“Manifestante” é o cacete!

15 de agosto de 2013 § 3 Comentários

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Com toda a crise em que anda ainda é a imprensa profissional quem pauta o país, como já se mostrou aqui no Vespeiro por diferentes evidências.

Se você quiser antecipar, por exemplo, como é que os políticos e as autoridades constituídas vão reagir amanhã aos acontecimentos de hoje basta prestar atenção aos jornais da noite das televisões.

Ontem, por exemplo, elas passaram o dia mostrando como três ou quatro desses grupelhos que, dia após dia desde as manifestações de junho escolhem um alvo ligado aos governos de São Paulo ou do Rio de Janeiro, as praças que o PT jurou conquistar custe o que custar, para destruir junto com tudo que estiver nas redondezas, especialmente lojas e bancos, se prepararam para executar o que tinham anunciado que fariam no dia anterior. À noite lá veio o show prometido.

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Não é preciso “supor” nada, com é praxe fazer em todo texto jornalístico hoje em dia. É tudo oficial e explícito. Ontem, como já tinham anunciado os jornais do dia anterior, eram o Movimento Passe Livre, o primeiro a sentar obedientemente na mesa da Dilma depois das manifestações de junho e declarar que estivera nelas por engano, a CUT, nossa velha conhecida, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, idem, e o Sindicato dos Metroviários de São Paulo, um dos filiados à CUT e, como ela, assalariado do imposto sindical que o governo distribui, que iam invadir e destruir a Câmara Municipal de São Paulo aos gritos de “Fora Alckmin”, a pretexto de exigir “um outro padrão de transporte” que estaria sendo negado ao povo em função do conluio entre as empresas que se organizaram em cartel para construir o metrô de São Paulo e o PSDB.

Tudo isso estava estampado em todos os jornais do Rio e de São Paulo do dia anterior.

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Na véspera, para agravar o dolo, O Estado de S. Paulo, numa espécie de lapso excepcional em relação à costumeira falta de curiosidade geral das redações, tinha ido ouvir a promotora Karen Kahn, do Ministério Publico Federal, uma das negociadoras do “pacto de leniência” com a Siemens que levou à revelação da falcatrua, que explicou ao Brasil porque o governo federal impediu por 15 dias, até ser obrigado a ceder por ordem judicial, que o Cade abrisse ao governo de São Paulo e à imprensa o inquérito que continha as acusações contra o PSDB dos vivos e dos mortos.

Foi porque o mesmo inquérito traz provas das mesmíssimas falcatruas perpetradas com as mesmíssimas empresas e nas mesmíssimas datas pela CBTU, o órgão do Ministério das Cidades tanto de Dilma quanto de Lula, não em uma mas em pelo menos três outras capitais do país, Belo Horizonte, Recife e a Porto Alegre natal da senhora “presidenta”, onde os metrôs são obras federais!

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Não seria necessário esse acrescentamento para se saber que esses grupinhos de 200/300 trogloditas que diariamente escolhem um alvo para depredar, desde que de alguma forma ele esteja ligado aos partidos que o PT jurou derrotar na próxima eleição, não passam de reedições dos fasci di combattimento ou esquadrões de combate que, por esses mesmíssimos métodos, plantaram o fascismo (foi daí que veio o nome) na Itália, modelo que se baseava no controle e no aparelhamento dos sindicatos pelo Estado para o exercício da violência física contra qualquer oposição e que foi, logo adiante, copiado por Getúlio Vargas e implantado no Brasil.

É o sistema que gerou o esquema de poder que o PT controla hoje, enfim.

Mas mesmo diante dessa prova adicional de má fé, se é que se pode chamar um golpe desse nível, para o qual concorreu do ministro da Justiça de Dilma (que foi quem trancou o inquérito do Cade) para baixo, por adjetivo tão brando, a imprensa continua chamando esse pessoal de “manifestantes”, a mesma expressão usada para designar o povo que saiu às ruas em junho, e de “manifestações” os pogroms a que eles se têm dedicado noite após noite escondendo o rosto, por vezes, mas sempre portando as bandeiras do partido ao qual pertencem, aquelas mesmas que foram sistematicamente expulsas das manifestações de junho.

