Em que Lula e os super-capitalistas se parecem

6 de agosto de 2010 § 2 Comentários

Chegaram à Economist os ecos da discussão sobre o tipo de atuação que fez do BNDES “o melhor banco do mundo” aos olhos de Eike Batista, “o homem mais rico do Brasil”, um dos super empresários que têm tido acesso ao dinheiro subsidiado pelo Tesouro Nacional que o banco tem distribuído às mãos cheias nos últimos dois anos do governo Lula.

É o “melhor banco do mundo” ou é “o ovo da serpente” da gastança com objetivos políticos e da irresponsabilidade fiscal pré-Plano Real, como afirma o ex-diretor do banco, Luis Carlos Mendonça de Barros?

É por aí que transita a matéria, que também cita Gustavo Loyola, ex-diretor do Banco Central, para quem o modo como Lula usa o banco e a ligação direta entre ele e o Tesouro constitui um “orçamento paralelo” que não passa pela aprovação do Congresso e é idêntica à famigerada “conta movimento” do tempo dos militares, que servia para a mesma coisa, com a única diferença de que aquela era operada pelo Banco do Brasil.

A coisa funciona assim: o BNDES entrega para os maiores empresários do Brasil, com juros de 6% ao ano e prazos a perder de vista, dinheiro que o Tesouro Nacional toma no mercado com a venda de títulos de curto prazo emitidos em nome do povo brasileiro que pagam juros de 12% ao ano aos seus tomadores que, ainda por cima, são em geral os bancos privados.

Em 2009, ano da véspera da eleição, registra a Economist, foram emprestados nessa base R$ 137 bilhões (US$ 69 bilhões), o dobro do que tinha sido emprestado em 2007. São mais de 11 vezes o que o governo gasta com o Bolsa Família que, em 2009, montou a R$ 12,3 bilhões.

Entre setembro de 2008 (inicio da crise financeira internacional) e janeiro de 2010, o credito concedido pelos bancos privados cresceu menos de 10% enquanto o do BNDES aumentou mais de 50%. Pelos volumes movimentados, a Economist calcula em mais de R$ 10 bilhões o valor do subsídio aos favorecidos. E 4/5 do que o BNDES emprestou foi para empresas gigantes. A estatal Petrobras levou R$ 25 bilhões. Mas privadas como a JBS e a Marfrig, frigoríficos pertencentes a bilionários (ou quase), por exemplo, dividiram entre si R$ 18 bilhões, gastos na compra de concorrentes no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e na  Ásia. Não foram os únicos…

“O sistema financeiro brasileiro é muito peculiar”, diz a Economist, “os bancos comerciais privados emprestam para o governo e para os consumidores a curto prazo, mas não emprestam para o setor produtivo (…) O BNDES é quem faz isso praticamente sozinho (…) O certo seria que os bancos privados entrassem no negócio de empréstimos de longo prazo para o setor produtivo. Mas porque fariam isso se o BNDES já o faz, e com dinheiro subsidiado?”

A Economist nota que a justificativa “anticíclica” (de combate à crise), alegada lá atrás, já não vale mais nestes anos em que o problema tem sido o excesso de crescimento da economia. E constata, também, que a carteira do BNDES está “crescendo demais e de forma muito pouco transparente”. E pára por ai. É só até onde poderia ter ido com os fatos de que dispunha.

Mas o seu estranhamento é compartilhado por muitos brasileiros.

O que, afinal, explica esse tipo de inversão no governo de um presidente que se apresenta ao pais e ao mundo com o figurino de Robin Hood? Por que, ao fim de décadas de discursos irados contra a concentração da renda, ele tem tratado de rechear com o dinheiro dos pobres os bolsos de uns poucos ricaços?

Demetrio Magnoli, um dos melhores explicadores do Brasil atuando hoje, se aproximou da verdade no artigo que escreveu quinta-feira (5/8) na Pagina 2 do Estadão.

“Samuel Pinheiro Guimarães, até outro dia secretário-geral do Itamaraty, foi guindado à Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE)”, diz Magnoli. “No novo cargo, elaborou um documento intitulado O Mundo em 2022, ainda em versão preliminar, que circula no governo e no Itamaraty (…) com propostas de políticas estratégicas do Brasil (…) Moldado por um obsessivo antiamericanismo e (…) nostálgico do ‘Brasil Potencia’ dos tempos de Ernesto Geisel (a quem, mais de uma vez, Lula tem apontado como um parâmetro), Guimarães atribui ao Estado os papéis de ‘estimular o fortalecimento de megaempresas brasileiras (…) para que possam atuar no cenário mundial globalizado’ e de conduzir um programa de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de amplas implicações militares”.

Ali também, Guimarães “define o Tratado de Não-Proliferação Nuclear como o ‘centro’ de um processo ameaçador de ‘concentração de poder militar’”, o que, lembra Magnoli, explica a aproximação de Lula com o Irã de Ahmadinejad.

Magnoli destaca ainda que “ao longo de 54 itens, não há nenhuma menção aos direitos humanos”, o que “não é surpreendente”, posto que, “num livro publicado em 2006, Samuel Pinheiro Guimarães qualificou a defesa dos ‘direitos humanos ocidentais’ como uma forma de dissimular ‘com sua linguagem humanitária e altruísta as ações táticas das Grandes Potências em defesa de seus próprios interesses estratégicos’”, o que explica as atitudes de Lula em Cuba, no Irã, no Sudão, na China e em outros países africanos nas mãos de serial killers aos quais ele tem levado seu apoio e solidariedade.

