Namorando o confronto
21 de setembro de 2010 § Leave a comment

Senhoras e senhores, apresento-lhes o outro Brasil.
Ele chegou ao poder. Ele não fala a nossa língua. Ele não comunga os nossos valores. Os “fatores críticos de sucesso” que selecionaram uma “espécie dominante” entre seus habitantes são opostos aos que nós, do Brasil que pensava que era o Brasil, tomamos de empréstimo da cartilha das democracias anglo-saxônicas e, desde a Republica, vimos sugerindo em vão que o outro Brasil adotasse.
O fenômeno Lula é a realização da profecia de Nelson Rodrigues. “Quando eles descobrirem que são maioria…”
Da Belindia (de Bélgica e Índia) estamos indo em marcha acelerada para a Indiabel, cheios de duvidas sobre se Bel sobreviverá ao choque.
Vão aflorar os 500 anos de rancor reprimido por baixo da casca frágil do “homem cordial” que “essa gente que nos odeia” (inverto a projeção de Lula) está cuidando de romper no grito.

Assim como a escravidão sancionou a dissimulação e o jeitinho nas relações entre senhor e escravo, o autoritarismo e a insegurança jurídica sancionaram o “capitalismo de compadres” nas relações entre um Estado patrimonialista todo poderoso e os empreendedores. Nos dois casos o poder de vida e morte (física ou econômica) do opressor sobre o oprimido transformaram a ética, essa elaboração da idéia do devir sedimentada pela aplicação do filtro da História sobre o conhecimento formal estabelecido, num luxo só para os mártires e para os intelectuais que esse outro Brasil que agora sobe ao pódio, o da massa dos que tinham de se concentrar exclusivamente no esforço de sobreviver ao dia de hoje, nunca pôde se dar.
Essa maneira de apresentar o novo Brasil com que abri este comentário veio-me à cabeça enquanto lia o editorial do Estadão (aqui) e o artigo de Arnaldo Jabor de hoje (aqui). Cada um no seu estilo, os dois esbarravam nessa mesma visão.
Estamos entrando, os dois Brasis, numa nova fase da nossa proverbial desinteligência, em que a linha que vinha de baixo para cima e da esquerda para a direita cruzou com a linha que vinha de cima para baixo e da direita para a esquerda, e o ângulo de inflexão da trajetória de ambas se abriu. Daqui por diante as duas pontas tendem a se afastar ainda mais uma da outra.
O Estado mencionava que, na retórica maniqueísta que usa sem o menor pudor nas suas encenações palanqueiras, “a verdade é que o paladino dos desvalidos nutre hoje uma genuína ojeriza por uma, e apenas uma, categoria especial da elite: a intelectual, formada por pessoas que perderam tempo com leituras e que por isso se julgam no direito de avaliar criticamente o desempenho dos governantes (…) Com todas as demais elites Sua Excelência já resolveu seus problemas. Está com elas perfeitamente composto, afinado, associado, aliado…”

Ha, de fato, um ponto de identificação – o imperativo de superação da ética – entre boa parte dos que, frequentemente associados, buscam o poder pela via do sucesso empresarial, que prescinde de altos refinamentos metafísicos, ou passando pelos filtros de seleção negativa de um sistema político que se apóia na corrupção. É isso que explica o modo natural e confortável como os dois “se compuseram, se afinaram, se associaram, se aliaram…”
E ambos estão mais próximos dos sobreviventes do Brasil escravocrata e patrimonialista, esse inóspito habitat em que se debatem aqueles que têm de investir toda a sua energia na tarefa de superar a miséria da sua condição para chegar ao dia de amanhã, tratando de cuidar do como sem poder se dar o luxo de se interrogar sobre os porquês, do que a minoria ilhada pela educação formal num mar de analfabetos e semi-analfabetos.
Com a liderança política da Nação pulando ostensivamente para o outro lado, sobrou no prato de cá da balança, crítica dos dois, a minoria dos letrados, dos intelectuais, das “pessoas que perderam tempo com leituras e que por isso se julgam no direito de avaliar criticamente o desempenho dos governantes (e dos empresários)”.
Jabor, no seu estilo psico-analítico, registra o apofundamento do abismo de comunicação entre os dois Brasis, assinala que “a corrupção no pais não é um desvio da norma (…) é a norma mesmo” e que Lula, na sua simbiose midiática com a massa, intui que A Razão é a sua maior inimiga e, por isso, trata de demolir suas construções “emparedando instituições democráticas e poderes moderadores” para perseguir o poder absoluto manipulando a emoção das massas como “num fenômeno religioso”.

A grande novidade em relação aos modelos do passado recente está nas afinidades eletivas do Estado patrimonialista, aparelhado para servir a um projeto de poder, e o “capitalismo de compadrio”. Os dois ordenham a mesma vaca. Vivem, na verdade, um do outro. E aos dois incomoda igualmente o olho denunciativo da imprensa livre, “a única oposição que sobrou”.
Falta, portanto, indispor a massa contra ela para que nada mais se oponha à montagem de “um modelo populista, despolitizado, referendado pela aprovação popular a resultados econometricamente aferíveis (um grau acima do modelo chinês, portanto), mas que despreza valores genuinamente democráticos de respeito à cidadania”, isto é, de respeito ao indivíduo e ao seu direito de não aderir.
Na verdade tudo empurra na mesma direção. A China nos diz que é mais fácil os governos autoritários evoluírem para o totalitarismo de resultados do que aceitar as agruras da disputa pelo mérito que pressupõe a revogação da política como a conhecemos. E isto muito mais especialmente ainda num pais onde o sistema de educação publica foi sucateado pelo jogo corporativo e granmscianamente aparelhado até o ponto de produzir, em pleno Terceiro Milênio, uma campanha eleitoral dominada exclusivamente pelo jargão de ideologias mortas na metade do ultimo século do Segundo.
“Essa gente que nos odeia” (volto ao ponto de vista de Lula), tem como única arma a língua (mais ou menos) culta que a massa dos brasileiros não fala. E está enfraquecida por uma crise sistêmica para a qual não ha perspectiva visível de saída fácil. Poderá resistir, na boa hipótese, a parcela dela que souber se entrincheirar na internet até que o descalabro no abuso da coisa publica chegue ao paroxismo ou que alterações na conjuntura internacional precipitem os efeitos que esses abusos acabarão por produzir.
Até lá, viveremos sobre o fio da navalha na Babel da crescente subversão conceitual que Lula promove em seu namoro com o confronto, empurrados cada vez mais para perto do ponto de onde se torna impossível retornar.

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