Cerca de 300 manifestantes que se concentraram nas escadarias da Câmara Municipal do Rio, na Cinelândia, no Centro, fizeram um ato para reclamar do aumento da passagem de ônibus nesta segunda-feira (10). O protesto se estendeu pelas Avenidas Rio Branco, A

Nenhum dos outros grandes jornais do Rio e de São Paulo voltou à promotora Kahn ou foi procurar as provas oferecidas pela mesma Siemens do metrô de São Paulo dos vícios dos contratos para os metrôs das três capitais citadas assinadas com o governo federal que ela nos informou que constam dos documentos escondidos pelo ministro da Justiça.

O próprio O Estado de S. Paulo, no dia seguinte, já tinha esquecido seu “furo“, e seus títulos e “investigações” (de segunda mão) voltaram a se concentrar exclusivamente em Alckmin.

Não é atoa, portanto, que os vereadores agredidos ontem estivessem na Globo News na manhã de hoje, dizendo que “respeitam os manifestantes” e vão recebê-los nos próximos dias, agora como convidados de honra da instituição que agrediram e cujos estabelecimentos depredaram, e que a cada nova depredação siga-se outra, com redobrada violência.

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Pois se a imprensa não diferencia os fasci di combattimento de hoje dos manifestantes autênticos de ontem, nem essas depredações endereçadas daquelas passeatas, nem os gritos de “Não nos representam!” e a miscelânea de cartazes daqueles dias das bandeiras da mesma cor e das disciplinadas palavras de ordem de hoje, nenhum dado da realidade poderá fazer com que ela não venha a chamar de “violência policial gratuita” e de “surdez à voz das ruas” por parte de quem vive de votos qualquer reação, por tênue que seja, aos crimes desses criminosos.

E por esse ralo que quem abriu e pelo qual quem zela é a imprensa profissional, ultimo bastião da nossa periclitante democracia, se esvai, desmoralizada e deliberadamente confundida com o avesso de si mesma, a força do movimento que podia vir a mudar o Brasil.

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Democracia e informática são coisas compatíveis?

22 de abril de 2013 § 4 Comentários

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Você já guiou um desses carros que ficam te avisando por uma gravação que “você está acima da velocidade permitida”?

Pois é, a coisa está se invertendo. Logo, logo é o seu próprio carro que vai multa-lo, ao captar de alguma fonte emissora instalada pelo Estado em cada rua, em cada esquina, em cada estrada, o que você pode ou não pode fazer naquele lugar.

Já, já, aliás, você não terá mais nem o prazer de guiar. Será guiado pelos Google Car da vida, de um lugar para o outro, pelos caminhos e na velocidade que eles escolherem.

Por enquanto, os carros mais modernos apenas registram um monte de informações sobre tudo que você faz dentro ou perto deles que os fabricantes podem acessar quando quiserem e, eventualmente, vender para terceiros.

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Seu telefone idem. Ele grava, minuto a minuto, dia após dia, a sua localização além de tudo que você gosta de fazer e usar na internet acoplada a ele.

Mas ha muito mais.

Ha câmeras nos drones voando lá em cima (ultimamente andam por aí drones do tamanho de libélulas, para espionagens mais discretas e caçadas mais precisas), nos caixas automáticos, nos estabelecimentos comerciais, nos elevadores, nas ruas e nos becos de cada longínquo rincão do mundo.

Os softwares de reconhecimento facial estão cada vez mais aperfeiçoados e os bancos de fotografias (de vozes, de hábitos, de…) cada vez mais vastos.

No ritmo em que vai ainda nos enfiam um chip subcutâneo na maternidade…

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Na verdade as únicas empresas que não podem espioná-lo e vender as informações que capturam sobre os seus movimentos e comportamentos hoje são as de old ou semi old tech, nascidas naquela longínqua era em que o indivíduo ainda valia alguma coisa e respeitar a privacidade dele era uma lei fundamental das democracias.

Se as telefônicas ou o Murdoch gravarem o que você faz nos ambientes deles ou usarem as informações que outros gravam e publicá-las como fazem o Facebook, o Google, e todo e qualquer site espalhado pela internet, eles vão para a cadeia.