Magnoli enxerga no pano de fundo desses devaneios uma perigosa “utopia regressiva ultranacionalista” que, transformada em política de Estado, pode ser muito perigosa.

Acho que isso pode ser verdade no que diz respeito a Pinheiro Guimarães e outras figuras do petismo que Lula deixa pensar que são os formuladores da “política de inserção mundial do Brasil”. Mas ele próprio pensa de modo muito mais prático e objetivo.

O negócio de Lula é O Poder. E quando ele olha para os Estados Unidos e para a China, para os que são subornados e para os que subornam, para apedrejados e para apedrejadores, não tem um segundo de duvida sobre qual desses lados lhe promete mais longevidade no poder. Se isso combina com os planos de “inserção internacional” daqueles caras que gostam de falar difícil lá do Itamaraty, tanto melhor. Mas quando não lhe interessa o artigo da hora da “feira de utopias” do PT, ele simplesmente deixa o produto encalhar ou, se necessário, manda calar a boca do vendedor.

Por esse lado, portanto, o problema é só saber se a Dilma também terá força para tanto…

Ja a sua novíssima associação com o antes tão execrado “grande capital” é fruto de cálculo muito mais objetivo. A competição com o capitalismo de Estado empurrou o mundo para o funil dos monopólios. Agora é capital + Estado contra capital + Estado. É este o modo como se disputa O Poder hoje em dia. E esse é o jogo que Lula joga.

É nisso que ele está investindo o dinheiro do BNDES.

Intelectuais, assim como esquerdistas honestos, têm dificuldade em entender isso. Se eu fosse um dos eike batistas da hora, por exemplo, não estaria tão tranqüilo com a perspectiva de ver meus negócios crescerem à custa de me tornar sócio de alguém que tem tanto compromisso com o que disse ontem quanto o presidente petista que hoje se sustenta com o apoio de Jose Sarney, Fernando Collor e Paulo Maluf. Porque parece-me claro, como deveria estar para todo o mundo, que o que ele espera dos monopólios que está montando aqui dentro é o mesmo que os ditadores chineses esperam dos deles.

Mas isso, provavelmente, é ingenuidade de minha parte. Pois quem nasceu para ser “o homem mais rico do Brasil” a qualquer custo olha para a nova regra do jogo com a mesma objetividade do nosso Lula, que nasceu para ser o homem mais poderoso do mundo a qualquer custo. Lula põe na balança  as cobranças por coerência da minoria letrada e o poder de apagar memórias aplacando a fome das massas por 120 reais a cabeça por mês, e age em função do resultado que encontra. Assim como seus novos sócios capitalistas, quando olham para o risco dele decidir, um dia, ficar com as empresas inteiras de que hoje é apenas meio dono e a oportunidade de aumentar suas fortunas já, enquanto o vento estiver soprando a favor, não pensam duas vezes: içam todas as velas que têm e até as que não têm, e viram a proa para qualquer que seja o rumo que lhes apontar o “nosso guia”. Os empregados desses monopólios que se ardam quando o vento virar e eles se virem diante de um patrão único…

Nada de novo, afinal de contas. Lula e os seus novos sócios estão procurando a mesma coisa. Poder e dinheiro sempre andaram juntos. O poder é o caminho mais fácil para se chegar ao dinheiro. E o dinheiro é apenas um meio mais democrático que o kalashnikov para se conquistar poder. O nosso Lula, que é mais rápido que todos os eikes juntos, refestela-se na certeza de que ele é o único que pode usar os dois.

PS.: A Folha de São Paulo deste domingo trazia matéria com novos pormenores sobre os empréstimos do BNDES. Segundo o jornal, o banco emprestou R$ 168 bilhões do início de 2008 até junho deste ano e, desse total, 57% (R$ 95,76 bilhões) foram divididos entre apenas 12 empresas. Estão entre elas, alem de Petrobras e Eletrobras, as três maiores empreiteiras do país, Andrade Gutierrez, Camargo Correia e Odebrecht, a Vale, a Votorantim, o frigorifico JBS e a OI, dos mesmos donos da Andrade Gutierrez. O aporte feito ao banco pelo Tesouro Nacional foi de R$ 180 bilhões.

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§ 2 Respostas para Em que Lula e os super-capitalistas se parecem

  • Milton Costa disse:

    E querem que os brasileiros aceitem que o brasil está crescendo, que um PIB de 9% seja um PIBAÇO, quando a China, Estados Unidos e outros emergentes crescem a 14% em diante… Pior, tem gente que bate palmas!
    Ontem, pelo JN, a entrevista da Dilma Roussef, fui um dos que percebeu o pessimo desempenho da candidata, se perdeu nas respostas, correu das perguntas, principalmente quando perguntada sobre a imposição do Presidente do seu nome ao PT!

  • Milton Costa disse:

    E querem que os brasileiros aceitem que o brasil está crescendo, que um PIB de 9% seja um PIBAÇO, quando a China, Estados Unidos e outros emergentes crescem a 14% em diante… Pior, tem gente que bate palmas!
    Ontem, pelo JN, a entrevista da Dilma Roussef, fui um dos que percebeu o pessimo desempenho da candidata, se perdeu nas respostas, correu das perguntas, principalmente quando perguntada sobre a imposição do Presidente do seu nome ao PT!

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