A luta dentro do Partido Comunista Chinês
25 de agosto de 2010 § Deixe um comentário

Sigo a pista sobre a existência de divergências sérias em torno da política econômica dentro do Partido Comunista Chinês sugerida pelo fato do seu jornal oficial ter tomado a iniciativa de publicar matéria dando conta da existência de 64,5 milhões de imóveis desocupados na China, o que constituiria uma “bolha” cinco vezes maior que a que desencadeou a crise financeira nos Estados Unidos e no mundo (veja duas postagens abaixo desta).
Eis o que encontrei:
A 1 de julho passado o jornal 21st Century Economic Report, pertencente a um empresário de Xangai, jogou na arena um escândalo envolvendo o filho do primeiro ministro Wen Jiaobao, o mais próximo aliado do presidente Hu Jintao. Na China o primeiro nome é o de família e o segundo é que é o nome próprio. Wen Yunsong, que nos Estados Unidos, onde estudou, era conhecido como “Winston Wen”, teria recebido sob falsa identidade o equivalente a US$ 900 milhões para, mancomunado com o ex-diretor da entidade regulatória da industria de seguros da China, conseguir aprovação para que a segunda maior companhia de seguros do país – a Ping An – lançasse ações na bolsa de Hongcong burlando a legislação que impede a participação de capitais estrangeiros nessa industria em porcentagem maior que 50%.
“Winston” Wen
As acusações foram imediatamente reproduzidas por todos os maiores websites chineses, inclusive o da agencia oficial de notícias Xinghua e o do Diário do Povo, órgão oficial do PCC. Vinte e quatro horas depois todas as matérias foram deletadas. Mas a bomba estava lançada e continuou repercutindo nos bastidores.
Segundo A Voz da America o assunto foi trazido à baila na reunião de julho do Comitê Central do Politburo, na qual o secretário da seccional de Xangai do PCC, Chen Liangyu, desafiou abertamente o primeiro ministro a “assumir a responsabilidade política” pelas eventuais conseqüências de sua política econômica.
Foi o primeiro ministro que insistiu no pacote de medidas de contenção do crédito anunciadas em abril para tentar deter a escalada da inflação que, segundo Chen Liangyu, “prejudicou fortemente a economia de Xangai e das cidades da costa oeste da China”. O primeiro ministro respondeu rispidamente ao representante de Xangai e “uma ácida discussão” se instalou e só foi suspensa diante da intervenção enérgica do presidente Hu Jintao.
Dada a rígida estrutura stalinista da burocracia chinesa um desafio desse nível de uma liderança municipal ao primeiro-ministro, assim como a publicação das acusações contra seu filho em órgãos oficiais do PCC, só pode ser imaginado se houver forte respaldo de altas patentes do partido.
O presidente Hu Jintao e seu primeiro ministro Wen Jiaobao, considerados liberais, substituíram o presidente Jiang Zhemin, da linha dura, em 2002. Mas Jiang manteve sob seu controle o poderoso Comitê Central dos assuntos Militares e a maioria dos membros do Politburo, e tem feito criticas publicas às medidas de contenção do crédito anunciadas pelo governo.


Hu Jintao e Wen Jiaobao
Sentindo-se isolado e desafiado, Hu Jintao passou a dirigir as explicações de sua política diretamente à opinião publica e a divulgar a agenda das reuniões plenárias do partido para torná-las abertas ao debate publico e eximir-se da responsabilidade pelo que não lhe permitirem fazer. A próxima reunião, em setembro vai debater o tema do “reforço da capacidade de comando do partido”, fato que está sendo interpretado como uma tentativa de recompor a autoridade de Hu. Sua principal base de apoio é a Liga dos Jovens Comunistas que, no final de julho, sinalizou que ele pode estar montando o seu próprio dossiê de acusações contra Jiang Zheming ao publicar no seu órgão oficial, o Diário da Juventude Chinesa, que o ex-presidente “estaria diretamente envolvido com diversos projetos imobiliários”, inclusive alguns que implicaram a “desocupação forçada” de terrenos cobiçados pelos incorporadores, fato que provocou muita revolta.
Confirma-se, portanto, a existência de uma versão chinesa da clássica luta entre a parcela do governo que sente a perspectiva de ser cobrada, logo adiante, por não ter agido para deter um desastre anunciado e os interesses particulares da multidão de parasitas que costuma cercar os governos para “mamar”, com o recurso ao clássico repertório de dossiês e outras variadas formas de chantagem comuns à baixa política ao redor do globo.
Na China como alhures a discussão em torno do tema se traveste, na arena política, na dicotomia “heterodoxos” versus “ortodoxos” ou, se quiserem, “desenvolvimentistas”, pedindo leniência para com a inflação, versus “monetaristas”, recomendando responsabilidade fiscal para mantê-la sob controle.

Como aconteceu no resto do mundo o governo chinês também injetou montanhas de dinheiro na economia nos primeiros dias da crise financeira mundial, temendo o que pudesse acontecer se a economia deixasse de crescer no ritmo a que os chineses se acostumaram num pais que só consegue manter a paz social, em meio a carências dramáticas afetando verdadeiras multidões, enquanto todos souberem que apesar da crescente desigualdade e das misérias inerentes a um processo descontrolado de urbanização o crescimento acelerado seguirá empurrando ricos e pobres um pouco mais para cima a cada ano.
Na primeira metade de 2009, o governo liberou perto de US$ 1,1 trilhão em novos empréstimos subsidiados quando o orçamento para o ano inteiro previa limitar o crédito num máximo de US$ 730 bilhões.
Uma parte desse dinheiro foi investida em novos projetos industriais e, mais especialmente, em obras de infra estrutura rodoviária e ferroviária, dentro do programa do governo para promover uma interiorização do desenvolvimento capaz de deter um pouco a onda de trabalhadores migrantes que vem do interior para o litoral e proporcionar às empresas que se decidirem a se afastar da costa acesso a trabalhadores dispostos a receber salários menores.
Num pais às voltas com a excessiva dependência de investimentos estrangeiros e exportações, essa manobra é considerada essencial para aliviar a pressão por aumentos de salários, generalizada no litoral, e melhorar a competitividade dos produtos chineses num cenário de importações decrescentes das economias ocidentais em crise.