Mas tudo que veio depois da internet pode, livremente, espionar você e usar como bem entender as informações assim colhidas em benefício próprio ou de terceiros simplesmente em troca da apresentação de … dinheiro.

Ordens judiciais para invadir a vida alheia são reminiscências em desuso de um mundo em vias de desaparição.

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Por que os legisladores e, pior ainda, as próprias vítimas dessa empulhação ainda acreditam que os atos de uns são nefandos e os dos outros não são, como são, maneiras desonestas, violentas, invasivas e perigosas de ganhar dinheiro às custas da liberdade alheia mas sim ações generosas e altruístas em prol da “liberdade na rede” (para roubar?) e da “democratização do conhecimento” é coisa de que a História ainda haverá de tratar.

Isso se tudo não acabar, como parece claro que acabará, no verdadeiro “fim da História” como reconstituição daquilo que de fato aconteceu para dar lugar exclusivamente à história oficial que serão os pedaços daquela que os detentores do registro milimétrico da sua e da vida de cada um de nós houverem por bem montar e liberar, já que esse tipo de poder, uma vez experimentado, nunca se detém apenas onde começa.

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Na mesma semana em que a caçada aos terroristas de Boston mostrou o quanto já andamos longe nessa senda da espionagem geral, a Câmara dos Representantes do Congresso dos EUA aprovava a CISPA e o Google mandava para as lojas os seus óculos/computadores/filmadores, capazes de acrescentar ao que o seu telefone já faz para espioná-lo, também o registro de tudo que você está vendo, passo a passo, segundo por segundo.

A CISPA (Cyber Intelligence Sharing and Protection Act), ainda faltando a aprovação do Senado que deve ser tranquila, é uma lei que formaliza a aliança privilegiada entre o governo e as grandes estruturas e encruzilhadas da internet empregando batalhões de matemáticos e programadores como o Google e o Facebook, entre outros. Legaliza “a troca de informações voluntária entre empresas privadas e o governo no caso de cyber-ataques ou suspeita de cyber-ataques” (movimentações anormais de tráfego, etc).

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É uma estrada de mão dupla em que o governo ajuda preferencialmente essas mega-corporações e elas ao governo, coisa que, para quem partiu da gloriosa saga da legislação antitruste, ponto mais alto da construção da democracia, representa nada mais nada menos que a inversão de um princípio até então tido como fundamental.

Ao fulminante efeito de multiplicação do poder dos poderosos, de facilitação da criação de monopólios e de concentração da riqueza que a internet tem provado dramática e implacavelmente que tem para a crescente legião apavorada dos desempregados e dos sub-empregados do mundo, vem somar-se o seu corolário necessário que é a associação do poder do Estado Nacional, hoje mero subsidiário do outro, ao poder econômico globalizado sem fiscalização nem fronteiras.

Empurrando tudo, além do pânico generalizado e da busca de proteção a qualquer custo que reduz a capacidade de discernimento e induz à aceitação do inaceitável, está essa “transparência forçada de mão única” a criar um mundo onde privacidade – privilégio das mega-corporações e do Estado – é poder.

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Não é a primeira vez que proponho isto aqui no Vespeiro e, para meu alívio, começo a ver essa ideia “bombar” pela rede como o início de um movimento mais estruturado de opinião pública, no sentido de obrigar o governo e as empresas à mesma transparência absoluta que nos impuseram, de modo a reduzir um pouco a desvantagem.

A “transparência de mão dupla” consiste em filmar e expor todo e qualquer movimento dos agentes do governo do mesmo modo como eles filmam e expõem seletivamente os nossos.

Como fazê-lo em relação às megaempresas é um problema bem mais espinhoso no qual é preciso começar a pensar antes que seja tarde.

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Uma experiência recente envolvendo os agentes do TSA (Transportation Security Administration), aqueles brutamontes que fazem gato e sapato da gente nos aeroportos americanos, demonstrou que quando forçados a usar câmeras filmando seus movimentos as reclamações de abusos caíram 88%.

Já fiz, aqui, recentemente, um exercício para imaginar o que isso faria pelo fim da violência e da corrupção policiais no Brasil.

