo que emprega mais de um milhão de pessoas, tem 79 mil funcionários, mais ou menos o equivalente a toda a força de trabalho que move a General Motors, um dos últimos “gigantes” (coitados!) remanescentes da era pré-globalização e um dos maiores empregadores que restam nos Estados Unidos.
Este motim, que se segue a episódios que chegaram a extremos como o de suicídios em massa ha dois anos, começou com uma briga entre dois funcionários bêbados que foram atacados com tanta “ferocidade” pelos “seguranças” da fábrica que provocaram uma rebelião geral que requereu a interseção de 5 mil policiais para amainar os ânimos.
A fábrica de Shanxi trabalha tão somente para a Apple, onde se materializam os sonhos futuristas do genial Steve Jobs, símbolo do ápice da sofisticação do capitalismo democrático mas que … jamais teria chegado onde chegou se não explorasse da maneira mais vil e desonesta possível – e antes dos seus concorrentes – a oportunidade de fugir às leis de proteção ao trabalho dos Estados Unidos e pisar na garganta de seus operários aberta pela globalização do mercado de trabalho proporcionada em parte pela informática por ele desenvolvida, exportando a montagem dos computadores que desenhava para a China Comunista onde vale tudo.
A Foxconn é uma estrutura que fica a meio caminho entre uma fábrica e uma prisão. Boa parte dos funcionários vive em cubículos dentro da própria fábrica cumprindo turnos de até 12 horas sob a fiscalização estrita de brutamontes armados.
Como foram trazidos do interior da China, sem um tostão, tornam-se totalmente dependentes desse empregador, quase escravos submetidos a “castigos físicos“, turnos dobrados e etc.
Essa condição vai piorando desde o momento em que se inaugura a produção. Como essas empresas são montadas apenas para servir a Apple, uma vez completado o investimento começam as renegociações draconianas, ano a ano, entre os chineses e a empresa americana que se torna a compradora única de tudo que eles produzem.
Como sempre, entre fechar e seguir vivendo como der, a corda da “redução de custos” e dos “ganhos de produtividade” estoura do lado mais fraco: salários e direitos são esmagados, turnos são aumentados, a qualidade dos materiais, especialmente os que envolvem segurança e limpeza das fábricas, alojamento e alimentação dos operários e outros que não aparecem imediatamente em seu produto final, é espremida…
Vai por aí. Não tem mágica.
Um dia, quando se cansarem de chutar-se uns aos outros em nome de esotéricos conceitos de “esquerda” e “direita“, e métodos “monetaristas” ou “keynesianos” de lidar com o empobrecimento geral que a exportação dos empregos, o aviltamento planetário dos salários e o mau humor geral que disso resulta, os americanos talvez atentem para o verdadeiro foco do problema que eles foram os primeiros a identificar e encaminhar ha quase 240 anos.
Qual seja: não sendo os homens santos, é preciso que sejam controlados para que não se devorem uns aos outros, cabendo ao Estado esse papel. Se o estado se associar ao capital (como está fazendo em marcha acelerada no Brasil do PT e até, em certa medida, nos próprios Estados Unidos), resultam daí as chinas e as foxconn da vida. E, nesta nova realidade globalizada onde “nenhum homem é uma ilha“, havendo um “chinês” disposto a trabalhar como quase escravo, a quem os steve jobs possam recorrer para ganhar um pouco mais, todos nós estaremos fadados a virar quase escravos também.
De modo que a solução para a crise dos Estados Unidos e da Europa não está nos livros de Keynes ou dos monetaristas, nem muito menos em ter uma atitude “liberal” ou “republicana” e em esgrimir brilharecos retóricos em torno dessas nulidades pela imprensa, mas sim em dar um jeito de taxar os produtos que se consome segundo o grau de liberdade e dignidade do trabalho embutidos neles.
Porque sendo o homem a fera que é, regida pela economia (“quem come mais vive mais“), se a liberdade e a dignidade do trabalho continuarem não valendo nada e sendo apenas “custo” estão irremediavelmente fadadas a desaparecer da face da Terra.
Japão é um milagre da educação
17 de março de 2011 § 1 comentário