Mas esse afrouxamento monetário produziu dois outros efeitos indesejáveis. Grande parte desse dinheiro barato (uns 20% do total, calculam as autoridades) foi parar no mercado financeiro, o que explica o salto de 75% no Xangai Composite Index em plena crise. Esse enorme “esticamento” do mercado acionário contribuiu para reforçar o medo da inflação e para desviar mais dinheiro ainda para o mercado de imóveis, percebido como um abrigo mais seguro que o mercado financeiro contra uma inflação que um numero cada vez maior de chineses acredita que vem vindo. A procura por imóveis no primeiro semestre de 2009 cresceu 33%, o que contribuiu para a alta dos preços que está tornando proibitiva a compra do primeiro imóvel num país onde ha, hoje, 150 milhões de trabalhadores que migraram do interior para o litoral e precisam encontrar onde morar.
Foi à luz desses dados que o governo decidiu baixar o pacote de restrição ao crédito anunciado em abril passado. Mas ainda que claramente sub-dimensionadas para o tamanho do problema, as medidas tiveram impacto sobre os poderosos empresários da industria da construção que estavam enriquecendo com o boom da especulação imobiliária, todos eles com fortes conexões e inúmeros “sócios” dentro do partido e nos governos provinciais e municipais que fornecem os terrenos para os empreendimentos imobiliários. Os investimentos em imóveis caíram de um crescimento de 43% no primeiro quadrimestre de 2010 para um crescimento de 33% no segundo, e a produção industrial também passou a diminuir nos últimos quatro meses.
A disposição do governo, entretanto, é ir mais longe nesse aperto. Discretamente, ele promoveu stress tests nos bancos chineses no final do ano passado para avaliar se eles conseguiriam absorver uma redução de 30% no valor dos imóveis. E diante da resposta positiva que encontrou, está promovendo nova rodada para avaliar o que aconteceria se o preço dos imóveis caísse 50%.
Em Tianamen, à direita de Zhao Ziyang
Esses sinais permitem entrever vários aspectos pouco difundidos da realidade chinesa, que vive um perigoso aprofundamento do gap entre pobres e ricos que põe os interesses das diferentes “classes” em que a sociedade se divide em campos antagônicos e dificulta enormemente a definição das políticas econômicas uma vez que os interesses da ponta de cima da pirâmide se confundem com os dos integrantes das diferentes facções do partido.
Hu e Wen agem para exorcizar o fantasma da inflação que, acreditam eles, vem vindo, e se ficar fora de controle tem o potencial de jogar o país no caos social. E os seus críticos, associados à ponta que está lucrando com o status quo, afirmam que, ao contrário, o tipo de remédio que eles propõem é o mesmo que foi administrado em 1989 e acabou resultando na revolta esmagada na praça Tianamen.
A mesma Tianamen, aliás, que projetou Wen Jiaobao na política chinesa. No dia 19 de maio de 1989, às vésperas do massacre, foi ele quem acompanhou o presidente Zhao Ziyang, que estava prestes a ser expurgado por se ter oposto à decretação da lei marcial pela linha dura, numa visita emocional aos estudantes rebelados em Tianamen que, desde então, passou a ser lembrada como um ato heróico.
Tianamen
Por baixo do discurso “desenvolvimentista” que a linha dura do PCC subscreve e que ignora a crescente insatisfação popular com um processo inflacionário que afeta principalmente os mais pobres pode estar, portanto, ao lado da ganância dos que se associaram à corrupção no setor imobiliário, a velha confiança no “poder de dissuasão” da polícia política e das forças armadas para qualquer “eventualidade”, exatamente o tipo de “eventualidade” que Hu e Wen querem evitar que surja controlando as distorções econômicas que podem precipitá-la.
Wen Jiaobao é filho e neto de professores que sobreviveram à Revolução Cultural de Mao Tsetung, e apoiou toda a sua carreira política na incontestável competência como administrador que mesmo os inimigos lhe reconhecem. Foi ele que, em 1998, como um dos quatro vice-primeiros-ministros ungidos pelo Politburo, arquitetou e executou o programa de saneamento dos bancos chineses que propiciou o relançamento da economia do país. Foi ele também a primeira autoridade chinesa a reconhecer a existência da AIDS no país, deixando-se filmar com doentes para os quais pediu tratamento humanitário, o que explica sua popularidade junto à juventude. Sua carreira tem estado atrelada à de Hu Jintao desde 1982 e ele tem sido um dos grandes inspiradores das políticas de modernização da economia chinesa. Seu filho estudou na Kellog School of Management, nos Estados Unidos, e fundou a New Horizon Capital que administra três dos maiores fundos de investimentos da China. Sua filha, que também trabalha no setor financeiro, é casada com Xu Ming, “um dos 15 homens mais ricos da China”, segundo a Forbes, dono de uma companhia de materiais de construção e do maior time de futebol do país.
Tudo isso faz dele um antípoda da linha dura do partido integrada, em grande medida, por quadros ligados às forças armadas e à polícia política, com a qual ele começa a se atritar frontalmente.

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