Enfim é preciso que o povo filme e grave constantemente todos os atos dos agentes do governo assim como eles filmam e gravam todos os atos do povo, e que algo de parecido seja feito em relação às principais reuniões de informação envolvendo os gestores ao menos das empresas “grandes demais para quebrar” ou com ações em bolsa.

A caçada aos terroristas de Boston em que sites como 4chan e Reddit incentivaram seus usuários a publicar fotos da cena do crime indicou que, nessa sociedade da espionagem geral vão surgir também as turbas de linchadores cibernéticas.

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Milhões de fotos foram publicadas apontando pessoas com mochilas pretas nas costas, os rostos assinalados por círculos vermelhos, e com tantas ameaças e pressão que várias delas se apresentaram à polícia com medo do que lhes pudesse acontecer.

Estavam entre eles campeões esportivos das universidades locais carregando seus equipamentos, pessoas com traços raciais fora do padrão WASP (White Anglo Saxon Protestant) e até gente que despertou suspeitas apenas “por não estar prestando atenção na maratona” no momento do registro da foto.

Enfim, não parece nada bom o mundo da espionagem geral que vem vindo inexoravelmente por aí, e ha dúvidas crescentes sobre se democracia como a conhecemos e informática são coisas compatíveis entre si.

Mas se não ha volta possível aos bons tempos da privacidade, é mais justo que ninguém a tenha.

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Está bem viva a democracia brasileira!

2 de agosto de 2012 § 3 Comentários

A boa notícia é que a democracia brasileira está viva e até, parece, bem mais saudável do que seria de se esperar a julgar pela violência, pela desfaçatez e, principalmente, pela impunidade com que vinha sendo atacada pelos que, no momento, detêm o mandato constitucional para defende-la.

O que o país começa a assistir hoje no Supremo Tribunal Federal é, sim, um confronto. A mobilização nacional em torno desse julgamento não deixa dúvida quanto a isso.

Foi lançado um desafio.  E a Nação finalmente o aceitou.

Depois que falharam as tentativas de chantagem e as demais manobras de bastidores, a turba, a militância antidemocrática profissional, foi abertamente convocada para ir às ruas e decidir pela força o que a regra do jogo manda que seja decidido pelos tribunais.

A Nação se mobilizou em resposta, pelos canais através dos quais ouve, fala e fiscaliza os poderes constituídos. Mais de 500 credenciamentos de imprensa é um numero que fala por si. Sem contar o debate e a indignação que fervem na internet.

De todos os lados afirma-se que ninguém se dobrará às pressões da opinião pública. Mas a democracia é, por excelência, o sistema aberto às pressões da opinião pública, fonte exclusiva da legitimidade dos poderes constituídos. Seu objetivo não é, nem impedir que ela se manifeste, nem operar para que seja anulada, mas sim criar canais para que essas pressões fluam entre a origem e o destino pela via institucional. Isto é, para desarmá-las da força bruta e do poder de coerção que o “chefe da quadrilha” tentou por nas ruas, mas não para negar-lhe legitimidade ou o direito a manifestar-se pelos canais legais.

Como lembrou Demétrio Magnoli em artigo cirurgicamente preciso n’O Estado de S. Paulo (aqui), o que começou a ser julgado no STF hoje foi “uma tentativa de supressão da independência do Congresso Nacional; (…) de virtual eliminação do sistema de contrapesos da democracia pelo completo emasculamento do Congresso (…) um estratagema golpista devotado a esvaziar de conteúdo substantivo a democracia brasileira” por um partido que julga ter “a propriedade da verdade histórica e (…) reclama uma aliança preferencial com o futuro”.

Magnoli deteve-se na advertência genérica de que “a corrupção tradicional envenena lentamente a democracia” e foi justo e preciso na observação dos indícios até hoje conhecidos sobre quanto das ações dos réus parecem inspiradas na vontade de enriquecer com dinheiro público ou apenas na de comprar com ele o poder que se requer, mas não lhes foi outorgado por quem os elegeu (daí o sentido “golpista” da operação), para “subordinar a lei à História, ou seja, a um projeto ideológico“.