Matéria do Financial Times publicada hoje (aqui), informa que vão faltar celulares, tablets, games e outros produtos eletrônicos em todo o mundo em função da tragédia que se abateu sobre o Japão. Pois a maior parte dos mais sensíveis componentes dos componentes internos que tornam inteligentes os equipamentos de alta tecnologia fabricados e montados pelo mundo afora são produzidos exclusivamente no Japão.
E quando digo componentes dos componentes, estou sendo literal. A Mitsubishi Gas Chemical tem uma fábrica em Fukushima que produz metade de todo o bismaleimidio-triazine, conhecido pela sigla BT, fabricado no mundo (a outra metade fica por conta de duas outras empresas japonesas, a Hitachi e a Sumitomo). A fábrica foi atingida e seriamente danificada pelo tsunami, não havendo previsão de quando poderá voltar a produzir. E o estoque de BT com as especificações do Mitsubishi existente hoje no mercado só dá para um mês e meio.
Acontece que o BT é a resina que recobre os chips de silício onde são impressos os circuitos microscópicos que tornam inteligentes os aparelhos que todos usamos hoje e fazem funcionar controles informatizados de vários tipos de industrias pelo mundo afora.

O Japão produz também 60% de todos os chips de silício consumidos no mundo. Mas o restante é produzido em Taiwan. É também principalmente em Taiwan que esses chips recebem os circuitos impressos. Mas o que os fixa um ao outro mantendo a necessária flexibilidade e aguentando o calor gerado pelo funcionamento desses semicondutores é a resina fabricada exclusivamente no Japão. Nenhum equipamento eletrônico hoje, fabricado onde quer que seja no mundo, pode prescindir desse componente.
Também não é possível reforçar a produção dos concorrentes da Mitsubishi para atender a emergência porque o BT que ela fabrica tem características diferentes das demais, incorporando tecnologia ainda mais moderna. Para substituir uns pelos outros, aparelhos como os celulares Nexus One, da Google, o novo Boeing 787 Dreamliner, prestes a ser lançado, games da Qualcomm e outros teriam de ser redesenhados.
O mundo hoje festeja marcas de fantasia e operações de marketing como se fossem elas as maravilhas que a tecnologia proporciona. Mas quem as torna inteligentes é o Japão, que lhes fabrica os insumos dos insumos, que são, a seguir, montados em Taiwan e, finalmente, enfiados dentro daquilo que o consumidor comum terá nas mãos na China, tudo, em geral, seguindo um design e um projeto de engenharia eletrônica original americano.

Tudo muito de acordo com a proverbial discrição do comportamento dos japoneses
O que se tem visto, nas entrelinhas da cobertura desse desastre de proporções quase bíblicas, a propósito, são verdadeiras lições para o mundo que tornam mais fácil entender como a educação fez da população daquela pequena ilha quase inteiramente desprovida de recursos naturais uma das sociedades mais desenvolvidas e prósperas que a humanidade já produziu.
Para além da crise na indústria de tecnologia de ponta que tornará mais visível, daqui por diante, o papel crucial que o Japão tem nessa cadeia internacional de produção, tem chamado muito a atenção a compostura com que os japoneses enfrentam a desgraça.
A televisão mostrou cenas impressionantes nos centros para desabrigados, nos primeiros dias depois do tsunami, de gente que acabara de perder a família inteira, quando muito, deixando escapar uma ou outra lágrima na frente das câmeras; respondendo com as tradicionais mesuras e gestos de cabeça cada atenção recebida das equipes de socorro; deixando ordenadamente suas casas e até cidades nas operações de evacuação que se seguiram.

O próprio comportamento dos jornalistas japoneses que captaram essas cenas é de chamar a atenção pela sua parcimônia e comedimento.
Ao contrário do que vimos aqui no Brasil no desastre da região serrana carioca, ou nos Estados Unidos, quando da inundação de New Orleans, e mesmo em países europeus quando surge a oportunidade, não houve sequer ameaças de saque em parte alguma, apesar da escassez que quase imediatamente se instalou nas zonas mais atingidas.
Mesmo na desgraça o Japão é um exemplo para o mundo, em especial, para aqueles que acham que a História começou com o seu próprio nascimento e que educação que presta é só a que se recebe “na escola da vida”.
Foi a escola da vida que ensinou ao Japão, a duríssimas penas, a falta que faz a educação formal à qual o país inteiro se atirou com vontade ferrenha a partir da tabula rasa a que ficou reduzido em 1945. Em 65 anos isso os lançou da miséria e da servidão dos shogunatos para o topo da lista das sociedades mais democráticas e mais afluentes que a humanidade jamais produziu.
Não existe outro caminho, aliás.






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