Mas a verdade é que, como sempre acontece, o projeto de poder de um grupo de homens que, como todos os que o experimentaram, apaixonou-se por ele, acabou passando à frente da nova “utopia” (a da implantação de um capitalismo de Estado gerenciado pelo partido) que, na sua moral torta, “justificava” o Mensalão.

De repente, já não se tratava mais apenas de comprar o Congresso Nacional para uma finalidade exterior aos interesses pessoais dos agentes da operação mas de tirar-lhes da frente todo e qualquer limite para o exercício e o desfrute do poder, inclusive e principalmente aqueles de que é guardião o Poder Judiciário.

Ao grande assalto do lulopetismo ao poder, até o STF, que agora ensaia se levantar em brios, acabou por se dobrar de forma constrangedora no processo que culminou com o episódio do asilo sob ordens concedido ao terrorista italiano, Cesare Battisti, contrariando decisão anterior da própria corte suprema.

Sobre a materialidade dos fatos ocorridos ha sete anos – a formação da quadrilha, a identidade de quem a comandava, o desvio de dinheiro público, o rastreamento de onde ele saiu e onde ele chegou – não ha dúvida rigorosamente nenhuma.

Tampouco sobre a constitucionalidade ou a competência do STF de determinar que o julgamento dos 40 réus não fosse desmembrado.

Marcio Thomaz Bastos e cia. ltda., como sempre, dirá o que for pago para dizer e, segundo o costume, sobretudo quando, como agora, os fatos lhe forem totalmente adversos, trabalhará as brechas regimentais que – mais nas instâncias mais baixas do que nesta – permitem que qualquer criminoso no Brasil deixe de ter seus atos julgados pelo mérito para se homiziar nas brechas do formalismo, distorção que é a mãe da corrupção que nos rouba a todos um pedaço grande da vida.

Mas até isso será pedagógico num julgamento acompanhado ao vivo por toda a Nação. A qualquer inteligência sã repugnam os expedientes de que vivem os nossos advogados. Talvez venha daí um bonus inesperado se, em algum momento, obtiverem sucesso no tapetão com todo o país assistindo.

O fato que importa, seja como for, é que todo o sistema institucional brasileiro está em julgamento e, de modo especial, o Supremo Tribunal Federal e cada um dos seus ministros (o dr. Dias Tóffoli que o diga!), eles também objeto de uma operação explicita de “cristianização” por parte do réu maior, ausente do banco deste julgamento mas que o país inteiro sabe que está lá.

Trata-se de reafirmar quem manda em quem e até onde, na democracia brasileira, e até que ponto se pode contar com a lei neste país.

“Nós sabemos quem voce é; nós sabemos o que você faz”

25 de abril de 2011 § 2 Comentários

Quando os lobos e os leões tentam devorar um ao outro sempre sobra alguma coisa de útil para os cordeiros aqui de fora que deixam temporariamente de ser o menu.

A briga entre Rupert Murdoch, o rei da old mídia, com Steve Jobs e a dupla de canídeos que criou a Google, os reis da new mídia, é um desses casos: acaba por revelar antecipadamente ao menos com que tipo de tempero eles pretendem nos devorar na próxima rodada do banquete.

O Wall Street Journal, que Murdoch tragou em 2007, tem, de fato, feito o melhor trabalho jornalístico da praça para desvendar aquilo que os alquimistas dos telefones inteligentes prefeririam manter escondido. Foi esse jornal que revelou ha cerca de seis meses, em matéria impecavelmente apurada e espetacularmente detalhada, como os sites todos por onde navegamos, inclusive o do próprio WSJ (coisa de que seus jornalistas até então não sabiam e denunciaram junto com os demais investigados), plantam, cada um deles, dezenas, às vezes centenas de programas espiões nos nossos computadores que, daí por diante, relatam-lhes o que fazemos internet afora. E revelou também como os fabricantes, os provedores de internet, os fornecedores de aplicativos e outros dividiam entre si o dinheiro que amealham armando e vendendo o produto dessas emboscadas cibernéticas de que todos somos vitimas, na maioria das vezes sem sabermos.

Na semana passada o WSJ fechou o foco em novas e bombásticas revelações. Ele mostrou que tanto a Google (que “motoriza” celulares de diversos fabricantes com o seu sistema Android) quanto a Apple com seus iPhones e outros gadgets animados pelo sistema iOS, monitoram até os deslocamentos físicos dos portadores de seus telefones. Informações cruzadas contendo marcações de GPS, de distancia de torres de conexão e informações sobre as chamadas que você faz colhidas “a cada poucos segundos” são remetidas para a Google diversas vezes por hora”. A Apple já tinha sido flagrada fazendo a mesma coisa e, no ano passado, intimada pelo Congresso dos Estados Unidos, admitiu que essas informações eram remetidas para a sua central “duas vezes por dia”.

As duas empresas alegaram em sua defesa que essas informações eram “anonimizadas” e serviam para prestar melhores serviços aos usuários, que podiam, se quisessem,  desligar os serviços de localização (que vinham ligados de fábrica, o que vai contra o principio do opt-in, ou de autorizar as invasões).

O WSJ, porém, contratou agencias especializadas em segurança de comunicações e provou que isso era mentira (aqui): os telefones seguiam captando e enviando informações sobre localização às centrais mesmo depois que os dispositivos tinham sido desligados pelos usuários, e as informações são relacionadas a um numero IP exclusivo de cada telefone que pode ser ligado ao seu dono.

Na sexta-feira santa, alguns dias depois da denuncia, a Google concordou em falar ao jornal e deu desculpas esfarrapadas. A Apple nem isso. Consentiu calando-se.

Hoje o jornal publica extensa matéria (aqui) revelando diversas “experiências cientificas” que vêm sendo levadas a cabo por renomadas instituições europeias e americanas com base no monitoramento dos movimentos de voluntários com a ajuda dos seus celulares, e os detalhes são de arrepiar.

Nunca houve um aparelho tão pessoal quanto um celular, que o usuário carrega por toda parte onde anda e usa para quase tudo que faz. Nunca houve antes uma oportunidade tão completa de acompanhar tão minuciosamente o que alguém faz”. E isso explica a curiosidade dos cientistas que vem de encontro ao interesse dos fabricantes dessas máquinas.

Uma experiência do Massachusetts Institute of Technologies (MIT) que monitorou 60 famílias vivendo em seu campus durante dois anos concluiu que cada indivíduo tem uma rede particular de “influenciadores” capazes de faze-los mudar de ideia sobre consumo e até sobre política em direções que se tornam previsíveis com margens de acerto superiores a 87% baseado apenas nos seus deslocamentos e na frequência com que essas pessoas entram em contato umas com as outras.

A experiência foi reconfirmada com precisão ainda maior quando foram acoplados aos telefones monitorados equipamentos capazes de reconhecer outros telefones de participantes que se aproximassem a menos de 4 metros, o que caracterizaria um encontro “cara a cara” entre seus donos.

As principais companhias telefônicas já estão usando essa tecnologia (um programa de computador capaz de interpretar essas informações cruzadas foi desenvolvido em cima da experiência) para enviar propaganda especialmente dirigida para clientes que começam a fazer muito contato com outros usuários identificados como capazes de influenciar a troca de companhia telefônica.

Cruzadas com outras informações sobre relações pessoais, estados de humor, saúde, gastos e hábitos em geral, fornecidos voluntariamente pelos pesquisados, mais os seus movimentos e a analise das variações dos seus contatos telefônico, uma experiência de Harvard desenvolveu modelos de “contagio” de ideias, doenças e modas e a velocidade de sua dispersão com altíssimo grau de acerto.

O estudo mostrou, também, que um terço dos pesquisados mudou de ideia a respeito de seus votos nos três meses que antecederam a eleição, e que é possível prever a direção dessa mudança monitorando a frequência dos contatos telefônicos e, principalmente, pessoais, entre indivíduos com diferentes pontos de vista políticos previamente conhecidos.

Outra experiência conduzida sobre o Twitter, com base em incidência de palavras em mensagens trocadas entre grupos específicos, conseguiu antecipar movimentos do Indice Dow Jones da bolsa de valores americana com até seis dias de antecedência com 87,6% de acerto.

Na Europa, pesquisa envolvendo 100 mil usuários avaliando posicionamento, contatos telefônicos, duração e data desses contatos levou à capacidade de prever deslocamentos futuros dos usuários com 93,6% de acerto.

Malte Spitz, um deputado do Partido Verde alemão, exigiu da Deutsche Telekom que abrisse todas as informações que detinha sobre ele. Num período de seis meses, sua localização tinha sido registrada mais de 35 mil vezes. Cruzando esses dados com registros jornalísticos de suas andanças, o site de jornalismo Zeit Online conseguiu reconstituir minuciosamente todos os seus passos naquele período.

As telefônicas europeias descobriram também que uma pessoa fica cinco vezes mais propensa a mudar de companhia telefônica se algum de seus amigos chegados tiverem feito isso antes dele. E passaram a enviar propaganda seletiva a seus clientes com base nesse tipo de informação.

Por enquanto, até onde sabemos, esse tipo de experiência tem em foco encontrar meios de chegar mais facilmente ao seu dinheiro. Mas, obviamente, os usos “civis” não são os únicos que se pode dar a tais ferramentas, assim como cientistas pagos por empresas em princípio pacíficas não são os únicos que estão levando a cabo esse tipo de pesquisa.

Dinheiro, política e guerra são diferentes gradações do tamanho da sede com que se vai ao mesmo bom e velho pote do Poder. E tudo que é inventado para uma forma de mitigar essa sede, pode, facilmente, ser adaptado para as outras.

O que a História comprova, no final das contas, é que a única condição para que uma nova arma venha a ser usada em todas as versões disponíveis pela velha humanidade de sempre é ela ter sido inventada.

Namorando o confronto

21 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

Senhoras e senhores, apresento-lhes o outro Brasil.

Ele chegou ao poder. Ele não fala a nossa língua. Ele não comunga os nossos valores. Os “fatores críticos de sucesso” que selecionaram uma “espécie dominante” entre seus habitantes são opostos aos que nós, do Brasil que pensava que era o Brasil, tomamos de empréstimo da cartilha das democracias anglo-saxônicas e, desde a Republica, vimos sugerindo em vão que o outro Brasil adotasse.

O fenômeno Lula é a realização da profecia de Nelson Rodrigues. “Quando eles descobrirem que são maioria…”

Da Belindia (de Bélgica e Índia) estamos indo em marcha acelerada para a Indiabel, cheios de duvidas sobre se Bel sobreviverá ao choque.

Vão aflorar os 500 anos de rancor reprimido por baixo da casca frágil do “homem cordial” que “essa gente que nos odeia” (inverto a projeção de Lula) está cuidando de romper no grito.

Assim como a escravidão sancionou a dissimulação e o jeitinho nas relações entre senhor e escravo, o autoritarismo e a insegurança jurídica sancionaram o “capitalismo de compadres” nas relações entre um Estado patrimonialista todo poderoso e os empreendedores. Nos dois casos o poder de vida e morte (física ou econômica) do opressor sobre o oprimido transformaram a ética, essa elaboração da idéia do devir sedimentada pela aplicação do filtro da História sobre o conhecimento formal estabelecido, num luxo só para os mártires e para os intelectuais que esse outro Brasil que agora sobe ao pódio, o da massa dos que tinham de se concentrar exclusivamente no esforço de sobreviver ao dia de hoje, nunca pôde se dar.

Essa maneira de apresentar o novo Brasil com que abri este comentário veio-me à cabeça enquanto lia o editorial do Estadão (aqui) e o artigo de Arnaldo Jabor de hoje (aqui). Cada um no seu estilo, os dois esbarravam nessa mesma visão.

Estamos entrando, os dois Brasis, numa nova fase da nossa proverbial desinteligência, em que a linha que vinha de baixo para cima e da esquerda para a direita cruzou com a linha que vinha de cima para baixo e da direita para a esquerda, e o ângulo de inflexão da trajetória de ambas se abriu. Daqui por diante as duas pontas tendem a se afastar ainda mais uma da outra.

O Estado mencionava que, na retórica maniqueísta que usa sem o menor pudor nas suas encenações palanqueiras, “a verdade é que o paladino dos desvalidos nutre hoje uma genuína ojeriza por uma, e apenas uma, categoria especial da elite: a intelectual, formada por pessoas que perderam tempo com leituras e que por isso se julgam no direito de avaliar criticamente o desempenho dos governantes (…) Com todas as demais elites Sua Excelência já resolveu seus problemas. Está com elas perfeitamente composto, afinado, associado, aliado…

Ha, de fato, um ponto de identificação – o imperativo de superação da ética – entre boa parte dos que, frequentemente associados, buscam o poder pela via do sucesso empresarial, que prescinde de altos refinamentos metafísicos, ou passando pelos filtros de seleção negativa de um sistema político que se apóia na corrupção. É isso que explica o modo natural e confortável como os dois “se compuseram, se afinaram, se associaram, se aliaram…

E ambos estão mais próximos dos sobreviventes do Brasil escravocrata e patrimonialista, esse inóspito habitat em que se debatem aqueles que têm de investir toda a sua energia na tarefa de superar a miséria da sua condição para chegar ao dia de amanhã, tratando de cuidar do como sem poder se dar o luxo de se interrogar sobre os porquês, do que a minoria ilhada pela educação formal num mar de analfabetos e semi-analfabetos.

Com a liderança política da Nação pulando ostensivamente para o outro lado, sobrou no prato de cá da balança, crítica dos dois, a minoria dos letrados, dos intelectuais, das “pessoas que perderam tempo com leituras e que por isso se julgam no direito de avaliar criticamente o desempenho dos governantes (e dos empresários)”.

Jabor, no seu estilo psico-analítico, registra o apofundamento do abismo de comunicação entre os dois Brasis, assinala que “a corrupção no pais não é um desvio da norma (…) é a norma mesmo” e que Lula, na sua simbiose midiática com a massa, intui que A Razão é a sua maior inimiga e, por isso, trata de demolir suas construções “emparedando instituições democráticas e poderes moderadores” para perseguir o poder absoluto manipulando a emoção das massas como “num fenômeno religioso”.

A grande novidade em relação aos modelos do passado recente está nas afinidades eletivas do Estado patrimonialista, aparelhado para servir a um projeto de poder, e o “capitalismo de compadrio”. Os dois ordenham a mesma vaca. Vivem, na verdade, um do outro. E aos dois incomoda igualmente o olho denunciativo da imprensa livre, “a única oposição que sobrou”.

Falta, portanto, indispor a massa contra ela para que nada mais se oponha à montagem de “um modelo populista, despolitizado, referendado pela aprovação popular a resultados econometricamente aferíveis (um grau acima do modelo chinês, portanto), mas que despreza valores genuinamente democráticos de respeito à cidadania”, isto é, de respeito ao indivíduo e ao seu direito de não aderir.

Na verdade tudo empurra na mesma direção. A China nos diz que é mais fácil os governos autoritários evoluírem para o totalitarismo de resultados do que aceitar as agruras da disputa pelo mérito que pressupõe a revogação da política como a conhecemos. E isto muito mais especialmente ainda num pais onde o sistema de educação publica foi sucateado pelo jogo corporativo e granmscianamente aparelhado até o ponto de produzir, em pleno Terceiro Milênio, uma campanha eleitoral dominada exclusivamente pelo jargão de ideologias mortas na metade do ultimo século do Segundo.

Essa gente que nos odeia” (volto ao ponto de vista de Lula), tem como única arma a língua (mais ou menos) culta que a massa dos brasileiros não fala. E está enfraquecida por uma crise sistêmica para a qual não ha perspectiva visível de saída fácil. Poderá resistir, na boa hipótese, a parcela dela que souber se entrincheirar na internet até que o descalabro no abuso da coisa publica chegue ao paroxismo ou que alterações na conjuntura internacional precipitem os efeitos que esses abusos acabarão por produzir.

Até lá, viveremos sobre o fio da navalha na Babel da crescente subversão conceitual que Lula promove em seu namoro com o confronto, empurrados cada vez mais para perto do ponto de onde se torna impossível retornar.

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